Historietas Inquietas (Parte 2)

julho 5, 2016 at 2:05 am Deixe um comentário

Numa noite em que o cansaço e as preocupações estão me consumindo, passo um pouco apressada para fazer esta atualização.
Boa leitura!

4. O QUE PAPAI TROUXE PRA MIM

Esta história aconteceu há algum tempo, quando o mundo era diferente, mas não melhor do que hoje.

Foi na cidade de Riacho de São Sebastião, lá na Mata Norte de Pernambuco. Eram sete da noite e a menina esperava na janela de sua casa. Seu pai aproximou-se subindo a Ladeira de Nossa Senhora das Lágrimas. Vinha de terno e gravata. A valise bem segura na mão direita. O rosto, uma mistura de feições cansadas e mal humoradas após mais um dia de trabalho.

A pequena, completara dez anos não fazia nem três meses, esperou que ele estivesse perto o bastante para ouvi-la claramente dizer:

─ Papai, o que o senhor trouxe pra mim? Trouxe amor?

O homem olhou a garota como se estivesse diante da coisa mais absurda do mundo e respondeu:

─ Mas que comédia é essa? Venho daquele Inferno de escritório e você salta com uma pilhéria? Me mato todo dia de tanto trabalhar naquela merda pra por comida na tua boca e na da tua mãe e você sai com essa história de amor? Menina tonta, amor não dá dinheiro, não enche barriga, não paga as contas do mês, não cobre o cheque que vai voltar na segunda-feira ou o aluguel que vence todo dia vinte… Ora essa, por acaso ficou doida? Vem perguntar de amor… Quer saber: para que serve o amor afinal? Pra porcaria nenhuma!

A menina suspirou profundamente, com um desapontamento e sabedoria que escapavam ao entendimento de seu pai, e sentenciou:

─ Se não trouxe amor, então por que voltou pra casa?

Após esta frase, a pequena, que nunca queria ser vista chorando, prendeu as lágrimas e foi buscar refúgio no quarto, em seus livros, que ela pegava emprestado na biblioteca da escola (Julio Verne, Alexandre Dumas, H.R. Haggard, Robert E. Howard, Mary Shelley, Jane Austen, Emily Brontë e alguns outros). Eram seus amigos, sua alegria, e a levavam a lugares certamente mais interessantes que a alma seca de seu pai.

Quanto ao pai, entrou furioso como se quisesse pôr fogo no mundo:

─ Amor? Ora, essa moleca merecia era umas palmadas pelo atrevimento…

Sentou-se na poltrona da sala. Ligou o rádio para escutar um noticiário policial, sangrento e sensacionalista. Acendeu o cachimbo. Gritou duas ou três vezes com a esposa para descarregar as frustrações do dia de trabalho e recusou a sopa que a mulher fizera para ele. Sentia-se indisposto, não queria comer. Pôs o cachimbo de lado e logo adormeceu para um sono sem sonhos, amaldiçoando-se por ter de voltar ao escritório no dia seguinte.

FIM

5. OLEGÁRIO MARIANO, ATOR

Naquele tempo, Olegário Mariano já havia se consagrado como o melhor ator do país. Os críticos e os invejosos iam até mais longe: classificavam-no como o maior de todos os tempos.

Olegário gostava dos elogios, mas os escutava com prudência. Era esforçado, claro, mas não enaltecia o próprio talento, embora reconhecesse que era muito bom.

Todavia, mesmo com toda a prática a que se dedicara desde os quinze anos de idade, ainda não havia conseguido chegar perto de seu maior sonho: a interpretação perfeita, aquela que não apenas convenceria a plateia de forma infalível, mas também até mesmo o próprio ator se esqueceria da realidade. A interpretação seria tão real que se confundiria com o real. Contudo, enquanto os anos lhe encurtavam a vida, acabou por se convencer de que aquela meta era inalcançável.

Entretanto, aos sessenta anos de idade, estava visitando amigos em Santo Antônio do Irajá, cidade do sertão pernambucano, e lá, por insistência dos fãs, aceitou ministrar um curso de interpretação de uma semana.

No último dia do curso, foi mostrar como se interpretava a famosa cena da morte do Capitão Adamastor, na peça teatral “Alzira dos Navegantes”, de Márcia Tondello. Todos conhecem essa parte: quando Adamastor, após perder tudo o que amava, deita-se, fecha os olhos, abre mão da vida e morre.

Olegário havia interpretado essa cena pelo menos vinte vezes em sua carreira, não seria novidade para ele. Primeiro, explicou a importância daquela sequência da peça para a dramaturgia brasileira. Depois, encenou o monólogo com o qual o Capitão Adamastor se despede da vida (“Eu vos digo adeus, meus desafortunados companheiros da humanidade, porém não são mais desafortunados do que eu…” era o começo). Então, deitou-se no palco, fechou os olhos e interpretou o melhor que pôde. Por um segundo, veio-lhe a mente o sonho da interpretação perfeita, mas, com tristeza, ele ignorou o pensamento.

Os alunos olhavam estupefatos para Olegário estendido no chão. Não apenas parecia morto, não apenas era convincente, mas sim, perfeito. Todos se derramaram em palmas e elogios para o velho ator.

Após um tempo, alguém estranhou a demora na interpretação. Chamaram por ele, mas Olegário não respondia. Tocaram-lhe, sacolejaram-lhe o corpo. Nenhuma resposta. Um aluno se preocupou em testar o pulso, verificar os sinais vitais. Nada. Ligaram e veio uma ambulância para levá-lo ao hospital. Os enfermeiros, ao chegarem, tentaram reanimação cardíaca, porém, nada adiantava.

Olegário Mariano já estava morto quando o puseram na ambulância, continuava morto quando chegou ao hospital Casa da Nossa Saúde, naquela cidade, e assim, nessa condição inalterável de morto, foi sepultado dois dias depois num cemitério no Rio de Janeiro.

Até hoje se especula sobre a causa da sua morte, mas os médicos jamais conseguiram determinar qual foi. Clinton Davisson, o maior biógrafo de Olegário Mariano, costumava aplicar certo dito popular para resumir o que ocorrera:

“Viva pela Arte e morra por ela!”

FIM

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UMA ROSA PARA RAFAELA QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU…

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