O RISO DE ANKIL-MELAKIAN

janeiro 29, 2013 at 3:22 am 5 comentários

O RISO DE ANKIL-MELAKIAN

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

E naquele dia, que foi o último dos dias para o mundo de Oldarion, em meio a ruínas fumegantes, desolação generalizada e cadáveres destroçados ou carbonizados, Duran-Anti, o luminoso deus da vida, e seu irmão Ankil-Melakian, o zombeteiro deus do caos, vagavam juntos e sozinhos. Dizem que, em algum momento, Duran-Anti assim falou para seu irmão:

— Só restamos nós dois e pergunto por quê? Este foi o mais belo e notável mundo do universo. Então, por que tramar contra o povo daqui, semear guerras e discórdias e arquitetar um conflito que teve por resultado apenas isso: a destruição de tudo. Nunca entendi sua loucura, mas agora quero escutar. Por favor, diga-me porque você fez isso.

E Ankil-Melakian, com os olhos lacrimejantes, respondeu:

— Você é o culpado. Enquanto eles o amavam e adoravam com tanta força, eu era o repudiado, o exilado, o odiado. Como ansiei ardentemente por uma mera fração do amor que transbordavam por você, mas jamais foram capazes disso. Aqueles tolos, mortais e egoístas nunca se permitiram a me amar. Se meus motivos não foram justificáveis, o que importa? Olhe ao nosso redor, esta tragédia, esta desolação infinita. Eu queria apenas o amor deles e agora… Tudo se acabou e… Não há nada que se possa fazer para reverter isso. Nada. Terei a eternidade para me lembrar e flagelar disso… Então, me deixe em paz com minha culpa.

Entristecido e chocado Duran-Anti ficou em silêncio e respeitou o pedido do irmão, pois realmente não sabia mais o que dizer. Quanto a Ankil-Melakian, finalmente entregue à loucura, ria descontroladamente, um riso no qual se misturava uma tristeza interminável.

 

Fim

Dedicado a João Victor Rodrigues

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5 Comentários Add your own

  • 1. Leo  |  janeiro 30, 2013 às 10:31 pm

    Muito bom esse conto, adorei mesmo, faz a gente pensar sobre a verdade da realidade. Vc é magnífica, Rita.

    Responder
  • 2. João  |  janeiro 31, 2013 às 2:25 am

    Muito bom o conto, Rita. Gostei de ver o quanto o Ankil vê o que ele realmente fez e como se sente culpado.

    Obrigado pela dedicatória!

    Bjs.

    Responder
  • 3. Daniel Folador Rossi  |  fevereiro 5, 2013 às 4:06 am

    A vinganca precede a culpa. O riso do final ficou bem legal!
    Bjos!

    Responder
  • 4. Daniel Folador Rossi  |  fevereiro 5, 2013 às 4:07 am

    E nao podemos fazer um paralelo com o nosso mundo e nossa religiao maniqueista?

    Responder
  • 5. José Joaquín Ramos  |  fevereiro 13, 2013 às 1:47 am

    A lovely short story. I enjoy it

    Responder

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