Dois novos textos

abril 27, 2012 at 10:58 pm 9 comentários

Sobre estes textos:

Estou viajando estes dias, longe de casa, de meu computador e precisando escrever em blocos de papel (algo de que não gosto) e contar com lan houses (na verdade, eu agradeço aos chineses por terem inventando o papel e por existirem lan houses).

Mas resolvi tentar escrever algo novo e atualizar o blog mesmo nessas condições. Afinal, Isaac Asimov começou escrevendo em situações bem mais difíceis e se tornou um dos melhores escritores de todos os tempos e, humidemente declaro, um de meus ídolos.

O primeiro texto é o resultado de outro daqueles exercícios na OE (Oficina de Escritores), uma rapidinha, texto de até 120 palavras escrito em poucas horas. O tema era “o jogo da volta”.

O segundo escrevi durante um momento no hotel, enquanto, deitada, eu olhava para a janela. Na verdade, é uma brincadeira com um famoso dito popular, que era muito citado por um ex-colega de trabalho meu. Também nos últimos tempos, li umas duas histórias em quadrinhos de Terror bem perturbadoras e escrever esta história é uma forma de catarse depois de ter lido coisas assim.

Meus leitores mais antigos reconhecerão Lottar Gan Amon e Garen Ordonax, assim como,  é possível, identificar a brisa a que me refiro no texto, que já apareceu como personagem em textos meus de tempos atrás. Boa leitura.

Beijos

Rita

 

POR UM JOGO

Por Rita Maria Felix da Silva

— Entrega-me teu tesouro ou farei contigo como fiz a teus servos —  vociferou o guerreiro Garen Ordonax, diante do trono do mago Lottar Gan Amon, após vencer todas as defesas do castelo.

—  Somente eu conheço a palavra mágica que abre a porta do tesouro. — respondeu o mago — Não temo a morte. Porém, troco essa informação por um jogo: pega o arco e flecha naquela parede, acerta no meio do alvo suspenso acima de meu trono e terás o tesouro.

Ordonax obedeceu, mas, antes de atingir o alvo, a flecha voltou e cravou-se no olho do guerreiro, que caiu agonizando.

Lottar Gan Amon sorriu. Flecha enfeitiçada. Adorava aquele jogo, que chamava de “O Jogo da Volta”..

FIM

Dedicado a Matheus Carvalho

AO CHEGAR À PRAIA

Por Rita Maria Felix da Silva

Esgotado pela fome, sede e cansaço, Wilson maldizia sua sorte e agarrava-se a um pedaço do que restara do “La Belle Dame de la Saint Merci”. Porém, o oceano, indiferente ao sofrimento daquele náufrago, apenas continuava movendo suas águas de modo tedioso e enlouquecedor.

Há quanto tempo estava ali,  boiando naquele suplício de águas intermináveis? Não sabia mais dizer. O sol castigava-o do alto do céu e o calor deveria, por certo, ser semelhante ao do próprio Inferno.

Ele rezava para que algum deus pudesse escutá-lo. A solidão era imensurável e a crença de que jamais veria outro ser humano tomava conta de sua alma.

Sentia-se desolado e lamentava por si mesmo, porque iria morrer daquela forma. Se ao menos a morte não demorasse tanto para chegar e livrá-lo daquele tormento…

Tentou reunir as idéias, lembrar como fora parar ali. Num instante, sua memória o levou de volta ao convés do “La Belle Dame…”. Ele estava beijando Michelle e ambos conversavam sobre o sonho brilhante da nova vida que os aguardava na América. E então vieram dois estrondos tão terríveis e selvagens como trovões.

Por Deus, esta guerra é insana! O “La Belle Dame” era um navio de passageiros, oriundo de uma nação que não participava do conflito, por que alguém iria torpedeá-lo? Era a estupidez da humanidade, que, desde o começo do mundo tomava a vida de inocentes.

As memórias se desfizeram, porém a imagem de Michelle e daquele último momento juntos queimava-lhe a mente. Abandonado na água, Wilson chorou mais uma vez.

Não seria mais fácil – indagou a si mesmo – soltar-se daquele destroço, permitir-se afundar e ser engolido pelo oceano?

Porém, quis o destino – ou alguém mais cruel – que Wilson voltasse seus olhos para um ponto indeterminado no horizonte e visse o que imaginou ser… Terra? Talvez alguma ilha.

Com uma fagulha de esperança reanimada em seu coração, soltou o destroço, juntou as forças que ainda possuía e nadou tão rápido quanto pôde.

Mas a distância era maior do que ele pensara e houve momentos em que a esperança e o desespero batalhavam em sua mente, com a esperança vencendo apenas por algum milagre.

Então, em certo momento do que lhe parecia uma eternidade, Wilson chegou à praia. Percebia-se esgotado, seu peito queimava, na iminência de  explodir. Ele desabou na areia e lá ficou sem energia para levantar-se.

Antes de desabar, porém, ele vira uma floresta além da praia, onde poderia encontrar água potável, animais para caçar e frutas para colher. Devidamente alimentado e descansado, iria pensar em alguma forma de fugir dali e voltar a civilização. Com uma prece silenciosa, agradeceu aos céus por estar a salvo.

Contudo, algo começou a agitar-se na areia perto dele e a se aproximar. Quem sabe algum caranguejo ou outro animal que ele pudesse matar e comer. Mesmo sem forças, ainda tentou levantar-se e lidar com aquilo…

Todavia, um enorme tentáculo rompeu do solo, agarrou o náufrago, que, aos gritos, foi arrastado para dentro da terra.

Epílogo:

 Por mais tempo do que poderia lembrar, o Horror, cujo nome fora há muito esquecido, dormia no interior da ilha. Seu sono era interrompido apenas quando movia um de seus tentáculos e capturava e devorava algum criatura, às vezes na praia, em outras na floresta.

Dessa vez, porém, estava intrigado. O que era aquele ser? Nunca encontrara uma animal assim. Talvez fosse uma daquelas coisas… Um Humano… Como na história que certa brisa antiga, que um dia passou pela floresta, contou. Ao menos era o que parecia.

De qualquer forma, o Horror encheu-se de satisfação e, numa prece silenciosa, rogou a algum deus que pudesse escutá-lo para que mais humanos viessem à ilha. Sim. Afinal, o gosto deles era maravilhoso.

 FIM

Dedicado a Raven Ravenna

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ESPINHOS EM TI “Fim de Noite” e “Tardia”

9 Comentários Add your own

  • 1. ana  |  abril 27, 2012 às 11:16 pm

    Interessantes e reflexivos seus textos. Ana

    Responder
  • 2. Kate  |  abril 27, 2012 às 11:30 pm

    Ótimos textos! E a maior estupidez dos guerreiros é aceitar participar dos joguinhos propostos pelos magos…
    Gostei muito do ar “cthulhiano” do segundo conto… eu fui sinceramente surpreendida!
    Parabéns pelos contos, estão maravilhosos como sempre ^^

    Responder
  • 3. Alison  |  abril 28, 2012 às 12:19 am

    Gosto de contos curtos assim e os seus são os melhores gostei principalmente do segundo, me surpreendi. Parabéns Rita.

    Responder
  • 4. Paulo Guimarães  |  abril 28, 2012 às 9:59 pm

    Gostei do seu texto bastante instigante parabéns!

    Responder
  • 5. Suad  |  abril 30, 2012 às 9:28 pm

    Realmente.
    São textos curtos.
    Mas a narrativa é perfeita e prende a atenção do leitor do começo ao fim e ainda deixa aquele gosto de quero mais…
    Mais uma vez meus parabens!

    Responder
  • 6. Yarin Melo  |  maio 5, 2012 às 3:19 pm

    O primeiro conto é sensacional, esses contos curtos, que são idéias e sacadas transcritas são muito bons, e a narrativa do segundo está impecável, em partes como :”O sol castigava-o do alto do céu e o calor deveria, por certo, ser semelhante ao do próprio Inferno.” incrível.

    Responder
  • 7. sabioheremita  |  maio 5, 2012 às 3:53 pm

    Muito bom os textos. Eles perdem um pouco por serem curtos, não envolvendo tanto o leitor, mas mesmo assim são bastante interessantes, intensos. Parabéns!

    Responder
  • 8. Daniel Borba  |  junho 30, 2012 às 4:10 am

    Muito bons, os dois. Finalzinho surpreendente…

    Responder
  • 9. Geralda  |  julho 7, 2013 às 12:19 pm

    Feliz aniversário, Rita, muitas felicidades para você em tudo na sua vida.

    São textos curtos. Mas a narrativa é muito boa e prende a atenção do leitor do começo ao fim.
    Mais uma vez meus parabéns!

    Um grande beijo.

    Responder

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