Dois Textos: Otto Von Dews e Pometo (I)

junho 10, 2013 at 2:49 am 2 comentários


Oi, pessoal,

Para atualização de hoje, posto dois textos. O primeiro é um caso muito especial:

Talvez alguns de meus leitores saibam que adoro fazer peoplefics, que são histórias ficcionais em que uso uma pessoa real transformando-a num personagem ficcional e a utilizo num contexto fictício. Foi assim com esta história, em que homenageie o amigo Von Dews, do blog Vertigem HQ.

Quando comecei essa história, a idéia era fazer dez contos com o Barão Otto von Dews contando suas histórias. Mostrei a idéia a Von Dews e ele aprovou, até fez uma capa maravilhosa e o texto foi postado na web como ebook (infelizmente não tenho mais o arquivo do ebook).

Infelizmente,na época, o texto foi muito mal recebido por alguns intelectuais internéticos. Por favor, não me entendam mal: tudo em nossa sociedade está sujeito a críticas e não tenho a pretensão ou presunção de achar que meus textos estejam acima disso. Claro que não: sou imperfeita, meus textos são imperfeitos, sempre vai haver alguns que gostem deles e outros que não.

Ocorre, porém, que meu lado racional entendeu as críticas como exageradas e injustas e meu lado emocional se magoou muito com elas. Na verdade, fiquei tão magoada que jamais prossegui adiante com a série e parei de divulgar o texto, que acabou ficando desconhecido da maioria de meus leitores.

Bem, isso é passado agora e, por essa razão, resolvi postá-lo aqui no meu blog.

O segundo texto é algo bem simples: um poemeto meu. Bem desprentencioso e sentimental. Espero que gostem.

Boa leitura, comentários serão bem-vindos.


As Histórias do Barão Otto von Dews
Episódio 01 de 10 – “Ângelo e o Saco de Dinheiro”

Por Rita Maria Felix da Silva

O começo de uma manhã neblinosa e lúgubre na ilha rochosa de Santa Edwiges — que, assim dizem, situa-se no lugar mais remoto do mundo.

Ali, erguido em pequena elevação, ficava o Castelo do Monte Tempestuoso, construção antiga, de pedras que resistiram às marés da História. Era o solitário lar do Barão Otto von Dews, como tinha sido por toda sua vida, pois, há mui-tos anos, o último de seus parentes deixara a terra dos vivos.

Padecendo de insônia crônica, o Barão tinha por costume esperar na biblioteca até o amanhecer, sempre acompanhado de um bom livro e uma garrafa de vinho. E, muitas vezes, por acreditar que fantasmas vagavam por aquele lugar e vinham, invisíveis, escutá-lo, Otto lhes contava histórias:

— Acabo de reler “História da Riqueza do Homem”, de Leo Huberman, — disse o Barão, enquanto olhava para a garrafa e a taça vazias colocadas num móvel perto da poltrona em que estava sentado, onde também repousava um livro — talvez você conheça aquele socialista americano. Uma boa obra. Sempre me faz refletir… Eu estava pensando sobre o dinheiro, algo que tanto sobrevalorizamos e pelo qual muitas coisas, até as mais desagradáveis, são feitas. Nessas horas lembro-me da história de Ângelo.

E o Barão Von Dews recostou-se na poltrona, bocejou — intimamente lamentava a falta do sono — e assim disse:

“Pelos anos que até agora vivi, jamais encontrei resposta para uma questão que deveria ser simples: a bondade é uma dádiva inerente a todos nós ou precisa ser perseguida com a mesma ânsia que alguns homens caçam tesouros?

De qualquer modo, nossa história começa com Ângelo. Seus pais, que morreram quando ele mal chegara à maturidade, deixaram-lhe uma pequena fortuna, o suficiente para uma vida sem preocupações financeiras.

Não seria difícil encontrar uma jovem que se dispusesse a passar a vida com ele, mas Ângelo tinha uma queda pela solidão e, assim, jamais se casou e nunca ergueu uma família.

Dizia que seu amor era pelo próximo, pela humanidade. Se aquele homem era realmente bom ou não — pois questiono que medida pode ser usada para determinar tal coisa —, o fato é que ele sentia um prazer indelével em fazer caridade. Sentia-se elevado, superior às outras pessoas, quando elas se curvavam em agradeci-mento por tanta generosidade. Acima de tudo, o elogio dos amigos e dos sacerdotes, que o bajulavam rotulando-o de ‘o melhor ser humano do mundo’ fazia-lhe feliz.

Em certo momento, para atender aqueles que o interrompiam na rua pedindo-lhe esmolas, Ângelo passou a levar consigo, pendurado na cintura, um saco cheio de moedas. E, logo, multidões o seguiam pelas ruas, as mãos ávidas, as bocas suplicantes. Ele atendia a todos com soberba, que disfarçava muito bem em ternura. Aos seus olhos, era uma turba de animais que o cercavam submissos, como que em adoração. Talvez fosse dessa forma que Deus se sentiria, ele ponderou tantas vezes, e sorria satisfeito.

Uma vez, porém, vindos da metrópole, chegaram Emílio e Wilson, pessoas de índole reprovável, que cidadãos prudentes deveriam evitar.

Ângelo, contudo — apesar dos avisos de amigos que breve se antipatizaram com aquela dupla — não os repeliu. Era bondoso, o Senhor o protegeria de tudo, e não discriminaria nenhuma alma que precisasse de ajuda. Passou a tarde na companhia daqueles homens, pagou-lhes o que beber, bebeu com eles, riu, conversou frivolidades, e nesse estado, deixou-se conduzir.

No começo da noite, eles o levaram até a área onde a cidade acumulava lixo. Lá lhe cortaram a garganta, apoderaram-se do saco de moedas e fugiram, deixando-o para morrer em meio a restos, dejetos e coisas apodrecidas. Ironicamente, a quantia no saco mal lhes pagou outra noite de bebida.

Quanto a Ângelo, pela manhã, mendigos, que reviravam o lixo em busca de comida ou algo que pudessem vender, encontraram-lhe o cadáver. Reconheceram-no e lembraram-se de caridades passadas, contudo, logo um deles fez uma sugestão que invocou protestos e repulsa, bem como um ligeiro debate. Mas, no final, enfatizaram que há dias não comiam e, de qualquer modo, ele não estava mais vivo. Prefiro resumir o que houve a seguir recordando que a fome é uma senhora mais poderosa que a razão, a lei ou a condição humana. Assim, com facas e improvisados objetos cortantes, retalharam o corpo de Ângelo. Em seguida, fizeram fogueira, dividiram a carne dele entre si, devoraram e festejaram por algumas horas. Concluíram aquela manhã, satisfeitos, felizes e de estômago cheio, embora a consciência teimasse em recriminá-los.

Foi dessa forma que Ângelo terminou a vida. Não poucas pessoas diriam que ele, por ser humano, mereceria um fim melhor. Concordo, mas, um amigo meu, já falecido, diria: ‘quem de nós — bondoso, maligno ou farsante — está a salvo da fatalidade, mesmo das mais sinistras?’”

O Barão Otto von Dews ficou em silêncio por um instante, como se buscasse as palavras para dizer algo muito importante, mas, fosse o que fosse, ele desistiu da idéia e apenas falou com um tom de amargura:

— Mais uma noite de insônia! Um bom dia, pequeno fantasma. Aguardo-o quando desejar ouvir outra história.

E levantou-se da poltrona, recolocou o livro de volta a uma das estantes, recolheu a taça e a garrafa e começou a descer as escadas até a sala de jantar, para a primeira refeição do dia.

FIM

POEMETO(I)

Este

Este verso tão desesperado
Desta minha alma desolada
Que pelo amor abandonada
Veio a si mesma a devorar
E assim morrer de inanição

Este

Poema: Rita Maria Felix da Silva

Anúncios

Entry filed under: Uncategorized.

Os Mereges em Áudioconto Dois Textos: Sr. Gallant e Poemeto (2)

2 Comentários Add your own

  • 1. Tony Brandão  |  junho 12, 2013 às 4:44 am

    Continue escrevendo,que foi esse o dom que Deus lhe deu.
    “Filtre” as críticas e extraia dela apenas, o necessário para sua evolução.
    E continue nos brindando com seus otimos contos. 🙂

    Responder
  • 2. David Eme  |  junho 12, 2013 às 5:30 pm

    Muito bom, Rita.
    Escrever é bom demais.
    Eu, além de ler e blogar, escrevo muito.
    Prazer maior que escrever, talvez seja ouvir muita música de qualidade.
    Parabéns.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

junho 2013
S T Q Q S S D
« maio   jul »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: