16 Drabbles

março 26, 2017 at 3:59 am Deixe um comentário

Olá, pessoal,

Peço desculpas pela demora entre a última atualização e esta. Em Outubro do ano passado (2017), algo bem ruim aconteceu em minha vida pessoal e do terremoto resultante.. Bem, viver ficou muito mais difícil.

Tenho em meu computador um arquivo com todos meus textos escritos, desde 2003, quando comecei a levar minha carreira de escritora amadora a sério. Excetuando algumas poucas coisas perdidas (o primeiro capítulo de “A Biografia dos Hellpats”, uma história sobre viagem no tempo que fiz em homenagem a um amigo e minha participação em dois contos coletivos num site agora extinto sobre RPGs) tenho 741 páginas. Excetuei as histórias em quadrinhos dessa contagem (para quem se interessar, tenho cerca de 50 páginas de hqs escritas por mim sozinha ou com parceira de outros autores).

Um sonho que tenho é que esse arquivo chegue a 1000 páginas. Para aumentar a quantidade de texto, impus a mim mesma três desafios. Um deles foi escrever 100 drabbles (minicontos de 100 palavras). Já tenho dezesseis. Faltam só 84.

Posto esses primeiros dezesseis aqui para apreciação de vocês.

Boa leitura.

I-JOANA DA BICICLETA

Pedalar, sempre pedalando. Apenas na sela da bicicleta azul, Joana sentia-se realmente feliz. Passava por ruas e casas; pessoas, carros e vidas, como se nada mais existisse para ela.

Sorriso de satisfação nos lábios, achava graça quando lhe diziam que, se o mundo acabasse, ela, nem mesmo perceberia.

Certa vez, pedalou mais do que de costume, até que parou cansada, debaixo de uma árvore, onde encostou a bicicleta. Sentou-se para descansar. Foi então que olhou ao redor e finalmente viu que todos estavam mortos. Toda a sociedade havia se reduzido a escombros.

Estava sozinha com sua bicicleta.

 

II-LIDE COM ISSO

Jailson se considerava feliz: era rico e casado com uma mulher perfeita.

Em fevereiro, porém, sequências de maus investimentos deixaram-no miserável e sua esposa morreu atropelada por um rabecão.

Um mês depois, voltava para sua nova casa, pequena e alugada. Gritava palavrões. Preferiria lidar com qualquer coisa, menos aquilo.

O computador estava ligado, mostrando o desenho de uma cena absurda na tela, e a frase “Lide com Isso”. Não teve ânimo para rir.

No momento seguinte, igual ao desenho, um demônio apareceu por trás dele e decapitou-o com uma foice.

— Prefere lidar com isso? — Riu a criatura.

III-SEBASTIÃO IMORTAL

Na infância, Sebastião descobriu seu dom, quando sobreviveu, impossivelmente, ao acidente automobilístico que esmagou seus pais. Aos trinta, parou de envelhecer e decidiu aproveitar o tempo para juntar a maior fortuna do mundo.

No século XXII, apaixonou-se obcecadamente por Eunice — tímida, calada e submissa. Casou-se com ela, mas ansiava mantê-la eternamente. Por isso, gastou, em pesquisas, o equivalente ao PIB da Suiça para torná-la, também, uma imortal.

Na segunda-feira, avisaram-no que em, duas semanas, começaria o tratamento final daquela mulher. Ficou eufórico.

Na manhã chuvosa de quarta, a polícia ligou-lhe: Eunice cometera suicídio com arma de fogo ilegal.

IV-SOLANO NO CÉU

Solano era o mais devotado e elogiado cristão de sua igreja. Esforçava-se dia a dia por uma única meta: ir para o céu.

Um dia, ele finalmente morreu e, ao abrir os olhos, viu-se diante do portão do paraíso e de três anjos de feições gentis.

— Oh, Eu consegui! — falou eufórico.

— Sim, e agora — disse um anjo ternamente. —, descobrirá o que acontece a cada humano que aqui chega.

— O que é? — inquiriu Solano.

Os anjos sorriram com seus olhos cheios de fome e atiraram-se sobre aquela alma. Com dentes afiados, fizeram-na em pedacinhos, que devoraram prazerosamente.

V-CAIENA

Diziam que Caiena, costureira de São Ribeirão, interior de Pernambuco, descendia de uma linhagem bimilenar de bruxas, mas ela mesma nunca falava sobre isso.

Embora de jeito simples no vestir-se, não havia mulher mais bela, por isso casou com Juvenal, solteiro mais cobiçado da região. Foram felizes, até que ele morreu, vítima de um assalto em Recife. A partir daí, Caiena vivia sozinha e celibatária.

Porém, sempre a meia-noite, invocava um feitiço proibido, então o fantasma de Juvenal aparecia, tornava-se sólido e faziam amor até o sol nascer e o espírito se dissolver de volta ao reino dos mortos…

VI – COMO SÍSIFO

Como um outro Sísifo, ele também desagradou os deuses, que o condenaram a arrastar uma grande pedra até o alto de um ladeira, apenas para ver o pedregulho despencar lá para baixo e o trabalho ter de se refeito pela eternidade.

Certa vez, porém, passou por ali perto a mais bela das mulheres. Ela parou, olhou para ele ternamente, sorriu e se foi embora.

Ele deslumbrado, perdeu a cabeça e o coração. Já quase no alto da ladeira, distraiu-se e a grande pedra rolou, levando-o junto, até esmagá-lo lá embaixo. Morreu feliz, com um sorriso no rosto.

VII-O JOÃO QUE DORME

João Trazimundo vivia muito deprimido: seu emprego se tornara uma tortura. O casamento, idem. Não suportava mais as pessoas e o mundo.

Uma noite, deitou-se rezando para nunca mais acordar. Dizem que, às vezes, os deuses atendem as preces mais estranhas… E assim foi.

Tudo isto aconteceu há cem anos. Agora, é o ano de 2117 e no Museu Governamental de Curiosidades Históricas, situado em Nova São Paulo, a capital do Império Fascista Brasileiro, sempre está exposto, numa caixão de vidro, o corpo de João Trazimundo, que nunca envelhece ou morre, mas que também nunca acorda.

VIII- CASTANHEDA

Como seu pai, seu avô e seu bisavô, Castanheda fabricava espadas mágicas que eram vendidas ao exército real, o mesmo que não perdia uma batalha há três gerações. Por isso, nenhum invasor cruzava as fronteiras do reino.

Todavia, de uma grande metrópole veio o Dr. Filógenas, que questionava isso de magia: afirmava que era superstição e, assim, as vitórias do exército real deviam-se às estratégias do rei e a coragem dos soldados. Aquele discurso contaminou a todos. As lâminas encantadas foram jogadas fora. Castanheda faliu e morreu de desgosto.

Breve um exército estrangeiro invadiu e escravizou o reino.

IX-OTÍLIO, O DESASTRADO

Dizem que, lá por volta do fim do século XXI, a Ciência desapareceu e a magia dominou o mundo.

Nessa nova era, todos eram feiticeiros, mas Otílio não se dava bem com mágica: era o mago mais atrapalhado de todos. Não acertava um único encantamento. Multidões zombavam dele. Alguns o espancavam por diversão.

Furioso e magoado, enterrou-se no estudo de feitiços proibidos. Jurou vingar-se. Uma noite desmaiou de esgotamento.

Acordou três dias depois, com o sol alto. Caminhou pelas ruas com um sorriso de triunfo no rosto:

Por toda a parte, uma doença misteriosa assassinava as pessoas.

X-ARCTOS, O DUENDE

Arctos, príncipe dos duendes, vencedor de mil batalhas, cuja espada mágica, destreza e coragem tornaram-no lendário naquele mundo, sentia-se terrivelmente entediado de tudo.

Até que Azenite, insidiosa bruxa dos duendes, falou-lhe sobre outro mundo, diferente de tudo que ele já vira. Curioso, Arctos pediu que o transportasse até lá.

Azenite assim o fez e o príncipe caiu num local onde não havia magia. Sua espada, habilidade e coragem se desfizeram. Ficou mergulhado na lama, incapaz de levantar-se, até que os quatro cães de Seu Joca vieram e o destroçaram naquele quintal de Sorocaba, interior de São Paulo.

XI-A ROSA DE ANTON HELSMER

Anton vivia sozinho e isolado de tudo, na propriedade que herdara dos pais, onde se dedicava a estudar Botânica e Magia. Sonhava produzir a mais bela rosa que já se vira.

Empenhou-se por muitos anos, enquanto seus cabelos tornavam-se brancos, porém, nenhum dos resultados lhe agradava.

Um dia encontrou o encantamento correto. Amedrontou-se no início, mas sua idade avançada e seu sonho no coração deram-lhe a coragem necessária.

Fez o feitiço no jardim. Tombou morto. Seu corpo se decompôs e, das cinzas que um dia foram Anton Helsmer, a mais bela e inigualável rosa brotou.

XII-PINGO, O FUGITIVO

Em 2017, a crise econômica devorava o Brasil. Seu Gumercindo, desempregado, afundava-se na bebida. A luz e a água foram cortadas e faltava comida naquela casa.

Numa manhã, o cão Pingo escutou seu Gumercindo conversando com a família: esfomeados, decidiram comer o cachorro. Pingo fugiu imediatamente.

Vagou triste e sem destino, até que, com a barriga faminta, distraiu-se atravessando a BR-101 e foi atropelado.

Então, um grupo de mendigos acampados perto dali, os mesmos que, meses atrás, eram os orgulhosos funcionários de uma revendedora de motos, recolheu o cadáver de Pingo para usá-lo no almoço de domingo.

XIII-PLAUTO

Caído no chão entre paredes acolchoadas, Plauto forçou novamente a camisa de força.

“É uma conspiração…”, murmurou, “Levaram minha família: Helena, Júlio e Mariane. Onde esses demônios esconderam vocês?”

Não choraria. Tinha de ser forte para fugir dali e salvar sua família.

**************

Os enfermeiros Eulálio e Alcebíades olhavam pela abertura na porta da cela do paciente nº 427.

— Quem é ele? — indagou Eulálio.

— Você é muito novo pra lembrar —, respondeu Alcebíades para o novato —. Era um cozinheiro famoso, tinha até programa de televisão. Endoidou e envenenou o jantar da família, mas não lembra do que fez…

XIV-EUSÉBIO, O CAMINHANTE

Caminhando, sempre caminhando. Quanto tempo fazia? Cinquenta anos, e ele não envelhecera um minuto e a morte nunca o alcançava.

Há cinquenta anos, Deus finalmente perdeu toda paciência com a humanidade. Os anjos desceram dos céus e queimaram o mundo inteiro.

Eusébio viu esposa e filha dissolvendo-se nas chamas angelicais. Ele gritou, sem entender porque fora poupado.

Os anjos, por não serem demônios, podiam escolher agir piedosamente e decidiram deixar uma única lembrança de que o ser humano já caminhara sobre a Terra.

E olharam para Eusébio e o amaldiçoaram a caminhar sobre o mundo para sempre.

XV-AMARYLLIS

Amaryllis, a cantora, descobriu ter o dom de manipular as pessoas com suas canções: faze-las reprimir o lado maligno do próprio coração. Com esse poder, sonhava mudar o mundo.

Logo tornou-se a sensação daquele país. Uma noite, apresentava-se na chique boate Vladimir Chenier, mas quando ia começar, um estranho levantou-se, olhou para ela e atirou-lhe direto na cabeça.

Amaryllis foi enterrada dois dias depois. O país cobriu-se de luto. Oficialmente fora assassinada por um fã louco que desaparecera.

O assassino, na verdade, um demônio chamado Remíscar, voltara ao Inferno, com a certeza de que o status quo seria mantido.

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Gerald Bensamir HQ – TK-52, O ROBÔ

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