“Os Mereges” – Parte I de V

outubro 17, 2010 at 5:41 pm 7 comentários

Pessoal,
Em um conto que ainda pretendo escrever, aparece um livro fictício chamado “O Bestiário de Miguel de Amarante”. Enquanto esse texto não sai, achei que seria divertido para mim e interessante para os leitores escrever alguns dos verbetes desse livro. Os anteriores estão aqui
Por sugestão de meu amigo escritor Luiz Hasse, vou começar a postar a partir desta semana um tópico por vez (são cinco ao todo) de “Os Mereges, Criaturas de Muitas Cores”, um verbete do referido bestiário.
Escrevi este texto como um presente para Diogo, filho do escritor e divulgador de literatura Paulo Elache. Diogo aniversariou recentemente. Esse texto vai dedicado a ele.
E coloco meu agradecimento mais especial a escritora e estudiosa de literatura Ana Lúcia Merege, que gentilmente cedeu seu sobrenome para batizar as criaturas deste conto. A todos que conhecem Ana: este texto não é baseado, nem está relacionado a ela em qualquer nível, apenas é nomeado com o sobrenome dela, cordialmente cedido pela mesma.
Boa leitura.

Do Bestiário de Miguel de Amarante

Páginas 124-128

Os Mereges, Criaturas de Muitas Cores

Por Rita Maria Felix da Silva

“Em minha juventude, por tantas Terras, universos e mundos, eu viajei e variedades tão diferentes dessas criaturas pude encontrar…” (Petrus Elacianus, o Erudito)

Introdução: De acordo com as versões mais aceitas sobre este assunto, formou-se entre os eruditos a crença de que todos os mereges vieram de um mesmo mundo, embora ninguém saiba dizer-lhe o nome ou a localização. De lá, espalharam-se pelo multiverso e a espécie se dividiu em pelo menos cinco outras diferentes.

I – Mereges Brancos

Sabe-se que desde há muito tempo os únicos mereges brancos que existem são fêmeas, pois, conforme nos explica uma lenda, todos os machos dessa espécie vieram a extinguir-se numa terrível guerra civil.

As mereges brancas se refugiaram em uma das várias Terras do multiverso onde o ser humano é a espécie dominante. Nesse lugar, escondem-se em locais remotos e despovoados e permanecem em hibernação.

Outra lenda, porém, afirma que periodicamente, algumas dessas fêmeas despertam, assumem a forma de belas mulheres e vagam pelo planeta em período nunca inferior a um ano. Os motivos para isso nunca ficaram claros, embora alguns contadores de história sustentem que elas têm grande curiosidade e desejam conhecer as mudanças que se operaram na cultura dos seres humanos. Dizem que mereges brancas alimentam-se de luz retirada do ambiente.

A questão, todavia, ganha um sentido todo novo quando estudamos um dos pergaminhos de Petrus Elacianus, também chamado de “O Erudito”. Caso seguirmos a tendência da maioria dos especialistas, ou seja, aceitar como verdadeira a narrativa de Elacianus, iremos nos deparar com uma situação pungente:

Durante esse um ano em que vaga pelo mundo, uma merege branca pode acabar por relacionar-se com um macho humano e, até se apaixonar por ele. Segundo o referido autor, algumas vezes isso já aconteceu.

Não é seguro dizer que uma merege branca seja imortal — os estudiosos preferem utilizar a expressão “de vida extraordinariamente longa” — mas o fato é que quando uma delas está romanticamente envolvida com um humano este adquire uma longevidade extraordinária, assim como sua saúde torna-se praticamente perfeita, e o envelhecimento para de abater-se sobre ele (em alguns casos, assim foi dito, o indivíduo até mesmo rejuvenesce). Além disso, por estarem apaixonadas, ativa-se uma habilidade inconsciente dessas fêmeas: a manipulação dos eventos aleatórios na esfera de casualidade que circunda o humano por elas amado, de modo a mover o fluxo dos acontecimentos em favor dele. Ou seja, ao companheiro delas é concedida uma sorte incomum, de modo que, todos os humanos que se envolveram com mereges brancas acabaram por alcançar espantosa prosperidade material.

A isso se acrescente que tais fêmeas são tidas como excelentes amantes e companheiras e nenhum humano que esteve com uma delas já provou menos que a felicidade. O mais curioso é que essas mereges se apegam de uma forma, no mínimo espantosa, a seu companheiro: passam a “alimentar-se” tão somente do amor que sentem por ele.

Porém, — e talvez todas as tragédias se resumam nisso “sempre é necessário haver um, porém” — um macho humano nunca pode fugir de sua natureza e assim, inevitavelmente, acaba por trair o amor da merege.

Quando ela descobre e, invariavelmente irá descobrir, tão grande é a dor da traição que se quebra o elo com seu amado e a fêmea não mais consegue se alimentar do amor que tem por ele. Como foi para sempre modificada ao apaixonar-se, nenhum outro alimento lhe serve mais e, deste modo, vai definhando até morrer de inanição. Pelo que se lê do texto de Elacianus, mesmo arrependimentos, juras de fidelidade renovada e lágrimas do macho humano, nada disso consegue reverter esta situação.

(Muito se é discutido, sobre os trabalhos de Elacianus, o porquê de a merege branca não avisar, previamente, a seu companheiro sobre as consequências de uma traição. O que a impediria de fazer isso? Ao que o erudito responde que tais fêmeas são criaturas sobrenaturais, governadas, portanto, por leis da Magia, as quais, muitas vezes parecem insanas ou, ao menos, incompreensíveis para mentes baseadas na razão e na ciência).

Ao morrer, a merege branca torna-se luz e se dissipa. Quanto a seu amado, toda a sorte e prosperidade que adquiriu vão-se embora e a velhice, as doenças e, em algum momento, a morte, voltam para fazer-lhe companhia.

Dedicado a Diogo

A seguir: Os Mereges Vermelhos

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“M” – UMA PENTALOGIA – II – MANDU YANA

7 Comentários Add your own

  • 1. angela oiticica  |  outubro 19, 2010 às 5:11 pm

    Gostei.

    Responder
  • 2. Daniel Folador Rossi  |  dezembro 17, 2010 às 9:37 pm

    Sabia que conhecia o nome Merege de algum lugar x)
    Legal a lenda, não seria legal transforma-la num conto?
    Bjs

    Responder
    • 3. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 18, 2010 às 10:42 am

      Angel e Daniel,
      Muito obrigada.
      Daniel, vou pensar na sua sugestão.
      Beijos

      Responder
      • 4. Alvaro Domingues (pai nerd)  |  janeiro 24, 2011 às 9:22 am

        Cabe aqui um conto sim, Coloque esta história na boca de um homem arrependido.

  • 5. Ana  |  janeiro 11, 2011 às 3:02 am

    Fronteira entre literatura fantástica e ficção cientifica da boa, que me deixou ansiosa pra saber mais dos outros Mereges. Parabéns pelo multiverso tão próprio.

    Responder
  • 6. Matheus Carvalho  |  janeiro 23, 2011 às 3:24 am

    Me recorda dos escritos de Tolkien em Silmarillion…Voc^^e consegue moldar um universo fantástico que fica muito bem descrito na mente….

    Responder
  • 7. Heitor  |  janeiro 25, 2011 às 2:57 am

    Este é, de longe, um de meus textos favoritos. Adorei a descrição de cada Merege, e os brancos em especial se tornaram os meus favoritos. Sacada de gênio, Rita.

    Beijos

    Responder

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