A Ùltima Caminhada de Garen Ordonax

fevereiro 11, 2012 at 2:14 am 13 comentários

Pessoal, o texto desta semana também é uma versão ampliada de uma rap (“rapidinha”, texto curto de até 120 palavras) que fiz na OE (Oficina de Escritores).

Leitores mais antigos meus, poderão reconhecer Garen Ordonax, Lothar Gan Amon e Iwan Khan, que são multi-personagens meus. Embora a ausência dessa informação não altera o entendimento do texto. Beijos. Rita

A Última Caminhada de Garen Ordonax

Por Rita Maria Felix da Silva

Manhã de 05 de setembro de 2512…

De pés descalços e sob escolta de dois guardas pesadamente armados, o rebelde Garen Ordonax caminhou pela areia do pátio da prisão até a câmara de incineração, ao lado da qual se podia ver Lothar Gan Amon, um funcionário da Tecnocracia.

A Tecnocracia, uma fusão de corporações, partidos e governos, vencera e impusera-se como a nova e única liderança mundial. Eles esmagaram toda e qualquer resistência que ainda persistisse. Os ideais de liberdade e igualdade entre os homens, o sonho da Democracia, foram cruelmente sepultados, numa cova anônima e coletiva, e substituídos por um novo dogma: “Felicidade pela Eficiência… Felicidade pelo Lucro… Para Sempre!”

Garen não mais se importava. Fugira durante meses, acreditando ser capaz de enganar seus perseguidores, mas, inadvertidamente, deixara algum rastro e eles o capturaram e torturaram. Agora, sentia-se esgotado de lutar, de sofrer. Era o único dissidente político ainda vivo, o último defensor de uma causa extinta. Que a morte viesse. Seria, por fim, um alívio.

Fecharam a porta da câmara. As luzes se acenderam. Pensou em Elise. Ainda a amava tanto. Onde ela estaria agora? Conheceram-se naquele museu clandestino, o último a ser fechado pela Tecnocracia. Conversaram diante do quadro “As Pegadas”, de Iwan Khan. Breve, porém, um flash de calor inimaginável consumiu-lhe essa memória e ele mesmo.

Fora da câmara de incineração, Lothar Gan Amon, um telepata, Interrogador Oficial e Supervisor de Execuções, suspirou. Por alguma razão, apreciava observar os últimos pensamentos daqueles que eram incinerados. Quando estava sozinho, sentia prazer em rever aquelas memórias. Nostalgia, talvez. Algo de poético, que seus superiores não aprovariam, se descobrissem é claro.

Virou-se para voltar a seu escritório. Fez uma anotação mental sobre a imagem que captou enquanto Garen era desintegrado:

“O criminoso Garen Ordonax, ao lado de uma bela mulher. Ambos olhando um quadro de duas pegadas na areia de uma praia. O rebelde parece incrivelmente feliz”.

FIM

Dedicado a José Joaquín Ramos

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13 Comentários Add your own

  • 1. Ryan  |  fevereiro 11, 2012 às 2:26 am

    Fico pensando se Lothar não daria um bom herói rebelde, no futuro.

    Responder
  • 2. Heitor V. Serpa  |  fevereiro 11, 2012 às 2:27 am

    Interessantíssimo,ainda mais pelo fato desses serem personagens recorrentes em seus contos. Outra vez uma capacidade de síntese que só posso dizer invejável, meus parabéns Rita.

    Responder
  • 3. yarinmelo  |  fevereiro 11, 2012 às 1:46 pm

    Eu acho que consegui entender esse conto, da mesma forma que Lothar Gan Amon, sentindo e aceitando a beleza do fim. Grande conto Rita.

    Responder
  • 4. Jessica Aluada Borges  |  fevereiro 11, 2012 às 2:52 pm

    Gostei bastante e concordo com o comentário de que Lothar daria um bom herói rebelde no futuro…
    Parabéns.

    Responder
  • 5. Alvaro Domingues  |  fevereiro 11, 2012 às 3:05 pm

    Um bom conto. Como toda distopia, ainda que aparentmente feche todas as portas, deixa uma ponta de dúvida na possibilidade de Lothar um dia desejar pode ter pensamentos como aqules que observava.

    Responder
  • 6. Marcio Callegaro  |  fevereiro 11, 2012 às 3:18 pm

    Lindíssimo conto, olha que é difícil um texto me emocionar, e esse conseguiu. Em curtíssimo espaço, uma história ampla, que não somente se revela muito bem escrita, mas que, certamente, permanece na memória do leitor, pelo efeito global obtido. A clareza da escrita ajudou muito, excelentes as cenas, somente o essencial. Patamar estupendo de escrita, RMFS, um conto inesquecível.

    Responder
  • 7. Paulo Guimarães  |  fevereiro 11, 2012 às 6:38 pm

    Adorei! Simplesmente demais! Poxa é muito ver uma escritora escrevendo este gênero! Eu amei este texto, fico curioso para ler o restante.

    Continue que esta muito interessante, beijos!

    Responder
  • 8. Paulo Guimarães  |  fevereiro 11, 2012 às 6:39 pm

    bom

    Responder
  • 9. Enio Myrddin  |  fevereiro 11, 2012 às 6:51 pm

    O único defeito dos teus contos (ou seria mais uma qualidade?) é que nós ficamos sempre querendo mais.
    Como sempre, ótimo texto.
    Parabéns!

    Responder
  • 10. Darlon Carlos  |  fevereiro 11, 2012 às 9:17 pm

    Interessante como sempre, mas deve ser dificil ficar contemplano os pensamentos finais das pessoas antes do fim.

    Responder
  • 11. Cirilo S. Lemos  |  fevereiro 11, 2012 às 9:20 pm

    Insisto na ideia de que a Rita deveria reunir esses trabalhos num volume impresso. Quem concorda?

    Responder
  • 12. junior  |  fevereiro 11, 2012 às 9:54 pm

    Eu acho que consegui entender esse conto, da mesma forma que Lothar Gan Amon, sentindo e aceitando a beleza do fim. Grande conto Rita.

    Responder
  • 13. leonardo R.  |  fevereiro 12, 2012 às 5:11 am

    Fecharam a porta da câmara. As luzes se acenderam. Pensou em Elise. Ainda a amava tanto. Onde ela estaria agora?
    ^^
    Parabéns ^^

    Responder

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