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GARGOMAX

Oi, pessoal,

É provável que algum/a leitor/a pergunte se esta história é o começo de um livro. Na verdade, não. É apenas uma história que fala de uma ainda maior.

Mas, se você gostou de “Gargomax”, fico lisonjeada, apenas aguarde pois, caso algumas engrenagens postas em andamento derem certo, vai poder ler mais deste universo num futuro breve. Aguardemos…
Os mais atentos e atentas vão lembrar que esta não é a primeira aparição de Kakanty…

Boa leitura.

 

GARGOMAX

 

Prólogo…

Lá pelo fim do século XXI, o demônio chamado Kakanty descobriu uma forma de reabrir o portal que uma vez ligou a Terra ao Inferno e, assim, ele liderou seu povo para invadir o mundo dos humanos.

A civilização ruiu e a humanidade apenas não foi extinta porque os deuses, embora tivessem decidido não participar da guerra, concederam a alguns humanos o dom de manipular magia. Com a mágica de volta à Terra, esses novos magos, lideraram a resistência da espécie e o terrível conflito prosseguiu…

Quartel-general do 3º Exército da Resistência Brasileira, em Terra Bandeirantes,nas ruínas da antiga cidade de São Paulo…

Galileo tinha quinze anos. Estava na guerra desde os doze. Naquele momento, limpava a espada mágica, que usava em batalha, e recitava o encantamento que seu amigo Edson Amaral, um mago de nível cinco, havia lhe ensinado para reabastecer a carga daquela arma. Com a lâmina, fez um corte na mão direita e completou o ritual com gotas de seu próprio sangue. A espada rangeu satisfeita e emitiu um leve brilho azulado.

Era uma guerra e havia poucos intervalos para descansar ou pensar, além disso, dizia-se que os demônios estavam aumentando em número e poder, falava-se que a Resistência cairia em no máximo mais um ano ou dois. Mesmo assim, Galileo estava feliz. Naquela semana, ele foi apresentando a Nikolas, o pai que ele não havia conhecido, que o conflito afastara dele muito cedo. O pai que estava agora a seu lado.

Nikolas veio de um longo período em Terra Patriota, uma das muitas nações em que os antigos Estados Unidos da América haviam se dividido. Trazia notícias ruins, mas também muita experiência de combate que era bem apreciada em Terra Bandeirantes. Naquele momento exato, Nikolas desenhava símbolos místicos em sua armadura, uma medida de proteção recomendada pelos magos.

Perto dos dois estava Gargomax, o nome pelo qual Galileo chamava o mostro de dois metros e meio de altura, pele de pedra, uma arma biológica criada pelos magos. No acampamento havia mais três como aquele. No ano anterior, havia sete. Ninguém sabia como os feiticeiros produziam aquelas criaturas, mas isso não era importante, não quando Galileo viu Gargomax despedaçando demônios com as próprias mãos. Monstros como esse eram a única esperança da Resistência.

Observando o pai, Galileo pensou como teria sido sua vida se aquela guerra não tivesse acontecido. Sempre sonhara em ter crescido ao lado de Nikolas e de sua mãe, Marie, que os demônios despedaçaram numa emboscada. Tinha certeza que os três teriam sido muitos felizes.

Por um instante, olhou para Gargomax. Perguntou a si mesmo se aquele monstro pensava alguma coisa, se tinha sonhos ou se podia ser feliz. Ignorou essas idéias. Era besteira gastar tempo pensando em algo assim. A criatura era apenas uma fera, muda, sem mente ou consciência. Uma máquina de guerra criada para destruir demônios. Nada mais que isso.

Quanto a Gargomax, ele observou o rapaz olhando para ele e lembrou de si mesmo quando tinha aquela idade. Seu peito de pedra, desprovido de coração, inundou-se de tristeza e saudade. Sim, sentia muita falta de quando era humano.


Sem título-2

Conforme está nos livros de História, no ano de 2100, o demônio Kakanty descobriu uma forma de reabrir o portal que, uma vez, ligava a Terra ao Inferno. Ele liderou uma invasão dos demônios ao nosso mundo e a civilização ruiu no conflito.

A espécie humana escapou da extinção graças à interferência dos deuses, que concederam poderes a uma elite de homens e mulheres, os assim chamados Magos, os quais assumiram o governo e organizaram a resistência contra os demônios.

Na época de Gargomax, o estado de São Paulo não mais existe como uma unidade. Semelhante ao que ocorreu em outros lugares (Estados Unidos e França, por exemplo), por conta da guerra, seu território se dividiu em novas áreas independentes.

Na verdade, o antigo Brasil inteiro se dividiu em várias pequenas repúblicas ou reinos independentes, alguns sob controle humano, outros governados por demônios e, até mesmo, terras despovoadas cujas populações foram extintas pela espécie demoníaca. Coletivamente, porém, o conjunto de exércitos e guerrilhas que lutavam no que já fora as terras brasileiras era referido como Resistência Brasileira.

Em algumas partes, havia a proposta de reunificar todas essas novas nações e reconstruir o Brasil, se a guerra fosse vencida.
Segue abaixo a divisão de terras que ocupou o lugar do extinto estado de São Paulo:

1 – Krakavin, também chamado de Krakavinus, formalmente “Vice-Reino de Krakavin” – um reino governado por demônios. Lá a população humana foi exterminada e suas almas enviadas ao Inferno, onde servem como escravos, fonte de energia ou alimento. É administrada pelo Vice-Rei Lorde Bok Mellitus, um demônio.

2 – Anhaguera, também chamada de Desolação, Terra Desolada ou Wasteland, termo emprestado dos americanos. Em 2105, o demônio Lorde Varashantir chefiava uma equipe que tentava desenvolver uma nova e apocalíptica arma mística, no lugar que hoje é Anhaguera. O projeto foi sabotado pela Resistência, tendo como resultado uma grande explosão que deixou toda aquela área contaminada. Mesmo com proteção, um ser humano não pode sobreviver, naquele local, por mais que duas horas. Um demônio, ainda que envolto devidamente por encantamento protetores, morreria ali em não mais que um dia. Anhaguera permanece, portanto, como área desabitada por ambos os lados do conflito. Todavia, o mago Conrad de Lenormand acredita que aquela área desolada pode ter desenvolvido formas novas, alternativas e extraordinárias de vida, porém, selvagens e incontroláveis.

3 – Terra Bandeirantes, uma república habitada por humanos. Seu presidente é o Dr. Venceslau Villarrosa, que, porém, encontra-se numa disputa interna de poder com seu vice, Pastor Felício Salazar, o qual tenciona derrubá-lo. Terra Bandeirantes abriga o quartel-general do 3º Exército da Resistência Brasileira, que se situa, especificamente, nas ruínas da antiga cidade de São Paulo, a mesma que foi devastada no início da guerra.

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fevereiro 28, 2018 at 1:39 am Deixe um comentário

Atualização de Fevereiro(1)

Oi, pessoal,
Após um tempo considerável, para os padrões da Web, sem atualizações, vou tentar uma mais gordinha que o habitual. Se você gosta de ler, fique a vontade.

DESEJO E DISTÂNCIA

Que, na essência do universo,
não impere a crueldade,

Que os deuses sejam, por fim,
realmente bons e não indiferentes

Que, em algum lugar,
Haja mágica, encantamento ou feitiço

E que poderoso este seja,
para eliminar a distância entre nós

Que seja uma magia piedosa e assim permita
meus lábios encontrarem os teus.

ARNON E REGINA

Arnon e Regina estavam casados há vinte anos. Ele a amava, isso não podia ser negado, mas, com o tempo, adquiriu um gosto estranho pelo estudo do oculto, da feitiçaria, do esotérico e foi se distanciando vagarosamente da esposa. Quando estava em casa, exilava-se no porão e mergulhava naqueles livros velhos e pergaminhos. Dizia-se mago, praticante das artes negras, bruxo. As pessoas, porém, riam disso.
Um dia de dezembro, Regina finalmente se decidiu. Quando foi levar o jantar dele, ao laboratório no porão, ela assim falou:
— Arnon, ainda amo você, mas não aguento mais isso. Sua vida é só esses livros malucos. Você vai ficando mais esquisito a cada dia. Parece até que se esqueceu de mim. Amanhã, vou voltar para casa de minha mãe, depois do almoço. De lá, vou cuidar do divórcio.
Arnon pediu, implorou e chorou diante dela. Regina, porém, estava irredutível. Em desespero, ele começou a quebrar o laboratório, usando uma bengala antiga, dizem que pertencente ao próprio e lendário James Winterwood, que conseguira há muitos anos, num antiquário. Só parou quando a futura ex-esposa jurou que chamaria a polícia.
Regina foi dormir. Arnon deitou-se nos destroços de seus laboratório. Havia chorado tanto que as lágrimas se esgotaram. Não sabia como iria viver sem a esposa.
Não conseguiu adormecer. Lá pelas uma e meia da manhã, no meio daquele caos, encontrou um pergaminho com alguns encantamentos, escritos em Latim e Inglês Médio, do século XIV. Um dos feitiços lhe chamou a atenção. Por um instante, tremeu ao pensar em fazer aquilo, mas, logo, justificou a si mesmo que era necessário: amava Regina e faria qualquer coisa para não perdê-la.
Vasculhou e reuniu os ingredientes necessários. Misturou-os rapidamente. Recitou o encantamento e, com uma adaga céltica, acrescentou gotas de sangue de sua mão direita. Estava pronto. Agora era só esperar.
Breve uma fumaça esverdeada elevou-se da mistura, flutuou pelo porão e saiu pela porta da escada, em direção ao quarto onde Regina dormia. Menos de cinco minutos depois, Arnon escutou os gritos da mulher. Havia dado certo. Bastava chamar a ambulância.
Regina foi levada ao hospital, onde permaneceu por uma semana. Quando a devolveram a Arnon, explicaram-lhe que havia sido AVC. Ela permanecia lúcida e consciente, porém, incapaz de falar ou se mover. Os médicos lamentaram que qualquer chance de recuperação era “muito remota”. Ela necessitaria de cuidados pelo resto da vida.
Arnon a colocou delicadamente na cama. Segurou-lhe a mão direita e ajoelhou-se de forma humilde.
— Tudo vai ficar bem agora. Prometo que vou cuidar de você para sempre. Serei o marido mais dedicado que já existiu — disse ele — Um dia talvez entenda e me perdoe, mas eu precisava fazer isso. Não podia deixá-la partir. Eu lhe amo demais.

HUGO

Lá em São Bento da Trindade, interior de Pernambuco, na Rua Brigadeiro Valentino, ficava a Praça Coronel Timotéo Rodrigues, um lugar que sofria uma praga de pombos. A população reclamava do barulho e da sujeira daquelas aves, mas a prefeitura, como é costumeiro neste pais, ia adiando tomar qualquer atitude.
A coisa melhorou um pouco quando Hugo começou a se alimentar na praça. Ele era um corcunda, de rosto deformado, cabelo preto sempre longo e desgrenhado. As roupas, sujas e surradas, pareciam retiradas do próprio lixo. Falava em grunhidos que ninguém conseguia entender. Dizem que havia ficado na cidade depois que um circo passou por ali. Certo intelectual de São Bento até jurava que o corcunda era um bastardo daquela famigerada família inglesa, os Whitehills.
O fato é que todo meio-dia, Hugo vinha a praça e devorava uns cinco pombos. Capturava-os com uma agilidade espantosa para sua figura grotesca. Comia-os com voracidade e prazer, sem nem mesmo retirar as penas.
A população assistia aquele espetáculo bizarro num misto de nojo e curiosidade. No fim, era comum atirarem-lhe pedras, xingamentos ou latas vazias de cerveza.
O bom povo de São Bento, porém, não entendia o que via ali, afinal, nunca haviam encontrado nada como Hugo, talvez porque nada como aquele corcunda já houvesse existido. Ele não estava se alimentado só da carne daquelas aves, mas também de suas almas. Assim ia se fortalecendo dia a dia. Breve seria capaz de partir um fêmur em dois com uma única mordida, esmagar um crânio com a mesma facilidade que uma criança quebra um ovo. Logo balas e facas não mais poderiam ferir sua pele.
Quando isso acontecesse, então Hugo poderia saciar sua fome secreta e alimentar-se do que tanto desejava: seres humanos. Ele olhava para as pessoas que o contemplavam boquiabertas e seus dentes famintos ansiavam por elas. Seria em breve, ele prometia a si mesmo.

A ÁRVORE FEIA
– I –

Aquele mundo nunca teve um nome, porque seus habitantes não imaginavam que existisse outro além dele.
Era um lugar dividido por muitas raças, que conviviam numa harmonia tensa.
Porém, em algum momento, um líder religioso e radical ergueu-se entre os trolls e implantou uma ditadura naquela nação. Após executar todos os opositores, e transformar seu povo numa potência militar, ele começou um campanha de conquista e extinção: os trolls deveriam governar tudo e apenas os trolls deveriam existir, pois, afirmava, eram superiores a todos os outros.
Nação após nação caiu diante deles: as sereias e tritões foram exterminados; os centauros foram extintos; a aliança entre ogros e orcs, vendo-se prestes a ser derrotada, rendeu-se, apenas para ver os remanescentes de seus povos enviados para campos de extermínio.
De todas as nações, apenas os duendes ainda resistiam, de forma heróica, embora desesperada. Por quanto tempo, ninguém poderia dizer.

– II –

Em seu castelo, no topo da Montanha de Vidro-Verde-Que-Veio-do-Céu, o Rei Faolan Espada-Feroz, conversava com seu melhor general, sua filha Gael Lança-Veloz, também a maior feiticeira do reino dos duendes.
— Nossas forças tremem diante do ataque troll — disse o rei — Temo pelo futuro de novo povo.
— Não tema, pai — respondeu Gael — enquanto o ídolo antigo, o Cristal-de-Nossos-Ancestrais, o Ahruntekmanhyo, existir nenhum inimigo poderá nos fazer tombar.
— Sim, mas embora tenhamos adotado todas as precauções, os trolls são perversos e ardilosos, que garantia temos de que não poderão roubar o cristal e destruí-lo?
— Por isso, tomei uma medida extrema, porém necessária.
— Você agiu sem meu conhecimento?
— Você é meu pai e rei, mas sou a feiticeira-mestra deste reino. Nos assuntos de magia, tenho autoridade para decidir.
O rei suspirou contrariado, porém não quis contestar:
— O que exatamente você fez?
— Nosso mundo não é o único — explicou a princesa-feiticeira — Descobri um outro longe daqui, totalmente incalcansável para os trolls. Nesse lugar não há magia e todas as raças que conhecemos não existém lá.
— É ao menos habitado?
— Sim, mas por um povo diferente de tudo que você conhece, pois são, ao mesmo tempo, tempo maravilhosos, terríveis e absurdos. Melhor que saiba pouco sobre eles: sua mente poderia não aguentar.
— Imagino — comentou o rei —, mas o que exatamente você fez?
— Enviei o Ahruntekmanhyo para lá.
— O que? Mas precisamos dele aqui.
— Ele continua ligado a nós e nos ajudando não importa em que mundo esteja.
— E esse… Lugar bizarro… É seguro para ele? Não poderá ser danificado?
Gael Lança-Veloz ficou em silêncio por um instante, para então dizer:
— Eu o protegi com um encantamento muito antigo e confiável. As leis naturais que regem esse outro mundo são realmente muito estranhas, então o Ahruntekmanhyo vai precisar mudar de forma para algo que seja aceitável por lá. Não se preocupe. Nosso cristal-abençoado estará seguro. Quando a guerra acabar, eu o trarei de volta.
— Confio em você, minha filha, contudo rezo aos deuses e ancestrais que esteja certa…
— Só vejo um problema…
— Qual? — indagou o rei com um ponta de medo despertando na alma.
— Os trolls têm aquele feiticeiro deles — Traos Kaos-Gongomir. Ele se acha muita coisa, mas a magia que pratica é uma obscenidade, algo de uma selvageria incrível. Ele tentou interferir no meu encantamento de transmissão, quando mandei o cristal para o outro mundo. Revidei com um feitiço de cegueira. Aquele monstro nunca vai voltar a enxergar na vida.
— Você acha que ele conseguiu atrapalhar sua “transmissão” de algum modo?
— Duvido. Aquele ali é só um idiota ignorante que se gaba do que não sabe. Ele realmente tentou bagunçar meu encantamento, porém não acredito que teve sucesso. Pode ter interferido de algum modo, até mesmo corrompido um pouco da magia que usei, mas a transmissão já aconteceu e o cristal está no outro mundo, numa forma bela e segura para ele. Graças a intromissão daquele tolo, nem mesmo posso mais visualizar aquele lugar distante, porém, acredito em minha magia. Tudo há de estar bem.
— Que os deuses e os ancestrais permitam — disse o rei.
— Tenha fé, pai — aconselhou a princesa.

— III —

Aquele mundo se chamava Terra. Assim, chamado pelos seus habitantes, que, embora sonhassem com a existência de outros mundos habitados, ainda não haviam chegado a nenhum deles.
Naquele mundo havia uma cidade, São Bento da Trindade, no interior de um estado chamado Pernambuco, num país de nome Brasil.
Na zona rural de São Bento,viviam João e Carla. Há alguns anos, eles desistiram da vida na metrópole recifense e compraram o sítio onde moravam. Vieram em busca de uma vida mais simples, talvez melhor.
Naquela manhã, ambos se ocupavam da construção de uma cerca.
— Carla? — indagou João.
— O que foi, amor?
— Viu o que apareceu lá perto do galinheiro?
— Aquela árvore? Tem certeza que não esteve sempre lá? — perguntou Carla
— Claro! Não sou doido. Teve aquela tempestade terrível faz uma semana. Parecia até que o céu ia desabar sobre nós.
— João — ela disse sorrindo — você anda lendo muito Asterix.
— Não, sério. Depois da tempestade foi que notei: apareceu ali, como que do nada, como se tivesse caído do céu. É um árvore feia, na verdade, é a coisa mais feia que já vi. Seca e morta. Me lembra até a árvore do primeiro “Poltergeist”.
— Eu já disse: você assiste filmes demais.
— Ora, nem sei explicar, mas tem algo naquela coisa que me incomoda. Incomoda mesmo.
— É só um toco de árvore morta — Carla definiu — Não faz mal a ninguém.
— Não sei, não. Lembra quando a gente veio pra cá, o que disseram para gente? Que essa cidade é amaldiçoada, que coisas estranhas acontecem aqui.
— Vou parecer repetitiva, mas é o que falei: você consome ficção demais. Perde o senso da realidade. Devia ver um psicólogo.
— Olha, realmente tem algo naquela árvore morta que mexe comigo e não consigo me sentir bem com ela ali. Tenho de fazer alguma coisa.
— O que?
— Vou arrancá-la e queimá-la.
Carla suspirou desconcertada:
— Vai, se isso te deixa melhor. Eu vou falar com minha irmã. Marcar uma consulta. Acho que você está precisando de ajuda.
E, assim, lá foi João pegar suas ferramentas. Não fosse a interferência do bruxo troll Traos Kaos-Gongomir, o Ahruntekmanhyo teria aparecido, na Terra, na forma de um bela árvore mangueira que daria frutos por muitos anos e seria amada por todos. Infelizmente, não foi assim, e agora a árvore feia seria transformada em cinzas. Em outro mundo, o destino dos duendes estava condenado.

FIM
Este texto é dedicado à escritora Ana Lúcia Merege, que fez uma sugestão com a qual ele pôde ser melhorado.

 

CAIXA DE BATALHA

 

Percorrendo a longa e deserta estrada de terra, tendo por única companhia, a paisagem fumegante e abandonada, lá vinha Gabriel. Nas margens daquele caminho, tudo que se podia ver era um cenário devastado: o resultado da feroz guerra para a qual ele estava indo.
Parou num ponto. Desejava descansar. Estava com fome. Sentou-se numa pedra. Da mochila em suas costas, serviu-se de uma garrafa de vinho e pedaços de queijo e pão.
Suspirou pensando em sua mãe e na vida que deixara para trás. Também da mochila, retirou uma antiga caixa de madeira, em cuja tampa, runas de encantamento foram talhadas. No bolso do casaco, pegou a carta, que estava enrolada como um pergaminho e amarrada por uma tira de couro. Desamarrou-a. Começou a lê-la:

“Escuta, amado filho, juro, por todos os meus deuses que, se eu pudesse impedir, você não iria a essa guerra, mas, como de qualquer modo irá, respeitarei sua vontade, porém, leve consigo este presente que lhe dou, para protegê-lo da forma que posso. São pequenos itens, que guardei na caixa em sua mochila, conforme descrevo abaixo:
1- Da asa de um anjo agonizante,líder de extensa e valorosa legião, que foi cruelmente morto em combate, removi esta pena ensanguentada. Quando, um dia, estiver encurralado, segure a pena na mão esquerda, com firmeza, e diga, em voz alta o nome do anjo de onde ela veio, que é o mesmo nome pelo qual lhe batizei, e você poderá fugir correndo, por um tempo exatamente igual a oitocentas batidas de seu coração, mais rápido que o mais rápido animal sobre a terra. Isso deverá ser suficiente para lhe colocar em segurança.
2 – Dos olhos de um mago muito antigo e cruel,de quem ainda se contam lendas sombrias, roubei o azul mais azul que pude encontrar e guardei neste frasco. Se um dia enfrentar um gigante e todas as suas armas falharem, quebre-o, jogando ao chão. Uma terrível névoa azul se formará em torno do gigante que, tomado por tristeza quase infinita, irá chorar até que a própria alma dele escape e ele morra, pois, conta-se, assim acontece com um gigante que chorar demais.

3-Da boca da fada mais selvagem que já existiu, arranquei este dente, enquanto ela dormia. Ela me cuspiu uma centena de maldições das mais perigosas e jurou rasgar meu pescoço com os dentes. Não se preocupe, sei lidar com maldições e não temo fadas. Sobre este dente: se por um acaso do caprichoso destino, em sua jornada você tiver de lidar com um demônio, ou mesmo, necessitar dos favores de um, nunca, realmente nunca, ofereça sua alma, mas dê-lhe este dente: para a espécie demoníaca qualquer parte da dentição de uma fada, vale mais que ouro para os humanos. Entregue isso e o demônio concenderá a você o que pedir, desde, é claro que esteja ao alcance dele. Há uma vantagem adicional: segurando um dente de fada, um demônio fica impedido de mentir, trapacear ou manipular, pelo menos até concender o desejo que lhe foi pedido.
4-Em barganha bem perigosa, troquei com uma divindade obscura, por que foi esquecida, mas astuta e furtiva, um chifre de unicórnio por este pedaço do coração petrificado de um ogro maligno e de índole terrivelmente peversa, senhor de um castelo sombrio no fim do mundo,onde aprisionava e devorava os viajantes que por ali passavam e lhe pediam abrigo.Guardado nesta bolsa, feita da pele do próprio ogro, este ítem é uma poderosa bússola mágica. Quando estiver perdido, longe de qualquer terra conhecida e sem esperança de retornar, segure esta bolsa contra seu próprio peito e pense, com atenção, no último lugar de que partiu, antes de se perder, e será transportado instantaneamente de volta para lá.
5-Neste frasco, feito de vidro que adquiri no mundo dos sonhos, confinei um sorriso da mais bela princesa que qualquer reino já conheceu, pelo que dei a ela um mapa de onde seu único amor, desta vida ou de qualquer outra, era mantida prisioneira por um monstro tão terrível que, ao som de seu nome, pessoas enlouqueciam e devoravam-se umas as outras. Caso seu exército, em algum momento, estiver cercado por um inimigo mais poderoso, numeroso e cruel, quebre esse frasco diante dele e seus adversários cairão de joelhos, deslumbrados com as enlouquecedoras maravilhas que serão mostradas a eles. Feito isso, leve seu próprio exército para longe daqueles guerreiros em delírio, o que irá garantir a você e seus amigos, ao menos, mais um dia de vida. É importante, porém, que se atenha a isso: não mate seus adversários nesse estado de delírio em que irá colocá-los. Não poderiam reagir e isso seria de um pecado abominável.
6-Num jogo de cartas, num castelo distante deste mundo, contra um gnomo (cego de um olho, após uma luta feroz contra uma múmia) e uma bruxa de pele branca e cabelos esverdeados (que perdera sua alma, há muito tempo, numa batalha com outra bruxa), eu ganhei este pequeno espelho feito da escama do mais nobre e bondoso dragão deste reino, que tombou numa guerra cem anos antes de você nascer. Um dia seu exército terá de invadir alguma fortaleza inexpugnável, protegida por encantamentos de um mago tão insano que, nem mesmo eu, saberia desfazê-los. Quando isso acontecer, pronuncie o nome de sete pessoas que você realmente ama e coloque este objeto num pequeno lago, rio, ou mesmo, uma fonte d’água. Um portal será formado instaneamente e você e seus companheiros poderão penetrar no abrigo de seus inimigo.
7-Por fim, deixo a você esta esfera de vidro polido, do tamanho da cabeça de um duende, fabricada com esmero pelos trolls mais subterrâneos que se possa imaginar, e que conquistei, há muito tempo, num duelo com um conclave de feiticeiras. Em algum momento, quando você ou alguém que ama cair vítima de ferimento terrível ou doença incurável, quebre essa esfera e peça, com gentileza e coração sincero, ajuda ao espírito que será libertado dela. O ferimento será curado. A doença desaparecerá e, ao menos dessa vez, a morte irá embora, humilhada e derrotada.
Bem, amado filho, essas são as dádivas que dou a você. Use-as com sabedoria, pois, como deve saber, cada um desses itens só pode ser usado uma única vez.
Conheço você o bastante para saber que hesitará em usá-los, afinal é tomado por essa mania de não querer depender de ninguém e tentar conquistar o mundo apenas com suas próprias forças. Lembre-se: o maior dos sábios é também o mais humildade. Quando precisar de ajuda, use o que lhe dei.

Com amor,
Sua mãe
Eunice”

Gabriel guardou a caixa e a carta, levantou-se e seguiu seu caminho. Realmente, não tinha interesse em usar itens mágicos. Não confiava em magia. Não queria depender dela. Achava que era uma vantagem injusta. Mas se sua mãe era tão preocupada com ele é porque lhe amava muito e isso não deveria ser relevado, não é mesmo? Guardaria a caixa. Tinha uma longa guerra a lutar, quem sabe o que ainda precisaria fazer para voltar vivo para casa?
Com coragem, apertou o passo. Rumo ao oeste. Direto para dentro da maior guerra que a humanidade já conheceu.

fevereiro 18, 2018 at 6:10 am Deixe um comentário

O PROBLEMA NATALINO DO ALUGUEL

Naquele final de 2018, a família Malhard conheceu o desespero. Com dois meses de aluguel atrasado — e Seu Adeildo, proprietário da pequena casa, já fazendo ligações ameaçadoras — todos ali tremiam com a possibilidade de dormirem o réveillon debaixo da ponte mais próxima.

Seu Otávio, pai da família, anteriormente um orgulhoso funcionário do Supermercado Limeira & Irmãos, já amargava a sina de desempregado há nove meses. Ficava resmungando num canto:

— Se eu tivesse coragem, assaltava era um banco! Tem aquele ali, no outro bairro, o dos americanos, o Big Deal. Tenho até um colega, metido com a polícia, que me arranjaria um revólver, mas me cago de medo de me pegarem e me jogarem em algum presídio. Todo mundo sabe o que acontece na cadeia e, pelo amor de Deus, eu não tenho vocação pra gay, não!

Dona Carminha, mãe da família, vivia deprimida e estressada com a situação. Era fácil encontrá-la falando sozinha dentro de casa, em tom de quem dá palestra:

— Eu ainda dou pro gasto! Passei dos quarenta, mas ainda sou bonita, gostosa, e, se eu quisesse, saía por aí me prostituindo e, tenho certeza, não arrumava pouco dinheiro não: ia era ficar rica. Ah, se eu não fosse uma mulher assim tão correta, tão direita, tão fiel, tão cristã… Ai, meu Deus, porque me fez assim?

Então, olhava para a filha Cíntia, sentada na mesa, lendo uma dessas revistas de moda:

— Peraí, Cíntia, você já fez dezoito, semestre passado, e tenho orgulho de ter uma filha linda assim, bem que podia… Sabe como é… Para salvar essa família.

Cíntia, sem tirar os olhos da revista, resmungava:

— Deixa de história, mãe! Nem vem com essas conversas esquisitas: num quero saber de homem, não. Eu vou é ser freira!

Desesperada, Dona Carminha ainda olhava para o pequeno Marco, seu filho, que brincava com dois bonecos Max Steel, sentado num canto do chão da cozinha:

“Não dizem que tem um povo aí que compra criança pra vender a casais ricos que não têm filhos” — pensava Dona Carminha — “Será que pagam bem? Ah, se eu não fosse contra essas coisas! Eu até assinei abaixo-assinado na Internet protestando contra isso. Ai, meu Deus, por que me fez assim tão correta?”

Foi quando Vovô Ataíde entrou com um maço de dinheiro nas mãos: a quantia exata para colocar o aluguel em dia.

— Papai, pelo amor de Deus, não me diga que pegou isso com um agiota — quis saber Dona Carminha.

— Que nada, filha. Nessa crise, até agiota tá sem dinheiro — respondeu o velho Ataíde, enquanto tirava o boné e enxugava, com um lenço, o suor da testa — O Diabo tava lá naquele parquímetro da Avenida Oliveira Virtuísta comprando almas…

dezembro 24, 2017 at 6:35 pm 1 comentário

Dueto Humano-Feérico

Pessoal,
Essa é uma poesia que eu planejava concluir há tempos.
Espero que gostem.
Sei que lembram que feérico é o adjetivo para as fadas.
Beijos

DUETO HUMANO-FEÉRICO

(SOLANO)
De onde tu vens, do norte ou do sul?
Ó Tu, bela e feroz fada de pele azul
Pois, eu tremo quando me olhas assim
Que será, que segredos trazes pra mim?

(BELISAMA)
Nem do norte ou do sul, não tenhas medo
Venho de onde Judas padece em degredo
Venho de onde o teu mundo encontra o fim
A terra onde jazem os deuses e os serafins

(SOLANO)
Fada de olhos de duas cores desiguais
Desgosta de mim este vento que te traz
Piedade, não digas frases de mau agouro
Acaso deve meu dia terminar em choro?

(BELISAMA)
Humano fraco e de coração temeroso
Devias ser forte e teu espírito vigoroso
Ah, não me invoques essa tal vã piedade
Pois, eu trago para ti somente a verdade

(SOLANO)
Que verdade é essa que trazes assim?
Que não seja a profecia de meu fim
Teu povo é cruel, gosta de jogos
Tuas palavras são fel, cheias de logro

(BELISAMA)
És rude por gratuitamente me insultar
Cruel é teu povo que o mundo vai queimar
Trago avisos, não posso trazer consolo
Vim com a verdade. não me interessa jogo

(SOLANO)
O que tens de dizer, diz agora
Por que insistes em tanta demora?
Sei que pretendes só me torturar
Fadas tem prazer em nos ver penar

(BELISAMA)
És injusto, humano de língua acusadora
Realmente merecias uma tortura duradoura
Mas não vim para jogos, nem folguedos
Trouxe em minha língua terrível segredo

(SOLANO)
Que segredo é esse? Sinto que vais me abalar
Meu coração não devo deixar mais se machucar
Se trouxestes um horror, um vil objeto de dor
Pergunto-me e padeço: onde estará meu amor?

(BELISAMA)
É de teu amor perdido que vim contar
Aquela que procuras sem nunca descansar
Deixa morrer a esperança, é o melhor que farás
Pois tua amada de novo, nunca, nunca encontrarás

Poema: Rita Maria Felix da Silva

dezembro 11, 2017 at 2:33 am Deixe um comentário

Voltando a atualizar o blog

Realmente, faz um tempinho que não atualizo este blog: coisas da vida material. Atrapalham muito.
Por isso, vou fazer uma atualização mais gordinha do que de costume, colocando mais textos de uma vez.
Um deles, “Soldado Amaral”, vai com um agradecimento ao amigo e escritor Daniel Folador Rossi, que fez uma valiosa sugestão para a melhoria deste conto. Obrigada, Dan.

SHANAYA, DOS SONHOS

 

Shanaya cresceu às margens do Rio Aansoon Ka. Descendia de uma linhagem de bruxas poderosas.

Um dia seu país se tornou corrupto e terrível, governado por homens malignos e habitado por um povo formado, em quase toda a sua totalidade por pessoas também malignas ou tolas. Ninguém parecia poder fazer qualquer coisa para mudar aquela situação.

Então, Shanaya trancou-se no quarto, invocou a magia de suas ancestrais. Usaria a mais perigosa mágica que existe, a magia dos Sonhos. Dormiria e sonharia com seu país tendo se tornado algo diferente e, com o poder quase infinito da mágica, tornaria aquele sonho real. Assim, dormiu e sonhou. Um sonho após o outro. Sonhou cento e trinta e três sonhos diferentes. Em cada um deles, sua terra voltava a ser algo bom e digno. Até mesmo melhor do que já havia sido. Não pôde, porém, tornar nenhum deles real. A magia para tanto sempre lhe escapava no fim.

Até que finalmente entendeu:

Não era possível salvar seu país, porque ele havia se tornado tão distorcido e lamentável que não era mais digno de salvação. Dormindo, uma lágrima e depois outra escorreram-lhe pelo rosto. Shanaya escolheu o único sonho que era possível, e este veio à realidade. Em minutos, chamas espalharam-se por toda aquela nação, devorando impiedosamente a tudo e todos. Breve, sobravam apenas cinzas daquele país.

 

A IMORTALIDADE DE GODOFREDO DE BURGUNDI

 

Godofredo nasceu o homem mais triste do mundo. Vivia desolado. Nunca um sorriso passara por aqueles lábios. Era de uma depressão como a Medicina daquela época — e, possivelmente, das seguintes — não sabia curar.

Em maio e junho de seu vigésimo quinto ano de vida, uma sequência de vinte e nove tentativas fracassadas de suicídio ensinou-lhe uma verdade inesperada: era imortal, ou pelo menos, não podia ficar morto por muito tempo, pois, não importava o que ocorresse com seu corpo, o ferimento, a fratura, a injúria se regenerava em instantes e ele voltava à vida antes que até mesmo a mais rápida das pessoas conseguisse terminar de cantar o hino nacional.

Assim, ao menos, encontrou uma forma de ganhar dinheiro e passar o tempo. Gostava de exibir-se naquele grande teatro no centro da cidade. Gente do mundo todo vinha vê-lo cometer suicídio, pelos mais diversos métodos conhecidos, apenas para ressuscitar totalmente ileso em instantes. Era a sensação dos jornais, que o chamavam de “Godofredo, o Imortal, a Maravilha Sombria de nosso Tempo”.

Em novembro do ano em que completaria seu trigésimo aniversário, Godofredo havia acabado de voltar de mais uma turnê pela Ásia e reiniciou suas apresentações no teatro. Após uma seqüência de perfomances com lâminas, decidiu voltar a usar pistolas. Havia algo de clássico nisso, ele assim pensava.

Então, numa quinta-feira, lá esteva ele. No centro do palco. Sentado numa cadeira simples de madeira, ao lado da qual estava uma pequena mesa, igualmente de madeira e sem ornamentos, sobre esta repousava uma pistola carregada. Godofredo vestia-se como um mágico, de fraque e cartola, afinal, o que ele fazia não merecia ser classificado como mágica?

Pegou a pistola e, antes de começar o espetáculo, cumprimentou seu público: uma multidão que, como sempre, lotava o teatro. Como o ingresso era muito custoso, apenas os muitos ricos viam assistir. Passou os olhos por um canto da plateia e viu quando se sentaram uma linda jovem acompanhada por uma distinta senhora idosa. Claro que ele não sabia, mas toda aquela beleza denunciava que não podia se tratar de outra, exceto a própria mademoiselle Arlene de Montfleur, celebrada como a mulher mais bela da Europa, a quem os jornais destilavam elogios dignos da própria Afrodite, filha da mais rica e respeitada família do continente.

Arlene sorriu para ele e o coração daquele homem foi tomado por um encantamento maior que qualquer força humana. Pela primeira vez, em toda sua vida, ele sorriu e sua própria alma inundou-se de uma felicidade como nunca tinha se visto neste mundo, pois, um milagre acabara de acontecer e realmente pela primeira vez, Godofredo de Burgundi estava apaixonado.

Ele suspirou. Após o espetáculo haveria tempo de falar com aquela criatura tão celestial. Como já havia feito milhares de vezes, colocou a pistola contra a têmpora direita, disparou e seu corpo desabou sobre a mesa diante dos olhares estupefatos de seu público.

Dessa vez, porém, passarem-se os segundos e ele não se movia. Depois, minutos, até que a platéia começou a questionar o que estava acontecendo e um deles, mais corajoso, na verdade um certo médico chamado de Jacques Durand, aproximou-se e examinou o corpo de Godofredo. Estava morto. Permanecia morto. Levaram-no a um hospital. Aguardaram, mas ele não voltou. Após três dias, sem qualquer sinal de ressurreição, enterraram-no naquele cemitério antigo e encantador, perto da casa onde cresceu.

Dizem que um sorriso apaixonado persistia nos lábios do cadáver, mesmo quando desceu à sepultura.

 

ERIC E JASMINE

 

Naquela época, as festas realizadas na mansão da socialiste Bella Selazini eram as mais badaladas do estado. Ora, diabos! Eram as mais comentadas do país. Quem não lembra que foi numa delas que aquele candidato a presidente morreu por uma overdose de cocaína?

Bem, foi por lá que Eric e Jasmine se conheceram. Foi num mês de novembro quente como o Inferno. Jasmine, uma aspirante a atriz, veio em busca de contatos que pudessem colocar seu nome numa novela de TV. Eric pensava em sair do Brasil, fugindo de um relacionamento que o havia levado a um caso de depressão e uma tentativa de suicídio.

Cruzaram-se, pelo maior dos acasos, numa das mesas, quando Eric foi pegar outra taça de champanhe. Jasmine arregalou os olhos quando o avaliou de cima abaixo. Ele sorriu, como não sorria há muito tempo e perguntou a si mesmo como uma mulher tão bonita como aquela poderia realmente existir.

Mal conversaram vinte minutos e foram buscar abrigo num banheiro. Fizeram amor lá pela primeira vez. Foi rápido, intenso e selvagem. Ambos nunca haviam provado nada tão maravilhoso assim antes.

Dali fizeram amor em vários outros lugares. Transavam praticamente todo o tempo em que estavam juntos, ou se declaravam, um para o outro, de um forma tão apaixonada e sincera que eles não acreditaram ser possível fora de um filme.

Em dezembro, estavam numa casa de veraneio, na famosa Praia de Beta do Pina. Haviam terminado de atingir um orgasmo juntos e agora descansavam lado a lado no tapete da sala, aproveitando a felicidade simples de estarem juntos.

— Eric? — Jasmine indagou com aquela voz suave que o deixava louco de desejo.

— O que foi… — Eric respondeu com um sorriso e Jasmine teve certeza de nunca ter encontrado um homem que sorrisse de forma tão bonita.

— Qual é, assim, seu maior sonho… Tipo a coisa que você mais quer nesse mundo?

— Sei lá. Talvez nenhum. Já encontrei você. Acho que não preciso de mais nada.

Dessa vez, foi ela que sorriu, e então disse:

— Eu… Eu queria que a gente ficasse junto para sempre.

— Ei, boba, a gente vai ficar sim.

Ela ficou calada. Seu rosto parecia sombrio:

— Não, não vai, não. Eu tive um sonho horrível ontem. Ninguém fica para sempre junto. Um dia, um da gente morre e o outro fica sozinho.

— Jasmine, — ele replicou com uma expressão de incômodo — mas que conversa para depois de uma transa, hein? Parece que eu só me apaixono por doida! — e riu novamente.

— Desculpe. Não consegui evitar. Sabe qual é meu maior sonho?

— Vai, fala, quero escutar.

— Eu queria que a gente morresse junto, ao mesmo tempo, para que um não tivesse de ficar sofrendo sem o outro.

A expressão no rosto dele ficou mais séria, e Eric disse:

— É, eu também, Eu nunca ia querer ficar nesse mundo sem você.

Então, eles riram e se beijaram e fizeram amor novamente.

E, em algum lugar, um anjo velho, sábio e piedoso disse “amém” e um desejo se realizou (pois, assim é contado pelos mais antigos, que desejos se tornam reais quando anjos dizem amém):

Tão logo alcançaram o orgasmo, mais uma vez, juntos, os corações dos dois pararam de bater exatamente ao mesmo tempo e, assim, juntos, ambos partiram deste mundo…

 

SOLDADO AMARAL

 

Adeildo Oliveira do Amaral, filho de militar conservador evangélico, cresceu idolatrando o governo da União Cristã Brasileira (UCB). Os amigos diziam que seu amor pela pátria era quase uma religião, ao que ele respondia sorrindo:

— Vamos tirar o “quase” dessa frase!

Em 2079, quando tensões na fronteira com a Argentina foram usadas pelo governo para declarar guerra aquele país, Amaral marchou para o front de cabeça erguida e coração em festa. “Por Deus e pela honra e defesa da Pátria!”, dizia a propaganda do governo, e Amaral repetia essas palavras como um mantra. Com elas nos lábios, entregou-se ao combate em terras argentinas. Analistas internacionais questionavam os motivos do conflito e apontavam as tendências expansionistas da UCB. Nada disso, porém importava aos ouvidos daquele soldado.

A guerra contra os argentinos foi terrível. Em que pese a resistência corajosa dos filhos daquele pais, dois terços de sua população foi aniquilado. A comunidade internacional levantava queixas de genocídio, mas isso não importava para a UCB e se o governo dizia que aquelas acusações era mentira, Amaral acreditava.

A mais sangrenta das batalhas daquele conflito foi o cerco de um mês a Buenos Aires. A cidade capitulou em junho de 2080. O próprio Amaral teve a honra de atirar no Presidente argentino Pablo Marcel Trinchero. Porém, naquele mesmo dia, vítima de uma emboscada, ele perdeu as duas perdas. No dia seguinte, Raúl Enea Malharo, vice-presidente argentino, assinou a rendição daquele país, que foi anexado como território brasileiro.

Amaral foi devolvido ao Brasil com honras e internado no Hospital Militar do Espírito Santo, em Brasília. Lá, numa segunda-feira, foi visitado pelo célebre Coronel Altamonte:

— A UCB não vai desampara-lo. Juro por Deus. Este país não dá as costas a seus heróis! — disse o coronel com veemência.

Amaral chorou de orgulho e felicidade. Ele havia escutado que setores mais moderados da política brasileira reclamavam dos altos custos que a guerra havia deixada para os cofres públicos, mas ignorava tais coisas: para aquele soldado, o governo era o representante de Deus na Terra, criticar o governo era criticar Deus e isso, Amaral, ressaltava com horror, era coisa para ateus!

Na terça-feira, à meia-noite, enquanto ele dormia, veio a enfermeira, que aplicou um poderoso veneno ao soro que ele tomava. Amaral jamais soube de um verdade simples:

Para a UCB, um herói morto saía mais barato que um soldado inválido e vivo.

 

A CASA NA ESQUINA ENTRE OS MUNDOS

 

Era apenas uma casa velha e decadente, na esquina entre os mundos, feita para ser habitada por fantasmas e tristes lembranças. Um dia, porém, ficou vazia, então o universo decidiu que deveria ser novamente ocupada, porque, graças a uma lógica sádica e que poucos humanos seriam capazes de entender, os deuses haviam decidido, há muito tempo, que era necessária a existência de um lugar lamentável como aquele. Então, começou-se a procurar aqueles que deveriam ser os novos moradores da casa.

Num canto do planeta Terra, vivia Asfridi e ele era, provavelmente, o homem mais triste que já viveu. Em sua curta vida — cometeu suicídio aos vinte e oito anos —, foi amado por uma infinidade de mulheres, mas nunca foi feliz, pois, por conta de uma daquelas anomalias que a vida, vez ou outra, permite acontecer, ele nunca se mostrou capaz de amar qualquer uma delas.

Morreu desolado, pois dizia que nunca havia conhecido o amor. Seu peito era como o vazio de um buraco negro.

Em outro ponto de nosso planeta, nasceu e cresceu Safridi e, embora ela fosse bela e seu coração tão luminoso quanto uma estrela, a ponto de amar verdadeiramente e tão intensamente como nunca se viu em nosso mundo, jamais era amada, não importava com quem se envolvesse.

Aos vinte e oito anos, percebeu que era a mulher mais infeliz do mundo e, tendo finalmente se resignado de que jamais conheceria o amor, atirou-se nos trilhos de um trem e foi despedaçada.

Então, o fantasma de Asfridi e o fantasma de Safridi despertaram na casa na esquina entre os mundos. Duas almas infelizes que deveriam assombrar aquele lugar por uma eternidade. Mas, quando se viram, o coração de Asfridi tornou-se cheio pela primeira vez e, igualmente pela primeira vez, ele percebeu que estava apaixonado.

Quando Safridi pôs os olhos sobre ele, seu próprio coração se reacendeu e ela soube que finalmente haviam encontrado alguém que iria amá-la.

Assim, se aproximaram e se uniram num beijo e, a partir daí, a casa na esquina entre os mundos deixou de ser um lugar desolado e lamentável e tornou-se o recanto de maior felicidade neste e em todos os mundos.

 

dezembro 11, 2017 at 2:33 am Deixe um comentário

O PEREGRINO E O HORIZONTE

       O horizonte, sempre à frente, para lá ia o peregrino, e a caminhada era eterna…

    Caminhando e caminhando, sem nunca pausa ou descanso. Como lhe ordenaram fazer. Como havia prometido.

    Fazia muito tempo que ele se despira das roupas, quando abandonou, na estrada, também as esperanças e sonhos. Tudo que o peregrino uma vez amou ficara para trás. Só importava o caminho a seguir e o horizonte a ser alcançado.

     Mas o horizonte permanecia distante. No rosto do peregrino, a alegria e vontade de viver haviam perecido talvez há uma eternidade. Ele nem mesmo se lembrava de quem fora um dia, do porque começara naquele caminho ou de todos que havia ignorado traído, abandonado ou assassinado para estar naquela jornada. Seu coração era um doloroso vazio sem fim.

      Havia desaprendido a rezar, pois as palavras sagradas e os nomes dos deuses fugi-ram de sua memória ao longo do caminho, porém lhe restava um anseio: em algum mo-mento, mais adiante, talvez sua carne se despregasse dos ossos e caísse na estrada para se tornar pó. Talvez os próprios ossos também se reduzissem a poeira. Era a única piedade que ainda poderia esperar.

        O horizonte, sempre à frente, para lá ia o peregrino, e a caminhada era eterna…

setembro 7, 2017 at 5:10 pm Deixe um comentário

O ùltimo Conto de Heitor

O ÚLTIMO CONTO DE HEITOR

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

Os ferimentos haviam piorado. A febre se elevava. Ele sabia que não poderia sobreviver por muito mais tempo. Tinha de ser rápido. Num canto da casa em ruínas, em uma mesa velha e sob a luz de uma vela que ele disputara até a morte com um saqueador, Heitor Vasconcelos Serpa escrevia pela última vez.

Usava papel e caneta. Não havia mais energia elétrica e ele sentia falta de digitar num computador. A caneta era aquela da promoção da Mcdonalds. O caderno escolar tinha estampa de Toy Story e havia pertencido a seu irmão caçula, o mesmo que morrera há uma semana, ao pisar numa mina terrestre, enquanto procurava por comida.  Um dia após este trágico evento, seus pais foram fuzilados pelas tropas invasoras. Ele estava só agora.

O texto deveria ser o começo de uma heptalogia sobre dragões, mas ele teria de se conformar apenas com um conto. A vida não é como desejamos. Nem mesmo no fim do mundo.

“De que adianta escrever isso?”, reclamou uma parte de sua mente, “o mundo está terminando lá fora. A espécie humana não vai durar nem mais um mês. Ninguém vai publicar isso. Ninguém nunca vai nem ler”.

Heitor mordeu e mastigou um pedaço de pão azedo. Sentia muita fome.  O ferimento radiativo em suas costas ardia demasiadamente. O lado esquerdo de seu rosto estava deformado pela explosão da granada de arma química há nove dias. Sua pele coçava e cobria-se de pequenos tumores, devido ao efeito das armas biológicas que os invasores espalharam pelo ar.

— Eu sou um escritor — ele falou para si mesmo, com toda a convicção que pôde e sentiu que nunca havia dito nada tão poderoso e verdadeiro quanto aquela frase. Mesmo no fim do mundo, escrever era o que mais desejava.

Sentia muito frio.  Era difícil se manter acordado. Apressou-se para concluir o conto:


 

(…) E na grande batalha da ilha de Qíyú de Shén, o honorável Cepulode da Lua Crescente, líder rebelde dos dragões da planície oriental, conduziu vitoriosamente seu povo até a vitória derradeira sobre as hordas de humanos opressores, escravocratas e assassinos e os expulsou de volta às terras ocidentais. Agora, os dragões poderiam viver novamente, seguros e felizes. Com uma flecha envenenada atravessada no olho esquerdo, Cepulode olhou para seu exército triunfante e para o bom futuro que aguardava seu povo. Então, o veneno por fim o venceu e o nobre e valoroso dragão tombou morto diante de seus comandados. Partiu, porém, feliz pelo que tinha realizado.


Sangue começou a escorrer pela boca, olhos e nariz de Heitor. Efeito retardado das bombas biológicas que as tropas invasoras haviam jogado sobre a cidade. E sangue pingou no papel. Com um último suspiro, Heitor despediu-se do que lhe restava de vida. Partiu, porém, satisfeito consigo mesmo, pelo que acabara de realizar. Apenas desejou que tivesse mais tempo para uma última revisão. Soltou a caneta e ela caiu e rolou pelo chão.

  Epílogo

 Cerca de dez muzhins após a morte de Heitor, os astrônomos da espécie Sholonov descobriram a Terra. Três muzhins depois, enviaram uma expedição de arqueólogos, biólogos, linguistas e outros estudiosos. A partir do que coletaram das ruínas, ficaram fascinados pela cultura humana. A arte especialmente os deixou deslumbrados.

Numa das cidades mortas, no que parecia já ter sido uma habitação de uma família de humanos, o linguista, encontrou as “folhas de papel” aparentemente escritas pela infeliz criatura cujos restos ele entregou a equipe de biólogos.

Xozmok já dominava, razoavelmente, algumas das antigas línguas faladas neste mundo extinto, mas mesmo assim demorou cerca de vinte rotações deste planeta até obter uma tradução razoável do manuscrito “Cepulode da Lua Crescente, o Dragão”, de autoria de um humano chamado Heitor V. Serpa. A leitura o agradou muito, apesar de algumas referências culturais tê-lo confundido. Demorou um pouco para entender que se tratava de uma obra ficcional. Pena. Ele gostaria de imaginar que dragões realmente já houvessem existido.

Em mais dois muzhins, seria mandado de volta para casa. Decidiu levar a tradução e dá-la de presente a seu filho Yahnmok, que estava se preparando para a cerimônia de passagem para a maturidade. Para um jovem Sholonov, receber do pai uma história de presente, antes do ritual para a idade adulta, era uma das mais altas honrarias possíveis.

  FIM

Dedicado a Heitor Vasconcelos Serpa.

junho 22, 2017 at 11:58 am Deixe um comentário

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