A Ilha no Fim das Rosas

setembro 26, 2013 at 5:35 pm Deixe um comentário

Pessoal,

Desde 2003, época em que decidi me empenhar com seriedade na arte de escrever textos, tenho acumulado uma certa quantidade de obras. As mais antigas não estão neste blog, por isso tenho por meta, sempre que possível, desenterrar algumas delas, que só são conhecidas pelos meus leitores mais antigos.
Este texto, particularmente e modéstia a parte, deixou-me bem orgulhosa, devido a acolhida positiva que recebeu.
Boa leitura e comentários serão bem-vindos.
Beijos
Rita

A ILHA NO FIM DAS ROSAS
Por Rita Maria Felix da Silva

Dizem que começou bem no meio da África – afinal, foi de lá que as primeiras notícias chegaram. Rosas – as mais belas e estranhas que já se viu – estavam impossivelmente se espalhando por toda a parte: sobre desertos e campos férteis; montanhas e rochas; casas, ruas e pessoas… E tudo que era tocado por elas transformava-se em mais rosas.
Obviamente a humanidade lançou sobre aquele evento certa quantidade de descrença e zombaria; uma medida de teorias, opiniões e credos; e tanto medo, fúria e tecnologia quanto pôde dispor – e um pouco mais que o desespero permitiu improvisar.
Porém as rosas cruzaram os oceanos – convertendo as enormes distâncias aquáticas em paisagens floridas e perfumadas –, atingiram os outros continentes e nenhuma ação ou vontade foi capaz de detê-las.
Aos seres humanos coube apenas fugir daquele apocalipse rosáceo, pois compreenderam que nada mais lhes restava fazer.
Até que, por fim, os últimos homens e mulheres detiveram sua corrida em uma ilhota do que fora o Oceano Pacífico. Talvez os deuses tenham se apiedado deles, porque as rosas pareciam poupar aquele pedaço de chão e assim os refugiados lá viveram.
A vida na ilha – uma terra cercada de rosas por cada um de seus lados – era por demais dificultosa, porém, eles teimavam em continuar vivendo, quem sabe por medo de morrer ou talvez pela consciência de que a humanidade, simplesmente, não deveria deixar de existir. Jamais se soube qual o motivo.
O que realmente importa é que eram infelizes, de um modo tão desesperado e profundo, que não conseguiam explicar, nem para si mesmos, aquele abissal sentimento. Viver se tornara uma carga insuportável para eles, algo que parecia pecaminoso, porque uma parte de suas almas sussurrava que o tempo da humanidade já havia passado. Porém, eles resistiam, sentavam e choravam abraçados uns aos outros. Todavia, entre uma lágrima e outra, lembravam dos que morreram transformados pelas rosas e da felicidade simples, profunda e quase celestial que emanava daqueles rostos. Os exilados na ilha lembravam desses mortos e os invejavam.
Dizem que foi assim, até que o último deles morreu, sentindo-se infeliz como os outros. Porém, quando fechou os olhos, no derradeiro momento, pensou na Terra coberta de rosas e imaginou que nunca houvera um túmulo mais grandioso, trágico e belo quanto o dele.
Quando o último ser humano partiu, as rosas avançaram sobre a ilha.

FIM
Dedicado a LEtranger.

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