O Desejo de Garen Ordonax

março 25, 2013 at 2:22 am 2 comentários

Oi, pessoal,

Recentemente publiquei aqui o texto “Os Caras de Palhaço”. Este “O Desejo de Garen Ordonax” poderia ser chamado de um texto-irmão, mas eu prefiro explicar um pouco sobre isso.

Como já citei antes, participo da Oficina de Escritores (OE) e estava escrevendo um texto com o tema “cara de palhaço” para uma atividade de lá.  Mas o texto “Os Caras de Palhaço” excedeu o limite de 500 palavras previsto para a atividade.

Quando estou numa atividade dessas, fico com duas ou três idéias na cabeça, mas só é possível utilizar uma. Não gosto de deixar idéias de lado, então fiz o seguinte: utilizei a segunda idéia, que se tornou esse texto (O Desejo de Garen Ordonax) e participei da atividade.

Mas eu quis brincar um pouquinho com a coisa toda. Meus leitores mais antigos vão lembrar de Garen Ordonax. Ele é um de meus multipersonagens, ou seja, como trabalho com um multiverso, Garen existe em vários universos, em versões ligeiramente ou nem tanto uma da outra. É, isso é influência do Multiverso DC e do mestre Michael Moorcock em meus escritos.

Assim, “O Desejo de Garen Ordonax” poder ser lido como uma versão bem leve de “Os Caras de Palhaço”, mas na verdade é uma outra versão da mesma história acontencendo num universo não tão sombrio quanto o anterior.

Houve mais duas idéias que não pude usar. Talvez eu ainda escreva a terceira mas não a quarta. Boa leitura.

E a arte de Leonardo Laino é maravilhosa, não é?

O Desejo de Garen Ordonax

Por Rita Maria Felix da Silva

Arte caras de palhaço2

Arte : Leonardo Laino (2013)

Verão de 2052. 09 de Setembro. Segunda-feira. Garen Ordonax se preparava para o espetáculo daquela noite no Gran Circus Madame Turval. Deveria ser seu último.

Ontem havia completado 62 anos. Sentia-se velho, esgotado, incapaz de continuar. Não sabia mais como alcançar o coração do público. As platéias o ignoravam. Suas piadas e brincadeiras tornaram-se sem efeito. Estivera naquela carreira por quase cinqüenta anos, mas o veredito era terrível: se um palhaço perdeu a graça, é melhor que pare.

Além disso, Gregory Freedmann, aquele americano antipático, iria comprar o circo. Madame Turval cedera a proposta dele e o ianque já citara seus planos de “modernizar e profissionalizar o negócio”. Garen amava aquele lugar. Não gostaria de vê-lo mudado. Com um suspiro de tristeza, compreendeu que seu tempo havia passado. Hora de partir.

Decidira se despedir de seu público no espetáculo daquela noite. Teria de ser a melhor performance de toda sua vida. Entrou no picadeiro com uma prece nos lábios. Na mente se indagava se haveria algum deus que favorecesse os palhaços.

Naquele mesmo dia, assistira ao noticiário de TV. Uma repórter linda falava sobre o meteoro que breve passaria pela Terra e dos cultos de fim do mundo que proliferavam pelo planeta com a proximidade daquele evento astronômico. Enquanto isso, astrólogos advertiam para um alinhamento astral incomum e jornais noticiavam ocorrências bizarras em vários lugares do globo — por exemplo, a mãe queniana que dera a luz a gêmeos sêxtuplos siameses.

Assuntos grandes demais, pensou ele. Sentia-se pequeno. Essas coisas não eram para ele.

Seu negócio era aquela noite no picadeiro. E o espetáculo surpreendeu. A recepção do público foi extraordinária. Ele os fez rir como nunca antes. As piadas, as brincadeiras, tudo funcionou maravilhosamente bem. Sentia-se quase explodir de tanta felicidade. Desejou não ter que parar, não se afastar de tudo aquilo. Desejou ser um palhaço para sempre.

Ao fim do espetáculo, sob os aplausos do público e elogios dos colegas, voltou ao seu trailer. Tanta excitação deixara-o muito cansado. Adormeceu sem tirar a roupa e a maquiagem.

Despertou lá pelo meio-dia da terça-feira. Estava feliz. Pena que teria de desistir de tudo aquilo. Paciência. A noite anterior deveria ter sido sorte. Algo tão extraordinário não poderia se repetir.

Retirou a roupa colorida e foi se lavar e remover o resto da fantasia: a peruca verde, a tinta branca sobre a pele, as tintas vermelha e azul, para os lábios e ao redor dos olhos. Mas então descobriu que a peruca se tornara seus próprios cabelos e que aquela maquiagem era agora sua própria pele. Diante do espelho e emudecido pela surpresa, percebeu que algum deus deve realmente atender aos desejos dos palhaços, afinal Garen Ordonax era agora um palhaço para sempre.

FIM

Dedicado a Thina Curtis

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2 Comentários Add your own

  • 1. Ana Lúcia Merege  |  março 29, 2013 às 3:36 pm

    ESSE ficou muito legal! Apesar de já se ter uma ideia do que aconteceria, o desenvolvimento psicológico foi muito bem feito. Parabéns, Rita!

    Responder
  • 2. José Joaquín  |  março 29, 2013 às 8:57 pm

    Hello, I’ve enjoyed very much the story. You have permition for sending me more text.

    Responder

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