Gerald Bensamir

outubro 26, 2016 at 3:07 am 1 comentário

GERALD BENSAMIR

Ontem à tarde, Gerald Bensamir estava aprendendo Português. Embora digam que esta é uma das línguas mortas[1] mais difíceis da Galáxia, Gerald adora desafios. Ele até riu com os verbos portugueses e suas quase infinitas terminações. Achou-os diabolicamente divertidos.

Além de estudar línguas exóticas, o Sr. Bensamir tem outro passatempo incomum: colecionar planetas. No último verão, ele adquiriu mais três novos mundos. Se isso lhe trouxe grande prazer, todavia, obrigou-o a tomar algumas medidas extremas.

Um desses planetas era uma esfera vermelha habitada por humanoides, que, com exceção da pele azulada, eram de todo idênticos ao seres humanos, inclusive nos defeitos. Incomodado, Gerald contratou uma firma de extermínio de pragas e eliminou todos os humaníticos daquele precioso novo mundo.

Um outro planeta adquirido era coberto, em toda a sua superfície, por um único ser vivo, que consistia de uma membrana orgânica alaranjada de um quilômetro de espessura. Era também consciente, filosófico e abençoado com uma inteligência fenomenal. Porém, quando pensava, aquela criatura liberava, direto na atmosfera, o gás mais fétido que se possa imaginar. Não foi difícil para Gerald deduzir o motivo de outros seres daquela esfera terem sido extintos (como atestava os fósseis encontrados). O cheiro nauseabundo dos pensamentos da criatura realmente incomodava Bensamir e ele mandou que seus especialistas realizassem, com produtos químicos, uma versão em escala planetária para uma lobotomia. Logo, Gerald estava satisfeito ao constatar que os gases nauseabundos cessaram de ser emitidos.

O terceiro planeta era uma maravilha de diversidade de formas de vida. A mais notável, porém, eram flores que cobriam dois quartos da área total daquele mundo. Gerald logo descobriu que tratavam-se de organismos inteligentes que conversavam entre si numa linguagem aparentemente ininteligível. Ele não teve demora e – apoiado por um batalhão de linguistas – dedicou-se a tarefa de decifrar aquele idioma floral. O esforço foi recompensado quando ele finalmente pôde entender o diálogo incessante daquelas plantas, mas seu coração se encheu de repulsa e desapontamento: as flores eram racistas, supremacistas e conspiradoras, e tramavam para extinguir os outros seres vivos daquela mundo para que apenas a espécie delas restasse.

Gerald acionou seu grupo de geneticistas, que liberaram um vírus experimental e as flores sofreram uma regressão evolutiva de talvez dez milhões de gerações até voltarem a ser vegetais inofensivos e de pouca inteligência que cantarolavam entre si grunhidos igualmente inofensivos e sem importância.

Como os negócios estavam andando muito bem e a fortuna de Gerald Bensamir crescia de forma absurdamente generosa, ele pensou em expandir sua coleção: por que limitar-se a colecionar planetas, quando podia fazer isso com galáxias?

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege e Fernanda Turesso

[1] pelo menos, até onde se sabe, o último falante da Língua Portuguesa, um certo Sr. Joaquim Farias de Messa, habitante de Nova Lisboa, planeta Terra, morreu na Grande Guerra Genocida do fim do século XXIII.

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Historietas Inquietas (parte 3) 16 Drabbles

1 Comentário Add your own

  • 1. Daniel Folador Rossi  |  outubro 31, 2016 às 9:39 pm

    Boa, Rita

    Um linguista um tanto egoísta… Pobre ser-gelatinoso-pensante, e os outros seres mortos 😛

    Abraços!

    Resposta

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