Sr. Porfírio

julho 11, 2011 at 1:46 am 9 comentários

Sr. Porfírio

Por Rita Maria Felix da Silva

Naquela noite do último dia de janeiro, quando Zaira veio novamente visitá-lo, Amaleque Dias estava a apenas uma semana de completar cinqüenta anos. Ele a considerava supersticiosa, muito crédula e, portanto, um pouco tola, mas, por alguma razão, ainda gostava dela. Em alguns momentos, até se permitia mergulhar nas recordações do tempo em que foram namorados.

Amaleque estava na poltrona da sala, lendo o segundo volume das Enéadas, de Plotino, quando Zaira entrou. Ela trazia consigo um livro de capa acinzentada e, quando o estendeu para ele, era possível se ver uma grande mancha de tinta azul, provavelmente de caneta esferográfica, próxima ao título.

— Olha! Eu tenho uma coisa incrível para te mostrar! — disse ela.

Havia momentos em que Zaira era tediosa, ele pensou, afastou os olhos de Plotino e disse, com certo desdém:

“Anotações sobre Vegetarianismo”, de Saul Hagag? Desculpe, mas tenho esse livro. Não é novidade para mim.

— Tá! Você é precipitado, Amaleque. Não é isso, é algo extraordinário, acredite.

— Zaira, estou um pouco ocupado, como pode ver, mas a educação me obriga a deixar que você me mostre, seja lá o que for, apenas não me tome muito tempo, está bem?

Ela animou-se e recolheu o livro para si. Havia algo de criança que sobrevivera naquela mulher de quase quarenta anos, pensou Amaleque, alguma inocência que atraía a atenção, que ainda o atraía:

— Bem, esse livro aqui foi de um tal Sr. Manoel Porfírio, um velhinho aposentado, que vivia sozinho, sem família, numa casinha antiga, lá no bairro em que moro. Era querido por todos, só que meio recluso. Cometeu suicídio semana passada. Perto do corpo, encontraram o copo em que ele tomou veneno. O Sr. Porfírio não tinha herdeiros, aí os vizinhos pegaram o que puderam. Não olhe para mim com essa cara: eu não participei disso. Mas uma vizinha minha, do tipo obcecada com dietas, achou esse livro, estava me mostrando, quando descobri uma coisa incrível nele. Sem que eu contasse a ela o que foi, eu a convenci a me emprestar, li e reli o que achei, e vim correndo te dizer.

— E o que foi? Alguma mensagem codificada? Uma teoria revolucionária da conspiração? Num livro de Hagag? Ora, por favor, tenha paciência…

— Olha, essa sua mania de bancar o cético me ataca os nervos, sabia?

— Não é mania, eu sou cético e racional, duas coisas que recomendo para todos.

— Será que não acredita em nada?

— Em mim mesmo… Na maioria das vezes… Desculpe. Estou sendo tão indelicado, é que um dos poucos prazeres de minha vida é ver você irritada assim. Bem, mostre-me o que te pareceu tão importante.

Ela sorriu e Amaleque lembrou da primeira vez que a viu sorrindo, naquele dia agora distante quando ambos se conheceram.

— Achei aqui dentro uma carta manuscrita do Sr. Porfírio, eu li e… Acredite, acho que é a coisa mais extraordinária que já encontrei. — ela retirou do livro uma folha de papel dobrado e ofereceu-a a Amaleque — tome, veja por você mesmo, Sr. Cético.

Mais por educação que interesse, ele pegou a carta, abriu-a e estas foram as palavras que estavam lá:

“Esferas e círculos concêntricos, eternamente flutuando no vazio, como ilhas num oceano escuro e infindável… Desculpe-me. Metáforas e divagações, costumo me perder nisso.

Seja quem for que esteja lendo isto, presumo que meu plano deu certo e estou morto. Não foi muito fácil conseguir isso, não mesmo. Este corpo não se permitiria morrer de um jeito simples e precisei encontrar um veneno capaz de tanto. Apenas imagino como os médicos ficarão confusos, afinal uma toxina que não é usada desde antes da invenção da escrita não deve ser algo que eles vêm no dia-a-dia.

Como devo começar minha explicação? Tenho planejado isso há… Como é mesmo a palavra… Isso! Há séculos. (sempre me confundo com essas medidas de tempo que vocês, humanos, usam).

Bem, tudo começa com os Deuses, ao menos é assim que vocês os chamam, fazem preces, ídolos, sacrifícios e erguem templos para eles, na esperança de alcançar favores ou escapar da ira divina. Acredite, já convivi o bastante com essas criaturas a quem vocês adoram para não querer mais proximidade com eles.

Mas todos nesse universo têm suas obrigações e eu não poderia ser uma exceção. Meu trabalho começou algum tempo depois que os Deuses criaram a espécie humana. No princípio, ficaram orgulhosos de sua obra, mas logo algumas facções entre eles se preocuparam com o potencial que os humanos demonstravam: se deixados para evoluir livremente, acabariam suplantando os Deuses. Teria sido mais simples extinguir a espécie humana, mas havia tantas dessas facções e tão discordantes entre si que a idéia nunca foi aprovada e tiveram de pensar numa alternativa.

Foi então que me criaram. Entenda que, até aquele ponto, todos os seres humanos eram imortais e tinham uma vida que poderia ser classificada como paradisíaca. Então eu surgi, e a humanidade passou a conhecer as doenças, a velhice e a morte. Subjugados, humilhados e contidos por esses flagelos, os humanos jamais poderiam alcançar a grandeza que as divindades temiam.

Certamente você já deve ter entendido quem eu sou. Se não, explico melhor. Durante a História, vocês adoraram tantas divindades da morte, sem nunca saberem que nunca houve, realmente, um deus da morte. Apenas eu, a Morte. Sim, é isso que sou. Para a maioria dos habitantes deste século XXI, que se curvam a um deus único, não sou mais que um conceito, embora muito temido. Bem, lamento dizer que eu, existo e tenho percorrido esse mundo de vocês por… Milênios, creio que seja esse termo, trazendo moléstias, velhice e, por fim, extinção ou descanso eterno, como prefiram chamar.

Conforme falei, por certo tempo, convivi com aqueles que você chamam de Deuses, mas, em algum momento, as querelas deles, os exibicionismos, as explosões de ego e a busca por adoração… Tudo isso me enfastiou e decidi me mudar para a Terra. Aqui precisei assumir uma forma corpórea para poder interagir com vocês (afinal, há regras no universo, e, um deus ou um conceito fundamental, não pode viver na Terra a menos que aceite ter um corpo material).

Mas, como era de se esperar, todo esse tempo convivendo com vocês, me passando por humano, vim a entendê-los melhor, do entendimento veio o respeito e depois a afeição. E da afeição veio a culpa. Vocês, apesar de tudo, são notáveis e, se não fosse pelos deuses e por mim mesmo, poderiam ser extraordinários. No começo, meu trabalho era só um trabalho, depois me esforcei para gostar dele, até que houve um momento que eu realmente me sentia deprimido com o que estava fazendo a este mundo.

Então tomei esta decisão. Eu morro, saio de cena, deixo o tabuleiro do jogo e vocês vão estar livres para alcançarem o potencial a que sempre foram negados. Os Deuses vão ser pegos de surpresa e, até que superem suas querelas e possam tomar alguma atitude, já será tarde demais, nem mesmo conseguirão um substituto para mim, porque cuidei de sabotar essa possibilidade…

Provavelmente, irão fazerem cessar os nascimentos de humanos, mas mesmo isso não vai adiantar muita coisa.

Imagino que vai demorar talvez alguns dias para que os efeitos se apresentem, enquanto a onda de caos metafísico provocado por minha “morte” percorre o mundo e faz o universo notar que uma mudança fundamental aconteceu. Imagine, por toda a parte, as pessoas miraculosamente se curando de todas as doenças e ferimentos; velhos regredindo até se tornarem novamente e para sempre jovens; ninguém mais adoecendo, nem se ferindo… E ninguém mais morrendo, não mesmo, nunca mais. Será maravilhoso.

Não sei realmente porque escrevi esta carta. Vocês têm algo chamado testamento, em que expressam seus últimos desejos. Bem, este é meu último desejo, é o que deixo para este mundo. Talvez eu tenha me tornado mais parecido com vocês do que imaginei e tivesse a necessidade de contar a alguém, talvez eu esteja apenas com medo do que vou ter de fazer. Seria algo bem humano, não é?

Ass.: Sr. Manoel Porfírio”

Quando terminou de ler a carta, Amaleque Dias ficou em silêncio, pensativo por alguns instantes, até que a voz de Zaira interrompeu sua reflexão:

— Então, não é extraordinário?

— Não, — respondeu Amaleque devolvendo o texto para Zaira — quando muito isto aqui é o delírio de algum louco ou o esforço lamentável de um escritor de ficção barata. Provavelmente, as duas coisas.

— Eu não te entendo, Amaleque! Você acaba de ler a revelação mais incrível que se possa imaginar e fica duvidando?

— Zaira, eu não sou feito você: o mundo real me basta, não preciso ficar procurando fantasias para continuar vivendo. Sei que veio aqui me mostrar isso procurando minha aprovação, mas entenda: eu não tenho porque perder tempo com… ilusões, como você faz. Se me permite um conselho: cresça.

Zaira conteve um palavrão que ameaçava escapar de sua garganta e apenas disse:

— Você é uma pessoa seca, Amaleque, sem sonhos, sem nada. Não está vivo de verdade, é só uma casca vazia esperando para morrer. Eu nem sei, nem sei mesmo como é que já te amei uma vez na vida!

Ela deu as costas e, levando consigo a carta e o livro, saiu sem dizer mais nada. Por um instante, Amaleque considerou que também era recluso, talvez tanto quanto o dito Sr. Porfírio, e que um dia Zaira finalmente se cansaria dele e pararia de visitá-lo… Não. Ela voltaria, sempre voltava… Por um momento, lembrou-se quando Zaira fora sua esposa. Tempos felizes… Às vezes, ele não conseguia acreditaram que haviam acabado. Reprimiu uma lágrima que ameaçava cair do olho direito. Chorar não convinha a alguém tão racional quanto ele.

De qualquer modo, embora não tivesse admitido, aquela carta mexera com ele. Amaleque não voltou àleitura de Plotino, ao invés disso, tirou de uma gaveta, num pequeno móvel próximo da poltrona, um outro papel, esse, porém, mais sombrio. O resultado do exame. Recordou as palavras do médico… “Não resta a você muito tempo, eu lamento”.

Ele guardou o exame e foi se deitar. Sentia-se deprimido. Por curiosidade, imaginou qual seria a última coisa que diria a Zaira antes de morrer. Que ainda a amava… Não, isso seria piegas demais. Ela o fazia tornar-se desnecessariamente sentimental. Isso nunca mudara. Desejou poder dormir para sempre e adormeceu.

Na verdade, embora não soubesse, seu desejo seria satisfeito, pois ele morreria antes do nascer do sol, apenas alguns minutos antes do início do que a humanidade viria a chamar de “A Grande Mudança”, o momento a partir do qual o desejo derradeiro do Sr. Porfírio foi realizado. Na verdade, para todos os efeitos e registros, Amaleque Dias foi à última pessoa a morrer neste mundo.

FIM

Dedicado a Luis D’Arte

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O Castelo dos Uivos Juliana

9 Comentários Add your own

  • 1. Adriana "Strix"  |  julho 11, 2011 às 3:07 am

    “That is not dead which can eternal lie.
    And with strange aeons even death may die.”

    😀

    Responder
  • 2. Ana  |  julho 11, 2011 às 3:56 am

    Ah, Rita! Vc manipula o absurdo e o insere tão bem na realidade! Elas se pertencem tanto na sua escrita…
    Deixa eu falar uma coisa que vc faz que eu amo, que é o uso dos nomes, adoro os nomes que vc usa: Amaleque, Porfirio, Zaira… tem uma sonoridade especial e por serem meio antigos, tem um sabor meio mitológico, mas real ao mesmo tempo. O conto parece ser na nossa época, mas dá uma atemporalidade, uma sensação de estar deslocado no espaço. Nossa realidade ou outra realidade. Nosso universo ou um altiverso.

    Vontade de me beliscar pra saber se tô acordada, eahehae. Isso que sempre me ocorre qdo leio vc. \o/

    Fiquei com pena de Zaira no final do conto… ela nunca vai se perdoar pelas últimas palavras que lançou a Ameleque. Mas ele fez bem em se retirar naturalmente, acho que ele não estaria preparado pro mundo da “Grande Mudança”.

    Responder
  • 3. Hellena Hanz  |  julho 11, 2011 às 7:26 am

    Sei que estou te devendo alguns comentários amiga Rita, e aqui estou! Li este maraaaaaavilhoso testo! Sempre me surpreendo, e olha que tenho lido muita coisa na net hen! Sr. Porfírio é espetacular. Em frente amiga Rita, sempre assim, nos surpreendendo! E quando publicará um livro hen?
    Aguardo anciosa.

    Responder
  • 4. Heitor Vasconcelos Serpa  |  julho 13, 2011 às 3:29 pm

    Outro conto maravilhoso, que renderia um livro, fácil. Acho que nunca li algo assim, mais uma vez acabo surpreendido com sua capacidade de síntese. Amiga, seria muito injusto não ver pelo menos um livro seu no mercado.

    Beijos

    Responder
  • 5. biamachado  |  julho 18, 2011 às 3:10 am

    Sem palavras, Rita, a leitura flui que é uma delícia. Continue nos presenteando com textos como esse, tão fantástico e tão emocionante! =)

    Responder
  • 6. biamachado  |  julho 18, 2011 às 3:12 am

    E publicado no dia do meu aniversário! =D

    Responder
  • 7. Matheus Carvalho  |  julho 18, 2011 às 4:51 am

    Conto muito bom, Rita…Sobre Zaira, ao contrário de Ameleque, ela é uma pessoa crédula e ao menos ficará o consolo de que ele foi para um lugar melhor mesmo com suas últimas palavras para ele… Adorei o conto. E acho interessante o embate entre pessoas crédulas e céticas, entre acreditar ou não, dúvida que ao meu ver todos teriam se fossem apresentados a uma carta como esta…

    Responder
  • 8. Fábio San Juan  |  agosto 23, 2011 às 4:33 am

    Zaira é ingênua, mas Amaleque é sem graça… quando diz que a realidade lhe basta, lembrei de “Esperando Godot”, quando Gogo pergunta a Didi “isso aqui lhe basta, não é?” apontando para o cenário árido. Às vezes sonhar é ingênuo, acreditar no sonho também, mas vale a pena. Mesmo que seja uma espera por Godot… ou pelo suicídio da Morte. Que idéia, Rita! Boa idéia, digo. Surpreende sempre com essa síntese e com a abundância de criatividade. Estou ficando seu fã! Grande abraço!

    Responder
  • 9. Luiz H.  |  novembro 4, 2011 às 4:45 pm

    Depois de expulsos do Eden, após milênios e milênios de sofrimento e incompleitude, finalmente Adão, Eva e a Serpente têm a sua desforra… apenas os medíocres não aproveitam. Magnífico. Libertador.

    Responder

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