Amórficas 03 de 05 – A Balada de Sir Lyon

dezembro 27, 2010 at 2:53 am 36 comentários

Pessoal, esse é o terceiro conto da série Amórficas. Os leitores que se interessarem em pesquisar descobrirão que Sir Lyonell faz parte do ciclo de histórias arthurianos (aquele de Excalibur e da Távola Redonda), mas para este conto não utilizei o Lyonell arthuriano e sim fiz uma versão completamente diferente dele.

Boa leitura.

Beijos

Rita

A Balada de Sir Lyonell da Gália,
O Infeliz Cavaleiro

– I –

E estava moribundo
O cavaleiro Sir Lyonell

Nos momentos finais
Ele assim dolorosamente falou:

Havia uma bruxa
No topo daquela montanha

Ela era má
Como pecado e escuridão

Terrível seu coração
Como fome e desespero

De alma abominável
Feita de pedra antiga

Seu nome obsceno
Assombrava os mais bravos

Matou vários povos
E devorou outros mil

Notáveis heróis abateu
E reinos gloriosos arruinou

Belas nobres princesas
Estátuas ela as tornou

Justos amados reis
Em sapos os transformou

Famosos louvados sábios
Em feras os mudou

– II –

Havia uma bruxa
No topo daquela montanha

Pelo povo suplicado
Do oriente eu retorno

Coração pesado infeliz
No castelo dela penetrei

Mágica maldita espada
Eu carregava nas mãos

Lembranças tão dolorosas
Feriam-me alma e coração

Ao vê-la gritei
Seu abençoado nome original

Ela grunhiu
Com surpresa e insatisfação

De sua boca
Um dedo semidevorado caiu

E com lágrimas
Reconheceu-me e assim disse:

“Vá embora daqui
Pelo passado te pouparei”

Duramente eu recuso
e com temor avanço

Esperava heroica batalha
Por confronto selvagem aguardei

Ela imóvel ficou
Imediatamente cabeça lhe cortei

Arranquei-lhe o coração
Cabeça e corpo queimei

Na água insensível
Eu joguei-lhe as cinzas

Desci para vila
Para glorificado eu ser

Ao chão caí
E pela noite chorei

– III –

Pela noite lembrei
Um passado tão maldito

Eu a conheci
Quando não-bruxa ela era

Eu a amava
quando humana ela foi

Formosa bondosa princesa
Coração como luzes celestes

Amada por todos
Cobiçada por incontáveis reis

Porém era eu
Somente eu ela amava

Mas batalha feriu-me
Ferida horrível e incurável

A morte viria
Eu agonizava em desespero

Ela tanto chorava
Contudo nenhum momento hesitou

A tudo recorreu
Tudo que conhecia buscou

A magia acolheu-lhe
Com magia me salvou

A mágica transfigurou-lhe
Monstro ela se tornou

Monstro odiado temido
Demônio de maldade infinita

Incapaz de ajudá-la
Culpado envergonhado eu fugi

Remorso me toma
A consciência me devora

Trêmulo ergo espada
Transpasso meu coração traidor

Que eu pereça
Aqui neste sombrio momento

Guardo o segredo
Ao túmulo levo-o comigo

Ninguém nunca saberá
Dessa forma deve ser

No futuro dirão
Cruelmente apenas irão dizer:

Havia uma bruxa
no topo daquela montanha…

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Entry filed under: Uncategorized.

Cena no Jardim de Dom Hector de Brandabadere Amórficas 03 de 07 – A Balada de Sir Lyonell

36 Comentários Add your own

  • 1. Laila  |  dezembro 27, 2010 às 4:31 pm

    Muito bom, parabéns!

    Responder
  • 2. Heitor  |  dezembro 27, 2010 às 11:20 pm

    Épico, maravilhoso. Amei esse texto, Rita, realmente uma balada em sua plena forma. Admiro muito essa sua capacidade.

    Beijos

    Responder
  • 3. Aline Silva Dexheimer  |  dezembro 28, 2010 às 1:36 pm

    Gostei. Parabéns. Beijos,
    Aline

    Responder
  • 4. Clinton Davisson  |  dezembro 30, 2010 às 1:59 am

    O amor é lindo…rs

    Responder
  • 5. Yarin  |  janeiro 1, 2011 às 4:43 pm

    o tempo apaga os erros e torna tudo glorioso, faz até a morte ser justificada com bravura, o tempo nao é tao bom assim

    Responder
  • 6. Debby Lennon  |  janeiro 2, 2011 às 4:27 am

    Rita, maravilhosa sua balada apaixonante o cavalheiro e o amor da bruxa para salva-lo. Parabéns amiga. beijos.

    Responder
  • 7. A.Reiffer  |  janeiro 3, 2011 às 6:35 am

    Muito bom, Rita, bastante criativo. Abraços!

    Responder
  • 8. Alex  |  janeiro 3, 2011 às 6:25 pm

    Muito bom. A coragem da bruxa foi ótima, pois ela sacrificou tudo para salvar o amado e mesmo ele tendo levantado a espada contra ela, esta não se moveu. Preferiu a morte do que ferí-lo. Se alguém realmente amou aqui foi ela, por pior que ela tenha se tornado. Ele só foi matar a covardia dele ao cortar a sua cabeça…
    Magnifico.
    Parabéns

    Responder
  • 9. Edgley Félix  |  janeiro 5, 2011 às 10:45 am

    Exelente, Parabéns !

    Responder
  • 10. Tutankhamen  |  janeiro 5, 2011 às 7:08 pm

    Muito bom
    Parabéns!

    Responder
  • 11. Adriana "Strix"  |  janeiro 7, 2011 às 3:03 am

    # Aaaaaw, que triste. 😦

    # Mas ao mesmo tempo fofo. Minha concepção de “fofo”, claro. xD

    Responder
  • 12. Matheus Carvalho  |  janeiro 7, 2011 às 3:51 am

    Brilliant, marvellous, fantastic.

    Responder
  • 13. Alex Bastos  |  janeiro 8, 2011 às 1:40 am

    Aiai, será que todos temos a bruxa no alto da montanha? Que triste.

    ótimo texto Rita, como sempre, digo eu.

    Responder
  • 14. Andy LaFleur  |  janeiro 9, 2011 às 3:25 am

    Adorei, muito bom. Explorou bem o conflito do personagem em ser grato ou cumprir com seu dever, e como a construção de um mito se dá e se torna inabalável.
    Parabéns!

    Responder
  • 15. Luiz Ehlers  |  janeiro 10, 2011 às 2:00 am

    UAL…obrigado pelo apoio, Rita…grande abraço

    Responder
  • 16. Gilmarzinho  |  janeiro 10, 2011 às 2:21 am

    Muito legal, Rita!
    Finalmente um poema que eu consegui entender a história! hehehe

    ‘Impressionado com o talento mostrado
    Seguirei o blog acompanhando
    E, blogueiro acostumado
    Sempre comentando.’

    Té.

    Responder
  • 17. Shimabuko  |  janeiro 10, 2011 às 3:27 am

    Sempre que eu leio seus poemas eu fico arrepiado… Ficou lindo! Só fico triste porque eu não consigo escrever poemas épicos como os seus =/

    Eu escrevi um texto novo no meu blog, se quiser dar uma passada lá =P

    Responder
  • 18. Daniel Folador Rossi  |  janeiro 10, 2011 às 8:46 pm

    Parabéns Rita, muito boa a história =D
    Merece cada elogia!

    Responder
  • 19. Rafael Duarte  |  janeiro 11, 2011 às 2:35 am

    Romântico e cruel.
    Poema não é minha praia, mas esse foi leve na forma, denso no conteúdo.
    Eu só trocaria uma palavra. Ao invés de “Tremo ergo espada” eu usaria “Trêmulo ergo espada”.
    Mas é só sugestão!
    Gostei muito.
    Beijo, Rafi.

    Responder
  • 20. Ana  |  janeiro 11, 2011 às 2:49 am

    Estou com um problemão agora: não sei se comento a estrutura perfeita do teu sonnet – que me fez recordar das minhas aulas de inglês – ou se elogio a tua estoria original e épica. Tá tão adequado ao tempo arthuriano, a dicotomia bem/mal, cavalheirismo/selvageria, amor/ódio, traição/perdão, magia/conformismo… uau! Parece, de fato, um poema da época.

    Rita, vc é demais!

    Responder
  • 21. Fernanda Luongo  |  janeiro 11, 2011 às 8:42 pm

    Belíssimo!!!

    Responder
  • 22. Gianpaolo Celli  |  janeiro 12, 2011 às 12:51 am

    Muito boa a poesia… essa mistura com a fantasia é bastante interessante. Parabéns!

    Responder
  • 23. Luiz H.  |  janeiro 14, 2011 às 10:07 pm

    A estética e simplicidade de um conto de fadas e o alcance psicológico de uma tragédia clássica.

    Muito bom, Rita. Parabéns. Contar essa história em forma de balada também foi um toque genial.

    Responder
  • 24. Angélica Limao  |  janeiro 17, 2011 às 2:59 am

    Eu ia ler só amanha, mas não resisti e corri para ler logo.
    Gostei muito, tá de parabéns.
    Prende a atenção.

    Angélica.

    Responder
  • 25. Cleson  |  janeiro 19, 2011 às 12:15 am

    Excelente texto, esses textos com temática fantástica são bem interessantes.

    Parabéns!

    Responder
  • 26. Alci Santos  |  janeiro 22, 2011 às 3:46 am

    Olá, tenho dois Blogs no WordPress. Tentei achar seu e-mail nos mais variados blogs e não consegui. Então resolvi escrever aqui mesmo. 😀

    Eu notei seu conto “Seu Juca” no blog “Contos Fantásticos e me interessei em fazer uma adaptação do conto para outro conto com a mesma base, porém com modificações. Para isso, preciso de sua autorização e gostaria de deixar claro que vc será citada como autora do conto e eu como autor da adaptação.
    Embora eu seja um escritor amador, gosto muito se sempre estar criando e adaptando.
    Meus Blogs são:
    Contos.br
    http://contosbr.wordpress.com
    Castle Rock
    http://castlebr.wordpress.com

    Aguardo seu retorno.

    Responder
  • 27. Alvaro Domingues (pai nerd)  |  janeiro 24, 2011 às 9:12 am

    Belíssimo!

    Responder
  • 28. Alci Santos  |  janeiro 25, 2011 às 6:03 am

    Achei muito interessante. Muito boa a reflexão do texto. Ele mostra que o amor está acima de tudo. A bruxa não o matou pelo amor que talvez ainda sentisse por ele. mostra também que não foi só a Bruxa que perdeu a humanidade. O cavaleiro acabou matando a mulher que dera a vida em prol dele.

    Parabéns por saber colocar tudo isso em evidência sem sair do contexto da era arthuriana.

    Responder
  • 29. Leonardo Rodrigues  |  janeiro 26, 2011 às 6:45 pm

    Oii miga, mto legal, parabéns! =)

    Responder
  • 30. Estela  |  janeiro 27, 2011 às 8:02 am

    Lindo, tocante querida Rita. Meus aplausos…desconhecia esse lado seu..rsrs

    Responder
  • 31. Sérgio Filho  |  janeiro 30, 2011 às 2:54 am

    Muito enriquecedor poder lhe visitar, moça.

    Aquele abraço!

    Responder
  • 32. Mensageiro Obscuro  |  janeiro 31, 2011 às 7:57 pm

    Esse texto me fez lembrar de lendas cantadas por bardos nômades em noites estreladas, só que com uma temática pesada adicionada ao conteúdo lírico. Foi bom ler, poderia ser até musicado com um ritmo cigano no violão ou cavaquinho.

    Responder
  • 33. egon  |  fevereiro 11, 2011 às 5:07 pm

    Oi Rita tudo bom? Gostei muito de seu texto, emocionante final. Não costumo comentar mas gosto muito de tudo que voce escreve aqui. Espero que você continue sempre escrevendo. Origado. eu voltei de viajens sabado, tava em João Pessoa. Ah, eeu gostei do teu blog! bjos um bom fim de semana !
    Égon Ouriques

    Responder
  • 34. Fábio San Juan  |  agosto 23, 2011 às 5:48 am

    Bela narrativa, que coloca um conflito ético (de comportamento), gratidão x dever. Seria o cavaleiro grato e esquecer que deveria extirpar um monstro do mundo? O bem que ele faria aos outros não seria o mal por ser ingrato com quem tinha amado e ela lhe salvo a vida? Excelente narrativa, Rita, a estrutura de versos não atrapalhou nem um pouco a fluência, como pode parecer aos pouco acostumados com a forma. Parabéns!

    Responder
  • 35. Leo  |  dezembro 25, 2012 às 12:02 am

    Sensacional, gostei muito…vc tem muito talento, Rita! Bjs

    Responder
  • 36. Fernando Sehvenn  |  junho 9, 2013 às 3:45 am

    Hummm. Realmente ótimo. Balada épica a la estilo Miguel de Cervantes. Escreva mais desta estória Rita. Dê continuações. Vale não apenas a pena mas todo o pássaro inteiro. Quero saber mais sobre as peripécias desse herói. Sou um grande apreciador das histórias de fantasia medieval, então, dou forças a mais contos como este.

    Responder

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