Cena no Jardim de Dom Hector de Brandabadere

novembro 24, 2010 at 3:23 am 30 comentários

Amórficas 02 de 07 – Cena no Jardim de Dom Hector de Brandabadere

CENA NO JARDIM DE DOM HECTOR DE BRANDABADERE

Por Rita Maria Felix da Silva

Uma típica manhã de sábado no jardim de Dom Hector:

Num canto, três espelhos de feitura muito antiga, caídos e despedaçados, transformaram-se em borboletas de vidro guinchante, que planaram sobre o jardim, apenas para, ao chegar ao outro lado, caírem, tornarem-se novamente espelhos, despedaçaram-se e esperarem para reiniciar um ciclo talvez eterno.

Próximo aos espelhos, em duas gaiolas feitas de uma liga de ouro e prata, pequeninos humanos alados chilreavam melancólicas e pungentes canções sobre seu cativeiro.

À pequena distância das gaiolas, marchava uma fila de formigas tecnocratas e isolacionistas, que carregavam pedaços de plástico com o objetivo de construir uma nave espacial e deixar o jardim.

No caminho até o formigueiro, elas contornaram os pés de um pato humanoide, não maior que uma criança humana, que usava avental, bisturi e monóculo e grasnava com sotaque germânico, enquanto fazia vivissecção em cobras e ratos, tencionando provar a teoria de seu falecido e estimado professor universitário.

Perto dali, equilibrando-se em rochas que já foram meteoros há muito caídos, pequenos lagartos azuis e robóticos disputavam território e fêmeas em batalhas encarniçadas. Vez ou outra, um deles caía para ser devorado por flores selvagens e dentadas cujo alimento preferido era metal.

Não longe daquelas plantas, estava a lagoa sobre a qual pairavam quatro nuvens sapientes de pequeno tamanho e que se alimentavam de água e peixe. Quando saciadas, flutuavam para algum recanto e ocupavam-se em copular.

Dentro da lagoa, o rei dos peixes, monarca de uma dinastia que já perdurava por cem gerações, lamentava o filho que perdera para a voracidade das nuvens e organizava seus exércitos tencionando vingar-se daqueles assassinos gasosos.

A partir da margem esquerda, contando-se exatamente cinquenta passos de gnomo ou doze de um ghoul, havia uma árvore de folhas acinzentadas, cujo lado esquerdo produzia frutos adocicados, e o direito, frutas amargas como jamais se imaginou. Ela entoava cânticos religiosos — enquanto se lembrava de sua própria terra, um lugar onde fora sacerdote dos mais renomados — e sofria, empestada por lagartas que haviam acabado de desenvolver um sistema socialista de governo e inventado uma nova linguagem com setenta e duas vogais diferentes, bem como uma religião baseada na lógica e no fatalismo.

Cuidando dessa árvore, na verdade, borrifando veneno nas lagartas, estava um servo, o jardineiro, um rato bípede e antropomorfizado, do tamanho de um homem comum, que assobiava algo incompreensível para humanos, ao mesmo tempo em que lamentava por amores perdidos e, mentalmente, redigia um tratado filosófico de cerca de novecentas páginas.

FIM

Gentilmente dedicado a Heitor Serpa

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Os Mereges – Parte V de V – Conclusão Amórficas 03 de 05 – A Balada de Sir Lyon

30 Comentários Add your own

  • 1. angela oiticica  |  novembro 29, 2010 às 9:01 pm

    Gostei da leitura e dos personagens.

    Resposta
  • 2. Edgley Félix  |  novembro 30, 2010 às 5:42 pm

    Rita você como sempre genial. Parabéns !

    Resposta
  • 3. Heitor  |  dezembro 7, 2010 às 7:07 pm

    Adorei a homenagem, amiga, acho que este foi um dos textos mais surreais que já li. Cada cenário proposto resultaria num conto, sem nenhuma dificuldade.

    Desculpe a demora para vir aqui, mas estava elaborando uma postagem no meu blog para informar, dentre outras notícias, esta sua homenagem e a divulgação do e-book que contribuí com o pósfacio. Eu também indiquei seu blog ao Prêmio Dardos 2010.

    Segue o link: http://heitorvserpa.blogspot.com/2010/12/premios-homenagens-projetos-e-afins.html

    Muito obrigado, por tudo.

    Resposta
  • 4. Deltonix  |  dezembro 12, 2010 às 6:49 pm

    Oi Rita, eu sou um dos editores da revista online Farrazine… Gostaríamos de publicar alguns contos seus… Seria possível?
    Se sim, meu email é r.delton@gmail.com me escreve e eu explico melhor nosso projeto, ok?

    Um abraço e parabéns pelo seu trabalho

    Resposta
  • 5. Ana  |  janeiro 11, 2011 às 2:52 am

    Ok, scifi de primeiríssima qualidade \o/
    Excêntrico, intrigante, divertido.
    Que grande escritora…

    Resposta
  • 6. Cleson  |  janeiro 19, 2011 às 12:29 am

    Como te disse, me senti no país das maravilhas ao ler o texto, uma viagem muito interessante mesmo.

    Parabéns

    Resposta
  • 7. alysson  |  janeiro 21, 2011 às 2:42 am

    Muito legal…sempre escrevendo cada vez melhor heim….

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  • 8. Alex Bastos  |  janeiro 21, 2011 às 3:31 am

    Parece um quadro vivo, que fica se movendo na memória de quem lê. Um quadro de magia e vida muito bem desenhado com palavras.

    Resposta
  • 9. Matheus Carvalho  |  janeiro 21, 2011 às 5:07 am

    Me lembra um filme do Tim Burton…

    Resposta
  • 10. MAURICIO O ULTIMATE  |  janeiro 22, 2011 às 2:26 am

    belissimo texto

    Parabéns Rita!!!

    Resposta
  • 11. Márson Alquati  |  janeiro 23, 2011 às 4:41 pm

    Muito original e criativo. Personagens excêntricos e diferentes de um mundo imaginário e ímpar, onde tudo é possível e a própria realidade possui um tom de surreal.
    Adorei. Meus parabéns!

    Resposta
  • 12. maya blannco  |  janeiro 24, 2011 às 12:48 am

    Sensacional!
    Rita, é uma das melhores coisas que já li nos últimos tempos. Addooreeei! Daria um livro maravilhoso, fantasia pura, delírio, crítica, tudo de bom.
    Parabéns!
    Beijo grande! Maya

    Resposta
  • 13. Alvaro Domingues (pai nerd)  |  janeiro 24, 2011 às 3:18 am

    Um texto excelente. Você domina com maestria esta forma basurdista de escrever, aproximando-a muito do surrealismo. Parabéns!

    Resposta
    • 14. Alvaro Domingues  |  janeiro 27, 2011 às 6:56 pm

      Uma pequena correção:

      Um texto excelente. Você domina com maestria esta forma absurdista de escrever, aproximando-a muito do surrealismo. Parabéns!

      Resposta
  • 15. Luiz H.  |  janeiro 27, 2011 às 3:05 am

    Parabéns pelo conto.

    Aliás, quase um poema surrealista paradoxalmente em prosa.

    Não sei se era a a intenção, mas foi a impressão que causou.

    Resposta
  • 16. José Oliveira  |  janeiro 29, 2011 às 3:47 am

    Interessantíssimo, uma narrativa de peso proveniente de uma mente criativa acima do comum. Algo que me lembrou muito o fantástico escritor Guy de Maupassant – Parabéns!

    Resposta
  • 17. Juliana  |  janeiro 29, 2011 às 2:46 pm

    Poético ^^
    Muito interessante a idéia..

    Resposta
  • 18. Juliana  |  janeiro 29, 2011 às 2:47 pm

    Poético ^^
    Gostei do ambiente..

    Resposta
  • 19. G.  |  janeiro 30, 2011 às 12:18 am

    Gostei,retrata muito bem tudo,afinal dá pra notar que vc se esmerou tanto na pesquisa,quanto na elaboração dos personagens e do enredo….Bjus…

    Resposta
  • 20. adriano siqueira  |  fevereiro 1, 2011 às 6:03 pm

    muito bom rita.
    gosto muito dos seus textos.
    bjsss
    adriano siqueira

    Resposta
  • 21. Érico  |  fevereiro 1, 2011 às 8:29 pm

    Rita, já q vc pediu, lá vai!
    há uma oração desse texto q acho fenomenal:
    “contando-se exatamente cinquenta passos de gnomo ou doze de um ghoul, ”
    ,sintomática da exuberância criativa da coisa…de uma atitude mais brincalhona – menos solene!-em relação ao escrever, talvez?…mas tb. de uma certa falta de medida do conto,né.
    alguns dos fragmentos são mais interessantes q os outros, mas o único problema real -?- q vi aqui é uma falta de moldura pra esse quadro q vc pintou… a falta de uma figura central, de um foco nessa paisagem de jardim, de certa forma. O tamanho do texto tá na medida certa, suponho, mas se fosse mais longo, acho q as coisas começariam a soar gratuitas, perderiam o frescor…
    até!

    Resposta
  • 22. Pellê  |  fevereiro 1, 2011 às 11:55 pm

    Excelente! Plástico, futurista, louco… no melhor sentido e tudo numa boa medida! Congrats! Ainda te devo uma música! Quem sabe um dia! beijos

    Resposta
  • 23. A.Reiffer  |  fevereiro 5, 2011 às 4:15 pm

    Excelente, Rita,um clima de fantasia profundo e criativo. Parabéns!

    Resposta
  • 24. Cirilo S. Lemos  |  fevereiro 8, 2011 às 1:30 pm

    Nesse quadro saiu umas coisas bem interessantes, como as formigas tecnocratas. O texto conseguiu despertar sensações de estranheza e uma série de possibilidaes — a árvore-sacerdote é minha favorita — de modo que, como disse o Érico, espero agora uma trama que interligue os elementos. Ia ser muito legal.

    Resposta
  • 25. egon  |  fevereiro 11, 2011 às 5:11 pm

    Ah, esse foi a primeira obra sua que eu li, gostei tanto que li todas as outras 😉

    Resposta
  • 26. mauricio  |  fevereiro 12, 2011 às 2:30 am

    mais uma vez um texto surpreendente de uma das melhores escritoras que conheço.
    parabéns rita. vc sabe tocar o coração

    Resposta
  • 27. H. A. Kipper  |  fevereiro 12, 2011 às 3:34 am

    Lindo, de uma beleza Borgeana! 🙂

    abraço!

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  • 28. Daniel Borba  |  março 4, 2011 às 2:30 pm

    Oi Rita, desculpa a demora em voltar aqui…:D. Gostei muito do texto. Acho que o comentário acima que compara esse texto com um filme de Tim Burton foi muito feliz. O conto causa uma certa estranheza ao mesmo tempo em que cria uma imagem real em nossa mente. A grande questão é: tem uma história por trás disso? Tomara que sim…

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  • 29. Daniel Folador Rossi  |  fevereiro 5, 2013 às 3:32 am

    Cada frase, um sorriso!
    O jogo de imagens e idéias ficou MUITO BEM TRABALHADO, o jardim em si fez muito sentido. As várias situações, a princípio estranhas, se conectam em cada frase, se constroem e tecem um puta cenário, conciso, diferente e brilhante de ideias. É pra criar esse estranhamento e essa maravilha que me aventuro a escrever! Parabéns pelo conto, Rita, um de seus mais belos trabalhos!

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  • 30. Vanessa Rocco  |  agosto 11, 2015 às 7:01 pm

    detalhadamente divertido !

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