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O PEREGRINO E O HORIZONTE

       O horizonte, sempre à frente, para lá ia o peregrino, e a caminhada era eterna…

    Caminhando e caminhando, sem nunca pausa ou descanso. Como lhe ordenaram fazer. Como havia prometido.

    Fazia muito tempo que ele se despira das roupas, quando abandonou, na estrada, também as esperanças e sonhos. Tudo que o peregrino uma vez amou ficara para trás. Só importava o caminho a seguir e o horizonte a ser alcançado.

     Mas o horizonte permanecia distante. No rosto do peregrino, a alegria e vontade de viver haviam perecido talvez há uma eternidade. Ele nem mesmo se lembrava de quem fora um dia, do porque começara naquele caminho ou de todos que havia ignorado traído, abandonado ou assassinado para estar naquela jornada. Seu coração era um doloroso vazio sem fim.

      Havia desaprendido a rezar, pois as palavras sagradas e os nomes dos deuses fugi-ram de sua memória ao longo do caminho, porém lhe restava um anseio: em algum mo-mento, mais adiante, talvez sua carne se despregasse dos ossos e caísse na estrada para se tornar pó. Talvez os próprios ossos também se reduzissem a poeira. Era a única piedade que ainda poderia esperar.

        O horizonte, sempre à frente, para lá ia o peregrino, e a caminhada era eterna…

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setembro 7, 2017 at 5:10 pm Deixe um comentário

O ùltimo Conto de Heitor

O ÚLTIMO CONTO DE HEITOR

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

Os ferimentos haviam piorado. A febre se elevava. Ele sabia que não poderia sobreviver por muito mais tempo. Tinha de ser rápido. Num canto da casa em ruínas, em uma mesa velha e sob a luz de uma vela que ele disputara até a morte com um saqueador, Heitor Vasconcelos Serpa escrevia pela última vez.

Usava papel e caneta. Não havia mais energia elétrica e ele sentia falta de digitar num computador. A caneta era aquela da promoção da Mcdonalds. O caderno escolar tinha estampa de Toy Story e havia pertencido a seu irmão caçula, o mesmo que morrera há uma semana, ao pisar numa mina terrestre, enquanto procurava por comida.  Um dia após este trágico evento, seus pais foram fuzilados pelas tropas invasoras. Ele estava só agora.

O texto deveria ser o começo de uma heptalogia sobre dragões, mas ele teria de se conformar apenas com um conto. A vida não é como desejamos. Nem mesmo no fim do mundo.

“De que adianta escrever isso?”, reclamou uma parte de sua mente, “o mundo está terminando lá fora. A espécie humana não vai durar nem mais um mês. Ninguém vai publicar isso. Ninguém nunca vai nem ler”.

Heitor mordeu e mastigou um pedaço de pão azedo. Sentia muita fome.  O ferimento radiativo em suas costas ardia demasiadamente. O lado esquerdo de seu rosto estava deformado pela explosão da granada de arma química há nove dias. Sua pele coçava e cobria-se de pequenos tumores, devido ao efeito das armas biológicas que os invasores espalharam pelo ar.

— Eu sou um escritor — ele falou para si mesmo, com toda a convicção que pôde e sentiu que nunca havia dito nada tão poderoso e verdadeiro quanto aquela frase. Mesmo no fim do mundo, escrever era o que mais desejava.

Sentia muito frio.  Era difícil se manter acordado. Apressou-se para concluir o conto:


 

(…) E na grande batalha da ilha de Qíyú de Shén, o honorável Cepulode da Lua Crescente, líder rebelde dos dragões da planície oriental, conduziu vitoriosamente seu povo até a vitória derradeira sobre as hordas de humanos opressores, escravocratas e assassinos e os expulsou de volta às terras ocidentais. Agora, os dragões poderiam viver novamente, seguros e felizes. Com uma flecha envenenada atravessada no olho esquerdo, Cepulode olhou para seu exército triunfante e para o bom futuro que aguardava seu povo. Então, o veneno por fim o venceu e o nobre e valoroso dragão tombou morto diante de seus comandados. Partiu, porém, feliz pelo que tinha realizado.


Sangue começou a escorrer pela boca, olhos e nariz de Heitor. Efeito retardado das bombas biológicas que as tropas invasoras haviam jogado sobre a cidade. E sangue pingou no papel. Com um último suspiro, Heitor despediu-se do que lhe restava de vida. Partiu, porém, satisfeito consigo mesmo, pelo que acabara de realizar. Apenas desejou que tivesse mais tempo para uma última revisão. Soltou a caneta e ela caiu e rolou pelo chão.

  Epílogo

 Cerca de dez muzhins após a morte de Heitor, os astrônomos da espécie Sholonov descobriram a Terra. Três muzhins depois, enviaram uma expedição de arqueólogos, biólogos, linguistas e outros estudiosos. A partir do que coletaram das ruínas, ficaram fascinados pela cultura humana. A arte especialmente os deixou deslumbrados.

Numa das cidades mortas, no que parecia já ter sido uma habitação de uma família de humanos, o linguista, encontrou as “folhas de papel” aparentemente escritas pela infeliz criatura cujos restos ele entregou a equipe de biólogos.

Xozmok já dominava, razoavelmente, algumas das antigas línguas faladas neste mundo extinto, mas mesmo assim demorou cerca de vinte rotações deste planeta até obter uma tradução razoável do manuscrito “Cepulode da Lua Crescente, o Dragão”, de autoria de um humano chamado Heitor V. Serpa. A leitura o agradou muito, apesar de algumas referências culturais tê-lo confundido. Demorou um pouco para entender que se tratava de uma obra ficcional. Pena. Ele gostaria de imaginar que dragões realmente já houvessem existido.

Em mais dois muzhins, seria mandado de volta para casa. Decidiu levar a tradução e dá-la de presente a seu filho Yahnmok, que estava se preparando para a cerimônia de passagem para a maturidade. Para um jovem Sholonov, receber do pai uma história de presente, antes do ritual para a idade adulta, era uma das mais altas honrarias possíveis.

  FIM

Dedicado a Heitor Vasconcelos Serpa.

junho 22, 2017 at 11:58 am Deixe um comentário

4 Drabbles

Oi, pessoal.
Num post recente, coloquei aqui 16 Drabbles (textos de até 100 palvavras). Posto agora mais quatro. A meta é chegar a 100 deles. A meta maior é que meu arquivo de textos chegue a 1000 textos (está em 770) e esss Drabbles vai ajudar nisso.
Boa leitura.

XVI-CARLO MALEDETTO

Carlo Maledetto, Conde de Volterra, mais poderoso guerreiro daquela época, recolheu-se a seus domínios, no fim da vida, e passou a ocupar-se de um belo jardim.
Quando uma horda de bárbaros Malkin invadiu Volterra e começou a decapitar, estuprar e queimar seus habitantes, Carlo nem se importou.
Mas, quando um dos bárbaros entrou no jardim e pisoteou um canteiro de rosas que Carlo havia cultivado, o Conde realmente enfureceu-se e, espada em punho, voltou-se contra os invasores e decapitou ou eviscerou duzentos bárbaros antes que a horda inteira fugisse. Para Carlo Maledetto seu jardim era coisa muito séria.

XVII-QUANDO O TEMPO SE DESPEDAÇOU

Dizem que foram os americanos, russos ou chineses que fizeram a experiência e tudo saiu do controle. Porém, realmente importa o culpado?
Quando o tempo se despedaçou, os túmulos se abriram e os mortos voltaram. Crianças se tornaram velhos e velhos se transformaram em crianças.
Dinossauros, cavaleiros medievais e homens das cavernas lutaram nas ruas. Robôs voadores cruzaram os céus e caçaram pessoas nos prédios das metrópoles.
A espécie humana foi extinta três vezes naquele mesmo dia e recriada outras três, apenas para então desaparecer para sempre.
E foi assim quando o tempo se despedaçou.

XVIII-NA ESTRADA DO TEMPO

Na estrada do tempo, há relógios por toda a parte e esperança em nenhuma. Fica no fim do universo, mas também escondida em todos os lugares.
Lá você percorrerá um caminho interminável que, porém, leva a lugar algum, enquanto sua vida se consome e se reduz a ossos e depois a pó.
Da estrada do tempo, não há volta, só o caminho a percorrer e, embora, sob certas condições, seja acessível a todos, não é recomendável a ninguém.
E foi à estrada do tempo que, após um experimento científico malogrado, o Dr. Overlando assim chegou…

XIX-JUSTINE

Raimundo Zapala cresceu na miséria. Desde o início, roubar lhe pareceu justo. Comecou com dinheiro, jóias, carros, até um amigo esquisito, metido a estudante de ocultismo, ensinar-lhe como roubar almas. Pouco depois, Raimundo descobriu que havia quem colecionasse isso e pagava bem. Enriqueceu, mas não deixou o negócio: pegara amor pela coisa.
Noite dessas estava num bar. Uma moça linda, Justine, aproximou-se dele. Beberam juntos. Beijaram-se.
Quando o beijo terminou, ela disse uma palavra. Raimundo reconheceu o encantamento. Empalideceu. Caiu morto na mesa. Justine recolheu a alma dele num pequeno frasco verde.Tinha um rico comprador australiano para aquele item.

XX- OS SETE DEDOS DE ARMANDO

Bacia de alumínio apoiada em tripé de ferro: um lavatório. Ficava no quarto de Armando Maledetto, item mágico comprado em suas viagens pelo mundo.
Armando acordou. Foi até lá. Com canivete, decepou o indicador esquerdo e deixou que o dedo afundasse na água. Era o preço. Logo as visões chegaram a sua mente. “O que seria agora?”, indagou-se. A cotação das ações, o cavalo vencedor na corrida de amanhã… Claro, os números do próximo sorteio da loteria.
Cuidou de estancar o sangue. Sorriu. Já era muito rico e tinha outros sete dedos a sacrificar.

maio 4, 2017 at 1:24 am Deixe um comentário

HQ – TK-52, O ROBÔ

Oi, pessoal,

Esta hq é o resultado de um humilde esforço meu e do artista Diego Josè (vocês precisam conhecer mais do trabalho desse cara), porém é baseada/inspirada na tira cômica “Z-25, o Robô Sensível” do artista argentino Liniers (Twitter: @porliniers). O material artístico de Liniers é extraordinário, recomendo a todos, tanto que nos inspirou a fazer esta hq (em nossa história, você pode achar um link para a tira original de Liniers, que nos autorizou a fazer esta hq).

É só clicar na imagem para ampliá-la.

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abril 27, 2017 at 10:02 pm Deixe um comentário

16 Drabbles

Olá, pessoal,

Peço desculpas pela demora entre a última atualização e esta. Em Outubro do ano passado (2017), algo bem ruim aconteceu em minha vida pessoal e do terremoto resultante.. Bem, viver ficou muito mais difícil.

Tenho em meu computador um arquivo com todos meus textos escritos, desde 2003, quando comecei a levar minha carreira de escritora amadora a sério. Excetuando algumas poucas coisas perdidas (o primeiro capítulo de “A Biografia dos Hellpats”, uma história sobre viagem no tempo que fiz em homenagem a um amigo e minha participação em dois contos coletivos num site agora extinto sobre RPGs) tenho 741 páginas. Excetuei as histórias em quadrinhos dessa contagem (para quem se interessar, tenho cerca de 50 páginas de hqs escritas por mim sozinha ou com parceira de outros autores).

Um sonho que tenho é que esse arquivo chegue a 1000 páginas. Para aumentar a quantidade de texto, impus a mim mesma três desafios. Um deles foi escrever 100 drabbles (minicontos de 100 palavras). Já tenho dezesseis. Faltam só 84.

Posto esses primeiros dezesseis aqui para apreciação de vocês.

Boa leitura.

I-JOANA DA BICICLETA

Pedalar, sempre pedalando. Apenas na sela da bicicleta azul, Joana sentia-se realmente feliz. Passava por ruas e casas; pessoas, carros e vidas, como se nada mais existisse para ela.

Sorriso de satisfação nos lábios, achava graça quando lhe diziam que, se o mundo acabasse, ela, nem mesmo perceberia.

Certa vez, pedalou mais do que de costume, até que parou cansada, debaixo de uma árvore, onde encostou a bicicleta. Sentou-se para descansar. Foi então que olhou ao redor e finalmente viu que todos estavam mortos. Toda a sociedade havia se reduzido a escombros.

Estava sozinha com sua bicicleta.

 

II-LIDE COM ISSO

Jailson se considerava feliz: era rico e casado com uma mulher perfeita.

Em fevereiro, porém, sequências de maus investimentos deixaram-no miserável e sua esposa morreu atropelada por um rabecão.

Um mês depois, voltava para sua nova casa, pequena e alugada. Gritava palavrões. Preferiria lidar com qualquer coisa, menos aquilo.

O computador estava ligado, mostrando o desenho de uma cena absurda na tela, e a frase “Lide com Isso”. Não teve ânimo para rir.

No momento seguinte, igual ao desenho, um demônio apareceu por trás dele e decapitou-o com uma foice.

— Prefere lidar com isso? — Riu a criatura.

III-SEBASTIÃO IMORTAL

Na infância, Sebastião descobriu seu dom, quando sobreviveu, impossivelmente, ao acidente automobilístico que esmagou seus pais. Aos trinta, parou de envelhecer e decidiu aproveitar o tempo para juntar a maior fortuna do mundo.

No século XXII, apaixonou-se obcecadamente por Eunice — tímida, calada e submissa. Casou-se com ela, mas ansiava mantê-la eternamente. Por isso, gastou, em pesquisas, o equivalente ao PIB da Suiça para torná-la, também, uma imortal.

Na segunda-feira, avisaram-no que em, duas semanas, começaria o tratamento final daquela mulher. Ficou eufórico.

Na manhã chuvosa de quarta, a polícia ligou-lhe: Eunice cometera suicídio com arma de fogo ilegal.

IV-SOLANO NO CÉU

Solano era o mais devotado e elogiado cristão de sua igreja. Esforçava-se dia a dia por uma única meta: ir para o céu.

Um dia, ele finalmente morreu e, ao abrir os olhos, viu-se diante do portão do paraíso e de três anjos de feições gentis.

— Oh, Eu consegui! — falou eufórico.

— Sim, e agora — disse um anjo ternamente. —, descobrirá o que acontece a cada humano que aqui chega.

— O que é? — inquiriu Solano.

Os anjos sorriram com seus olhos cheios de fome e atiraram-se sobre aquela alma. Com dentes afiados, fizeram-na em pedacinhos, que devoraram prazerosamente.

V-CAIENA

Diziam que Caiena, costureira de São Ribeirão, interior de Pernambuco, descendia de uma linhagem bimilenar de bruxas, mas ela mesma nunca falava sobre isso.

Embora de jeito simples no vestir-se, não havia mulher mais bela, por isso casou com Juvenal, solteiro mais cobiçado da região. Foram felizes, até que ele morreu, vítima de um assalto em Recife. A partir daí, Caiena vivia sozinha e celibatária.

Porém, sempre a meia-noite, invocava um feitiço proibido, então o fantasma de Juvenal aparecia, tornava-se sólido e faziam amor até o sol nascer e o espírito se dissolver de volta ao reino dos mortos…

VI – COMO SÍSIFO

Como um outro Sísifo, ele também desagradou os deuses, que o condenaram a arrastar uma grande pedra até o alto de um ladeira, apenas para ver o pedregulho despencar lá para baixo e o trabalho ter de se refeito pela eternidade.

Certa vez, porém, passou por ali perto a mais bela das mulheres. Ela parou, olhou para ele ternamente, sorriu e se foi embora.

Ele deslumbrado, perdeu a cabeça e o coração. Já quase no alto da ladeira, distraiu-se e a grande pedra rolou, levando-o junto, até esmagá-lo lá embaixo. Morreu feliz, com um sorriso no rosto.

VII-O JOÃO QUE DORME

João Trazimundo vivia muito deprimido: seu emprego se tornara uma tortura. O casamento, idem. Não suportava mais as pessoas e o mundo.

Uma noite, deitou-se rezando para nunca mais acordar. Dizem que, às vezes, os deuses atendem as preces mais estranhas… E assim foi.

Tudo isto aconteceu há cem anos. Agora, é o ano de 2117 e no Museu Governamental de Curiosidades Históricas, situado em Nova São Paulo, a capital do Império Fascista Brasileiro, sempre está exposto, numa caixão de vidro, o corpo de João Trazimundo, que nunca envelhece ou morre, mas que também nunca acorda.

VIII- CASTANHEDA

Como seu pai, seu avô e seu bisavô, Castanheda fabricava espadas mágicas que eram vendidas ao exército real, o mesmo que não perdia uma batalha há três gerações. Por isso, nenhum invasor cruzava as fronteiras do reino.

Todavia, de uma grande metrópole veio o Dr. Filógenas, que questionava isso de magia: afirmava que era superstição e, assim, as vitórias do exército real deviam-se às estratégias do rei e a coragem dos soldados. Aquele discurso contaminou a todos. As lâminas encantadas foram jogadas fora. Castanheda faliu e morreu de desgosto.

Breve um exército estrangeiro invadiu e escravizou o reino.

IX-OTÍLIO, O DESASTRADO

Dizem que, lá por volta do fim do século XXI, a Ciência desapareceu e a magia dominou o mundo.

Nessa nova era, todos eram feiticeiros, mas Otílio não se dava bem com mágica: era o mago mais atrapalhado de todos. Não acertava um único encantamento. Multidões zombavam dele. Alguns o espancavam por diversão.

Furioso e magoado, enterrou-se no estudo de feitiços proibidos. Jurou vingar-se. Uma noite desmaiou de esgotamento.

Acordou três dias depois, com o sol alto. Caminhou pelas ruas com um sorriso de triunfo no rosto:

Por toda a parte, uma doença misteriosa assassinava as pessoas.

X-ARCTOS, O DUENDE

Arctos, príncipe dos duendes, vencedor de mil batalhas, cuja espada mágica, destreza e coragem tornaram-no lendário naquele mundo, sentia-se terrivelmente entediado de tudo.

Até que Azenite, insidiosa bruxa dos duendes, falou-lhe sobre outro mundo, diferente de tudo que ele já vira. Curioso, Arctos pediu que o transportasse até lá.

Azenite assim o fez e o príncipe caiu num local onde não havia magia. Sua espada, habilidade e coragem se desfizeram. Ficou mergulhado na lama, incapaz de levantar-se, até que os quatro cães de Seu Joca vieram e o destroçaram naquele quintal de Sorocaba, interior de São Paulo.

XI-A ROSA DE ANTON HELSMER

Anton vivia sozinho e isolado de tudo, na propriedade que herdara dos pais, onde se dedicava a estudar Botânica e Magia. Sonhava produzir a mais bela rosa que já se vira.

Empenhou-se por muitos anos, enquanto seus cabelos tornavam-se brancos, porém, nenhum dos resultados lhe agradava.

Um dia encontrou o encantamento correto. Amedrontou-se no início, mas sua idade avançada e seu sonho no coração deram-lhe a coragem necessária.

Fez o feitiço no jardim. Tombou morto. Seu corpo se decompôs e, das cinzas que um dia foram Anton Helsmer, a mais bela e inigualável rosa brotou.

XII-PINGO, O FUGITIVO

Em 2017, a crise econômica devorava o Brasil. Seu Gumercindo, desempregado, afundava-se na bebida. A luz e a água foram cortadas e faltava comida naquela casa.

Numa manhã, o cão Pingo escutou seu Gumercindo conversando com a família: esfomeados, decidiram comer o cachorro. Pingo fugiu imediatamente.

Vagou triste e sem destino, até que, com a barriga faminta, distraiu-se atravessando a BR-101 e foi atropelado.

Então, um grupo de mendigos acampados perto dali, os mesmos que, meses atrás, eram os orgulhosos funcionários de uma revendedora de motos, recolheu o cadáver de Pingo para usá-lo no almoço de domingo.

XIII-PLAUTO

Caído no chão entre paredes acolchoadas, Plauto forçou novamente a camisa de força.

“É uma conspiração…”, murmurou, “Levaram minha família: Helena, Júlio e Mariane. Onde esses demônios esconderam vocês?”

Não choraria. Tinha de ser forte para fugir dali e salvar sua família.

**************

Os enfermeiros Eulálio e Alcebíades olhavam pela abertura na porta da cela do paciente nº 427.

— Quem é ele? — indagou Eulálio.

— Você é muito novo pra lembrar —, respondeu Alcebíades para o novato —. Era um cozinheiro famoso, tinha até programa de televisão. Endoidou e envenenou o jantar da família, mas não lembra do que fez…

XIV-EUSÉBIO, O CAMINHANTE

Caminhando, sempre caminhando. Quanto tempo fazia? Cinquenta anos, e ele não envelhecera um minuto e a morte nunca o alcançava.

Há cinquenta anos, Deus finalmente perdeu toda paciência com a humanidade. Os anjos desceram dos céus e queimaram o mundo inteiro.

Eusébio viu esposa e filha dissolvendo-se nas chamas angelicais. Ele gritou, sem entender porque fora poupado.

Os anjos, por não serem demônios, podiam escolher agir piedosamente e decidiram deixar uma única lembrança de que o ser humano já caminhara sobre a Terra.

E olharam para Eusébio e o amaldiçoaram a caminhar sobre o mundo para sempre.

XV-AMARYLLIS

Amaryllis, a cantora, descobriu ter o dom de manipular as pessoas com suas canções: faze-las reprimir o lado maligno do próprio coração. Com esse poder, sonhava mudar o mundo.

Logo tornou-se a sensação daquele país. Uma noite, apresentava-se na chique boate Vladimir Chenier, mas quando ia começar, um estranho levantou-se, olhou para ela e atirou-lhe direto na cabeça.

Amaryllis foi enterrada dois dias depois. O país cobriu-se de luto. Oficialmente fora assassinada por um fã louco que desaparecera.

O assassino, na verdade, um demônio chamado Remíscar, voltara ao Inferno, com a certeza de que o status quo seria mantido.

março 26, 2017 at 3:59 am Deixe um comentário

Gerald Bensamir

GERALD BENSAMIR

Ontem à tarde, Gerald Bensamir estava aprendendo Português. Embora digam que esta é uma das línguas mortas[1] mais difíceis da Galáxia, Gerald adora desafios. Ele até riu com os verbos portugueses e suas quase infinitas terminações. Achou-os diabolicamente divertidos.

Além de estudar línguas exóticas, o Sr. Bensamir tem outro passatempo incomum: colecionar planetas. No último verão, ele adquiriu mais três novos mundos. Se isso lhe trouxe grande prazer, todavia, obrigou-o a tomar algumas medidas extremas.

Um desses planetas era uma esfera vermelha habitada por humanoides, que, com exceção da pele azulada, eram de todo idênticos ao seres humanos, inclusive nos defeitos. Incomodado, Gerald contratou uma firma de extermínio de pragas e eliminou todos os humaníticos daquele precioso novo mundo.

Um outro planeta adquirido era coberto, em toda a sua superfície, por um único ser vivo, que consistia de uma membrana orgânica alaranjada de um quilômetro de espessura. Era também consciente, filosófico e abençoado com uma inteligência fenomenal. Porém, quando pensava, aquela criatura liberava, direto na atmosfera, o gás mais fétido que se possa imaginar. Não foi difícil para Gerald deduzir o motivo de outros seres daquela esfera terem sido extintos (como atestava os fósseis encontrados). O cheiro nauseabundo dos pensamentos da criatura realmente incomodava Bensamir e ele mandou que seus especialistas realizassem, com produtos químicos, uma versão em escala planetária para uma lobotomia. Logo, Gerald estava satisfeito ao constatar que os gases nauseabundos cessaram de ser emitidos.

O terceiro planeta era uma maravilha de diversidade de formas de vida. A mais notável, porém, eram flores que cobriam dois quartos da área total daquele mundo. Gerald logo descobriu que tratavam-se de organismos inteligentes que conversavam entre si numa linguagem aparentemente ininteligível. Ele não teve demora e – apoiado por um batalhão de linguistas – dedicou-se a tarefa de decifrar aquele idioma floral. O esforço foi recompensado quando ele finalmente pôde entender o diálogo incessante daquelas plantas, mas seu coração se encheu de repulsa e desapontamento: as flores eram racistas, supremacistas e conspiradoras, e tramavam para extinguir os outros seres vivos daquela mundo para que apenas a espécie delas restasse.

Gerald acionou seu grupo de geneticistas, que liberaram um vírus experimental e as flores sofreram uma regressão evolutiva de talvez dez milhões de gerações até voltarem a ser vegetais inofensivos e de pouca inteligência que cantarolavam entre si grunhidos igualmente inofensivos e sem importância.

Como os negócios estavam andando muito bem e a fortuna de Gerald Bensamir crescia de forma absurdamente generosa, ele pensou em expandir sua coleção: por que limitar-se a colecionar planetas, quando podia fazer isso com galáxias?

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege e Fernanda Turesso

[1] pelo menos, até onde se sabe, o último falante da Língua Portuguesa, um certo Sr. Joaquim Farias de Messa, habitante de Nova Lisboa, planeta Terra, morreu na Grande Guerra Genocida do fim do século XXIII.

outubro 26, 2016 at 3:07 am 1 comentário

Historietas Inquietas (parte 3)

7.O MAU HUMOR DE EZEQUIAS

 

Era dos mais deploráveis o humor de Ezequias Medeiros. Acordava tendo o mundo como inimigo e a vida, como o pior dos flagelos. Tudo, e até mesmo alguns absurdos, era motivo para deixá-lo caído numa depressão que dava medo.

— Realmente odeio tulipas. – disse, certa vez, numa manhã de segunda-feira — Tenho por elas um ódio entranhando em minha alma. Considero-as como flores de uma idiotice desmedida. Se acaso pudesse, eu exterminaria toda a espécie das tulipas deste mundo.

E então arrumou-se para ir ao trabalho, implorando que o mundo acabasse antes de ele chegar até a empresa.

Numa noite de terça-feira, após assistir na TV a um jogo em que seu time favorito havia perdido de um a zero, foi deitar-se com uma nova conjectura:

— Fico indignado com a forma esférica. É de um mau gosto que me dói as entranhas. Quem diabos condenou as pobres bolas a serem esféricas? Abomino seja quem for que tenha imposto essa tirania a elas. Onde fica o livro arbítrio das bolas? Tenho pena delas! Ah, os deputados e senadores, esses desocupados, por que não fazem uma lei proibindo a forma esférica neste país?

E foi dormir sentindo-se invejoso dos mortos no terremoto do Haiti, os quais, ao menos, seriam poupados de acordar no tedioso dia seguinte.

No fim de uma tarde de quarta-feira, voltava do trabalho lamentando-se que algum atentado terrorista a tiros não tivesse ocorrido na cidade, pois, afinal, nada de realmente interessante parecia acontecer naquele município tediamente amaldiçoado.

Em casa, arriou pesadamente o corpo numa poltrona velha, tomou por única companhia uma xícara de café amargo com leite desnatado, olhou para um dicionário jogado num canto da sala e filosofou:

— E ainda há quem defenda essa classe incômoda dos adjetivos! Por que aqueles gramáticos, que ocupam nosso tempo com sandices, não abolem esses tais adjetivos da Língua Portuguesa? – e bebericou um pouco de café — Passaríamos muito bem sem essas coisas.

Na noite da quinta-feira chuvosa, que se seguiu, Ezequias ocupava-se de um jornal enquanto os céus castigavam as ruas da cidade com o maior aguaceiro daquele ano. Ele parou a leitura por um momento e disse desgostosamente:

— Aqui chove como o Diabo, lá no sertão, uma única gota de chuva não é vista há meses… Que natureza é essa, que não sabe dividir os recursos hídricos? Que repartisse esse tanto todo de chuvas entre aqui e os coitados dos sertanejos! Não sabe a natureza as noções mais básicas de gerenciamento? É o que digo: esta é a desgraça deste país: a ignorância, pois, nesta terra, até a natureza não sabe o que faz.

Na sexta-feira, acordou indisposto como o Inferno. Nem mesmo queria se levantar. Grunhiu algum palavrão impossível de ser escrito e murmurou:

— Desprezo com todo meu coração esse tal de oxigênio, esse elemento químico intrometido que se atreve a invadir minhas narinas sem convite algum. Pelo hidrogênio ou hélio, tenho lá minha simpatia, mas esse oxigênio merece que eu cuspa-lhe na cara! Estou decidido, não quero mais essa coisa nojenta em meus pulmões.

Ficou na cama fazendo planos. Sabia que tentar prender a respiração ou estrangular-se com as próprias mãos seria inútil. Então, lembrou-se do faroeste a que assistira na semana anterior e foi a mercearia Neco Rodrigues & Filhos. Esperou na porta até as 07:00 h, quando aquele estabelecimento abriu, e comprou a melhor e mais forte corda que o Sr. Rodrigues pôde oferecer.

Voltou para casa, prendeu a corda num viga no teto da cozinha, subiu numa cadeira, fez um laço e colocou-o no pescoço, e saltou para frente, como quem procura o infinito.

Morreu com um sorriso nos lábios. Partira vitorioso: havia derrotado o oxigênio.

 

Fim

 

outubro 6, 2016 at 4:14 am Deixe um comentário

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