“M” – UMA PENTALOGIA – II – MANDU

outubro 4, 2010 at 1:22 am 7 comentários

Oi, pessoal,
O segundo conto de minha pentalogia “M”.
Se ainda não leu o primeiro está neste link
“M” – Uma Pentalogia – I – Marina
Boa leitura
Comentários serão bem-vindos.
Beijos
Rita

“M”

UMA PENTALOGIA

Por Rita Maria Felix da Silva

II – Mandu

Era inverno. Já passava do meio-dia. Sentada na varanda de casa, Dona Mabel observava o tempo. O céu ainda nublado. A chuva finalmente dera uma trégua, mas não adiantaria lavar roupa naquela situação, quando não se tinha sol para secá-las. Pena. Não havia nada no mundo que gostasse mais do que lavar roupa.

Por um instante, olhou para a casa velha e abandonada na colina, a Mansão Silveira, como chamavam. Diziam ser assombrada, que, de suas janelas, fantasmas observavam o exterior com olhar melancólico. Mabel pensou nisso e riu.

Foi quando seu filho, Mandu, chegou e passou sem cumprimentar. O garoto pôs um DVD no aparelho da sala e arriou no sofá. Estava de férias. Com o clima chuvoso, não fora ao Açude de Nossa Senhora das Lágrimas tomar banho com os amigos. Passaria o resto daquele dia assistindo um filme após o outro.

Dona Mabel bem conhecia o cardápio cinematográfico do rapaz: Sexta-Feira 13, Os Garotos Perdidos, A Hora do Espanto, Lobisomem Americano em Londres, Frankenstein de Mary Shelley, Olhos Famintos e mais alguns outros. “Filmes de monstros”, ela observou, ou melhor, filmes sobre como os humanos imaginam que os monstros seriam. Ela reprimiu um riso amargo. Ironias, especialmente aquelas de tom mais sombrio, incomodavam-na.

Estava muito preocupada com Mandu. O rapaz parecia obcecado por aquelas produções cinematográficas e todo esse exagero estava mexendo com a cabeça dele, pois em algum momento começou a questionar o modo como sua família e sua espécie viviam. Por que esconderem-se naquele refugo de civilização, disfarçados de humanos, mas também temerosos destes, que dominavam o planeta? “Isso era vergonhoso e errado”, ele dizia, “alguém precisava mudar isso”.

Dona Mabel tentava explicar-lhe que sua família já estava ali há mais de cinco gerações. Era um refúgio seguro e tranquilo, como sua espécie preferia desde que optou por habitar lugares afastados das grandes metrópoles, onde o próprio ar fedia, maculado pela quantidade de seres humanos. Lembrou ao rapaz das histórias contadas pelos mais velhos, sobre os dias antigos, sobre como cruel e genocida a humanidade pode ser…

Mandu respondia zombando desses “contos de fada”, mentiras que os anciões teriam inventado para justificar a covardia em se erguerem para retomar o mundo. Todos aqueles filmes havia cozinhado o cérebro dele, alimentando-o com ideias absurdas. Por que não ser como os monstros da ficção? Por que não perseguir, aterrorizar, matar, mutilar e devorar humanos? Era isso o que ansiava e seu coração não-humano mal podia se conter: ir a uma cidade grande, ser como um monstro de filme, atacar os humanos para recuperar a glória de seu povo. E, assim sonhava, quando a carnificina começasse, outros como ele, jovens e corajosos, viriam se unir a Mandu numa guerra para subjugar a humanidade.

Dona Mabel já insistira tentando explicar que o mundo real não podia ser como essas histórias inventadas pelos humanos e lembrou o que acontecia com os monstros nos filmes. Mandu, porém, não escutava. Ambos viviam discutindo e o moço ameaçava fugir de casa, para uma metrópole e lá realizar seu plano. Aos olhos de Dona Mabel, Mandu estava louco.

Naquela tarde, sozinha na varanda da casa, ela pensava no que fazer com o rapaz. Nenhum conselho, ameaça ou castigo tivera efeito. Ela temia isso, o filho puxara muito da teimosia do pai e talvez realmente cometesse uma grande besteira. Acabaria morto e iria atrair a atenção da humanidade sobre sua espécie. Mabel suspirou contrariada e emitiu um som agudo e terrível que nada humano conseguiria imitar.

Alguma atitude precisava ser tomada, antes que aquele garoto colocasse em perigo a si mesmo e a todos. Havia um recurso extremo — Dona Mabel vinha ponderando e hesitando sobre esse assunto há dias — por considerá-lo horrível e imoral demais, e, sendo mãe, duvidava que tivesse coragem para algo assim. Porém, a imagem do filho morto pelos humanos, sua espécie acuada pela turba louca e sanguinária dos humanos, era demais para ela. Seu povo havia rompido com os deuses, há muitas gerações, desde que as divindades escolheram apoiar a humanidade. Ela lamentou não ter para quem rezar.

Gesticulou com a mão direita, murmurou três ou quatro palavras antigas. Sentia-se meio enferrujada. Usar esse disfarce de humana fizera com que deixasse de praticar há muitos meses. Mas não era difícil. Conhecia o encantamento certo. Aprendera-o com o cuidado devido, embora houvesse jurado nunca ter de usá-lo. Horrível demais, porém, necessário. Que seu coração materno e não-humano a atormentasse pela eternidade, isso era preferível a deixar que Mandu se destruísse e a todo seu povo.

Praticou mais um pouco. Algumas sílabas agudas aqui e ali. Acrescentou a sequencia correta de gestos. Visualizou imagens e símbolos dos dias antigos… Logo suas mãos estavam recobertas por um leve brilho azulado. Reprimindo as lágrimas em seu coração, ela percebeu que havia conseguido.

Lá dentro, no filme, Fred Krueger dilacerava uma moça que cometera a imprudência de adormecer. Dona Mabel chamou pelo filho. Como previra, ele respondeu que estava ocupado e não viria. Então, ela gritou, não nesse idioma, Português, como chamam, mas em sua língua original. Uma única frase, mas o som e a tonalidade eram tão horrendos que Mandu emudeceu, levantou-se do sofá e veio ver o que a mãe queria.

Um instante depois, o rapaz estava de pé diante dela. Antes que qualquer um dos dois pudesse falar qualquer coisa, ele viu o brilho azul nas mãos da mãe e seu coração de fera grunhiu que algo estava muito errado. Sem demora, Mandu começou a mudar. Pelos brotaram pelo seu corpo. O rosto se contorcia e esticava. Sua forma afastava-se do disfarce humano. Ele rosnou de modo selvagem e lupino.

Dona Mabel entendeu que não poderia demorar. Ao contrário dela, seu filho estivera treinando, às escondidas, sua verdadeira natureza. O garoto sentira alguma ameaça vindo da mãe e reagiria a altura. Se ela não atacasse agora, antes que a transformação se completasse, Mandu iria dilacerá-la.

Mabel atacou. O brilho azulado de suas mãos envolveu o rapaz, que caiu gritando e babando. Sua forma prontamente reverteu para o disfarce humano.

Mandu permaneceu assim por horas. Dona Mabel cuidou dele, ainda cuida. Cuidaria até o dia em que a morte decidisse chamar um dos dois.

Uma parte da mente ou da alma (nesse caso não fazia muito diferença) teve de ser sacrificada. Era assim que o encantamento funcionava. A partir daquele dia, ele quase não falava. Sentado no sofá, imóvel, os olhos fixos, contemplando o vazio. Vez por outra, saliva lhe escorria pelo canto dos lábios, ou até mesmo uma palavra, embora ininteligível, escapava dele. Dona Mabel o limpava, dava-lhe banho, trocava as roupas do garoto, alimentava-o. Cantava para ele na hora de colocá-lo para dormir, como fizera no tempo em que o filho era um bebê.

Quando alguém de sua espécie encontrava o rapaz naquele estado, olhava para ela e apenas dizia, em tom compreensivo: “você fez o necessário.”.

Aos poucos humanos que viram o rapaz depois daquele dia (por exemplo, a professora da escola na Usina Nossa Senhora das Lágrimas, uma intrometida que veio saber por que o garoto não frequentava mais as aulas), ela dizia que fora derrame. Mesmo sendo em alguém tão jovem, eles acreditavam e iam embora sem dizer nada.

Em algum momento, o inverno partiu e o céu ensolarado retomou aquela região. Dona Mabel queimou os DVDs no quintal. Mandu não precisava mais deles. Ela voltou a lavar roupa, mas, enquanto estendia lençóis e calças, vestidos e outras peças de roupa, não sentia mais alegria naquilo. Olhava para as mãos e pensava em Mandu sentado no sofá — o olhar perdido, totalmente inconsciente de qualquer mundo a seu redor. “Você fez o necessário”, repetia para si mesma, salvara o garoto e toda sua espécie. Foi melhor assim.

Tentava ser forte e reprimia as lágrimas. Às vezes, questionava se uma mãe humana teria feito algo assim. Logo percebia a bobagem de tal indagação. Remorso é coisa para humanos. Ela não era humana. Não precisava ser. E voltava a lavar roupas,…

… Mas, quando se descuidava, havia uma lágrima ou outra escorrendo de seus olhos.

FIM

Dedicado a Strix Van Allen

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Meu novo Ebook: “Vejo um Universo em Teus Olhos” “Os Mereges” – Parte I de V

7 Comentários Add your own

  • 1. Nathalia Wigg  |  outubro 6, 2010 às 12:23 am

    Parabéns pelo conto, Rita!
    Bem escrito e instigante.

    Responder
  • 2. Edgley Félix  |  outubro 7, 2010 às 12:26 am

    Parabéns ! Muito bom o conto.

    Responder
  • 3. murabidis  |  outubro 7, 2010 às 3:38 am

    mui interessante seu conto

    grata por ter mostrado
    murabidis

    Responder
  • 4. Ana Lúcia Merege  |  outubro 7, 2010 às 5:52 pm

    De todos os seus contos que já li, achei esse o mais bem-escrito e mais bem-estruturado, Rita. Só daria uma mexida nos parágrafos finais, pois achei que podem ser enxutos – algumas coisas, como os sentimentos de Mabel e a explicação para o que ela fez, ficaram meio repetitivas. Mas, no geral, muito bom, parabéns!

    Responder
  • 5. Geralda Maria  |  outubro 17, 2010 às 2:24 am

    Rita gosto de todos os seus contos, mas esse amei!
    Bem escrito e instigante e me fez chorar ao ler. Parabéns! E obrigada por compartilhar comigo e vou trabalhar ele em sala de aula.Bjus e felicidades sempre.

    Responder
  • 6. Rita Maria Felix da Silva  |  outubro 17, 2010 às 4:57 pm

    Nathalia, Edgley, Murabidis,
    Muito obrigada, fico muito contente que tenham gostado.

    Ana,
    Obrigada também e vou ponderar sobre o que você falou.

    Geralda,
    Te agradeço muito por te gostado e pode usar sim em sala de aula. Vou ficar honrada.
    Beijos
    Rita

    Responder
  • 7. angela oiticica  |  outubro 19, 2010 às 5:03 pm

    que lindo!

    Responder

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