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Cena no Jardim de Dom Hector de Brandabadere

Amórficas 02 de 07 – Cena no Jardim de Dom Hector de Brandabadere

CENA NO JARDIM DE DOM HECTOR DE BRANDABADERE

Por Rita Maria Felix da Silva

Uma típica manhã de sábado no jardim de Dom Hector:

Num canto, três espelhos de feitura muito antiga, caídos e despedaçados, transformaram-se em borboletas de vidro guinchante, que planaram sobre o jardim, apenas para, ao chegar ao outro lado, caírem, tornarem-se novamente espelhos, despedaçaram-se e esperarem para reiniciar um ciclo talvez eterno.

Próximo aos espelhos, em duas gaiolas feitas de uma liga de ouro e prata, pequeninos humanos alados chilreavam melancólicas e pungentes canções sobre seu cativeiro.

À pequena distância das gaiolas, marchava uma fila de formigas tecnocratas e isolacionistas, que carregavam pedaços de plástico com o objetivo de construir uma nave espacial e deixar o jardim.

No caminho até o formigueiro, elas contornaram os pés de um pato humanoide, não maior que uma criança humana, que usava avental, bisturi e monóculo e grasnava com sotaque germânico, enquanto fazia vivissecção em cobras e ratos, tencionando provar a teoria de seu falecido e estimado professor universitário.

Perto dali, equilibrando-se em rochas que já foram meteoros há muito caídos, pequenos lagartos azuis e robóticos disputavam território e fêmeas em batalhas encarniçadas. Vez ou outra, um deles caía para ser devorado por flores selvagens e dentadas cujo alimento preferido era metal.

Não longe daquelas plantas, estava a lagoa sobre a qual pairavam quatro nuvens sapientes de pequeno tamanho e que se alimentavam de água e peixe. Quando saciadas, flutuavam para algum recanto e ocupavam-se em copular.

Dentro da lagoa, o rei dos peixes, monarca de uma dinastia que já perdurava por cem gerações, lamentava o filho que perdera para a voracidade das nuvens e organizava seus exércitos tencionando vingar-se daqueles assassinos gasosos.

A partir da margem esquerda, contando-se exatamente cinquenta passos de gnomo ou doze de um ghoul, havia uma árvore de folhas acinzentadas, cujo lado esquerdo produzia frutos adocicados, e o direito, frutas amargas como jamais se imaginou. Ela entoava cânticos religiosos — enquanto se lembrava de sua própria terra, um lugar onde fora sacerdote dos mais renomados — e sofria, empestada por lagartas que haviam acabado de desenvolver um sistema socialista de governo e inventado uma nova linguagem com setenta e duas vogais diferentes, bem como uma religião baseada na lógica e no fatalismo.

Cuidando dessa árvore, na verdade, borrifando veneno nas lagartas, estava um servo, o jardineiro, um rato bípede e antropomorfizado, do tamanho de um homem comum, que assobiava algo incompreensível para humanos, ao mesmo tempo em que lamentava por amores perdidos e, mentalmente, redigia um tratado filosófico de cerca de novecentas páginas.

FIM

Gentilmente dedicado a Heitor Serpa

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novembro 24, 2010 at 3:23 am 30 comentários


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