Uma Caixa de Sapatos

maio 25, 2013 at 3:30 am 3 comentários

UMA CAIXA DE SAPATOS
Por Rita Maria Felix da Silva

Meu nome é Mário Coriolano. Há um mês vim morar em São Bento da Trindade, interior de Pernambuco. Sentia-me entediado com a vida e minha profissão não me estimulava mais. Cheguei aqui atraído pelos rumores de coisas extraordi-nárias nesta cidade. Porém, nada vi de incomum esses dias. Já pensava em ir embora, quando ouvi sobre o velho.

Chamam-no de “Seu Getúlio”, que enlouqueceu depois de perder a esposa. Deve ter noventa anos e passa o dia caminhando pelas ruas, com um jornal debaixo do braço. Vez ou outra, para num canto para ler.

Interessou-me dizerem que o velho já foi muito rico, mas perdeu tudo depois que a esposa morreu. Contam, e essa é a melhor parte, que ele ainda guarda sempre consigo um crucifixo de ouro, com pedras preciosas incrustadas. Isso, claro, atiçou a vontade de um ladrão experiente como eu.

Falaram-me outra coisa, algo tão absurdo que rio só de lembrar. “Seu Getúlio” estudou magia depois da morte da esposa. Queria trazê-la de volta. Claro que não conseguiu, mas… Contam que guarda a própria alma numa caixa de sapatos. Onde as pessoas dessa cidade acham que vivemos? No “Além da Imaginação”? Pelo amor de Deus! Isso aqui ainda é o mundo real!

Naquela tarde, “Seu Getúlio” sentou-se com o jornal numa pracinha que fica entre a Rua Brigadeiro Valentino e a boate “Le Paradis Bleu”. Aproximei-me com o revólver no bolso. Observei com cuidado se não havia ninguém por perto. Depois do roubo, eu fugiria de volta a Recife.

Apontei o revólver para aquele idiota e ordenei que me entregasse o crucifixo. O velho afastou os olhos do jornal e olhou para mim sem dizer nada. Depois, voltou a ler.

Aquilo me enfureceu, ordenei de novo, xinguei-o com algum palavrão, ameacei, porém, mesmo assim, ele não dava importância.

Que fique bem claro: roubo para viver, mas não sou assassino. Normalmente, minhas vítimas saem ilesas de um assalto meu. Acontece que algo na atitude do velho mexeu comigo. Quando percebi, estava atirando nele. Dois tiros. Nenhuma reação de “Seu Getúlio”. Raiva, frustração e terror se apossaram de mim. Atirei na cabeça dele.

“Seu Getúlio” se levantou, pôs os jornais debaixo do braço direito. Aproximou-se de mim. Dava para ver o sangue dos dois ferimentos manchando a camisa dele. E o furo na cabeça… Deus do Céu… O velho parou bem perto de mim… E vi o ferimento cicatrizar diante de meus olhos.

“Seu Getúlio” sorriu, deu as costas e foi embora.

Fiquei em choque. Mal percebi a agitação dos transeuntes na rua e o barulho da sirene que se aproximava. Não tentei fugir. Nem sei do que me acusariam. Com o revólver ainda na mão sentei na calçada da praça e esperei.

Ironicamente, lembrei por que havia vindo a esta cidade. Uma caixa de sapatos, uma caixa de sapatos… Meu Deus, isso aqui costumava ser o mundo real!

FIM
Dedicado a Miguel Rude

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A DECISÃO DE SVETLANA DESTINO, DESTINO

3 Comentários Add your own

  • 1. Wilson  |  maio 25, 2013 às 4:03 am

    Nossa meu a RIta com sempre supreende, mas tive que ler mais vezes!Muito bom

    Responder
  • 2. Carlos Relva  |  maio 25, 2013 às 4:54 am

    Gostei bastante! Só o último parágrafo me deixou um pouco confuso, pois a princípio concluí que ele tinha ido àquela cidade por causa da caixa de sapatos (?). Mas depois lembrei que ele estava entediado no começo do conto e a caixa de sapato era o elemento extraordinário que faltava para eliminar seu tédio. Não foi uma maneira muito agradável de eliminá-lo, claro, mas funcionou!

    Responder
  • 3. Jose Joaquin  |  maio 27, 2013 às 10:33 am

    I enjoyed the story

    Responder

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