Histórias Inquietas (Parte 3)

julho 25, 2016 at 1:57 am 1 comentário

Oi, pessoal.
Para a atualização desta semana, finalmente um outro historieta inquieta. Sobre a duração desta série, eu diria que deve ter de dez a doze histórias, isso se os deuses me permitirem chegar tão longe.
A frase estranha tem a ver com a fase que estou passada, que, bem, classificá-la de problemática é eufemismo (às vezes, eu gostaria de fazer como o Capitão Adamastor, da peça Alzira dos Navegantes, de Márcia Tondello: simplesmente fechar os olhos, desistir da vida e partir….)
Por conta disso, escrever ficou complicado, pois esta época tem me abalado muito. Assim, uma das coisas que tenho feito é passar idéias para amigos escritores, que podem usá-las em seus próprios textos. Aos menos deste modo, essas idéias não se perdem.
Esta historieta surgiu justamente quando eu passava uma sugestão para um colega, pois uma idéia puxou outra. Também é uma humilde contribuição à causa LGBT, as outras foram o texto Bruno e a Hq O Major Rasskazov, ambos disponíveis aqui no blog. Boa leitura!

6. MOMENTO EM FAMÍLIA

Quando isto aconteceu era inverno, Julho de 2024. Foi em Terra Rubra, distrito de Várzea de Deus, Mata Sul do estado de Pernambuco. Poliana tinha dezenove anos. Cursava administração na faculdade e trabalhava com telemarketing.

Os tempos estavam se tornando mais sombrios. Ela havia desistido de acompanhar noticiários, cansada com o matraquear feroz de evangélicos extremistas e católicos radicais que pregavam selvagemente contra minorias e religiões não-cristãs. O líder deles, o Deputado Federal e Pastor Domingos Viola, quando discursava, o coração daquela jovem inundava-se de medo.

Uma manhã de domingo, ela voltava para casa. Pela primeira vez na vida, passara a noite fora.

Encontrou a mãe numa cadeira, na mesa da cozinha. Dona Lúcia estava de costas, tinha perto dela a Bíblia, sua bolsa e um jornal em cuja leitura parecia totalmente absorvida. Jornal de papel. Recusava-se a usar Internet desde que Viola acusara a Web de ser estratagema do Diabo.

Poliana tomou coragem. Havia decidido que precisava ter aquela conversava com Dona Lúcia. Era o mais correto a fazer.

— Mãe, bom dia. Olha, desculpa, eu não dormi em casa… Desculpa também porque não avisei. Mas tem uma explicação. Quero te contar uma coisa. Sei que a senhora ficou muito, assim…. Cabeça fechada depois que entrou pra essa Igreja, mas é minha mãe e a gente tem de conversar.

“A senhora já deve ter desconfiado disso, claro, mas… Lembra de Elvira? Ela cresceu aqui na vizinhança, a gente era muito amiga, até ela se mudar com a família pra São Paulo. Acontece que Elvira voltou ontem. Mãe, ela tá tão linda! A gente se encontrou por acaso, passamos o dia andando de um lado pro outro.

Ela me chamou pra jantar. A gente conversou muito. Me abri com ela: sobre como não me sinto bem namorando homens, que garotas me atraem, mas eu não tinha coragem de admitir. Quando percebi, nossa, eu e ela, a gente tava se beijando! Foi a primeira vez que eu beijei uma garota. Ela me chamou pra casa dela e a gente, bem… A gente dormiu juntas. Juro que nunca tinha feito isso antes… Mas não me arrependo: foi maravilhoso. Nunca fui tão feliz. Agora entendo que faltava uma parte minha, algo que eu não enxergava, que não queria aceitar. Agora me sinto finalmente completa. Em paz comigo mesma. É, mãe, eu sou lésbica e queria conversar com a senhora sobre isso…”

Com fúria nos olhos, Dona Lúcia virou-se para a filha. Abriu a bolsa e de lá sacou um revólver calibre 38. Atirou por duas vezes contra Poliana que caiu e sangrou no chão da cozinha. Em seu rosto havia apenas um olhar de súplica e confusão. Depois parou de se mover, para sempre.

Dona Lúcia ajoelhou-se chorando, a arma ainda segura na mão direita, e disse:

─ Sua abominação… Eu não queria fazer isso, eu juro… Foi você que me obrigou… Foi você… Foi você… Foi você…

A folha de jornal escorregou da mesa e repousou no chão perto de Dona Lúcia. Na notícia em destaque podia-se ler:


“VITÓRIA DA FAMÍLIA CRISTÃ BRASILEIRA: DEPUTADO PASTOR DOMINGOS VIOLA CONSEGUE APROVAÇÃO DA LEI 14.738/2024 QUE CRIMINALIZA O HOMOSSEXUALISMO E PREVÊ PENA DE MORTE PARA OS INFRATORES
Viola, que já havia saído vitorioso com a aprovação de uma lei que assegura porte de arma a todo brasileiro maior de idade e sem antecedentes criminais, consegue agora, depois de uma grande articulação política, um novo triunfo com a lei 14.738, que, inclusive, autoriza os pais, como forma de poupar despesas ao erário público, que possam eles mesmo executarem seus filhos homossexuais”.


FIM

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QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU… Dueto Humano-Feérico

1 Comentário Add your own

  • 1. Adriana "Strix"  |  novembro 13, 2016 às 2:52 am

    É possivelmente um dos contos mais aterrorizantes que você escreveu.

    Responder

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