UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

agosto 28, 2016 at 3:17 am 2 comentários

Recentemente, foi aniversário do filhote. Ele completou dezoito anos finalmente, mas, como digo, será sempre meu bebê.
Ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano, ele pediu dois. Um deles foi “Giuseppe, o de Muitos Corações”. O outro é este.
Boa leitura.
P.s. Ele gosta de histórias bizarras.

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Por Rita Maria Felix da Silva

Tarde de domingo. Um daqueles dias realmente típicos na Vila Zeca Timóteo ─ que, se você não lembra das aulas de Geografia, fica lá no município de Santana da Serra, Zona da Mata Norte de Pernambuco.
Num banco de praça, dormia Seu Aquiles, um idoso gordo, barrigudo e de cuja cabeça os cabelos já haviam se despedido. O sono profundo daquele ancião era embalado pelo som de seu próprio ronco, que se rivalizava com o barulho de qualquer um desses grandes caminhões modernos. No meio da testa, colado com o nariz, havia apenas um grande, fechado e único olho (razão pela qual ele invocava ancestralidade grega). Vez ou outra, da boca escapava uma baba verde que se espalhava pelo chão. Um pequeno pardal, mais curioso que seus semelhantes, pousou, provou aquele líquido esmeralda e caiu estendido tão morto quanto a honestidade na política brasileira.
Perto de Seu Aquilles, Neco de Tonha aguardava com o carrinho de pipocas. Aquele pipoqueiro oferecia seu produto em três tipos, ao gosto do freguês: doce, salgada ou azul. Um mosca das mais graúdas passou voando perto da cabeça dele. Neco abriu a boca e sua língua se esticou uns cinquenta centímetros para fora até capturar o inseto, que ele engoliu com satisfação. Depois, tirou do bolso da camisa xadrez um caderninho de anotações e marcou um número lá. Cento e cinquenta e um, esta semana. Logo iria bater seu próprio recorde.
Bem perto de onde estava Neco, Inhá Matilda ─ que, com seus quarenta e oito anos, nunca realizara o sonho de se casar por amor, porque, na verdade, nunca conseguira se apaixonar por ninguém ─ estava de quatro no chão. Seu brinco favorito caíra da orelha e ela o procurava pela grama com o mesmo desespero de quem anseia encontrar um filho perdido. Sem que Matilda percebesse, próximo a seu bumbum pairava um cupido adorável, porém, psicopata e assassino serial ─ razões pela qual Zeus o expulsara do Olimpo já fazia tempo. Sem que ela sequer sonhasse, aquela criaturinha alada apontava-lhe para as nádegas uma flecha explosiva o bastante para reduzir aquela mulher a tantos pequenos pedaços que seria cansativo de contar.
À direita de Matilda, havia um arbusto, atrás do qual um grupo de cinco crianças observava com atenção um crânio, obviamente sem corpo, que saltitava e quicava pelo chão da praça. Os pequeninos não se escapavam de fazer seus próprios comentário diante do evento:
─ Que Massa! ─ disse Manezinho.
─ Que lindo! ─ exclamou Juninho Batata.
─ É feito naquele desenho da Disney! ─ opinou Mariazinha de Leléu.
─ Papai vai comprar um desses pra mim! ─ jurou Tulinho Pedreira.
─ Parece biscoito recheado! ─ classificou Luquinhas e completou ─ Eu quero um pedaço!

FIM

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