Kaline

dezembro 2, 2013 at 3:40 am 2 comentários


Bem, pessoal,

Seguindo aquela idéia de postar aqui trabalhos mais antigos meus que não haviam aparecido ainda neste blog, coloco agora um bastante especial:

“Kaline” foi uma fantasia escrita por mim e publicada na revista brasileira Scarium. Foi uma experiência fantástica participar da Scarium (edição 19) e ainda pude repetir esse prazer uma outra vez… O que fica para ser contado em outra ocasião, se não se importam.

Por muito tempo, não postei “Kaline” em lugar nenhum, exceto na Scarium, para não quebrar a exclusividade da revista, mas, com a afirmação positiva do editor de lá, posto este texto aqui.

Meus leitores mais antigos perceberão uma pequena surpresa que inseri no texto.

Boa leitura.


KALINE
Por Rita Maria Felix da Silva

Kaline Gan Amon levantou cedo, adiantou as tarefas de casa, mandou Lottar à escola e foi à vila, onde trabalhava na loja de encantamentos e poções.

Outro dia comum. Nesta época do ano, freguês entrar naquele estabelecimento era raro. Com muitas horas-extras acumuladas, convenceu o gerente, um troll resmungão chamado Crakafint, a liberá-la mais cedo.

Correu ansiosa para casa. Queria trabalhar no jardim.

De sua mãe, Kaline quase nada herdara, exceto o gosto por cuidar da terra. O jardim era a parte da casa de que mais gostava. Hoje fazia exatamente cinco anos que começara as primeiras mudas, vasos e canteiros, enquanto seu marido, Victor, observava com admiração. Fizeram amor ali mesmo. Era o começo de uma manhã.

Sentia muita falta dele. Três anos desde que seu esposo partira para uma daquelas guerras estúpidas lá no Ocidente.

E, agora, enquanto o conflito piorava, mais difícil era se comunicar ou conseguir notícias. De um arbusto com folhas prateadas, colheu uma rosa que mudava de cor o tempo todo, iniciando-se num cinza triste e terminando num vermelho exuberante, apenas para recomeçar o ciclo. Iria colocá-la num vaso na sala. Era o tipo de rosa que Víctor gostava de trazer para ela, às vezes, quando voltava do trabalho.

Havia problemas no jardim. A planta carnívora desenvolvera uma segunda personalidade, a qual era vegetariana, e as duas duelavam entre si, pelo domínio da hospedeira. Dava pena de olhar o vegetal tremendo e gemendo enquanto prosseguia aquela guerra de “eus”.Kaline despejou algumas gotas de uma porção calmante e a planta adormeceu. Resolveria por enquanto, mas talvez fosse preciso chamar um botânico-bruxo, o que não havia na vila e trazer um de alguma cidade-grande poderia custar mais do que o orçamento mensal permitiria…

A palmeira-duende revertera à forma humanóide e fugira na noite anterior. Kaline lamentou essa perda, afinal, aquele tipo de planta era dificílimo de se conseguir. Ao menos, a palmeira havia sido educada o bastante para deixar um bilhete de despedida, infelizmente, em linguagem de elfo. Coisa difícil de traduzir para língua humana.

Também sentia falta de ter com quem conversar. Lottar era ainda criança e três de suas melhores amigas haviam partido nestes últimos meses:

Anami fora devorada por um dragão, enquanto pescava no rio do outro lado da colina. Brígida, caçando coelhos-falantes-três-olhos, para um almoço de domingo com a família, acabou topando com o covil de um boitatá. Os parentes daquela desafortunada repartiram as cinzas entre si.

E Coralina… Bem, algumas pessoas realmente não têm sorte: ela voltava do mercado na vila, trazendo na cesta leite, pão e carne, quando passou por uma velha extremamente feia. Não resistiu e disse algo sobre a aparência daquela anciã. Acontece que a idosa era na verdade uma cuca (uma daquelas feiticeiras reptilianas que têm preferência por andar disfarçada entre as pessoas). Com um olhar ultrajado e um grunhido, a bruxa transformou Coralina em pedra. Azar terrível! Há tão poucas cucas atualmente e a possibilidade de se encontrar uma é mínima. Ninguém quis acolhê-la naquele estado e Kaline guardou para si a estátua que um dia fora sua amiga (e que serviu como um ótimo enfeite para o jardim).

Escutou um ruído atrás dela e virou-se: era Lottar. Kaline tinha muito orgulho de seu filho, uma criança de nove anos,esperta, adorável, bem comportado, porém, um pouco triste e com a mania de ensimesmar-se. Algo que herdara de Victor.

Por que voltou tão cedo da escola, Lottar? – ela indagou.

Ele parecia preocupado. Tirou da bolsa (que a própria Kaline confeccionara a partir de couro de unicórnio, no verão anterior) um pergaminho azulado.

– A professora mandou isso pra a senhora.

Ela abriu e leu o texto. Depois, voltou os olhos para o menino.

– Brigando na escola de novo, Lottar?!! Me conta!
Ele se retraiu e depois respondeu com muito ódio na voz:

– A culpa foi daquela peste do Heredia!!

– Quem é Heredia? – ela indagou.

Heredia é um zumbi, um morto-vivo, (mas a professora não quer que a gente chame assim. Diz que é “pré-conceito”. Ela fala que tem de chamar eles de “re-vividos”). Ele ficava mexendo comigo o tempo todo!

– Ficava? E o que aconteceu? Não apanhou na escola, não foi? – Kaline questionou preocupada – Seu pai não ia querer saber que nosso filho voltou para casa apanhado!

Lottar sorriu, aquele risinho muito inocente que ele deu quando jogou uma fadinha na fogueira, no último inverno.

– Ah, não, mãe! Eu fiz aquele truque que a senhora me ensinou!

– E funcionou? – quis saber ela, a intuição de mãe já a fazendo sentir-se orgulhosa dele.

– Funcionou! Ele nunca mais vai me provocar. Mas, mãe: zumbis têm um gosto tão horrível!!!

Após dizer isso, ele cuspiu três vezes no chão do jardim.

– Muito bem, – Kaline elogiou – olha, quer comer mais alguma coisa?

– Quero não, mãe, vou pro quarto. Tô enjoado!

– Tá certo. Não se preocupe: é só efeito do “Heredia”. Deve passar logo. Daqui a pouquinho vou dar uma olhadinha em você. Tô orgulhosa, viu? Amanhã vou falar com sua professora e vai ficar tudo bem.

Lottar abraçou a mãe. Trocaram beijinhos e ele entrou.

Ela permaneceu no jardim por um pouco mais de tempo. Esse instante com Lottar trouxe-lhe Victor de volta à memória:

Apesar de amá-lo, sempre criticou nele essa obsessão com o “velho mundo”. Se algum dia, este planeta já foi, como contam os anciões, um lugar “normal”, sem magia e completamente diferente de agora; se é verdade que algo provocou “A Grande Mudança”e fez da realidade o que é hoje; tudo isso foi há muito tempo e não importa mais.

Victor, porém, ficava atormentado com essas coisas e lamentava o quanto a humanidade já havia mudado para sobreviver. Apesar disso, ele nunca conseguiu resistir a fome e continuava devorando almas. Ela ria do marido: sobrevivência é necessidade. Para que ficar meditando sobre o assunto?

Acima, o sol continuava a pino. Kaline agradeceu pela porção que usava há dez anos, a qual lhe permitia ignorar as radiações solares (lembrava de sua irmã mais velha, que queimou até a morte nas primeiras luzes de uma manhã).

Passou a língua pelos dentes caninos. Começavam a coçar e aumentar de tamanho. A fome se aproximando. Antes de ver como estava Lottar, decidiu ir ao porão, onde guardara, devidamente sedado por encantamento, um centauro, que ela captura domingo passado. Dizem que o sangue deles é delicioso.

Seria uma ótima refeição.

FIM

(Dedicado ao escritor Alexandre Heredia)

Anúncios

Entry filed under: Uncategorized.

A FUGA DE GAREN ORDONAX PROFESSORA VANDELLIS

2 Comentários Add your own

  • 1. ricardo santos  |  dezembro 8, 2013 às 6:51 pm

    Rita Maria, que grata surpresa este seu conto, Kaline! Não se considere uma escritora amadora. Seu texto se mostra mais profissional, mais publicável do que algumas coisas tenho lido em livros recentes nacionais, saindo até por editoras grandes. Adorei o ritmo da narrativa, ágil, com descrições que revelam detalhes de cenários, comportamentos e sentimentos dos personagens, mas sem ser cansativo, sem quebrar o ritmo do que se conta. Muito divertida a mistura das mitologias europeias com a nossa mitologia, o nosso folclore. Agora, o que posso dizer dos problemas do texto é o seguinte: são observações pontuais, para melhorar o que já é bom. O conto precisaria de mais um revisão para dar mais elegância a algumas frases e períodos e deixá-los mais claros. Exemplo, no quarto parágrafo eu li: “Hoje fazia exatamente cinco anos que começara as primeiras mudas, vasos e canteiros, enquanto seu marido, Victor, observava com admiração. Fizeram amor ali mesmo. Era o começo de uma manhã.” Lendo esse trecho fiquei confuso. Não deu para saber direito o que acontecia naquele momento e o que ocorrera cinco anos antes. Tive que ler de novo. Uma possibilidade de ajuste seria esta: “Hoje fazia exatamente cinco anos que começara as primeiras mudas, vasos e canteiros. Na época, seu marido, Victor, observava com admiração. Era o começo de uma manhã. Ele a olhou fixamente. Ela correspondeu. Fizeram amor ali mesmo, sem se importar com as consequências”. Outro ponto a se comentar é o desenvolvimento. Em revistas impressas, antologias de contos em livros de papel e concursos, existem regras para seleção dos textos, geralmente bastante limitadoras em relação ao tamanho do conto. Eu mesmo participei de uma antologia em que eu tinha que apresentar um conto com no máximo 10 mil caracteres, mais ou menos quatro, cinco páginas. Isso pra mim é uma tortura. Tenho dificuldade em escrever textos curtos. Meus melhores contos têm, em média, de dez a quinze páginas. Justamente porque dou grande valor ao enredo e ao desenvolvimento adequado desse enredo. Por isso, a grande vantagem de publicar na internet é essa maior liberdade não só editorial, de temas e formatos, mas também de tamanho. Claro que ninguém quer ler um conto chato e arrastado de vinte, trinta páginas. Mas o seu conto, por exemplo, se ele tivesse o dobro do tamanho, acredito que ele teria um melhor desenvolvimento, porque o leitor passaria mais tempo com Kaline e Lottar, personagens que você soube construir tão bem. Além do que, o jardim se mostrou muito interessante com suas plantas estranhas e mágicas. O próprio jardim merecia mais espaço. Eu gostaria de saber quais outras confusões suas plantas poderiam provocar. Na verdade, ao terminar de ler o conto, fiquei pensando como seria muio bacana ver essa estória, esses personagens num manuscrito de umas 50 páginas. Criando-se dois subplots, um de mistério, com um vilão, que poderia ser alguém interessado numa planta em especial do jardim, que nem a própria Kaline teria conhecimento dos poderes dessa planta. Esse “vilão” colocaria em risco a vida de Kaline e Lottar. O subplot dois seria a volta de Victor para complicar um pouco mais o coração de Kaline. Ele retornaria como um homem mudado, diferente daquele que ela conhecia antes da Guerra. Seria uma novela juvenil com grande potencial de vendas. Espero que minhas palavras tenham sido úteis. Aos poucos, eu vou ler outros textos seus e falar sobre eles. Publiquei este comentário no seu blog. Parabéns e continue escrevendo. Abraço.

    Responder
  • 2. ricardo santos  |  dezembro 8, 2013 às 8:28 pm

    Rita Maria, quero fazer uma correção sobre meu comentário acima. na verdade, a estrutura de uma possível novela juvenil a partir do seu conto poderia ter um plot (interesse do vilão pela planta misteriosa e com poderes desconhecidos por Kaline) e um subplot (a volta de Vicitor e as dúvidas de kaline sobre seus sentimentos para com o marido). É isso.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

dezembro 2013
S T Q Q S S D
« nov   jan »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: