Fantasia Heróica

outubro 7, 2013 at 12:48 am 2 comentários

Pessoal,

Para a atualização de hoje, trago para vocês outro texto meu antigo que nunca postei neste blog. Apesar de não ser novo, eu gosto muito dele e espero que vocês gostem também.

Boa leitura e comentários serão bem-vindos.

Beijos

Rita

 

FANTASIA HERÓICA

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

 

– I –

 

Ao abrir os olhos, ela se percebeu em um mundo sombrio, um reino aprisionado em eterno crepúsculo. Havia ruínas ao redor, mais antigas do que se poderia explicar, compostas por restos de algum templo ou cidade esquecida e estátuas de heróis e deuses cujos nomes o tempo cuidou de apagar.

A jovem não recordava quem realmente era ou como havia chegado ali e nem mesmo qualquer momento de sua vida antes daquele. Sentia-se esgotada, como se estivesse fugindo por muitos dias, e havia ferimentos e sangue sob sua armadura rasgada em tantos lugares. Seu elmo, se alguma vez usou um, já se perdera para sempre. Ela segurava uma espada antiga, forjada com habilidade soberba em alguma época melhor, e resistia, juntando seus últimos fragmentos de coragem e persistência, para não tombar. Mas sabia – e essa era uma verdade corrosiva e inescapável – que aqueles eram seus instantes finais.

E havia ele. Ela o segurava junto a si e sabia que o amava, com uma verdade e intensidade como jamais imaginou serem possíveis. Porém, aquele homem estava morrendo, agonizando diante de seus olhos, embora ela tivesse certeza que o tinha procurado por toda uma vida, esperado e ansiado por ele tanto quanto é possível esperar ou ansiar por alguém, apenas para perdê-lo naquele momento sombrio e terrível. E como ele era maravilhoso. Cada detalhe nele parecia ter sido construído para agradá-la. E não apenas o corpo, pois a alma dele era tão nobre, máscula, poderosa, pura e infinita que a jovem quase podia enxergá-la. Ele era tudo que ela poderia desejar e mais do que julgara merecer.

Mas ele estava morrendo. Ela orou para deuses que não sabia que existiam e para outros que seu desespero inventou naquele instante, porém nenhum parecia poder escutá-la. Então, ela apenas curvou a cabeça, abraçou aquele homem e chorou, até que lágrimas lhe faltassem.

Todavia, naquele eterno crepúsculo, coisas vorazes e malignas se moviam. Algumas tinham asas, forjadas em pesadelos e grande temores, e emitiam guinchos prolongados e lamentosos, como se a prenunciar a chegada da morte; outras possuíam dentes e garras, crescidos na fome e malignidade, e se deliciavam em grunhidos e urros, como os de um predador na iminência de devorar sua caça, e estas se arrastavam. E todas aquelas monstruosidades, rastejantes ou aladas, eram brancas ou pálidas, cinza ou escuras, com bocas e olhos que exalavam fome e crueldade na semi-escuridão.

Todos esses seres se juntavam numa massa confusa de horror e selvageria e, logo, estavam ao redor daquela jovem e por toda a parte. Ela sabia que não tinha para onde fugir e era impossível derrotá-los, pois seu coração lhe dizia que inúmeras outras antes dela arriscaram-se a confrontar aquelas abominações e tombaram. E os horrores sussurraram-lhe na semi-escuridão e ela entendeu que a poupariam se abandonasse o homem moribundo, pois foi por ele que vieram e o fariam em pedaços até que nada mais nobre, belo ou inteiro permanecesse nele.

Em seu coração, ela perguntou o porquê de tal atrocidade e um som que se parecia com um murmúrio maligno, não-humano e abominável, chegou a seus ouvidos:

“Porque você o ama” – os monstros responderam e ela estremeceu – “e porque este é o Reino da Infelicidade, do Desencanto e da Desolação, onde o amor não deve existir. Aqui não há risos. Nesta terra, nenhuma esperança, por tênue que seja, atreve-se a nascer. Neste lugar de vazio, sombras e penumbra nada belo, nobre ou puro deve perdurar”.

E ela gritou “não” para aqueles horrores e jurou que não iria abandoná-lo. E as feras devolveram-lhe ameaças e palavras obscenas, contudo ela estava decidida. Apoiou o homem no solo, tão gentilmente quanto a situação permitia, beijou-lhe os lábios, enquanto um gosto de despedida se apossava dela. Ergueu-se e brandiu a espada, tão desafiadoramente quanto lhe foi possível. Pensou em inúmeras preces, contudo escolheu apenas olhar para ele pela última vez e imaginar a vida longa, maravilhosa e feliz que poderiam ter tido juntos… Esta era uma boa morte – ela explicou a si mesma – digna e gloriosa, terrível, é verdade, porém mais cheia de amor do que pensou que pudesse encontrar. Uma morte que merecia ser enfrentada.

Então todas aquelas coisas, horrores e monstruosidades indizíveis atacaram-na…

 

– II –

 

Ela despertou e abriu os olhos quando um som estridente atingiu-lhe os ouvidos. Ao lado de sua cama, um despertador rugia. Na cama ao lado, sua irmã, que tentava continuar dormindo, implorou que desligasse aquele aparelho infernal e perguntou se ela pretendia faltar ao trabalho naquela data.

A jovem levantou-se, examinando a si mesma e a realidade ao redor. Era apenas o apartamento que dividia com a irmã. Ela era uma pessoa real, num mundo real, com um trabalho de oito horas diárias, mais todas as extras que precisava fazer porque havia contas demais a pagar e o salário era decepcionante. E ela tinha um nome, Ana, e não havia chegado ainda aos trinta anos.

Lembrou como desligar o despertador. Sua irmã adormeceu novamente. A jovem se concentrou no que precisava fazer. Tomou banho, arrumou-se e pouco tocou na comida, porque a noite anterior ainda a incomodava.

O dia mal começara a nascer. Ana foi até o ponto de ônibus mais próximo, com a certeza de que enfrentaria três conduções até que chegasse a fábrica.

Durante a viagem, observou os rostos das pessoas dentro daquele veículo: sonolentos, mal-humorados, tolhidos pela pressa e as preocupações cotidianas. Um exército de faces infelizes, sem qualquer esperança de futuro, preparando-se para enfrentar mais um dia. Todas tão semelhantes à dela própria.

Então repetiu para si mesma o sonho da noite anterior, o mesmo que freqüentemente vinha visitá-la durante o sono, detendo-se em cada detalhe e no homem que havia nele. Seu coração acelerou-se ao lembrar que, no sonho, ela o amava. Ele realmente existiria em algum lugar? E qual seria seu nome?

Ela repudiou esses pensamentos e criticou a si mesma, chamando-se de louca, porém, juntou as mãos numa prece silenciosa, como sua mãe havia lhe ensinado tanto tempo atrás, e, enquanto o ônibus a levava para mais um dia dentro da realidade insípida, questionou por que algum deus piedoso o bastante não lhe escutava e assim permitia que aquele homem dos sonhos fosse alguém real para que ela pudesse encontrá-lo.

Nos céus, os deuses se comoveram, mas preferiram não interferir e, ao redor de Ana, a realidade, ainda que de forma silenciosa, ria dela.

 

FIM

 

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A Ilha no Fim das Rosas Morton

2 Comentários Add your own

  • 1. Luiz H.  |  outubro 7, 2013 às 8:08 pm

    Um exemplo perfeito da “teoria da coragem do norte”. Não importa se você vai perder. Importa que não se rendeu quando pôde escolher. Esse ato não pode ser tirado de ti. Muito bom. Parabéns.

    Responder
  • 2. Fábio Gafa Paro Suguiyama  |  outubro 8, 2013 às 2:58 am

    Gostei muito, querida. Lembrou-me de uma saga que eu escrevi a um tempo, não sei se salvei no yahoo, e que perdi quando um virus detonou meu pc.
    Eu gosto muito de quando os devaneios se misturam com a realidade, confundindo-me, entre qual dos dois eu preferiria viver.
    Eu mesmo sou um pouco assim, me perco de vez em quando em meus devaneios…
    Gosto muito de seu estilo de escrita. Sempre me surpreendo com seus contos.

    Responder

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