Dois Textos: Sr. Gallant e Poemeto (2)

junho 16, 2013 at 12:44 am 1 comentário

Oi, pessoal,

Para a atualização desta semana, escolhi um texto meu antigo que não deve ser conhecido de quem só conhece meus trabalhos por este blog.

Também incluo meu segundo poemeto da série “Poemetos”.

Boa leitura. Comentários serão bem-vindos.

Beijos
Rita

P.S: Meus leitores mais antigos irão perceber que utilizei aqui outra versão de Lothar Gan Amon, uma das mais radicais de todas eu diria.

Sr. Gallant
Por Rita Maria Felix da Silva

Em São Bento da Trindade, diziam-se as melhores coisas do Sr. Eduardo Martins Gallant.

Para sua esposa, era o melhor homem do mundo. Os filhos, dez ao todo, juravam que pai mais dedicado não poderia existir.

Na Política local, aliados bajulavam-no com sinceridade e inimigos se orgulhavam de enfrentá-lo. Fora prefeito daquela cidade por três vezes. O povo agradecera a Deus, a Maria e aos Santos por terem aquele cidadão em quem votar. A maioria chorou quando ele não quis mais ser candidato.

Os comerciantes abençoavam cada momento que ele vinha a suas lojas. Comprava muito, mas não excessivamente, e era o melhor pagador que já viram. Nunca um cobrador precisou ser mandado à porta daquele senhor.

O Padre Segismundo louvava a presença daquele fiel na Igreja. Cristão mais devoto, alma mais piedosa, bolso mais generoso, por certo não haveria. Eram lendárias suas obras de caridade e as doações monárquicas à paróquia.

No Clube dos Homens-Bons, onde se reuniam os mais endinheirados da região, sempre fora o presidente. Herdeiro da mais tradicional família de usineiros da região, trocara de ramo para os negócios imobiliários na capital, Recife, e multiplicara por dez o patrimônio que seu pai, o Coronel Ludovico, havia lhe deixado. Uma revista famosa lá do Sul listou-o como uma das dez maiores fortunas do país.

E a todos tratava com uma cordialidade, uma bondade como raramente se imaginaria.

Era perfeito o Sr. Gallant, nada menos que esta palavra, sentenciavam todos em São Bento da Trindade.

E se havia algo que o povo podia criticar daquele homem bondoso era que trabalhava demais e nunca se divertia. Isso, porém, não era bem verdade.

Desconhecida pelos habitantes da cidadezinha havia uma casa de pedra antiga na capital, imóvel do tempo do bisavô Major Tertúlio. Lá o Sr. Gallant descansava vez ou outra de volta de seus negócios.

Foi assim numa noite de agosto. O Sr. Gallant parou naquela casa. Cumprimentou, com gentileza admirável, o empregado calvo e mudo que ele encarregara dos cuidados àquele lugar. Pediu um cálice de vinho e foi até um dos quartos. Bebeu, deixou a taça na escrivaninha. Puxou um lençol que cobria um quadro na parede. A pintura era européia da Alta Idade Média. Reprodução de uma obra ainda mais antiga. Tratava-se do desenho de um monstruoso ser não-humano, Lottar Gan Amon, um dos setenta e três demônios cultuados no extinto continente de Atlântida, a quem os atlantes sacrificaram povos inteiros.

O Sr. Gallant ajoelhou-se e recitou uma prece numa língua mais velha do que qualquer cultura ainda existente neste planeta. Eram palavras feias, de algum linguajar abominável. Frases de louvor, de gratidão e oferecimento.

Levantou-se. Seu rosto estava extasiado. Puxou de debaixo da cama uma grande mala de couro e abriu-a. Dentro uma coleção invejável de facas de vários tipos, a maioria metálica, porém algumas talhadas em osso. Todas mais velhas que este país. Escolheu uma delas. Beijou-lhe a lâmina.

Tirou do pescoço uma corrente de prata na qual estava pendurada uma chave cinzenta. Abriu uma portinhola no chão do quarto. Pegou uma lanterna numa gaveta e desceu por uma escadinha de madeira, não sem antes fechar a pequena porta atrás dele.

No porão, o facho de luz apontou para uma jovem acorrentada, amordaçada e caída num canto. Chorava inutilmente. A face era de uma tristeza que fazia pena.

O Sr. Gallant fez questão de mostrar-lhe a faca, mas não disse uma só palavra. A moça começou a contorcer-se. A mordaça abafava-lhe os gritos, as correntes cuidavam do desespero.
O servo, pens%ou o Sr. Gallant, como era costume, esmerava-se no cumprimento da tarefa. Trazia-lhe sempre as garotas mais adoráveis. Sorriu, pensando na pele, carne e ossos daquela mulher, tão ansiosas e frágeis diante da faca cerimonial.

Como ato de piedade, pediu-lhe perdão antes de começar. Suspirou feliz como não fazia há tempos. Sim, os últimos dias haviam sido estressantes, mas agora ele realmente poderia se divertir.

Fim
Dedicado a Udo Baingo

POEMETO (II)

E sussurrou para mim aquele metafórico bardo:
— Ora, diga-me, e qual universo tu já conheces?
Todavia, como eu perdera quem é meu universo,
Assim, tão somente, pude curvar a minha cabeça
— Nenhum, — respondi com coração lacrimoso

Poema: Rita Maria Felix da Silva

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Dois Textos: Otto Von Dews e Pometo (I) Farrazine 2013 Edição 04

1 Comentário Add your own

  • 1. Thina Curtis  |  junho 17, 2013 às 12:58 am

    Texto da escritora fantástica Rita!!!!!sou sua fã!!!!

    Responder

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