PROFESSORA VANDELLIS

dezembro 10, 2013 at 4:17 am Deixe um comentário


Olá, pessoal,

Primeiro quero agradecer-lhes por estarem de volta a meu blog, lendo mais um post. Vocês me incentivam a sempre continuar escrevendo, sabiam?

Bem, enquanto vou cuidando da minha vida no mundo físico (o mais complicado dos mundos, eu diria) e vou retomando devagarinho um projeto literário meu que estava um pouquinho parado (além de continuar escrevendo, junto com um amigo, letras para músicas, sério,ah e concluí um texto sobre zumbis recentemente), prossigo com aquela idéia de trazer a este blog aqueles meus textos que nunca foram postados aqui antes e, por essa razão, podem não serem conhecidos de meus leitores habituais.

Dessa vez, trago de volta “Professora Vandellis”. Este texto foi o segundo que tive oportunidade de publicar na revista Scarium, se não me engano no nº 20. A temática da edição era lobisomens e redigi este. Embora vampiros sejam um dos temas mais tradicionais e inseridos nas raízes da Internet, agrada-me muito também histórias de lobisomens, talvez porque tenham algo de muito primal espelhando a natureza humana…

Aproveitei para refletir nessa história um pouco de meu mundo físico (afinal, como alguns sabem, sou professora aqui fora, mas não de História, e sim de Matemática, Química e Física), embora, graças aos deuses, minha realidade escolar não é tão delicada quanto a de minha colega fictícia Amara Vandellis.

Boa leitura! Beijos!

Rita


PROFESSORA VANDELLIS
Por Rita Maria Felix da Silva

Prólogo

O relógio toca às seis da manhã. Amara Vandellis desperta. O sono foi intranqüilo, como tem sido há anos. Sonhos ruins causados por memórias que a atormentam, lembranças de como as coisas eram antes da Guerra… Antes do Dia da Ascensão.

Ela se levanta. Toma banho. Arruma-se. Aula marcada para 07:30 h. Revisa o assunto. Faz novas anotações. Organiza o material que irá expor aos alunos. Primeiro dia do ano letivo. Fica nervosa. Mais um ano…

Abre a persiana. Olha pela janela. Esta cidade já foi chamada de Blumenau. No tempo dos humanos. Um lugar que ela amava. Agora tem um novo nome… Algo que soa como um rugido.

Amara vai até o armário. De lá pega uma relíquia de uma civilização morta. É de madeira, atado a um fio de algum tecido que não se fabrica mais. Cabe na palma da mão. Chamavam de crucifixo. Mais um ano letivo… Ela reza pedindo forças para agüentar, continuar fingindo e não ser descoberta.

Guarda o objeto. Embora seja a única lembrança que resta de sua irmã (destroçada na Guerra por um monstro que nem deveria existir), ela não se atreve a sair com isto. Afinal, lobisomens não têm religião.
Em silêncio, vai à escola.

Parte I

 

Amara observava sua platéia. Mais de quarenta alunos, a maioria novatos.

— Bom dia a todos e boas vindas ao primeiro dia de aula. — Ela disse e passou os olhos pelos adolescentes. Lobisomens, todos eles, a espécie dominante deste mundo. Percebeu que havia cochichos entre os estudantes. Previsível: eles estavam naquela forma lupino-humanóide na qual passam a maior parte do tempo, pois para este povo, depois da Ascensão, usar a forma humana era considerado vergonhoso. Amara, porém, não tinha escolha. Vivia para sempre na forma humana — Alguma pergunta antes de começarmos?

Silêncio. Um mau sinal. O coração de Amara ficou preocupado. Normalmente, nesse primeiro dia, os alunos estão cheios de perguntas. Bem, devia continuar. Melhor não dar atenção aquele pressentimento lá no fundo do cérebro:

— Eu sou a Professora Amara Vandellis e leciono História nesta sala. Conforme devem saber, semana que vem teremos as festividades do Dia da Ascensão, o feriado mais importante de nossa cultura, e o Diretor me orientou que iniciasse as aulas com esse assunto. Alguém poderia me falar algo sobre o Dia da Ascensão?

A resposta foi o som de um arroto. Os estudantes gargalharam. Amara, surpresa, procurou ver de onde aquilo viera. Um aluno de pêlo branco riu e ergueu o braço. Ela não gostou disso. Lobisomens de pelagem branca são os mais difíceis com quem se lidar.

— Desculpa, professora, mas é que meu estômago tá detonado por causa da mão que devorei de um babaca na luta de ontem. O Dia da Ascensão não foi quando nós fodemos os humanos?

— Uma forma muito rude de definir, senhor…

— Ah, vai dizer que não sabe quem sou? — indagou o aluno, enquanto abaixava o braço — O nome Karavetes será que é alguma coisa para a senhora…?
Então, ela se lembrou dele. Dos noticiários esportivos. Milton Karavetes, campeão da Liga Juvenil de Luta Livre, ídolo dos jovens, encrenqueiro por natureza… E da família Karavetes… Uma gente que se acha dona do mundo. Por que o departamento de matrículas não avisou sobre esse aluno?

— Senhor Karavetes, a despeito da influência de sua família e de seus próprios méritos como esportista…

— Ei, professora, eu sou uma celebridade! — disse Milton e os estudantes gritaram e grunhiram em aprovação.

— Devo lembrá-lo — replicou a professora — que prestígio familiar e conquistas esportivas não vão permitir a você tratamento privilegiado? Nesta escola, levamos os estudos a sério e esperamos que todos os alunos façam o mesmo. Fui clara?

— Clara como um peido, professora! – ironizou o rapaz-lobisomem e mais gargalhadas romperam na sala.

Amara se conteve. Se o Diretor Degeytier estivesse na sala, pediria a ela que não entrasse em conflito com um aluno logo no princípio de um ano letivo.

— Bem, — continuou — o Dia da Ascensão é a data que marca o início da grande ofensiva dos lobisomens contra os seres humanos. Ocorreu há trinta anos, quando o Alto Conselho Lupino, pressionado pelas facções mais radicais de nossa espécie, optou por revelar a existência de nosso povo e partir para uma guerra aberta que culminou com a extinção da humanidade e o domínio absoluto dos lobisomens sobre este planeta. Alguém poderia citar o nome de três generais lupinos que comandaram nossas tropas no Dia da Ascensão?

Um grunhido de deboche fez Amara, surpresa, virar sua cabeça. Era Karavetes.

— Ei, professora. Meu pai tem vídeos de antes da guerra. Os humanos eram uma espécie nojenta e desprezível! Não é mesmo, pessoal?! — e Mílton gritou virando-se para os outros estudantes e eles grunhiram em concordância.

Mílton, se tivesse se dado ao trabalho de ler sobre o assunto, saberia que nossos historiadores consideravam os humanos como adversários valorosos. Também apontam que a humanidade desenvolveu uma civilização notável.

— A professora é doida! Humanos eram merda! E somente uma aberração, um monstro, a senhora, a humanita, pra defender aquela escória! — vociferou o aluno.

Humanita! Um termo sujo dos lupinos para ofendê-la por sua condição.

— Garoto, não lhe dei o direito de me insultar. Sua ignorância pode ser gritante, mas devia saber sobre minha maldição: pouco antes da Ascensão, a magia retornou ao mundo. Nós, lobisomens, não somos capazes de manipulá-la (embora, paradoxalmente, é ela que permite nossas transformações), mas os humanos eram. Uma ironia é que, se tivessem mais tempo para aprender a manusear melhor a mágica, teriam nos derrotado e sobrevivido. Durante a Guerra, uma bruxa humana atingiu-me com um feitiço e é isso que me prende a esta condição. Todos vocês podem alternar entre a forma lupina e a humana, eu, porém, estou condenada a esta última.

— Há! A senhora parece muito humana para mim! É uma vergonha para nosso povo! — zombou Mílton.

— Mas eu não sou humana! Use seu olfato, sua intuição e outros sentidos e verá o que digo! Fui clara?

E o som de um peido, acompanhado por mais gargalhadas dos alunos inundou a sala.

Diante do olhar indignado da professora, Mílton falou novamente:

— Clara como um peido!

— Sr. Karavetes, creio que já se excedeu. Não sou paga para aturar sua insolência. Devo convidá-lo a deixar esta sala…

— É? — grunhiu o moço — E quem vai me tirar?

— Rapaz, não me obrigue a chamar a segurança da escola…

— Professora, a senhora não sabe com quem tá brincando. Sou campeão mundial e invicto da Liga Juvenil de Luta Livre. Participo de campeonatos paralelos também e já massacrei lobisomens adultos com três vezes meu peso. Tô cheio da senhora e dessa escola (não fosse meus pais eu nem ia vir pra essa porcaria) e doido pra descontar em alguém. Eu não tinha nascido no tempo da guerra, mas sempre tive vontade de arrancar a cabeça de um humano, mastigar as tripas e vomitar em cima do cadáver. A senhora parece humana demais pra mim. Vai servir.

E Mílton Karavetes rugiu e avançou sobre a professora. Os outros alunos observavam já certos do resultado. Em forma humana Amara não teria chance alguma.

Porém, no instante seguinte, a professora retirou algo do bolso do vestido verde e apontou o punho direito fechado para seu agressor. Mílton Karavetes foi inundado por um brilho elétrico e caiu urrando e debatendo-se, enquanto faíscas de eletricidade pipocavam pelo seu corpo.

Houve silêncio e então. Todos, incapazes de entender o que havia acontecido, olhavam para Mílton e para a professora. Foi quando Amara abriu a mão direita e mostrou um pequeno aparelho:

— Estudantes, esta engenhoca contém um microchip que adaptei e aperfeiçoei a partir de um projeto deixado pelos humanos. Esse dispositivo, adaptado para o sistema nervoso lupino… Bem, vocês viram o efeito. Acredito que pode vir a ser uma ótima arma de defesa pessoal em um mundo violento como o nosso, com a vantagem que não é letal. Nosso colega Karavetes vai estar recuperado em uma hora ou duas. Alguma pergunta?

E um dos estudantes gritou:

— Bruxa! A humanita lascou Mílton! Vamos pegá-la!

Uma multidão de lobisomens adolescentes atirou-se sobre a professora. Ela recuou aterrorizada, pois o microchip não poderia lidar com todos eles.

Todavia, um rugido estremeceu os ossos de todos, que se voltaram para a porta da sala, onde estava de pé um enorme e poderoso lobisomem de pelagem cinzenta, herói da Guerra de Ascensão, o mais caro e temido assassino do mundo, até se aposentar para dirigir esta escola: o Diretor Kurt Degeytier.

— Sr. Pablo Tarkino e Srta. Olga Derzhavin, — disse apontando para dois estudantes da sala — levem o Sr. Karavetes para a enfermaria. Sr. Garen Ordonax e Sr. Daniel Folador — ordenou olhando para dois outros alunos — bem como a professora Amara Vandellis, acompanhem-me até a Diretoria, agora! Os demais ficam de castigo nesta sala, sentados e em silêncio até segunda ordem. Não estou brincando: eu devoro quem se meter à besta.

Parte II

Na sala de espera, o cômodo imediatamente anterior à Diretoria, Amara precisou aguardar por uma hora, enquanto Degeytier interrogava os alunos Ordonax e Folador. Típico de Degeytier: fazer as pessoas esperarem ou responderem várias vezes as mesmas perguntas.

Os dois estudantes saíram da sala do Diretor e passaram pela professora. Estavam cansados, estressados e os olhos cheios de ódio por Amara. Lá de dentro a voz de Degeytier ordenou que ela entrasse.

— Primeiro, — começou o Diretor por trás de sua mesa em que os mais variados documentos escolares estavam arrumados em pequenas pilhas — quero que entregue esse “dispositivo”.

Amara obedeceu.

— Obrigado. — disse Degeytier ao receber o aparelho e guardá-lo numa gaveta. — Percebe as implicações do que aconteceu hoje? Você agrediu, com uma arma desconhecida, um estudante.

— Ele ia me matar. E, se já escutou aqueles dois alunos, não vai me dar a chance de contar meu lado da história?

— Amara, não acho necessário. — respondeu o Diretor — Apesar do preconceito contra você, é a melhor professora que tenho e jamais havia acontecido algum episódio tão sério quanto esse. Dava para escutar daqui o tumulto na sua sala. Corri preocupado para lá. Culpa desse idiota do Mílton Karavetes! Confio em você. Interrogar Ordonax e Folador foi mais diplomacia, para manter as aparências de líder democrático, se é que me entende.

— Entendo, sim, obrigada, Kurt. Se isso chegar ao Conselho Regional de Educação e Disciplina, eu assumo o que fiz, pois faria de novo.

— Fique tranqüila. Tenho amigos no CRED. Com a ajuda deles, o Conselho nem vai querer tratar desse assunto. O que me preocupa são seus alunos. Viu como esses jovens idolatram aquele imbecil do Mílton? E quanto aos Karavetes… É uma família muito complicada. Você atingiu um deles. Te aconselho a tomar muito cuidado a partir de agora.

— Não tenho medo deles. O que quero é voltar para minhas aulas.

— Isso é um pouco mais difícil… — comentou o Diretor.

— Eu preciso desse emprego. Você não vai me demitir só para agradar esses tais Karavetes, não é?

— Claro que não. Você fica. Aliás, já fez muito mais por esta escola que qualquer Karavetes metido. Vou colocar seus alunos para fazerem serviço comunitário. Bem, a reforma na ala noroeste da escola está atrasada e mão de obra adicional por uns três meses seria de grande ajuda… Isso deve acalmá-los.

— É, — a professora sorriu — Acho que merecem isso. E Mílton Karavetes?

— Já se recuperou e mandei para casa. Garoto forte. Falei com os pais por telefone. Mesmo eles entendem a gravidade do que o rapaz fez. Vão colocá-lo de castigo por quinze dias confinado na forma humana. Para ele, será como o Inferno!

— Nossa, eu realmente queria ter visto a cara dele quando soube do castigo! — ironizou ela.

— Não, a menos que você fosse bem sádica! Ah! Ah! Ah!

— E quanto a mim: posso voltar para as aulas que ainda me restam hoje?

O Diretor Degeytier parou de rir.

Amara, fiz o que pude nessa situação, mas, como te disse, nunca me ensinaram a fazer milagres.

— Não, entendi: se não vou ser demitida, como é que ficam minhas aulas? — indagou a professora.

— Vou te deixar afastada por umas duas semanas, afinal você tem férias acumuladas, só por esse tempo, para que a poeira desse assunto abaixe. A Professora Lúcia Maradias assume na sua ausência.

— Lúcia? — Amara quase gritou — Ela me odeia! É a maior preconceituosa sobre minha maldição! Comandando minha sala, com certeza vai me aprontar alguma.

— Calma. Vou ficar de olho nela e é quem tenho para te substituir. Faço o que posso.

— Ok, Kurt. Desculpa. É que aquela dali mexe com meus nervos.

— Eu sei. Vai para casa. Descansa esses dias.

— Bem, obrigada. Até breve.

Ela já havia se voltado para ir embora quando foi interrompida pelo Diretor:

— Amara, há outra coisa que quero te dizer…

— O que, Kurt? — indagou ela virando-se para ele.

— Bem… Saiba que o que direi não tem nada a ver com sua permanência na escola. É seu profissionalismo que garante isso.

— Ei, assim me deixa curiosa! O que é?

— Compreendo que você escolheu ser celibatária por causa de sua maldição… Mas gosto muito de você e sempre te admirei… Se você, algum dia, pudesse considerar o fim desse celibato. Eu não me importaria… Sinceramente… Eu te aceitaria com felicidade como uma de minhas esposas, mesmo você estando presa na forma humana…

Kurt … Isso é muito inesperado para mim. Você é um bom amigo, o melhor que tenho, fico honrada, porém… Presa nessa forma eu não me atreveria a me envolver com ninguém… Me perdoe se…

— Não, tudo bem… Esqueça o assunto… Vá aproveitar esses dias de descanso.

— Certo, eu… — E, por um momento, ficou em silêncio olhando para ele, como se procurasse a palavra apropriada, que, porém, jamais viria, pois não poderia contar-lhe a verdade — Sinto muito. Até logo, amigo.

Amara Vandellis se voltou e saiu. O olhar desolado de um silencioso Kurt Degeytier acompanhou-a. Ela não olhou para trás, preferindo não imaginar como deve doer o coração partido de um lobisomem.

Epílogo

De volta ao apartamento, Amara buscou o crucifixo com urgência e passou alguns minutos entre orações e lágrimas. Aquele aluno podia tê-la matado hoje. Ela nunca tinha submetido o microchip a um teste prático, deixara-o por acaso no bolso do vestido e só o acaso a fez lembrar-se do dispositivo naquele momento. Se tivesse falhado…

Continuar fingindo, continuar escondendo. Ela questionava a ética naquilo tudo, mas entendia que a escolha era manter a farsa ou ser assassinada. Apesar de tudo, ser mentirosa ainda era melhor do que tornar-se um cadáver.

Lamentava por Kurt, todavia como poderia atender ao desejo dele? Degeytier era um lobisomem, a espécie que destruíra os humanos, que assassinou Mariana, a irmã dela. Jamais conseguiria entregar-se a um deles.

Apesar dessa solidão imensurável e do medo doentio de ser descoberta, tinha muita sorte. Durante a Guerra, pouco depois de Mariana ser despedaçada, Amara descobriu algo de valor inestimável. O encanto correto e eficiente, um feitiço perpétuo que permitiria a ela fingir, ser percebida pelos sentidos dos lobisomens como uma lupina presa à forma humana. Depois foi só inventar uma história mirabolante, ser firme nas mentiras e assim vinha sobrevivendo neste novo e terrível tempo.

Mas Amara estava consciente que os lobisomens, até mesmo Kurt, iriam assassiná-la se descobrissem a verdade sobre ela.

O pior de tudo era aquela tristeza surreal, indefinível e desesperadora. Afinal, não era nada agradável ser o último ser humano do mundo.

Sentia-se cansada. Resolveu deitar. O sono logo veio, mas, previsivelmente, também voltaram os pesadelos. Mais uma vez, ela sonhava com o tempo antes da Guerra e de como tudo terminara de forma tão trágica…

FIM

Dedicado a Camila Fernandes

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Kaline MADELEINE, A ÚLTIMA

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