EPÍLOGO NA MONTANHA TIANKONG

fevereiro 26, 2012 at 6:18 am 5 comentários

Sobre este texto:

Pessoal,
Este texto tem a ver com uma idéia antiga minha. Faz alguns anos que idealizei o básico do enredo que se tornaria esta história. Porém, não fui adiante por uma razão simples:
Eu queria que fosse uma história em quadrinhos, mas, infelizmente, não sei desenhar. Assim, guardei a idéia em minha mente esperando uma oportunidade de escrevê-la.
Meus leitores mais antigos vão lembrar de Iwan Khan, que (junto com Garen Ordonax, Lothar Gan Amon, Asfridi e Safridi, e os Malkins) é um multi-personagem meu, ou seja, aparece em universos diferentes como versões distintas dele mesmo. Mas essa informação não é relevante para o entendimento deste texto.
Boa leitura.
Beijos
Rita

EPÍLOGO NA MONTANHA TIANKONG

Por Rita Maria Felix da Silva

 Parte I – Declínio

 

Numa manhã de inverno, após uma penosa jornada, Ywan Khan chegou ao topo da montanha Tiankong. Ao avistá-lo, os sacerdotes Tianren foram esconder-se, pois a imagem do guerreiro (espada partida, coberto de ferimentos, armadura em pedaços, uma flecha ainda cravada no abdômen) provocava medo naqueles homens santos, os quais foram ensinados a abominar a guerra e tudo que a ela se referisse.

Ywan Khan não se importava. Sentia que estava morrendo e uma última coisa precisava ser feita. Enfraquecido pela dor, fome e cansaço. Suas pernas ameaçavam derrubá-lo na neve. Teimosamente resistia à febre, ao frio e à tontura, esses inimigos tão traiçoeiros. Nessas condições o guerreiro caminhou até a entrada do templo e parou diante da grande cabeça esculpida em pedra antiga, escura e esverdeada do deus Chonggao Dezhu.

A estátua — a imagem de um ancião calvo de olhos fechados e feições suaves, porém inspirando autoridade — repousava no solo de vegetação rasteira coberta de neve. Seriam necessários quatro homens, de braços estendidos para contorná-la e, igualmente, da base do pescoço ao topo daquela cabeça a distância era quatro vezes a altura de um homem.

Ywan Khan, veterano de uma centena de batalhas, suspirou para reunir a coragem de que precisaria. Ajoelhou-se, deixou que sua espada partida caísse ao solo, curvou a cabeça e assim falou:

“Grandioso Chonggao Dezhu, eu, Ywan Khan, que uma vez fui o monarca absoluto de todo meu povo, os Zhìzhě, venho diante de ti me humilhar em penitência por meu pecado.

Há cinqüenta gerações, tu desceste dos céus e procuraste meu povo. Ensinaste a eles os caminhos da paz e da sabedoria e fizeste deles grandes eruditos que devotavam suas vidas a serenidade, ao estudo e a meditação. Assim, foi por muito tempo.

Até que eu nascesse. Desde criança o modo da tranqüilidade era para mim tedioso. Eu abominava os hábitos pacíficos de minha gente e jurava que estavam desperdiçando o tempo que possuíam nesse mundo seguindo a filosofia tola a que tu os conduzira. Assim eu pensava.

Então, ansiei te substituir na alma daquela gente, liderá-los e ser adorado para que se atirassem nos modos da guerra, da selvageria e da conquista, que os transformariam num exército invencível, incendiariam todos os reinos daqui até o ocidente e, por fim, fariam dos Zhìzhě os novos mestres do mundo.

No início, muitos se opuseram às minhas idéias e fui hostilizado e exilado da companhia de todos, mas usei esse tempo para viajar por vários reinos e aprendi diligentemente sobre as artes da guerra, pois eu jurara retornar ao meu povo.

Quando isso aconteceu, percebi, para minha surpresa, que uns poucos já compartilhavam de meus ideais. Juntei-me a estes e semeie com eles o discurso da guerra nos ouvidos daqueles que eram mais sensíveis ao meu sonho. A todos estes ensinei sobre a arte da batalha e a matarem em nome de meu plano.

Breve provoquei uma grave cisão entre meu povo e liderei uma guerra civil. Por fim, minha facção venceu e, entre nossos inimigos, aqueles que não se juntaram a nós, tratei de decapitar com crueldade e rapidez.

Uma geração se seguiu, com guerras, conquistas e matanças, e, eu, cego por meu orgulho e ambição e iludido pelas vitórias que obtive, não pude perceber o que aconteceria. Em algum momento, os reinos capturados começaram a reagir, as terras ainda livres se organizaram contra nós e o nascente e jovem império pelo qual tanto ansiei caiu e afogou-se em sangue.

Um dia me vi sozinho entre os mortos no campo de batalha. De todo meu povo, apenas eu restara. Minha infinita tolice custara a vida de todos eles.

Agora compreendo a loucura da guerra, a insensatez de uma vida baseada na conquista e o abismo a que meu orgulho e ambição levaram todo meu povo.

Finalmente enxergo teus motivos, teus elevados propósitos, grandioso Chonggao Dezhu, e entendo porque era teu desejo manter os desafortunados Zhìzhě afastados do modo da guerra.

Assim, venho aqui, desolado e em humilhação, pois sei que meu erro é grande demais e não pode haver redenção para alguém como eu, mas, imploro, diga a meu povo que me arrependo do que fiz a eles. Que eu padeça no Diyu* e minha alma seja torturada em cada um dos dezoito níveis daquele reino tenebroso.

Por minha própria culpa, eu perdi tudo, então para ti entrego a única coisa que ainda me resta. Minha vida”.

E após dizer palavras tão sombrias, o outrora grande guerreiro Iwan Khan retirou a adaga que trazia presa à cintura e enterrou-a no peito. Logo, seu infeliz cadáver repousava na neve diante da estátua de Chonggao Dezhu.

 

 Parte II – Epifania

Embora a maioria dos seres humanos não saiba, os deuses vivem em uma interminável guerra fratricida, com apenas breves pausas em que decidem interferir no mundo dos mortais.

Foi assim naquele dia. Chonggao Dezhu havia acabado de atravessar uma lança no coração de um Yeren**, que servia ao deus da guerra Yehehua Delie Zhanshi, quando parou para descansar e sentiu-se incomodado por uma súplica vinda do reino dos humanos. Normalmente, orações chegavam aos ouvidos divinos na forma de zumbido, irritante e incompreensível, mas a curiosidade dos deuses acabava por obrigá-las a querer descobrir do que se tratava.

Rapidamente localizou o ponto de onde a prece emanava e escolheu uma forma em que ele poderia se manifestar. Deste modo, a grande cabeça de pedra em frente ao templo na Montanha Tiakong estremeceu e seus olhos se abriram.

Chonggao Dezhu olhou para o mundo além da montanha, procurando pelos Zhìzhě, pois sentia que a oração viera de um deles, mas frustrado descobriu que todos estavam mortos. Então notou o cadáver do infeliz Iwan Khan e, nos ferimentos e expressão de dor no rosto do guerreiro, pôde ler toda a história daquela alma desafortunada.

O deus estava furioso. Criara os Zhìzhě, esperara muito deles e agora aquela coisa tola e insignificante chamada Iwan Khan havia destruído um plano longamente elaborado. Meditou por um instante. Nem tudo estava perdido e havia um modo de castigar aquele patético orgulhoso. Era algo que o Rei Yama, soberano do Diyu, certamente não gostaria, mas ele cuidaria de Yama depois.

Dos olhos na cabeça de pedra partiram dois raios verde-azulados que atingiram o cadáver de Ywan Khan e a área ao redor dele. E, assim, em torno daquele corpo — num círculo que caberia dez homens de pé — a neve e o frio desapareceram, a vegetação rasteira ressurgiu e o ar tornou-se suave como a primavera. Em seguida o corpo do guerreiro caído passou a brilhar na mesma cor dos raios e depois a dissolver-se numa nuvem de energia.

Chonggao Dezhu sorriu satisfeito e pensou em ficar para ver o final do que havia provocado, mas, no reino dos deuses, a trovejante deusa Gongjian Qingfu e o amante dela, o sombrio Heian Fashī, armados com espadas gêmeas, avançaram sobre ele.

Retornando ao eterno combate dos deuses, a essência de Chonggao Dezhu abandonou a enorme cabeça de pedra, mas não antes de procurar um mortal de mente suscetível — o mais próximo era um sacerdote Tianren chamado Liu An — e para este enviou um sonho flamejante.

 

Parte III – Natividade

 

Liu An estava meditando quando uma terrível visão, um sonho flamejante, veio atacar-lhe o espírito.

O monge levantou-se em desespero e apenas os anos de condicionamento permitiram-lhe conter um grito na garganta. Pôs a mão direita sobre o olho esquerdo, que havia sido queimado pelo sonho, no qual o grande deus Chonggao Dezhu, responsável pela fundação do mosteiro na Montanha Tiankong há 100 gerações, apareceu-lhe com palavras imperiosas e apontou-lhe uma missão.

Antes, porém, que ele pudesse cuidar daquele ferimento, escutou um som que julgara impossível naquele lugar. O choro de bebês.

Liu An caminhou para fora do templo, passou pelos seus irmãos monges, que se refugiavam de Iwan Khan, e logo estava diante da cabeça de pedra de Chonggao Dezhu. Admirou-se ao contemplar um círculo na vegetação rasteira onde, apesar da neve em todo o redor, imperava a primavera. Um milagre, certamente. Coisa dos deuses. Melhor não questionar.

No centro do círculo, o que parecia uma nuvem de energia, desapareceu a frente de seus olhos e, no lugar, havia agora sete bebês, quatro fêmeas e três machos, que choravam o choro dos recém-nascidos.

Um a um, Liu An recolheu-os para acomodação mais adequada dentro do templo e foi pedir ajuda a seus irmãos para cuidar daquelas crianças. A todo o momento, as palavras de Chonggao Dezhu queimavam em sua lembrança:

“Abriga-os e eduque-os. Conduza-os pelos caminhos da sabedoria, nunca pelos da guerra. Faça deles nobres e sábios para que, assim, um novo povo Zhìzhě possa existir. Este é meu desejo. Cumpra-o”.

Lá fora o círculo que simulava uma primavera se desfez e a neve retomou seu espaço. Ali, no local onde Liu An encontrou os bebês, repousava uma espada partida: uma das poucas lembranças de que o infeliz guerreiro Iwan Khan havia, alguma vez, existido.

FIM

Dedicado a Dan Folador e Heitor Vasconcelos

Notas:

* Diyu – o Inferno na mitologia chinesa.

** Yeren – criatura da mitologia chinesa, semelhante ao pé-grande, sasquatch ou abominável homem das neves

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A Ùltima Caminhada de Garen Ordonax UK_DE_ULKIMAR

5 Comentários Add your own

  • 1. yarinmelo  |  fevereiro 26, 2012 às 12:51 pm

    Um conto mais longo do que os últimos que você tinha escrito, gostei dele, me fez imaginar como seria um romance seu.

    Responder
  • 2. Alison  |  fevereiro 26, 2012 às 4:06 pm

    Sou fã dos seus contos e este é mais um que gostei bastante, Parabéns Rita ^^

    Responder
  • 3. sabioheremitaGian  |  fevereiro 26, 2012 às 8:33 pm

    Parabéns Rita,
    O conto está muito bom!

    Beijos,

    Gian

    Responder
  • 4. Daniel Folador Rossi  |  fevereiro 27, 2012 às 3:21 am

    Primeiro, obrigado pela dedicatória, Rita (:
    O conto me confirmou: gosto muito das suas histórias mais longas, são criativas, os personagens são verossímeis e a história prende. Pra quem gostou, indico Fim de Encantamento, da Rita, um dos primeiros que li dela e lembro até hoje.
    Beijos!

    Responder
  • 5. Alex Xavier  |  março 19, 2012 às 5:56 pm

    Muito boa mesmo a história. A redenção de uma alma maculada através de 7 luzeiros que podem limpar a história de um povo esquecido. Caso continue com o enredo, gostaria que me avisasse.

    Abraços.

    Responder

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