A INSÓLITA HERANÇA DE IVO TELES

junho 2, 2013 at 4:33 am 2 comentários

A INSÓLITA HERANÇA DE IVO TELES
Por Rita Maria Felix da Silva

Dizem que, quando jovem, Ivo Teles, um residente de São Bento da Trindade, interior de Pernambuco, foi um grande viajante. Contam também que falava uma dúzia de línguas, talvez mais, e foi a lugares a que poucos, ou somente ele, tiveram a chance de conhecer.

Igualmente extraordinário é o que comentam de sua morte:

Na hora do jantar. Sua empregada, Alaíde, foi a única a estar com ele naquela noite, pois Teles era um notável solitário. Ele estava tomando uma sopa e, como havia se tornado costume em seus dias finais, resmungava algo obscuro sobre inimigos que juntara a vida toda e finalmente chegariam para se vingar. Alaíde escutava preocupada que o patrão estivesse ficando louco ou caduco.

Em algum instante, Teles levantou-se da cadeira transtornado e começou a vociferar para coisas invisíveis, em língua que Alaíde nem mesmo sonharia entender, enquanto a empregada tremia de medo e perguntava o que estava acontecendo. Então, Ivo começou a pegar fogo. A doméstica fugiu assustada. A casa se incendiou muito rapidamente. Quando os bombeiros chegaram, não havia muito para salvar. O corpo carbonizado de Teles estava entre os destroços do incêndio.

Ivo Teles deixou poucas posses. A mais notável delas era um baú de madeira, que, conforme instruíra em testamento, foi enviado para um de seus sobrinhos-netos, Garen Ordonax, cidadão da Inglaterra.

Ordonax, que não tinha contato com o tio-avô há muito tempo — embora ainda lembrasse de certa época quando o brasileiro foi para ele o pai que nunca teve — recebeu a notícia da morte e a herança com tristeza no coração.

Em Londres, Garen abriu o baú, com a chave que acompanhava uma carta de despedida de Ivo (escrita em Inglês) e lá encontrou um grupo notável de objetos exóticos e uma lista, também no idioma britânico, que descrevia aqueles itens como “minha querida coleção de souvenires coletados nos tempos que viajei por toda a parte e um pouco mais além”. Cada descrição era acompanhada de um pequeno comentário de Teles.

Eram sete esses objetos, cada um deles assim descrito:

  1. Uma pena branca manchada de sangue, que uma vez pertencera à asa direita do anjo Amonel, um idealista que sonhou por fim a quase eterna guerra entre sua espécie e os demônios, mas que sucumbiu a uma vergonhosa traição engendrada por uma aliança composta por radicais de ambos os lados do conflito. Teles lembrava de Amonel como o melhor amigo que já teve.

  2. Um pedaço de vidro, o qual, até certa época, fizera parte de Mirhum-yam-arharnor, o espelho mágico que servia de portal para uma centena de mundos. Aquele objeto, comentava Ivo Teles na carta, era falante, tinha alma e inteligência femininas, e foi a mais agradável companhia que ele teve em muitas de suas viagens, até uma tragédia separá-los para sempre.

  3. Um biochip mumificado componente de 001010011, o computador que controlava uma máquina do tempo agora eternamente destruída. Teles jamais esquecera as conversas filosóficas entre ele e aquela magnífica Inteligência Artificial.

  4. A pata empalhada do Conde Lothar Gan Amor, célebre lobisomem que se ocupava em devorar apenas belas virgens. O conde era abominável como ser humano e monstro, comentou Ivo Teles, o qual se sentiu feliz por ter participado da caçada que exterminou aquela fera.

  5. O coração petrificado do Rei Amung-Yansur, que, num passado distante, governara o mundo inteiro, mas, traído pelos filhos e pela esposa, tão amados por ele, uma tristeza desmedida possuiu-lhe a alma e seu coração tornou-se pedra dentro do peito e ele morreu. Teles havia aconselhado Amung-Yansur sobre aquela família, mas se, como dizem, o amor pode cegar, também é capaz de tornar, mesmo as maiores pessoas, surdas a advertências.

  6. O crânio, que Ivo recolhera das cinzas do cadáver de Atrovaxos, um jovem dragão que ousou tornar-se humano e foi perseguido e assassinado por outros dragões, os quais se revoltaram com a de-cisão dele. É uma história triste, afirmou Ivo Teles na carta, e enfatizou que a verdadeira moral dela lhe escapava.

  7. O anel de ouro, com um rubi nele cravejado, que já pertencera a Iwan Khan, cientista de um distante futuro possível, que, decepcionado com a humanidade, exterminou-a disseminando um vírus mental e criou toda uma nova espécie humana, segundo seus próprios critérios, apenas para ver essa segunda humanidade logo definhar e tornar-se pior que a primeira. Khan cometera suicídio ao ingerir um poderoso venenoso de sua própria criação. Teles lamentara por aquele cientista a quem faltara visão para compreender a humanidade e a sabedoria para poder aceitá-la como é.

    Com um misto de maravilha e descrença, Garen Ordonax guardou o baú, enquanto pensava no tio-avô. Um velho louco? Um mero contador de histórias? E, se tudo aquilo, pudesse ser de algum modo verdade… Impossível, claro, mas prometeu a si mesmo levar aqueles itens a um laboratório para serem analisados no dia seguinte, pois estava tarde e ele, cansado. Foi dormir.

    Deitou-se e teve um sono longo e profundo, no qual sonhos o visitaram, sonhos de uma infinidade de viagens, nas quais ele, e não seu tio-avô, vivia todas aquelas aventuras.

    FIM
    Dedicado a Sara Khan

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DESTINO, DESTINO Os Mereges em Áudioconto

2 Comentários Add your own

  • 1. Fernando Sehvenn  |  junho 2, 2013 às 6:05 am

    Ainda bem que a Rita continua escrevendo! Pois seus textos possuem a necessária força e energia capaz de nos arrastar sem mais opções para o centro de cada uma de suas narrativas. Impossível é começar a ler seus textos e abandoná-los pela metade! Rita, uma de minhas escritoras internautas favoritas. Sempre que me resta um tempinho ou sou convidado, aqui estou a ler seus textos. Por favor Rita, continue sempre aquecendo os nossos pobres corações humanos com suas fabulosas histórias!

    Responder
  • 2. Daniel Folasor Rossi  |  junho 5, 2013 às 12:13 am

    Gostei MUITO, Rita!

    As pontas soltas dão vontade conhecer cada história, e o final ficou super bacana!

    Responder

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