Juliana

julho 25, 2011 at 3:14 am 15 comentários

JULIANA
Por Rita Maria Felix da Silva

Juliana morava numa casa velha, às margens do Rio das Velas. Ela não se sentia grande, especial ou importante. Sentia ser apenas ela mesma.

Vivia sozinha uma vida monótona — e que nunca se acabava — numa paisagem fria e enevoada. Pelo dia, caçava e comia feras daquele lugar ou se alimentava dos frutos pendurados nas árvores. À noite, simplesmente dormia.

Na maioria das vezes, dormir significava um grande vazio escuro só interrompido pelo nascer do sol. Porém, havia momentos em que ela sonhava, sempre o mesmo sonho… A última das guerras e a mais terrível arma que já fora usada. No sonho, ela via uma grande bola de fogo, de fulgor tão assassino, cujo brilho, ao se extinguir, levava consigo toda a humanidade.

E, então, sonhando ela assistia a dois homens que se dedicavam a uma conversa estranha:

— O que é isso, Anatole?

— É uma simulação virtual, Andrej, um pequeno mundo artificial existindo apenas no ambiente virtual deste computador.

— Mas por que esse cenário?

— Realmente não sei. Acredito que seja um bug no programa. Eu imaginei uma dezena de outros cenários, a maioria bem mais gloriosos, mas todos definharam nesse e não consigo modificá-lo.

— Ora, se é um bug, conserte.

— Temo que não haja mais tempo, Andrej. Tenho acompanhando as discussões dos políticos. Eles estão loucos, amigo. Vão usar a arma a qualquer momento, sim, aquela que construímos, depois disso… É tão horrível. Estou muito assustado. Como chegamos a algo assim? Destruir o mundo… Nunca imaginei que…

— Anatole, nós fomos tolos e ambiciosos e nos deixamos levar por promessas de glória e dinheiro. Mas prefiro não falar disso. Se não tem jeito, não quero perder o pouco tempo que eu ainda possa ter. Sobre a simulação, e quanto a essa garota?

— Sim, é linda, não é?

— Magnífica! Usou alguém real como modelo?

— Acredite ou não, me baseie numa antiga namorada, de minha época no Brasil, quando visitei uma cidade chamada Passira. Batizei minha simulação com o mesmo nome da original: Juliana.

— Anatole, você está se tornando um velho nostálgico.

— Talvez.

— E ela tem consciência de que é apenas uma simulação numa realidade virtual?

— Oh, não. Juliana acredita que ela mesma e seu mundo são tão reais quanto você e eu. Ah, e é inteligente e sensível como qualquer ser humano. Quando a humanidade se for, ela será o último legado da espécie humana.

— Uma obra de arte, pena que será destruída com o tempo e o colapso da civilização.

— Não, Andrej. Sei que parece difícil de acreditar, mas criei este computador e esta simulação virtual para sobreviverem e continuarem funcionando, ao menos em teoria, para sempre.

— Se conseguiu algo assim, é um feito impressionante. Minhas congratulações.

— Obrigado… Espere. Uma mensagem em meu celular. Andrej, acabo de ser informado. Os políticos tomaram uma decisão. Eles vão usar a arma. Será a qualquer instante. Estou com muito medo.

— Eu sei que pode não ser grande consolo, mas, quando ativarem, o fim vai ser tão rápido que ninguém terá tempo de sentir qualquer dor.

— É verdade. Ao menos isso. Adeus, Andrej, você foi um bom amigo.

— Você também, Anatole. Sabe, nesses momentos finais, advinha onde eu realmente gostaria de estar? Se eu pudesse agora estaria em…

Então, de um horizonte a outro, preenchendo céu e terra, a grande bola de fogo devorava o sonho. Juliana acordava. De todo aquele diálogo, em uma língua desconhecida para ela, entendia apenas seu próprio nome dito por aqueles homens. Perturbada, não voltava a dormir aquela noite.

Ela esperava o sol se erguer novamente. Tentando evitar a lembrança daquele sonho bizarro, levanta-se e saía para caçar, colher e se alimentar, como fizera no dia anterior e como faria sempre. Assim era a vida de Juliana.

FIM

Dedicado a Heitor Serpa Vasconcelos

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Sr. Porfírio A Alegria de Monsieur Lampanard

15 Comentários Add your own

  • 1. Ana  |  julho 25, 2011 às 4:29 am

    Que coisa mais linda! Seriamente, é lindo.

    Responder
  • 2. Heitor V. Serpa  |  julho 26, 2011 às 1:09 am

    Obrigado, amiga, por mais esse lindo presente. Gostei do nome da personagem, também é o nome da minha namorada… Mas o dela é italiano, começa com “Giu”.

    Ainda conseguirei lhe dedicar um conto que consiga chegar perto dos seus.

    Beijos

    Responder
  • 3. Raziel  |  julho 26, 2011 às 11:51 pm

    Parabens Rita!!! Belo Texto.

    Abraços,

    Raziel

    Responder
  • 4. Tutankhamen  |  julho 29, 2011 às 12:47 am

    Realmente muito bom Rita, como sempre está de parabens ^^

    Responder
  • 5. Ryan  |  agosto 7, 2011 às 4:52 am

    Essa idéia é assustadora. Nós podemos ser dados computacionais em constante evolução!

    Ah… De certa forma, nós já somos! XD

    Responder
  • 6. Daniel Folador Rossi  |  agosto 17, 2011 às 2:52 am

    E quem pode dizer que somos mais humanos do que aquilo que criamos?
    Bom texto, Rita (:

    Responder
  • 7. Fernanda Luongo  |  agosto 17, 2011 às 3:39 am

    O que é realidade? O que é ilusão? O que você vive é real ou ilusório? Ambos estão nos olhos de quem vê…

    Responder
  • 8. Madruguinha stiling-Lappa  |  agosto 20, 2011 às 5:19 pm

    O dialogo foi bem desenvolvido gostei pra caramba. obrigado por me tirar da minha realidade mais uma vez e viajar em suas historias um bj.

    Responder
  • 9. Al Reiffer  |  agosto 23, 2011 às 3:43 am

    Sempre ótima nos diálogos, Rita, ótimo enredo também, parabéns! Abraços!

    Responder
  • 10. fabiosanjuanuan  |  agosto 23, 2011 às 4:28 am

    Poder de síntese, um poder realmente super para um escritor. E Rita tem esse poder de sobra. O que rende ótimas histórias, como “Juliana”. Pouco texto para muita imaginação, um voo de resultado feliz, embora a fábula seja triste. Parabéns, Rita!

    Responder
  • 11. Rafael Bertozzo Duarte  |  agosto 24, 2011 às 4:59 pm

    Oi, Rita.
    Esse conto tem um quê de Matrix, não? Apenas o mundo externo é diferente. Esse tema me fascina muito, pois envolve filosofia, o que é real e o que é criado na mente?… Como sabemos que qualquer coisa além da nossa própria consciência existe realmente? Penso, logo existo. Aquilo que está além da minha própria consciência eu não posso afirmar que exista!
    E essa alegoria da Matrix e desse seu conto ilustram bem esse conceito.
    Parabéns, beijo.

    Responder
  • 12. Matheus Carvalho  |  agosto 26, 2011 às 4:27 am

    É interessante ver essa velha questão de mundo real e mundo virtual/dos sonhos. Você sabe misturar muito bem a questão de realidade e dos sonhos e ainda nos deixa com uma pergunta em mente…O quão mais humana é Juliana em relação aos seus criadores? O quão mais humano o programa de computador pode ser se comparada com os seres humanos no estágio em que estão em seu texto? Adorei como você conseguiu realizar num único texto as duas chances de realidade, tanto a do sonho quanto a do mundo virtual…Afinal, temos o sonho de um ser virtual sobre o que seria a realidade…

    Responder
  • 13. Edgley ...  |  agosto 27, 2011 às 10:06 am

    Você é para mim o feminino de Isaac Asimov, realmente uma mente brilhante. Adorei o conto. Parabbéns !!! Ass. Edgley Félix.

    Responder
  • 14. Daniel Gomes  |  agosto 29, 2011 às 9:36 am

    Como já é dito acima, tem um verdadeiro Q de Matrix, mas que também não é um assunto que colocado de boa maneira, não exaure a questão.

    Muito bom o texto e bem estruturado. Parabéns a ti!

    Responder
  • 15. Luiz H.  |  novembro 4, 2011 às 4:36 pm

    Muito bom. Tem o sabor de um Twilight Zone bem feito…

    Responder

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