O ùltimo Conto de Heitor

junho 22, 2017 at 11:58 am Deixe um comentário

O ÚLTIMO CONTO DE HEITOR

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

Os ferimentos haviam piorado. A febre se elevava. Ele sabia que não poderia sobreviver por muito mais tempo. Tinha de ser rápido. Num canto da casa em ruínas, em uma mesa velha e sob a luz de uma vela que ele disputara até a morte com um saqueador, Heitor Vasconcelos Serpa escrevia pela última vez.

Usava papel e caneta. Não havia mais energia elétrica e ele sentia falta de digitar num computador. A caneta era aquela da promoção da Mcdonalds. O caderno escolar tinha estampa de Toy Story e havia pertencido a seu irmão caçula, o mesmo que morrera há uma semana, ao pisar numa mina terrestre, enquanto procurava por comida.  Um dia após este trágico evento, seus pais foram fuzilados pelas tropas invasoras. Ele estava só agora.

O texto deveria ser o começo de uma heptalogia sobre dragões, mas ele teria de se conformar apenas com um conto. A vida não é como desejamos. Nem mesmo no fim do mundo.

“De que adianta escrever isso?”, reclamou uma parte de sua mente, “o mundo está terminando lá fora. A espécie humana não vai durar nem mais um mês. Ninguém vai publicar isso. Ninguém nunca vai nem ler”.

Heitor mordeu e mastigou um pedaço de pão azedo. Sentia muita fome.  O ferimento radiativo em suas costas ardia demasiadamente. O lado esquerdo de seu rosto estava deformado pela explosão da granada de arma química há nove dias. Sua pele coçava e cobria-se de pequenos tumores, devido ao efeito das armas biológicas que os invasores espalharam pelo ar.

— Eu sou um escritor — ele falou para si mesmo, com toda a convicção que pôde e sentiu que nunca havia dito nada tão poderoso e verdadeiro quanto aquela frase. Mesmo no fim do mundo, escrever era o que mais desejava.

Sentia muito frio.  Era difícil se manter acordado. Apressou-se para concluir o conto:


 

(…) E na grande batalha da ilha de Qíyú de Shén, o honorável Cepulode da Lua Crescente, líder rebelde dos dragões da planície oriental, conduziu vitoriosamente seu povo até a vitória derradeira sobre as hordas de humanos opressores, escravocratas e assassinos e os expulsou de volta às terras ocidentais. Agora, os dragões poderiam viver novamente, seguros e felizes. Com uma flecha envenenada atravessada no olho esquerdo, Cepulode olhou para seu exército triunfante e para o bom futuro que aguardava seu povo. Então, o veneno por fim o venceu e o nobre e valoroso dragão tombou morto diante de seus comandados. Partiu, porém, feliz pelo que tinha realizado.


Sangue começou a escorrer pela boca, olhos e nariz de Heitor. Efeito retardado das bombas biológicas que as tropas invasoras haviam jogado sobre a cidade. E sangue pingou no papel. Com um último suspiro, Heitor despediu-se do que lhe restava de vida. Partiu, porém, satisfeito consigo mesmo, pelo que acabara de realizar. Apenas desejou que tivesse mais tempo para uma última revisão. Soltou a caneta e ela caiu e rolou pelo chão.

  Epílogo

 Cerca de dez muzhins após a morte de Heitor, os astrônomos da espécie Sholonov descobriram a Terra. Três muzhins depois, enviaram uma expedição de arqueólogos, biólogos, linguistas e outros estudiosos. A partir do que coletaram das ruínas, ficaram fascinados pela cultura humana. A arte especialmente os deixou deslumbrados.

Numa das cidades mortas, no que parecia já ter sido uma habitação de uma família de humanos, o linguista, encontrou as “folhas de papel” aparentemente escritas pela infeliz criatura cujos restos ele entregou a equipe de biólogos.

Xozmok já dominava, razoavelmente, algumas das antigas línguas faladas neste mundo extinto, mas mesmo assim demorou cerca de vinte rotações deste planeta até obter uma tradução razoável do manuscrito “Cepulode da Lua Crescente, o Dragão”, de autoria de um humano chamado Heitor V. Serpa. A leitura o agradou muito, apesar de algumas referências culturais tê-lo confundido. Demorou um pouco para entender que se tratava de uma obra ficcional. Pena. Ele gostaria de imaginar que dragões realmente já houvessem existido.

Em mais dois muzhins, seria mandado de volta para casa. Decidiu levar a tradução e dá-la de presente a seu filho Yahnmok, que estava se preparando para a cerimônia de passagem para a maturidade. Para um jovem Sholonov, receber do pai uma história de presente, antes do ritual para a idade adulta, era uma das mais altas honrarias possíveis.

  FIM

Dedicado a Heitor Vasconcelos Serpa.

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