O Castelo dos Uivos

junho 28, 2011 at 4:22 am 3 comentários

Pessoal, para a atualizão  de hoje, posto “O Castelo dos Uivos”, um texto meu que esteve nos últimos meses exclusivo da comunidade, no Orkut, Rita Maria Felix da Silva2, administrada pelo meu amigo Tutankhamen. Periodicamente, envio a ele textos que ficam exclusivos de lá por um período de pelo menos seis meses.

Boa Leitura! Beijos

O CASTELO DOS UIVOS

Por Rita Maria Felix da Silva

Pouco antes de chegar à ponte que levava ao castelo, Lottar Gan Amon deteve seu cavalo. Sentia-se incomodado. Por algum motivo, imaginou que esta deveria ser uma noite de grande tempestade, mas o céu estava límpido, pontilhado de estrelas e sob a guarda de uma lua cheia, silenciosa e indiferente.

Juntou as mãos, rezou mais uma vez. Nem para si mesmo, admitiria que hesitava. Afinal, não se conhecia, em toda a Europa, cavaleiro cuja fama superasse a dele.

Nestes últimos cinco anos, Lottar havia percorrido tantos lugares quanto pôde. Do Condado Portucalense à Ásia Menor, buscou pelos padres mais santos, mais devotos e abnegados e destes recebeu todas as bênçãos possíveis. Em suas viagens, recolheu toda sorte de relíquias da cristandade, entre as quais, um fragmento da Santa Cruz e o osso do dedo de um dos discípulos da Santa Ceia, que agora adornavam sua armadura. Para fortalecer seu espírito, jejuou, confessou-se, flagelou-se, curvou-se e rezou nos mais sagrados santuários cristãos daquele tempo.

Ainda que o Papa Gregório VII (a quem o imperador excomungado, o germânico Henrique IV, submeteu-se em Canossa), com certeza desaprovaria, o cavaleiro vagou pelos campos e usou de dinheiro, favores ou ameaças para que bruxas e magos — ou como se queira chamar os sacerdotes e sábios das velhas religiões — pudessem cobri-lo com uma infinidade de feitiços protetores.

Lembrou-se da espada em sua cintura. Uma lâmina encantada para enfrentar demônios e outros espíritos malignos. Uma arma mágica a quem ele obrigou um antigo e poderoso feiticeiro a forjar, num ritual que durou meses e custou o sangue e a vida de dez virgens das mais piedosas, as quais Lottar raptara de conventos. Tão logo o mago completou a confecção daquele armamento, o cavaleiro tratou de decapitá-lo, afinal não seria prudente deixar que o bruxo tolo pudesse forjar para outro cavaleiro uma espada como aquela. Sim, estava preparado, tinha de estar.

Porém, a sua frente, erguia-se o Castelo dos Uivos, como o povo desta região havia nomeado tal lugar maldito. Ninguém sabia quem o construíra, pois, aparentemente, estivera sempre ali: pedra antiga e escura, arquitetura desconhecida e monstruosa. Erigido por mãos não-humanas. Sem qualquer janela. Uma imensa porta de madeira mantinha-o fechado e isolado do mundo. Um abismo o separava do restante daquelas paragens, as quais era ligado por uma ponte rochosa. Jamais se vira qualquer habitante dessa fortaleza. Ninguém nunca entrava ou saía daquela fortificação. Aos olhos de todos, pareceria um local abandonado. Todavia, periodicamente, gritos insanos e desesperados, como o de almas condenadas a eterno e indizível suplício — terríveis uivos capazes de congelar o espírito de qualquer cristão — escapavam dali. Com o tempo, os aldeões passaram a contar que o Castelo dos Uivos era um pedaço do próprio inferno que brotara na Terra. Essa história espalhou-se pela Europa e, ao saberem daquela fortaleza abominável, todos se benziam e rezavam.

Mesmo os mais valentes evitavam o castelo. No entanto, nem sempre fora assim. Havia uma lenda de que, muito tempo atrás, um grupo de cavaleiros, cem deles ao todo, viera desafiar aquele lugar de trevas. Cem heróis, da mais nobre estirpe, dos mais renomados no Ocidente, que renegaram o medo e a prudência e avançaram para livrar o mundo daquela chaga maldita… E dos cem nada mais se soube. Nunca mais um deles foi visto, nunca um cadáver sequer daquele grupo foi encontrado.

Lottar ponderava sobre tudo isso, contudo tentava ignorar o temor que lhe percorria a espinha, pois tinha um sonho. O cavaleiro observava a Europa, dividida em tantos territórios, sob o jugo confuso e fraco de uma infinidade de senhores. Se ele pudesse subjugar aquele castelo demoníaco, sua fama se tornaria ainda maior. Os mais humildes e, mesmo, outros cavaleiros, curvar-se-iam como diante de um deus, juntar-se-iam seguindo suas ordens e formando o mais poderoso exército que já existiu. Quanto aos nobres, tomados de receio, buscariam formar alianças com ele e Lottar Gan Amon se tornaria o único soberano de um reino que unificaria todo o continente. Depois seria apenas voltar os olhos para os pagãos da Ásia e África, que poderiam ser conquistados e subjugados e, no fim, haveria apenas um império que ultrapassaria em poder os antigos césares. Que houvesse sangue, ele não se importava, que o mundo ficasse inundado de cadáveres, mas era um sonho digno, pelo qual ele faria qualquer sacrifício.

Então, com sua montaria ele cruzou a ponte rochosa e parou diante da imensa porta do Castelo dos Uivos. Com o cabo da espada, golpeu-a repetidas vezes. Tirou o elmo, segurou-o na mão esquerda. Gritou, com tanta voz quanto pôde, os mais elevados desafios ao senhor daquela fortaleza e acrescentou os maiores insultos dos quais lembrava. Recolocou o elmo, segurou o crucifixo que estava pendurado em seu pescoço e murmurou uma prece.

Houve então um grande silêncio, tão imenso que lhe doía o coração. Era como se o Castelo estivesse olhando para ele, medindo-lhe o tamanho e as forças, ponderando as palavras audaciosas daquela minúscula, frágil e tola criatura; como se tivesse esperança que o cavaleiro iria perceber o perigo de seu desafio e, assim, fosse embora cuidar de outros assuntos.

Mas Lottar cansou-se de esperar e novamente bateu o cabo da espada na porta e gritou e desafiou. Quando ele se calou, veio um som que não era escutado há muito tempo neste mundo: vagarosamente, a porta dividiu-se em duas e abriu para dentro de uma sala imensurável mergulhada numa escuridão talvez infinita.

O cavaleiro ignorou o suor frio que lhe escorria pelo rosto, o arrepio em seus braços e o bater acelerado de seu coração. Com a mão direita, brandia a espada e, agarrando-se à ideia do glorioso império que iria fundar, com a mão esquerda puxou as rédeas do cavalo e ambos adentraram no Castelo dos Uivos. A porta fechou-se imediatamente atrás deles.

No momento seguinte, sons abomináveis foram ouvidos a partir do castelo. Sons selvagens, terrivelmente ameaçadores, indizíveis e sem qualquer vestígio de humanidade, misturados a pungentes gritos de desespero, terror e súplica de um ser humano que, tarde demais, veio a compreender a extensão do erro que cometera.

Então, como se tomado por piedade diante do lamentável acontecimento abaixo dele, o próprio céu abriu-se e uma tempestade colossal desceu sobre a terra. Choveu por toda aquela noite.

Quando o sol finalmente voltou, na manhã seguinte, os camponeses deixaram suas casas e arriscaram-se a se aproximar da ponte rochosa, temerosos pela lembrança dos horríveis gritos que haviam escutado na noite anterior. Lá encontraram o esqueleto caído de Lottar Gan Amon, ainda trajando uma armadura sem elmo. Uma espada feita em pedaços estava ao lado dele e os dedos ósseos da mão direita seguravam um crucifixo. De algum cavalo, que pudesse ter trazido aquele infeliz até ali, não havia qualquer sinal.

No princípio, os aldeões temeram até mesmo tocar os ossos, mas quando o sol estava no centro do céu, os mais corajosos ou mais tolos — como se preferir — apiedaram-se daquele esqueleto e, acompanhados pelo padre que morava na vila, deram ao malfadado cavaleiro um enterro cristão. Assim, aconteceu e a história espalhou-se por toda a parte.

Nunca mais alguém se atreveu a desafiar aquela fortaleza de trevas e o Castelo dos Uivos permaneceu inconquistável.

 

FIM

Dedicado a Tutankhamen

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Garen e a Fada Sr. Porfírio

3 Comentários Add your own

  • 1. Luis Gustavo  |  julho 8, 2011 às 4:18 am

    Nunca pensei que diria algo do tipo: Mas Mordor já não me parece um lugar tão assustador ou envolto de trevas, não comparado ao seu Castelo dos Uivos.

    Meus parabéns Rita, claro que eu não podia esperar menos de você, mas, mais uma vez fui brindado com um conto de requinte invejável e prosa inigualável.

    Responder
  • 2. Fábio San Juan  |  agosto 23, 2011 às 5:08 am

    Uma versão mais fantasmagórica de “Childe Roland to the Dark Tower Came”, de Robert Browning. O cavaleiro mereceu também, né! Sujeitinho atrevido, que só quer poder sem se importar com a sangueira! Não nos identificamos com o personagem pois é muita maldade junta… ele chega ao final tendo o que merece. Gosto também de finais assim, que não esclarecem, que deixam o mistério no ar. Claro que você podia dar uma pista pequenininha para aumentar mais ainda a sede por explicações que todos nós temos… parabéns Rita, mais um grande conto.

    Responder
  • 3. Luiz H.  |  novembro 4, 2011 às 4:39 pm

    Gostei. A fábula da ambição desmedida, punida com justiça divina. Desde Ícaro e Gilgamesh, passando pelo O Pescador e Sua Mulher, dos Irmãos Grimm, esse tema sempre rende bons resultados… excelente conto.

    Responder

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