Dona Rebeca

julho 21, 2013 at 11:52 pm 5 comentários

DONA REBECA
Por Rita Maria Felix da Silva

Dona Rebeca morava num casebre na zona rural de São Bento da Trindade, interior de Pernambuco, na companhia da única família que lhe restava, o neto Jeremias, de 18 anos. Do quintal daquela idosa aposentada, podia-se ver a casa de Seu Juca, outro dos habitantes singulares do município…

Certo dia, um domingo pela manhã, Jeremias voltou da cidade na companhia de quatro moços e apressou-se em apresentá-los a ela:

Samir, Ivan, Valquir e Mário vinham lá da distante São Paulo. Rapazes de famílias ricas. Jeremias os convidara para jogar bola com ele. Eram hippies, ou fossem lá o que fossem, e estavam cruzando o país a pé. “Coisa de quem não tem o que fazer”, Dona Rebeca pensou consigo mesma, com um sorriso debochado entre os dentes que lhe restavam, e convidou-os para ficarem e almoçarem com ela e o neto.

Em poucos minutos, Jeremias e seus novos amigos improvisaram um campo de futebol no quintal.

Dona Rebeca olhava para eles com uma curiosidade estranha e um riso ruim na boca enrugada por tanto tempo de vida.

Preparava o almoço, mas, num certo instante, uma idéia perversa ocorreu-lhe. Foi remexer nos armários e pegou ervas secas, que haviam sido moídas até se tornarem pó, misturou-as num caldeirão com água fervente pela metade (e gotas de seu próprio sangue, que ela coletou do dedo mínimo, usando uma faca peixeira) e adicionou algumas palavras em língua estranha — tomando cuidado com a pronúncia de certas sílabas, especialmente a entonação, para não obter resultados indesejáveis.

Logo, tinha um líquido verde de cheiro forte e atrativo. Então, pôs açúcar para disfarçar o gosto (sim, um pouco de engano sempre é necessário nesta vida), colocou a mistura em copos do tipo americano e deixou-os descansando, por uns minu-tos, numa travessa com água fria de um pote, para diminuir a temperatura. Depois foi ao quintal, levando uma bandeja e os copos da bebida, e ofereceu aos rapazes.

— Tem pra mim não, Vó? — indagou Jeremias.

— Não quero você bebendo. — respondeu Dona Rebeca com rispidez.

— E a senhora não bebe? — questionou Samir.

— Na minha idade, moço, a gente não deve querer saber de bebida. — Confidenciou a velha.

— Isso é bom, Dona! O que é? — Quis saber Ivan, entre um gole e outro.

— Receita antiga, coisa que aprendi com minha mãe. — Explicou a anciã e um sorriso cruel ocupou-lhe o rosto.

Ivan não pôde deixar de reparar naquilo e lembrou da primeira das três coisas que haviam lhe dito sobre aquela velha na cidade: “ela é gente ruim”. O rapaz, porém, não deu atenção a esse comentário. Pessoas más, realmente más, isso não existe. Era no que acreditava.

Dona Rebeca suspirou e disse:

— Fico satisfeita que gostaram da bebida. Meu neto trazer vocês foi coisa boa. Eu tava ali matutando na cozinha. Quero um cavalo novo, dos bons; e um cachorro de raça da melhor; e uma estátua para enfeitar meu jardim; e tô precisando de uma mocinha pra me ajudar no serviço de casa. Sabem como é: Jeremias é homem e homem não ajuda em serviço de mulher.

Confusos, os quatro moços da cidade grande olharam para a velha. Foi quando Valquir lembrou da segunda coisa que havia escutado sobre aquela mulher: “ela é doida”.

Então, ele decidiu falar com os outros para inventarem uma desculpa e saírem dali. Afinal, gente louca pode ser perigosa.

Porém, no instante seguinte, os rapazes começaram a sentir fortes dores, soltaram os copos e caíram se contorcendo no chão de barro batido.

— Velha desgraçada! A senhora envenenou a gente!— gritou Mário.

— E eu lá sou assassina? — disse indignada Dona Rebeca.

— Vovó, o que… — quis saber Jeremias.

— Calaboca. Tu vai gostar. — Interrompeu a velha e seu rosto encheu-se, mais uma vez, com um sorriso ruim, enquanto os corpos dos quatro rapazes que vieram de São Paulo começaram a mudar, no mesmo momento em que Samir lembrou-se da terceira coisa que haviam dito a eles sobre aquela velha: “ela é bruxa…”.

Uma semana depois…

Jeremias logo se esquecera dos novos amigos. Passava a maior par-te do tempo montado no magnífico cavalo novo, correndo por aquelas terras como se não quisesse outra coisa na vida, ou brincando com o cachorro novo, da melhor raça, que ele até pensou em chamar de Samir, mas achou que ficava estranho para um bicho e colocou foi o nome de Barão.

Dona Rebeca continuava com suas lidas domésticas, a roça e o jar-dim, no qual agora havia uma estátua do tamanho de um homem, enfeite do qual ela muito se orgulhava.

Quando não era o jardim ou a roça, a velha ocupava-se em dar ordens à mocinha muda, de cara triste e assustada, uns dezoito anos, a qual agora ajudava nos trabalhos da casa e do campo — e que, no começo, quis ser desobediente, mas umas pancadas de cabo de vassoura e algumas ameaças logo resolveram isso. Dona Rebeca chamava a garota de Maria e até deixava Jeremias arrastar a moça pra dentro do mato, de vez em quando, afinal, seu neto era homem e homem tem fogo que precisa descarregar.

E assim, Dona Rebeca enchia o rosto com aquele sorriso ruim e prosseguia sua vida.

FIM
Dedicado a Renata Cezimbra

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Farrazine 2013 Edição 04 Life is a Ship/A Vida é um Navio

5 Comentários Add your own

  • 1. Gustavo Samuel  |  julho 30, 2013 às 12:53 am

    fantástico e assustador…

    Responder
  • 2. Yarin Melo  |  julho 30, 2013 às 2:35 am

    Ótimo texto, mostra como os lugares remotos possuem a magia onde simplesmente acreditar e forte o bastante para mudar o mundo.

    Responder
  • 3. diegojoselima  |  agosto 16, 2013 às 3:09 am

    Legal Rita!

    Responder
  • 4. Carlos  |  agosto 31, 2013 às 2:26 am

    Legal o Texto, com um pouco de humor negro,vc chega la…Parabéns…

    Responder
  • 5. Andre Lima  |  novembro 7, 2015 às 1:48 am

    adorei. essa velhinha é fogo!

    Responder

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