PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU

maio 16, 2016 at 1:05 am Deixe um comentário

Oi, pessoal,

Como devem ter percebido, não tenho atualizado este blog com a freqüência que deveria. 2016 não tem sido um ano fácil para o Brasil e nem para mim. Alguns problemas diversos tem consumido meu tempo, além disso vivo bem ocupada organizando a antologia da Guerra dos Muitos Mundos (espero que vocês estejam lendo e gostando) e revisando os textos de alguém muito querido.

De qualquer modo, chegamos a trágica (?) história de Aimberê e Araquém. Quando comecei a escrevê-la, seria parte de “Historietas Inquietas”, um pequeno projeto pessoal em que estou trabalhando, mas como começou fugir dos padrões das historietas, estou postando-a a parte.

PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU
Por Rita Maria Felix da Silva

Assim falou o Pajé Bacuara, contador de histórias, irmão
do lendário Morubixaba Hurassi, durante a grande
cerimônia Avati Kyry daquele ano:

“Há muito tempo, ─ entre Tupã e Araci descerem dos céus para criarem tudo que existe e o primeiro do nosso povo ter nascido ─ lá longe, onde hoje a terra é sempre seca e nada cresce, havia uma floresta e nela viviam dois irmãos: Aimberê e Araquém. Eram gigantes, maiores que os montes. Quando sentiam sede, secavam um rio. Se a fome lhes incomodasse, devoravam uma dezena de árvores cada um.

Sem nada para fazer ou que pudesse desafiá-los, Araquém ocupava quase todo seu tempo em dormir. Já Aimberê, que nunca dormia, gostava de caminhar durante o dia e, à noite, jogar grandes pedras contra o céu, no desejo de poder derrubar as estrelas. As pedras, todavia, nunca chegavam ao firmamento e caiam de volta na cabeça do gigante, o que o fazia ferir-se constantemente.

Certa vez, Araquém contou a Aimberê sobre o sonho que tivera: de uma brisa que vagava pelos mundos narrando e escutando histórias, a qual lhe soprou ao ouvido sobre Amonati, a montanha no centro do mundo, mais alta que qualquer coisa e, por isso, se alguém conseguisse subir até o pico poderia alcançar o céu.

─ E derrubar as estrelas! ─ disse entusiasmado Aimberê.

─ Talvez ─ respondeu seu irmão, ─ porém, a brisa também me falou sobre uma lenda de que algo terrível e irrevogável sempre acontece a quem ousar subir aquela montanha.

─ Não importa! ─ retrucou Aimberê ─ Nós iremos até lá e depois… Derrubar as estrelas do céu…

Araquém protestou e recusou-se aquele plano por dias, mas ao final, como sempre acontecia, o irmão o convenceu.

E, assim, seguindo o sonho que Araquém tivera, eles vagaram pela Terra, até Amonati, no centro do mundo, para escalar a montanha mais alta que qualquer coisa.

Não foi uma jornada tranquila ou indolor e tantas aventuras eles viveram ─ algumas gloriosas, outras tolas ou risíveis. No meio delas, Araquém, amaldiçoado por Eçaiara, uma feiticeira de coração rancoroso a quem ele insultara por causa da feiura, perdeu um olho e passou a mancar da perna direita.

Aimberê conheceu e tornou-se amigo de um guerreiro a quem ele chamava de Avaré, que perdera toda a memória de quem já fora e da missão a que dedicara sua vida, pois fora amaldiçoado por Anhangá, o qual foi derrotado pelo guerreiro num jogo de Adugo . Para salvar seu amigo, Aimberê enfrentou uma gigantesca cobra de fogo e, embora tenha vencido a fera, Avaré foi esmagado pelo cadáver da criatura e Aimberê terminou com o lado direito do rosto eternamente desfigurado.

Pelo menos mil histórias são contadas sobre eles dois e o que fizeram naquela viagem. Eu mesmo conheço duas ou três, mas não sei de ninguém que possa contar todas elas.

Fato é que, muito tempo se passou, mas, um dia, os dois irmãos chegaram finalmente a Amonati, a montanha no centro do mundo. Pararam diante dela e Araquém hesitou, porém, graças a insistência de Aimberê, eles começaram a subir.

Contudo, a montanha era ainda mais alta do que eles poderiam imaginar. Por vezes, seus músculos prodigiosos de gigantes falhavam e eles paravam para descansar, esgotados como nunca imaginaram ser possível. Havia o frio, que aumentava à medida que subiam e ameaçava destroçar-lhes os ossos e a fome devorando seus estômagos, pois a comida que levaram inevitavelmente acabou. Mas, acima de tudo, estava o rugido selvagem dos vento, que gritava aos ouvidos deles como se todas as feras do mundo gritassem ao mesmo tempo, e reinava suprema aquela sensação de desesperança e desolação, como se o mundo, os deuses e tudo que existe houvesse se esquecido deles.

Como sempre fora, Araquém continuava apenas porque seguia o irmão e era nessa lealdade, que ele sentia minguar vagarosamente, na qual ele se sustentava.

Aimberê se agarrava ao desejo de derrubar as estrelas do céu. Repetia para si mesmo que logo chegariam ao topo e se esforçava para manter a chama dessa vontade ainda acesa em seu coração. Porém, em seu peito, o coração de gigante começava a parecer pequeno demais para animá-lo a continuar.

Então certo dia ─ ou noite, o tempo havia perdido todo o significado para eles ─ Araquém assim falou:

─ Irmão, não aguento mais. Eu lhe segui por toda a vida e seguiria até o fim, mesmo agora que minhas forças não mais existem. Porém, o medo me domina e é mais poderoso do que eu sonharia algum dia ser. Meu coração grita que algo muito ruim e irrevogável vai acontecer e, por isso, eu recuo. Perdoe-me se sou covarde. Desejo-lhe sorte. Adeus.

Aimberê olhou pela última vez para Araquém, que começava a descer. Sabia que o irmão nunca conseguiria voltar ao chão vivo, que tombaria no caminho e despencaria para morrer lá embaixo. Não importava. Tinha ido longe demais para desistir… E, assim, concentrou-se no seu desejo de derrubar estrelas (iria derrubar todas elas) e prosseguiu sua subida.

Então, um dia, e Aimberê sentia-se velho e enrugado, ele acreditou que finalmente estava perto do topo, era preciso esforçar-se só um pouco mais e conseguiria, no entanto… Algo aconteceu e ele parou. Ficou em silencio, ponderou sobre tudo o que havia passado naquela subida, até mesmo em seu irmão, uma memória distante, cujo nome já não mais lembrava. E algo quebrou-se em sua alma, ou se recompôs ou se desfez… Quem pode saber? E ele mudou e alcançou a sabedoria e a iluminação. Olhou para o espaço ao redor dele e depois para seu próprio interior, até seu eu mais profundo, e veio-lhe uma compreensão de si mesmo e de todas as coisas como nunca imaginou que fosse possível. Tendo entendido e aprendido uma verdade maior por trás e por dentro de todas as coisas, Aimberê percebeu que não havia motivo algum por que lutar, persistir ou fazer qualquer coisa… Nem mesmo derrubar estrelas do céu. Nem mesmo existir. E assim, sem tristeza ou alegria, sem medo ou desejo, ele permitiu e a matéria de seu corpo se desfez no vento do topo da daquela montanha e se espalhou por todos os cantos do mundo.

Esta é a lenda de Aimberê, o gigante que ousou escalar Amonati, a montanha no centro do mundo. Assim tem sido contada desde mil gerações antes de eu nascer e será contada ainda por muito tempo, enquanto os deuses permitirem que este mundo continue a existir”.

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege

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CRÔNICAS DA GUERRA DOS MUITOS MUNDOS – VOLUME I DUETO

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