História Antiga – Segunda Versão – Uma Pequena Divergência

janeiro 26, 2013 at 3:13 pm 1 comentário

Pessoal.

Os tempos não andam nada bons para mim, nada mesmo. Por isso, estou sem textos novos para postar. Lamento por isso.

Em compensação, estou desenterrando textos meus antigos que nunca passaram por este blog e que só são conhecidos pelos meus leitores mais antigos.

Igualmente para compensar hoje vou fazer uma atualização bem robusta, com três textos. Eles se enquadram numa parte de minha obra que chamo de “ficções da pós humanidade”. Vocês vão entender porque.

Boa leitura.

Beijos

Rita

P.S. que anda quebrando a cabeça com códigos de programação na linguagem C. Programas de computador, linguagem de programação e computadores, são bobagem, é só estudar um pouco que se domina isso, mas pessoas, essas é que são o grande problema…

História Antiga

Por Rita Maria Felix da Silva

(Alhambradar) — Você parece nervosa.

(Yonbrone) — Não seja tão intrometida!

(Alhambradar) — Sou sua melhor amiga. Tenho esse direito. O que é, afinal?

(Yonbrone) — É essa nova missão…

(Alhambradar) — Não pode recusar?

(Yonbrone) — Não! Minha família tem sido o orgulho da Força Militar do Conglomerado há mais de vinte gerações. Se eu cometesse uma desobediência dessas, seria uma vergonha. Além disso, você nem pode imaginar a punição…

(Alhambradar) — Descerebrização? Já ouvi falar.

(Yonbrone) — Isso mesmo! Se não sirvo para eles com esse meu cérebro, original e orgânico, arrancam-no e substituem por um robótico. Que as deusas me protejam!

(Alhambradar) — E o que fazem com teu cérebro original?

(Yonbrone) — Você é mórbida mesmo! Usam como fertilizante para a lavoura de plantas carnívoras no planeta Acaius-Primus.

(Alhambradar) — Ainda bem que não como aquelas coisas… Mas não é só uma expedição de captura?

(Yonbrone) — Essa era a conversa inicial do Conglomerado. Agora a idéia é extermínio mesmo. Restam apenas doze daqueles seres. Doze! E justamente eu vou liderar um grupo para extinguir essa espécie?

(Alhambradar) — E por que querem matá-los?

(Yonbrone) — Não sei. Política, misturada com preconceito, interesse econômico e religião. O de sempre, acho.

(Alhambradar) — Essa missão é bem importante. Pode te deixar famosa, te dar outra promoção e, talvez, até um passe do governo para um quinto marido. Eu adoraria ter tantos!

(Yonbrone) — Não sei… A moralidade disso tudo me incomoda.

(Alhambradar) — Ora, essas criaturas são só… Alienígenas.

(Yonbrone) — Em relação a nosso povo, sim… Porém… Metade de minha família sempre foi de historiadores. Os mais notáveis em todos os mundos do Conglomerado. O que você chamou de “criaturas” já tiveram tanta importância. Todos devemos demais aquela espécie. O universo civilizado não seria um infinitésimo do que é se não fosse por tudo o que fizeram.

(Alhambradar) — Ora, Yon, isso é só mito. E se fosse verdade, é coisa de tempo muito antigo. Ninguém se importa mais.

(Yonbrone) — Eu me importo. Sabendo o que sei… Não queria ter a morte deles na consciência.

(Alhambradar) — Amiga, você quer ser descerebrizada?

(Yonbrone) — Claro que não!

(Alhambradar) — E a promoção?

(Yonbrone) — Quero sim! Mereço.

(Alhambradar) — E um quinto marido?

(Yonbrone) — Preciso. Estou chegando ao ciclo de ápice sexual de nossa espécie. Os quatro maridos que já tenho não são suficientes.

(Alhambradar) — Certo… Sabe o que minha mãe dizia?

(Yonbrone) — Qual: a genética ou a que serviu de incubadora?

(Alhambradar) — A incubadora. A outra é uma bruxa! Ela sempre falava que, na hora dos problemas, guarde a consciência, fuja do perigo e aproveite as vantagens que vierem. Entendeu?

(Yonbrone) — Sim.

(Alhambradar) — Esses alienígenas que você vai exterminar…

(Yonbrone) — Não me lembre disso!

(Alhambradar) — … Têm um nome na língua deles, uma palavra que soa meio engraçado na nossa, não é?

(Yonbrone) — É. Nosso povo pronuncia “humanitas” ou “humânicos”, mas a forma correta é “humanos”.

FIM

Dedicado a Yume Sama

Segunda Versão

Por Rita Maria Felix da Silva

 

 

— Você parece cansada.

— Um pouco. Muito trabalho nessa fase do projeto. E você é muito preocupado comigo… Mais que o normal.

— Gosto de você.

— Eu sou casada.

— E está pensando em pedir divórcio de um de seus quatro maridos, não é?

— Sim, mas não sei quem lhe contou. Olha, você é legal, um bom amigo, mas… Deixa para conversarmos sobre isso depois. Veja só: ela está quase completa!

— Ainda me pergunto porque sugeriram que começássemos com uma fêmea…

— Por favor… Machismo não combina com você. E em muitos mitos da criação, por toda a Galáxia, tudo começa com uma fêmea.

— Hum… No caso da espécie dela, havia vários mitos em que o começo é um macho. Mas não quero discutir Mitologia. O que importa é que ela atinge a puberdade ainda hoje. Talvez antes do crepúsculo dos sóis gêmeos, vamos poder acordá-la.

— Nós a desenvolvemos do zero a partir de seqüências de DNA. Hoje vai ser como o nascimento para ela. Me pergunto como ficam detalhes tipo a personalidade, a psique…

— Deixa que a equipe de Psicologia cuide disso. Estou com fome. Vem comigo ao refeitório? Aproveitamos para continuar aquela conversa.

— Certo.Os computadores podem continuar deste ponto. Vamos lá. Não se maravilha com o que estamos fazendo aqui?

— É só um trabalho. Me pagam e eu faço.

— Me preocupa a controvérsia envolvendo este experimento, toda aquela discórdia no Conselho Galáctico sobre o aspecto moral de trazer de volta, através de clonagem, espécies extintas. Essa prática havia sido abandonada faz muito tempo e nós estamos recomeçando justamente por um dos casos mais polêmicos…

— Deixa os políticos brigarem. Sabe, cresci ouvindo histórias sobres os seres humanos. Nunca me empolgaram.

— Também cresci ouvindo isso. Ora me encantavam, ora me horrorizavam, mas sempre fui fascinada por eles. Já tem um nome para nosso espécime?

— E precisa?

— Claro. Lembrei de um mito humano da criação. Acho que poderíamos chamá-la de “Eva”.

— “Eva, a primeira da nova espécie humana”. Soa bem.

— Ei, me ocorreu uma coisa: quando ela souber que nós a “fizemos”, vai pensar que somos algum tipo de “deuses”… Não é engraçado?

— Por favor, não diz uma besteira dessas para mim. Afinal, eu sou ateu.

FIM

Dedicado a Thina Curtis

UMA PEQUENA DIVERGÊNCIA

Por Rita Maria Felix da Silva

A Cidade Vetorial, capital deste mundo, embora nos costumamos chamá-la apenas de a Metrópole, iluminada pelas luas gêmeas. Parece ficar pior à noite. É maior do que todos nós, nossos sonhos e presunções. Como uma mãe velha, indiferente e moribunda, definhando em crime e corrupção. Há assassinatos em todos os cantos e coisas ainda mais sujas acontecem aqui. E, no final, acaba por ser nosso túmulo, porque é o único lar que temos.

Reflexão de velho tolo. Fui ao médico ontem. O Psico-câncer progrediu muito. O doutor, pelo menos, foi honesto comigo: não chego ao inverno. Se eu tivesse muito dinheiro podia arriscar um daqueles tratamentos alternativos. Podia até sobreviver. Sonhos. De que adiantam na Cidade Vetorial? Lembro que quando era jovem, ansiava partir, talvez até me fixar numa daquelas colônias lunares. Dizem que a vida lá é simples e boa.

Meu nome é Shankar N´aranir, um capitão da Polícia Metropolitana. Não é o melhor trabalho que existe. Um grupo de idiotas mal pagos, reclamões e teimosos, esperando pela aposentadoria e tentando manter a ordem, enquanto a Metrópole afunda na falência dos sistemas econômico e social.

Meu contador de tempo marca o início do quinto período da noite. Vai demorar ainda para o sol nascer. Chego ao “Horizonte Dimensional”, um bar no “Campo dos Deuses”, a zona menos recomendável da Metrópole, um lugar onde cidadãos honestos nunca vêm, a menos que estejam atrás de encrenca. A ironia é que isso aqui já foi um dos bairros mais elegantes da capital, há duas gerações, quando a Imperatriz e a família foram executadas pelos Republicanos. Hoje é só “Área de Alta Periculosidade”. Território para bandidos e policiais se matarem.

Atendo ao chamado de Avalskurk, um subalterno meu. Quando entro no bar, penso logo que houve uma guerra. Corpos demais e sangue espalhados pelo chão. Pode passar uma vida, mas acho que nunca me acostumarei com esse tipo de cena.

Viro-me para Avalskurk. Ele é um radamita. Sei que a opinião geral sobre essa espécie não é muita boa e que insectóides, como eu, deveriam odiá-los. Por algumas dessas anomalias do destino nos tornamos amigos.

— Deuses! Olha só: deve ter aqui cadáveres de pelo menos três ou quatro espécies diferentes.  — digo logo ao chegar — Veja só, aquilo ali é um simióide. Fazia tempo que não via um desses. O que aconteceu aqui? Guerra de gangues?

— Quase… — ele responde. O  tom é irônico.  Adora ironias. Vem de uma família de artistas — Já ouviu falar das “Gangues de Filósofos”?

— Pensei que era outra lenda urbana.

— Acabou virando moda entre os jovens ricos metropolitanos. Se juntam para debater assuntos “profundos” e trazem armas pesadas. Sabe como é: para resolver alguma discordância mais séria.

Tenho vontade de rir, contudo os pedaços dos mortos decorando o chão inibem até meu humor sombrio.

— E o que foi dessa vez? O Segredo do Universo? O Sentido da Vida? — indago.

— Hum… Rsrsrs… Não. Algo mais “delicado”.

— Sem suspense. Diz logo. — insisto.

— A discussão era sobre os seres humanos: se realmente já existiram ou são apenas outro mito.

— Não acredito!

— Verdade. — ele sentencia.

— Deuses! Recolhe os corpos. Contate os pais riquinhos desses sujeitos. E vamos tentar manter isso longe do público.

— Certo. Shankar

— O que é?

— Jeito besta de morrer, não é?

— É, estúpido mesmo. — concluo com mais amargura na voz do que estou habituado.

Eu me afasto, deixando para Avalskurk o trabalho sujo. Uma pergunta para a qual nunca consegui resposta é se há algo digno o bastante pelo que se morrer. Enquanto o Psico-câncer vai detonando minha mente, fico pensando se não devia ter entrado numa dessas gangues de filósofos.

FIM

Dedicado a Alessandro Reiffer

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YOLANDA, CAIO E ZAIDA O RISO DE ANKIL-MELAKIAN

1 Comentário Add your own

  • 1. Daniel Folador Rossi  |  fevereiro 5, 2013 às 4:31 am

    Já havia lido o primeiro um tempo atrás. Cenário bem construído enquanto a história se desenrola!

    O segundo, por estar em sequencia, pode confundir com a personagem do primeiro, que tem quatro maridos. Se o número não é tão comum, como Allhambradar deixa transparecer, aparecer outra personagem com o mesmo número faz parecer serem a mesma. O que fica estranho, se a Yon os extinguiu, para entao recria-los. Mas o final ficou ótimo!

    Responder

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