O JULGAMENTO DE CHRISTOPHER TYNARD

março 10, 2013 at 11:08 pm 13 comentários

Pessoal

Apenas explicando: este conto abaixo não é meu. Foi escrito por meu amigo, o escritor João Victor Rodrigues.

Estou publicando-o aqui a pedido dele, como forma de ajudar meu amigo a se divulgar. Portanto o conto é de João Victor Rodrigues, não é meu, e todos os direitos autorais pertencem a João Victor Rodrigues.

O conto é ótimo e vale a leitura.

Boa leitura e sei que meu amigo vai apreciar os comentários de vocês.

Beijos

Rita

O JULGAMENTO DE CHRISTOPHER TYNARD
Um Conto dos Lobos
Por João Victor Rodrigues

As correntes tiravam a sensação de meus pulsos. A posição em que eu estava também fazia as costas doerem muito. Era quase uma posição de guilhotina. Eles queriam me deixar o menos confortável possível. Era compreensível diante do que eu fiz.

Finalmente tive coragem de olhar para o líder de meus captores, o que me acusaria. Tinha dois metros de altura, pelos e presas. Face lupina. Era o que alguns chamavam de lobisomem. Eu era um dos membros de sua tribo. E era um traidor.

Eu vi o procedimento todo. A montagem do tablado onde iam ficar. O acusador. Os maiores, que pareciam ser guardas. Não havia, como no mundo dos humanos, uma pessoa apta a me defender. Eu faria a minha defesa. Eles me dariam um tempo. Era uma formalidade, apenas. Uma forma de dizerem para si mesmos que fizeram de tudo pra não me condenar. Embora já houvessem decidido pela minha condenação desde antes de esse circo ser armado.

Quando finalmente terminaram de montar o cenário, abriram as portas aos membros. Seria um espetáculo. Duzentos seres rosnando. Um som constante. Parecia que o local vibrava ao som dos rosnados. Uma torcida maligna.

De repente, um silêncio: os juízes entraram na arena. Eram três. Sentaram-se enquanto os outros ficaram de pé. Finalmente dignaram-se a olhar para mim. Eram os últimos instantes de minha vida. Já era quase meia noite. Apenas as tochas na frente do círculo de tendas nos davam luz.

— Ergam o infiel. — as correntes foram puxadas e eu fiquei pendurado acima do chão. Em minha forma lupina essas correntes iam virar pedaços em menos de um segundo. Mas, por alguma razão, eu não poderia me transformar. Então o acusador começou:

— Por ser uma ocasião especial, vamos julgar você como se fosse um dos nossos. – Eu já ouvira falar disso. Técnicas de intimidação. Como não sou um de vocês é mais fácil para julgar, condenar, executar. Virando-se para os julgadores, em especial o julgador ao centro, continuou: — Senhor julgador. Este que está a nossa frente é um traidor. Violou nosso valor mais precioso — o segredo. Nós só vivemos ainda hoje neste mundo, porque os – ele disse uma palavra que não entendi de pronto. Só uns segundos depois, vi que ele se referia à expressão “sem-pelos” na língua lupina. – não sabem o que somos na realidade. Para eles não passamos de mitos perdidos, folclore, histórias para contar a seus filhotes. Mas a imprudência deste aqui pendurado pode fazê-los vir a pensar de modo diferente. Hoje eles possuem tecnologias, podem detectar diferenças que temos entre eles. E isso pode chamar atenção indevida. Permitam-me exibir o que este ser fez.

Então ele pegou um globo e o segurou. Nele surgiu a imagem de uma moça de aproximadamente 25 anos.

— Esta moça chamava-se Mirna. Foi a primeira vítima do acusado. Ele a atacou quando ela passava por uma rua que cortava um beco escuro. Eis os resultados: — fez um movimento com o globo e a imagem normal de Mirna deu lugar a uma imagem tridimensional daquilo que era um cadáver de uma mulher. Muito sangue e várias marcas de cortes o cobriam. Os espectadores só podiam supor que era a moça cuja imagem havia aparecido anteriormente. Eu me lembrava dela. O sabor era muito bom. — Ela foi morta em um de seus ataques de descontrole. Era uma moça de classe média. O pai tinha alguns conhecidos na polícia. É desnecessário dizer o quanto de nossa influência tivemos de mobilizar para que o caso fosse abafado.

O acusador deu uma pausa e olhou em volta. Tinha a atenção de todos, exceto um ou outro, que olhava ameaçadoramente para mim. Ele se permitiu um sorriso discreto em minha direção e continuou:

— Nossos infiltrados colheram algumas amostras do cadáver e conseguiram disfarçar os padrões de mordida. Achamos que era um caso isolado. Então outros apareceram. Mesmas marcas. Homens, mulheres, idosos, até uma criança. — mostrou no mesmo globo as imagens de cada vítima. Vivas e em seguida seus respectivos despojos.

E prosseguiu:

— Nosso acusado aqui não tem muito refinamento em seus apetites. Então os nossos pesquisadores, analisando padrões de lugar, tempo, cheiros e outros, chegaram até ele. Mas não precisam crer em minha palavra. — disse ele pegando alguns frascos que pareciam recipientes cerimoniais. — Estes frascos contêm a evidência do sangue dos cadáveres misturados com a saliva do morto. Podem analisar tudo, degradação, tempo, grau de mistura entre fluidos. Nossos cientistas supervisionaram pessoalmente as coletas.

O acusador passou os frascos aos julgadores. Eles abriram e cheiraram. E então, pela primeira vez desde que entraram, dirigiam-se a mim, cheirando-me como ao conteúdo dos recipientes. Os guardas me seguravam para evitar qualquer reação. As feras haviam percebido que o meu cheiro, de alguma forma, era similar a alguns dos odores encontrados nos frascos. O julgador principal cheirou-me mais tempo do que os outros. Não me lembrava de ter lido sobre parte do ritual. Ao final, a satisfação deles era nítida. Voltaram aos seus lugares. Poderiam proferir a sentença:

— Aquele que está a nossa frente é culpado das acusações. Que seja executado desonrosamente, por violar nossos segredos e costumes. Aprontem-no para o cumprimento da sentença.
Fui baixado e cercado pelos guardas. Em forma humana. Por mais desesperado que estivesse, sabia que reagir ali seria inútil. Tinha de esperar. Levaram-me até uma tenda maior. Iriam trocar minhas vestes e permitir aos membros que me absorvessem, que era um eufemismo deles para “devorar”. Sendo que, por razões cerimoniais e culturais, o primeiro pedaço seria do julgador e o segundo, do acusador.

Apenas o acusador e os guardas tinham acesso à tenda onde eu estava. Qual não foi minha surpresa ao ver o julgador entrando.

— Sei que ele é culpado. Não vou reavaliar meu veredicto. Mas também sei que a história toda não foi contada. Ele não cheira exatamente como um de nós, embora seu cheiro estivesse realmente no sangue e nos restos das vítimas. O que está acontecendo aqui?

— Um problema que achei que poderia nos causar grande embaraço perante nossos súditos. Então julguei que seria melhor ocultar parte do assunto, pois não traria mudança no resultado.

— Quem julga aqui sou eu, acusador. Eu decido isso. Conte-me tudo.

— Ele não é um dos nossos.

— E então quem ele é?

— Creio que ele mesmo possa contar. Além do inibidor de lupins, demos a ele alguns neutralizadores químicos para anularem as substâncias que usou para apagar a própria memória e tentar passar-se por um lupino aos nossos olhos. Creio que já fizeram efeito. Pode parar de fingir, aberração.

Disse a última frase virando-se para mim. Ele estava certo. Havia tido um ou outro flash no julgamento. Mas quando me cheiraram, começou a vir como uma torrente. Veio tudo.

— Seus monstros!!

— Alto lá, pequena criatura. — disse o julgador, agarrando-me pelo pescoço e me erguendo até eu estar a centímetros de seu rosto. Conseguia sentir-lhe claramente o hálito. —Mais respeito. E então, o que você é?

— Eu sou Christopher Tynard, III. Herdeiro do legado Tynard.

— Um caçador?

— Sim. — disse eu, sorrindo. Não era um deles. Nunca fui. Dediquei-me desde os 15 anos a expurgar essa praga de nosso mundo. Com resultados pouco satisfatórios. Até hoje.

— E então fez o quê? Decidiu que, como não podia nos vencer, resolveu tornar-se um de nós? Virar aquilo que tanto acreditava odiar? E como foi sucumbir à sua natureza interior? Apagar sua humanidade para não comprometer seu disfarce.

— Fiz o que tinha de ser feito. Alguns sacrifícios foram necessários. Mas eu precisava mostrar ao mundo que vocês existem. Como são muito discretos, decidi me tornar uma versão menos discreta de vocês. Engenharia genética. Um pouco do sangue de vocês, alguns anos de pesquisa e análise dentro de laboratórios do governo e temos um soro que permite que o lobo dentro de você saia.

— Mas você falhou, pequena fera. — Disse o promotor, se aproximando, enquanto eu ainda era agarrado pelo juiz. — Tornou-se um monstro. Muito pior que alguns de nossa tribo. E tudo isso para nada. Alteramos marcas de cadáveres, sumimos com seu DNA. Você não existe. São crimes não relacionados. — virou-se para o juiz e disse: “Excelência?”, como a pedir-lhe para dar continuidade ao cerimonial.

— Perfeitamente. Vou saborear você com prazer, pequena criatura. — virando-se para o promotor disse: não se preocupe, ele será executado como um dos nossos. Não há por que alarmar a tribo com estas questões menores.

E assim foi feito. Logo terminaram de me vestir e me levaram até próximo ao local onde eu fui julgado. Fui deixado desamarrado e indefeso. Logo o juiz aproximou-se e me atacou no tronco. Senti o sangue e outros fluidos adentrarem minha garganta, mas estranhamente não senti dor. Logo foi a vez do promotor, que arrancou a parte de minha perna direita um pouco abaixo do joelho. E então os outros se seguiram. A dor foi curta. Nada mais senti.

********************************

Na sua vida humana o julgador da tribo lupina era um funcionário de órgão público. Nunca teve interesse em ascender no mundo humano. Desejava apenas não chamar atenção. Apesar de ter nascido humano, não se considerava um deles.

Não tinha vida social. Saindo do trabalho, vinha sempre tarde para casa. Nunca jantava fora. Não gostava de ter contato com humanos. Mas, nos últimos dias, ele não se sentia normal. Sua condescendência e natural irritação com os sem-pelos agora davam lugar a um tipo de fúria, a um ódio quase sólido. Havia brigado verbalmente com dois colegas de forma bem severa e foram contidos por outros colegas para que não agredissem fisicamente um ao outro. Ia consultar outros membros da tribo, saber se era alguma condição lunar ou algum similar.

Pensava nisso enquanto chegava em casa. Ao entrar, cumprimentou a família de modo formal e foi para o quarto. Em cima da cama, havia um envelope. Chamou a esposa:

— Que envelope é esse?

— Um garoto chegou e entregou.

Fechou a porta e farejou o envelope. Não detectou traços químicos ou venenos. Tateou e não sentiu nenhuma lâmina ou similar. Finalmente, abriu o envelope.

Havia um bilhete e um DVD. No bilhete estava escrito:

“Está se sentindo nervoso? Mais agressivo? Coração batendo mais forte? Sei o que o aflige. Se quiser saber, veja o disco. CT 3”

O julgador quase quebrou o aparelho ao inserir o disco. Suava. Então começou.

Apareceu uma imagem de um homem um pouco desfocada, que logo ele viu ser o réu do outro dia, Tynard. Tynard deu umas batidinhas até ouvir o som do microfone da câmera e começou:

“— Olá. Se você está assistindo a este vídeo significa que faz alguns dias que você me matou. Bem, você deve ter pesquisado sobre mim e descoberto que sou engenheiro químico. Além disso, sou microbiologista, faculdade que fiz usando documentos falsos. Juntando esses dois conhecimentos, eu criei uma placa de proteína orgânica que consegue proteger uma substância de entrar em contato com o meio externo a ela e é feita de materiais do corpo humano. O que significa que não pode ser percebida pelo cheiro.”
Tynard dizia isso com um grande sorriso, parava diversas vezes, como se estivesse contando uma história hilariante. O que seria o caso, para ele.

— Além da cápsula, quando eu fiz as pesquisas para a alteração genética de lupino, que me permitiu fingir ser um de vocês, eu descobri que a transformação, como eu suspeitava, fazia com que a fúria e adrenalina em vocês disparasse. Então consegui sintetizar um catalisador para esse processo. Não só um catalisador, mas um intensificador. Eu juntei essas duas gracinhas em nível microscópico.

Tynard parou por mais um momento. Parecia querer deixar o julgador lidar com as palavras por ele ditas.

— Esta vai ser minha estratégia de terra arrasada, por assim dizer: se eu perder, vocês perderão. Sei que, no ritual de vocês, costumam executar o condenado por absorção. Bem, vocês vão absorver minha carne e meu sangue, assim como 100 gramas dessa substância. Desse inoculador. Protegido pela capa, claro. E isso não tem tratamento. Destruí todas as amostras. E os testes que fiz em ratos inoculados com lupins fez com que eles se matassem em uns 3 ou 4 dias. Vocês devem durar uma semana pela dose. Logo todos saberão os monstros que são. Não vão aguentar. Seu lado lobo vai suplantar esse arremedo de humanidade que são. Logo todos irão ver o que são de verdade e caçar vocês como as feras que são. E o mais engraçado é que mesmo morto eu peguei vocês. Você foi o responsável pela ruína da raça lupina. Vai ser morto logo. E sempre vai saber que foi o responsável pela ruína de seu povo. Bem, é só isso. Queria que soubesse por mim antes de ser morto. Adeus!

O vídeo terminou. O julgador permaneceu em silêncio. Seu lado racional nervosamente ponderando sobre tudo aquilo. Seu lado animal cada vez mais furioso e incontrolável. Sentia a sua racionalidade diminuir e uma névoa escarlate cobrir seus olhos e a pouca humanidade que lhe restava. Fechou os olhos. Aceitou que ia morrer. Decidiu morrer como um lobo, não um humano.

FIM

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Yuri e Pierre OS CARAS-DE-PALHAÇO

13 Comentários Add your own

  • 1. Alvaro Domingues  |  março 10, 2013 às 11:58 pm

    O texto está bom, tem originalidade, fugindo a alguns clichês de histórias de lobisomem.

    Responder
  • 2. Joõa Victor  |  março 11, 2013 às 12:09 am

    Rita

    Muito obrigado. Não só por ceder muito gentilmente seu espaço, mas pelas idéias e colaboração sem as quais este conto não teria sido possível.

    Beijos

    João Victor

    Responder
  • 3. João Victor  |  março 11, 2013 às 12:11 am

    Álvaro, obrigado pelo comentário. Fico muito feliz que tenha gostado da história.

    Grande abraço.

    João Victor

    Responder
  • 4. Regina Castro  |  março 11, 2013 às 10:49 am

    Gostei mto do conto, adorei a parte q ele fala q msm morto, pegou eles, ficou como uma doce crueldade, um bom tema e ideia, sem fugir do assunto e nem cansar o leitor com rodeios… Parabens… E obrigada pelo prazer da leitura.

    Responder
  • 5. Danielle CGA Souza  |  março 11, 2013 às 12:37 pm

    Ficou esplêdido João. Adorei do começo ao fim.
    E que jogada de mestre. =)

    Responder
  • 6. João  |  março 11, 2013 às 12:54 pm

    Regina, Fico feliz que tenha gostado desse conto, realmente procurei fazer algo mais curto que o habitual.

    Bjs

    João Victor

    Responder
  • 7. paulab1802  |  março 11, 2013 às 2:22 pm

    Um dos melhores textos que você escreveu, João. Coeso, maduro e de ótima leitura.
    Adorei.
    Bj!
    🙂

    Responder
  • 8. Regina Castro  |  março 11, 2013 às 5:01 pm

    Vc possui blog?

    Responder
  • 9. João  |  março 11, 2013 às 10:45 pm

    Paulinha. brigadão não só por esses elogios, mas pelo incentivo e ajuda q vc me dá sempre. Bjokas

    Regina, não tenho blog não, até pq acabo nao escrevendo habitualmente, mas se quiser, sou amigo da rita no face, pode add.

    Bjs

    Responder
  • 10. Carolina Alvarenga  |  março 12, 2013 às 1:04 am

    achei muito legal seu conto, continue assim!!
    carol.

    Responder
  • 11. João  |  março 12, 2013 às 1:05 am

    Só agora q vi seu comment, Dani, q bom q gostou!! : ) bjokas.

    Responder
  • 12. João Victor  |  março 12, 2013 às 4:52 pm

    Que bom que gostou Carol. Beijos!

    Responder
  • 13. Alex Asimani  |  março 21, 2013 às 5:14 am

    Meu bom e velho camarada de tantos papos(desde os tempos de Orkut). estava quase dormindo quando resolvi dar uma olhada no seu conto e posso lhe dizer sem susto:

    Muito bom, tem um quê de fc com uma pitada de Werewolf the Apocalypse. f….. como sempre! continue assim.

    Responder

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