PRESENTE DE MAGO

abril 7, 2013 at 9:38 pm 9 comentários

PRESENTE DE MAGO
Por Rita Maria Felix da Silva

Ano 3014. A humanidade se espalhava pela Galáxia como a mais próspera espécie da Via Láctea. A tecnologia alcançava níveis quase oníricos e muitos até falavam do retorno da Magia. Os intelectuais, porém, torciam o nariz. “Magia é coisa para idiotas crédulos!”, diziam.

Em Nova Olímpia, Marte, capital da espécie humana, vivia Lorde Alfredo Orfink, filósofo, físico e maior sábio daquela época.

Da janela de seu quarto, Orfink contemplava a capital, enquanto provava um cálice de uma bebida antiga que voltara à moda: vinho do Porto.

De repente, escutou o som de um zumbido. Algo sendo entregue via teleportação. Sentiu-se contrariado. Realmente amava a solidão, por isso instalara os melhores escudos antiteleporte que o dinheiro poderia pagar. Amanhã contactaria um advogado para processar o fabricante.

Agora, porém, estava curioso. Deixou o cálice na janela. Iria ver o que chegou até ele. Não poderia ser nada nocivo, afinal os sensores de hiperdetecção não deixariam algo assim se aproximar. Bem, ao menos eram fabricados por seu irmão e, nesse, ele podia confiar.

Afastou-se da janela e viu, sob o tapete, uma caixa cúbica de pouco mais de 30 cm de altura, feita de vidro nanomolecularmente manipulado. Pregado na caixa um bilhete manuscrito em papel. Orfink ficou extasiado. Quem quer que tivesse enviado isso, também apreciava coisas antigas. Afinal, quantos ainda usavam papel hoje em dia?

Podia-se ler no bilhete: “Pelo seu aniversário. Parabéns. Ass.: Caius Malzirrás, mago.”.

Sim, seu aniversário havia sido três dias antes, porém, Orfink irritou-se. Malzirrás, o charlatão. Detestava tipos como aquele. Afinal, Magia era apenas ilusão para enganar idiotas simplórios.

De qualquer modo, o presente era algo maravilhoso. Orfink demorou uns instantes para reconhecer. Cerca de 30 cm de diâmetro. Um astrolábio, instrumento antigo de navegação. Uma verdadeira antiguidade, um item excelente para sua coleção.

Abriu a caixa ansioso e segurou o objeto. Então seu rosto se contorceu com dor súbita e Lorde Alfredo Orfink caiu morto sobre o tapete do quarto.

Em seguida, o Astrolábio brilhou envolvido por uma estranha luz verde e desapareceu das mãos do cadáver. O encanto de teleportação funcionara pela segunda vez.

O objeto veio reaparecer nos Novos Campos Elísios, um bairro humilde da capital, especificamente na casa de Bruno Garcia y Mendonza, mas conhecido como Caius Malzirrás, que segurou o astrolábio com a alegria de uma criança re-cebendo um brinquedo novo. Usou seus sentidos, treinados no misticismo, e pôde comprovar o que seu coração já lhe avisara. O feitiço de captura de almas, que ele aperfeiçoara durante meses, havia funcionado perfeitamente. O espírito de Alfredo Orfink seria um ótimo item para começar sua coleção de almas aprisionadas.

Malzirrás sorriu feliz. Magia é uma coisa realmente maravilhosa, não é? Disse para si mesmo e foi guardar o astrolábio.

FIM
Dedicado a Gian Danton

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A PROFECIA DE YWAN-KHAN e A DÉCIMA VIDA DE GARENINA CAPITÃO GILGAMÉS

9 Comentários Add your own

  • 1. João  |  abril 7, 2013 às 9:52 pm

    Muito bom. Boa lição – não se deve debochar do que não se conhece!

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  • 2. João  |  abril 7, 2013 às 9:53 pm

    E lembra além da imaginação.

    Responder
  • 3. carlosdonizetti  |  abril 7, 2013 às 9:56 pm

    É um ótimo Texto,ano de 3014,vc foi longe hein Rita,rsrs…Quem é Gian Danton?

    Responder
  • 4. Heitor V. Serpa  |  abril 7, 2013 às 10:00 pm

    Magia em pleno 3014 é algo interessantíssimo e levanta questões. Belo texto, Rita.

    Responder
  • 5. Yarin Melo  |  abril 7, 2013 às 11:04 pm

    Os crédulos tem uma força poderosa ao seu favor, a força da crença e da fé humana, para o bem e para o mal é claro.

    Responder
  • 6. Gian Danton  |  abril 7, 2013 às 11:06 pm

    Muito bom. E obrigado pela homenagem.

    Responder
  • 7. Regina Castro  |  abril 8, 2013 às 11:47 am

    Gostei da mistura, FC com Fantasia… Ficou show, a ideia foi passada com perfeicao, deu ate pra visualizar as cenas… Gostei querida! Continue assim, gosto da tua escrita!

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  • 8. carlosrelva  |  abril 16, 2013 às 3:32 am

    Gostei bastante. Por isso que é bom ter os inimigos por perto, ao alcance dos olhos. E nunca subestimá-los!

    Responder
  • 9. Luiz H.  |  abril 16, 2013 às 10:54 pm

    Um texto sobre a ciência e o conhecimento, e o seu uso anti-ético e irresponsável. Chamar de “magia” ou “ciência” não muda a essência. Gostei bastante, Rita, parabéns.

    Responder

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