MADELEINE, A ÚLTIMA

dezembro 22, 2013 at 2:33 am Deixe um comentário

Pessoal,


Bem, continuo naquela minha idéia de postar aqui textos meus que ainda não haviam passado por este blog e, por essa razão, não devem se conhecidos de meus leitores mais novos.

Nos tempos em que o Orkut ainda não havia sido superado pelo Facebok, dois leitores fundaram comunidades lá com meu nome, para postarem textos meus e outros poderem comentar (sim, fiquei muito honrada com isso). Um das comunidades era administrada pelo amigo Alison (Tutankhamen) e eu, periodicamente, enviava a ele textos que escrevi para ficarem exclusivos daquela comunidade. Foi assim com esse aqui.

Se você já é leitor/a de meus textos desde já algum tempo, muito provável já teve ter visto algo neles sobre os Whitehills, uma das principais famílias que aparecem em meus contos (embora, eu goste mais dos Winterwoods). Este conto tem uma importância muito grande nesse universo deles mas lembre-se que estamos falando de um multiverso e estou contando uma das versões, pode haver outras). Em teoria, é o conto mais distante, cronologicamente falando em relação aos demais. Daí, Madeleine ser, em teoria, a última Whitehill. Se gostarem dessa Whitehill, procure na Internet os outros contos com eles.

Bem, boa leitura.


MADELEINE, A ÚLTIMA

Por Rita Maria Felix da Silva

O Dr. Atros Farazyl ativou um dos dez biochips implantados em seu cérebro, acessou a rede de computadores do Sistema Médico Pentagalático, comparou resultados, revisou dados e chegou à mesma conclusão da noite anterior.

Sua pele ficou ainda mais azul que o normal. Em sua testa, o terceiro olho, uma obra-prima da cibernética, piscava. Estava nervoso. Apesar de todo seu profissionalismo, ainda sentia pena dos pacientes, em especial com um diagnóstico daqueles. Piedade. Um sentimento que já devia ter superado (lembrou de seu irmão, Zarkus Farazyl, que se submetera a uma cirurgia de extirpação das emoções. Lamentavelmente, Atros era religioso demais para fazer algo assim).

Perto dele, Kodos Farazache, que esperava sentado no consultório, interviu:

— E então, Doutor, o que me diz?

O Dr. Farazyl apoiou uma das mãos no queixo, a outra na coxa direita e descansou os outros dois braços. Por um instante, ponderou sobre Farazache, um robô de última geração, parte orgânico, parte plástico e metal. Agora o Conselho Administrativo Pentagalático permitia a seres como aquele o status de cidadãos. Farazache até mesmo ocupava um alto posto: emissário do Conselho. Uma geração atrás isso teria sido impossível. “Robôs que não são mais escravos? Heresia!”, pensou Farazyl, “Um dos males da modernidade!”

— Não há dúvida em meu diagnóstico, — disse ele — embora, não seja possível determinar qual a enfermidade, talvez algum problema genético, a paciente…

— Madeleine.

— Sim, Madeleine, morrerá em breve e de forma agoniosa. O quadro é irreversível. Lamentavelmente, a Ciência Médica tem seus limites. Para evitar tanto sofrimento, eu recomendaria uma cirurgia cerebral que cancele a capacidade de sentir dor. O método mais comum também a deixará incapaz de ter qualquer emoção. Uma possibilidade alternativa seria a eutanásia.

— Ela jamais aceitaria essas coisas — esclareceu Kodos.

— Bem, como paliativo, posso receitar alguns analgésicos. Recomendo também acompanhamento psicológico.

— Doutor, ela fez questão de procurá-lo e o Conselho está muito interessado nesse caso… O senhor é o melhor médico desta Galáxia, esperávamos que pudesse fazer algo…

— Na verdade, no ranking de minha categoria, sou cotado como o melhor das Cinco Galáxias Unidas, mas milagres estão além de minhas capacidades… — esclareceu o médico.

Dr.Farazyl, o seu currículo é mais que notável e, bem, não sei se o senhor, considerando quem é a paciente, percebe a gravidade do assunto…

— Sr. Farazache, estou ciente que Madeleine trata-se do último ser humano vivo. Mas seres vivos morrem, espécies são extintas. O que há para se fazer? O Universo é assim.

— Doutor, estamos falando da espécie humana, cujas realizações tornaram possível toda a nossa civilização pentagalática. Madeleine é considerada um patrimônio histórico e cultural vivo pelo nosso governo. Não pode terminar desta forma.
O Doutor Farazyl começou a guardar pequenas esferas metálicas de gravação de dados na gaveta de uma mesinha. Aquela conversava o aborrecia.

Sr. Farazache, — continuou — Sempre considerei como exageradamente romântica essa visão dos historiadores sobre a humanidade. Contos de Fada, se me permite dizer. Aliás, posso perguntar…

— Sim…?

— Qual sua relação com a paciente?

— Ela é minha criadora.

O Dr. Farazyl reprimiu um sorriso:

— Ah, sim, talvez você esteja familiarizado com o trabalho de meu primo, o Dr. Yrkan Farazyl, que se dedica a Psicologia aplicada a robôs. Li uma monografia dele sobre essa fixação doentia de autômatos por seus criadores.

— Não é doentia… Eu a amo. Existo graças a ela e sou feliz por isso. Não posso simplesmente deixá-la morrer.

— Se isto puder consolá-lo, entenda que nenhum médico poderia fazer mais neste caso. Sua Madeleine é parte de uma espécie que terminou, não lhe parece inevitável que ela pereça também?

Kodos Farazache nada disse, mas a dor naquele rosto parecia tão real… “Real demais para uma máquina. Que sacrilégio!”, ponderou Farazyl, e sua cauda moveu-se nervosamente.

— Aliás, Sr. Farazache, se permite perguntar… — retomou a palavra o Dr. Atros Farazyl.

— O que?

— Me chamou a atenção o sobrenome da paciente.

— Em geral, sempre olham isso nela. — comentou tristemente Kodos.

— Ora, é algo folclórico, — comentou o doutor — há uma infinidade de histórias relacionadas à família de sua criadora. A maioria relatando coisas terríveis. Já me diverti muito lendo sobre isso.

— Sempre questionei a veracidade dessas lendas e, em muitas delas, os ancestrais e parentes de Madeleine foram vítimas de má sorte e não se demonstraram “malignos” como tantos querem apontar. Se a conhecesse nem pensaria essas coisas.

— Ora, há contos sobre atos terríveis realizados pelos parentes de sua criadora. Se considerarmos tudo que de grandioso é dito sobre a espécie humana, como insistem vocês, românticos, não é irônico que tenha sido alguém dessa família a última sobrevivente daquela raça?

— Doutor, não quero perder tempo com discussões filosóficas. Eu sou tudo que ela ainda tem nesse universo e ela é tudo que tenho e vai morrer. — declarou com infelicidade Kodos Farazache.

Atros Farazyl compadeceu-se dele, mas detestava demonstrar sentimentos em público.

Sr. Farazache, realmente lamento, — disse — se houvesse algo, no âmbito da Ciência Médica, que pudesse fazer, eu faria. Sua Madeleine está aí fora, não é? Quer que eu conte a ela?

— Não, agradeço, mas me parece mais correto que eu conte. Obrigado por tudo, Doutor. Adeus.

Kodos Farazache levantou-se e foi à sala contígua ao consultório. O Dr. Atros Farazyl sentiu-se inibido em cobrar-lhe o valor da consulta. Faria isso do Governo e, dada a situação, acrescentaria uma taxa de 30 % sobre o valor convencional de seu atendimento médico.

Naquela noite, após chegar a casa, beberia muito. Tudo aquilo… O fim de uma espécie… A incapacidade de evitar isso… Incomodava-o de modo incomum. Ter emoções era algo desagradável e profissionalmente desinteressante. Amanhã procuraria seu sacerdote e discutiria a possibilidade de alguma brecha doutrinária nos Trezentos Mandamentos, algo que o permitisse submeter-se à mesma cirurgia do primo Zarkus.

Na outra sala, Kodos Farazache aproximou-se de Madeleine Ann Whitehill. Ela estava sentada, esperando por ele, o coração ansioso por uma chance de sobrevivência.

Kodos baixou a cabeça e apenas disse:

— Madeleine, há algo que preciso te contar…

FIM

Dedicado a Alison Gonçalves (TutanKhamen)

Você pode saber mais sobre os Whitehills em:
Whitehills

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PROFESSORA VANDELLIS ALMUD-ARIN

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