Archive for outubro, 2010

Os Mereges – Parte II de V

Do Bestiário de Miguel de Amarante
Páginas 124-128


Os Mereges, Criaturas de Muitas Cores

Por Rita Maria Felix da Silva

“Em minha juventude, por tantas Terras, universos e mundos, eu viajei e variedades tão diferentes dessas criaturas pude encontrar…” (Petrus Elacianus, o Erudito)

Introdução: De acordo com as versões mais aceitas sobre este assunto, formou-se entre os eruditos a crença de que todos os mereges vieram de um mesmo mundo, embora ninguém saiba dizer-lhe o nome ou a localização. De lá, espalharam-se pelo multiverso e a espécie se dividiu em pelo menos cinco outras diferentes.

Obs: se você ainda não leu sobre os Mereges Brancos, pode clicar aqui


II – Mereges Vermelhos

Os mereges vermelhos são caçadores e vivem em espelhos.

Têm a forma de triângulos rubros equiláteros, cujos lados são de um tamanho muito próximo à distância entre as pontas do polegar e dedo mínimo de uma mão humana. Igualmente, sua espessura não excede a de uma folha de papel.

Sabe-se que os únicos mereges vermelhos conhecidos são machos, pois, conforme explica o já mencionado Elacianus, uma história conta que as fêmeas deles partiram para lugar desconhecido, após uma discussão irreconciliável de natureza sentimental e filosófica.

Então, os machos vieram se refugiar em uma dos inúmeros planetas Terra do multiverso. Lá eles se escondem em espelhos e poderiam passar uma vida inteira indetectáveis, desde que são capazes de disfarçarem-se com o vidro e ficarem imóveis, pois não precisam se alimentar (suas reservas internas de energia são o bastante para mantê-los talvez indefinidamente), nem padecem de sono, sede ou doenças.

Como falamos, não precisam de alimento, mas são caçadores vaidosos e gostam de coletar prêmios. Na estranha psicologia desse povo, esses prêmios são um fator muito importante para a autoestima e um merege vermelho que passasse toda sua existência sem capturar um prêmio que fosse, iriam se cobrir de vergonha perante os olhos de seus semelhantes (conta-se que, periodicamente, eles deixam os espelhos e reúnem-se em lugares ermos para compartilharem suas histórias de caçada. A trajetória até esses locais é facilitada porque, como ocorreu com outras espécies de mereges, os vermelhos desenvolveram a telecinésia a qual usam para se deslocar na forma de levitação).

Mereges vermelhos caçam pessoas. Eles aguardam pacientemente dentro de um espelho, até que alguém apaixonado, mas afligido pela dor da perda ou rejeição, um ser humano tão desolado, para quem viver tornou-se quase insuportável, vem chorar diante daquele vidro.

Então, o merege salta sobre a pessoa e devora-lhe a alma. Depois se afasta do cadáver de sua vítima, volta satisfeito para seu abrigo vítreo e lá fica aguardando a presa seguinte.

Dedicado a Diogo

A seguir: Os Mereges Amarelos

outubro 23, 2010 at 1:59 am 3 comentários

YANA

Oi, pessoal,
Como alguns leitores meus sabem, além de prosa,também faço poesia, mas meus poemas são menos conhecidos.
Este foi um desafio especial para mim, pois nunca havia escrito um poema para uma criança,um público bem diferente de adultos e adolescentes.
Esse é dedicado a Yana, a filha pequena de minha amiga Yullya, lá da Europa.
Boa Leitura
Beijos
Rita

YANA

Pequena Yana,
que faz colar e pulseira
com estrelinhas tiradas do céu
e brinca com cavalinhos falantes

Pequena Yana,
amiga das fadas azuis,
dos duendes de todas as cores
e também dos anjos e santos

Pequena Yana,
que brinca se está contente
e inventa novas brincadeiras
para não ficar triste

Pequena Yana,
para quem os deuses sorriem,
que nenhum mal nunca conheças
e que sejas sempre feliz

Texto: Rita Maria Felix da Silva
Dedicado a Yana (filha de Yullya).

outubro 17, 2010 at 6:35 pm 2 comentários

“Os Mereges” – Parte I de V

Pessoal,
Em um conto que ainda pretendo escrever, aparece um livro fictício chamado “O Bestiário de Miguel de Amarante”. Enquanto esse texto não sai, achei que seria divertido para mim e interessante para os leitores escrever alguns dos verbetes desse livro. Os anteriores estão aqui
Por sugestão de meu amigo escritor Luiz Hasse, vou começar a postar a partir desta semana um tópico por vez (são cinco ao todo) de “Os Mereges, Criaturas de Muitas Cores”, um verbete do referido bestiário.
Escrevi este texto como um presente para Diogo, filho do escritor e divulgador de literatura Paulo Elache. Diogo aniversariou recentemente. Esse texto vai dedicado a ele.
E coloco meu agradecimento mais especial a escritora e estudiosa de literatura Ana Lúcia Merege, que gentilmente cedeu seu sobrenome para batizar as criaturas deste conto. A todos que conhecem Ana: este texto não é baseado, nem está relacionado a ela em qualquer nível, apenas é nomeado com o sobrenome dela, cordialmente cedido pela mesma.
Boa leitura.

Do Bestiário de Miguel de Amarante

Páginas 124-128

Os Mereges, Criaturas de Muitas Cores

Por Rita Maria Felix da Silva

“Em minha juventude, por tantas Terras, universos e mundos, eu viajei e variedades tão diferentes dessas criaturas pude encontrar…” (Petrus Elacianus, o Erudito)

Introdução: De acordo com as versões mais aceitas sobre este assunto, formou-se entre os eruditos a crença de que todos os mereges vieram de um mesmo mundo, embora ninguém saiba dizer-lhe o nome ou a localização. De lá, espalharam-se pelo multiverso e a espécie se dividiu em pelo menos cinco outras diferentes.

I – Mereges Brancos

Sabe-se que desde há muito tempo os únicos mereges brancos que existem são fêmeas, pois, conforme nos explica uma lenda, todos os machos dessa espécie vieram a extinguir-se numa terrível guerra civil.

As mereges brancas se refugiaram em uma das várias Terras do multiverso onde o ser humano é a espécie dominante. Nesse lugar, escondem-se em locais remotos e despovoados e permanecem em hibernação.

Outra lenda, porém, afirma que periodicamente, algumas dessas fêmeas despertam, assumem a forma de belas mulheres e vagam pelo planeta em período nunca inferior a um ano. Os motivos para isso nunca ficaram claros, embora alguns contadores de história sustentem que elas têm grande curiosidade e desejam conhecer as mudanças que se operaram na cultura dos seres humanos. Dizem que mereges brancas alimentam-se de luz retirada do ambiente.

A questão, todavia, ganha um sentido todo novo quando estudamos um dos pergaminhos de Petrus Elacianus, também chamado de “O Erudito”. Caso seguirmos a tendência da maioria dos especialistas, ou seja, aceitar como verdadeira a narrativa de Elacianus, iremos nos deparar com uma situação pungente:

Durante esse um ano em que vaga pelo mundo, uma merege branca pode acabar por relacionar-se com um macho humano e, até se apaixonar por ele. Segundo o referido autor, algumas vezes isso já aconteceu.

Não é seguro dizer que uma merege branca seja imortal — os estudiosos preferem utilizar a expressão “de vida extraordinariamente longa” — mas o fato é que quando uma delas está romanticamente envolvida com um humano este adquire uma longevidade extraordinária, assim como sua saúde torna-se praticamente perfeita, e o envelhecimento para de abater-se sobre ele (em alguns casos, assim foi dito, o indivíduo até mesmo rejuvenesce). Além disso, por estarem apaixonadas, ativa-se uma habilidade inconsciente dessas fêmeas: a manipulação dos eventos aleatórios na esfera de casualidade que circunda o humano por elas amado, de modo a mover o fluxo dos acontecimentos em favor dele. Ou seja, ao companheiro delas é concedida uma sorte incomum, de modo que, todos os humanos que se envolveram com mereges brancas acabaram por alcançar espantosa prosperidade material.

A isso se acrescente que tais fêmeas são tidas como excelentes amantes e companheiras e nenhum humano que esteve com uma delas já provou menos que a felicidade. O mais curioso é que essas mereges se apegam de uma forma, no mínimo espantosa, a seu companheiro: passam a “alimentar-se” tão somente do amor que sentem por ele.

Porém, — e talvez todas as tragédias se resumam nisso “sempre é necessário haver um, porém” — um macho humano nunca pode fugir de sua natureza e assim, inevitavelmente, acaba por trair o amor da merege.

Quando ela descobre e, invariavelmente irá descobrir, tão grande é a dor da traição que se quebra o elo com seu amado e a fêmea não mais consegue se alimentar do amor que tem por ele. Como foi para sempre modificada ao apaixonar-se, nenhum outro alimento lhe serve mais e, deste modo, vai definhando até morrer de inanição. Pelo que se lê do texto de Elacianus, mesmo arrependimentos, juras de fidelidade renovada e lágrimas do macho humano, nada disso consegue reverter esta situação.

(Muito se é discutido, sobre os trabalhos de Elacianus, o porquê de a merege branca não avisar, previamente, a seu companheiro sobre as consequências de uma traição. O que a impediria de fazer isso? Ao que o erudito responde que tais fêmeas são criaturas sobrenaturais, governadas, portanto, por leis da Magia, as quais, muitas vezes parecem insanas ou, ao menos, incompreensíveis para mentes baseadas na razão e na ciência).

Ao morrer, a merege branca torna-se luz e se dissipa. Quanto a seu amado, toda a sorte e prosperidade que adquiriu vão-se embora e a velhice, as doenças e, em algum momento, a morte, voltam para fazer-lhe companhia.

Dedicado a Diogo

A seguir: Os Mereges Vermelhos

outubro 17, 2010 at 5:41 pm 7 comentários

“M” – UMA PENTALOGIA – II – MANDU

Oi, pessoal,
O segundo conto de minha pentalogia “M”.
Se ainda não leu o primeiro está neste link
“M” – Uma Pentalogia – I – Marina
Boa leitura
Comentários serão bem-vindos.
Beijos
Rita

“M”

UMA PENTALOGIA

Por Rita Maria Felix da Silva

II – Mandu

Era inverno. Já passava do meio-dia. Sentada na varanda de casa, Dona Mabel observava o tempo. O céu ainda nublado. A chuva finalmente dera uma trégua, mas não adiantaria lavar roupa naquela situação, quando não se tinha sol para secá-las. Pena. Não havia nada no mundo que gostasse mais do que lavar roupa.

Por um instante, olhou para a casa velha e abandonada na colina, a Mansão Silveira, como chamavam. Diziam ser assombrada, que, de suas janelas, fantasmas observavam o exterior com olhar melancólico. Mabel pensou nisso e riu.

Foi quando seu filho, Mandu, chegou e passou sem cumprimentar. O garoto pôs um DVD no aparelho da sala e arriou no sofá. Estava de férias. Com o clima chuvoso, não fora ao Açude de Nossa Senhora das Lágrimas tomar banho com os amigos. Passaria o resto daquele dia assistindo um filme após o outro.

Dona Mabel bem conhecia o cardápio cinematográfico do rapaz: Sexta-Feira 13, Os Garotos Perdidos, A Hora do Espanto, Lobisomem Americano em Londres, Frankenstein de Mary Shelley, Olhos Famintos e mais alguns outros. “Filmes de monstros”, ela observou, ou melhor, filmes sobre como os humanos imaginam que os monstros seriam. Ela reprimiu um riso amargo. Ironias, especialmente aquelas de tom mais sombrio, incomodavam-na.

Estava muito preocupada com Mandu. O rapaz parecia obcecado por aquelas produções cinematográficas e todo esse exagero estava mexendo com a cabeça dele, pois em algum momento começou a questionar o modo como sua família e sua espécie viviam. Por que esconderem-se naquele refugo de civilização, disfarçados de humanos, mas também temerosos destes, que dominavam o planeta? “Isso era vergonhoso e errado”, ele dizia, “alguém precisava mudar isso”.

Dona Mabel tentava explicar-lhe que sua família já estava ali há mais de cinco gerações. Era um refúgio seguro e tranquilo, como sua espécie preferia desde que optou por habitar lugares afastados das grandes metrópoles, onde o próprio ar fedia, maculado pela quantidade de seres humanos. Lembrou ao rapaz das histórias contadas pelos mais velhos, sobre os dias antigos, sobre como cruel e genocida a humanidade pode ser…

Mandu respondia zombando desses “contos de fada”, mentiras que os anciões teriam inventado para justificar a covardia em se erguerem para retomar o mundo. Todos aqueles filmes havia cozinhado o cérebro dele, alimentando-o com ideias absurdas. Por que não ser como os monstros da ficção? Por que não perseguir, aterrorizar, matar, mutilar e devorar humanos? Era isso o que ansiava e seu coração não-humano mal podia se conter: ir a uma cidade grande, ser como um monstro de filme, atacar os humanos para recuperar a glória de seu povo. E, assim sonhava, quando a carnificina começasse, outros como ele, jovens e corajosos, viriam se unir a Mandu numa guerra para subjugar a humanidade.

Dona Mabel já insistira tentando explicar que o mundo real não podia ser como essas histórias inventadas pelos humanos e lembrou o que acontecia com os monstros nos filmes. Mandu, porém, não escutava. Ambos viviam discutindo e o moço ameaçava fugir de casa, para uma metrópole e lá realizar seu plano. Aos olhos de Dona Mabel, Mandu estava louco.

Naquela tarde, sozinha na varanda da casa, ela pensava no que fazer com o rapaz. Nenhum conselho, ameaça ou castigo tivera efeito. Ela temia isso, o filho puxara muito da teimosia do pai e talvez realmente cometesse uma grande besteira. Acabaria morto e iria atrair a atenção da humanidade sobre sua espécie. Mabel suspirou contrariada e emitiu um som agudo e terrível que nada humano conseguiria imitar.

Alguma atitude precisava ser tomada, antes que aquele garoto colocasse em perigo a si mesmo e a todos. Havia um recurso extremo — Dona Mabel vinha ponderando e hesitando sobre esse assunto há dias — por considerá-lo horrível e imoral demais, e, sendo mãe, duvidava que tivesse coragem para algo assim. Porém, a imagem do filho morto pelos humanos, sua espécie acuada pela turba louca e sanguinária dos humanos, era demais para ela. Seu povo havia rompido com os deuses, há muitas gerações, desde que as divindades escolheram apoiar a humanidade. Ela lamentou não ter para quem rezar.

Gesticulou com a mão direita, murmurou três ou quatro palavras antigas. Sentia-se meio enferrujada. Usar esse disfarce de humana fizera com que deixasse de praticar há muitos meses. Mas não era difícil. Conhecia o encantamento certo. Aprendera-o com o cuidado devido, embora houvesse jurado nunca ter de usá-lo. Horrível demais, porém, necessário. Que seu coração materno e não-humano a atormentasse pela eternidade, isso era preferível a deixar que Mandu se destruísse e a todo seu povo.

Praticou mais um pouco. Algumas sílabas agudas aqui e ali. Acrescentou a sequencia correta de gestos. Visualizou imagens e símbolos dos dias antigos… Logo suas mãos estavam recobertas por um leve brilho azulado. Reprimindo as lágrimas em seu coração, ela percebeu que havia conseguido.

Lá dentro, no filme, Fred Krueger dilacerava uma moça que cometera a imprudência de adormecer. Dona Mabel chamou pelo filho. Como previra, ele respondeu que estava ocupado e não viria. Então, ela gritou, não nesse idioma, Português, como chamam, mas em sua língua original. Uma única frase, mas o som e a tonalidade eram tão horrendos que Mandu emudeceu, levantou-se do sofá e veio ver o que a mãe queria.

Um instante depois, o rapaz estava de pé diante dela. Antes que qualquer um dos dois pudesse falar qualquer coisa, ele viu o brilho azul nas mãos da mãe e seu coração de fera grunhiu que algo estava muito errado. Sem demora, Mandu começou a mudar. Pelos brotaram pelo seu corpo. O rosto se contorcia e esticava. Sua forma afastava-se do disfarce humano. Ele rosnou de modo selvagem e lupino.

Dona Mabel entendeu que não poderia demorar. Ao contrário dela, seu filho estivera treinando, às escondidas, sua verdadeira natureza. O garoto sentira alguma ameaça vindo da mãe e reagiria a altura. Se ela não atacasse agora, antes que a transformação se completasse, Mandu iria dilacerá-la.

Mabel atacou. O brilho azulado de suas mãos envolveu o rapaz, que caiu gritando e babando. Sua forma prontamente reverteu para o disfarce humano.

Mandu permaneceu assim por horas. Dona Mabel cuidou dele, ainda cuida. Cuidaria até o dia em que a morte decidisse chamar um dos dois.

Uma parte da mente ou da alma (nesse caso não fazia muito diferença) teve de ser sacrificada. Era assim que o encantamento funcionava. A partir daquele dia, ele quase não falava. Sentado no sofá, imóvel, os olhos fixos, contemplando o vazio. Vez por outra, saliva lhe escorria pelo canto dos lábios, ou até mesmo uma palavra, embora ininteligível, escapava dele. Dona Mabel o limpava, dava-lhe banho, trocava as roupas do garoto, alimentava-o. Cantava para ele na hora de colocá-lo para dormir, como fizera no tempo em que o filho era um bebê.

Quando alguém de sua espécie encontrava o rapaz naquele estado, olhava para ela e apenas dizia, em tom compreensivo: “você fez o necessário.”.

Aos poucos humanos que viram o rapaz depois daquele dia (por exemplo, a professora da escola na Usina Nossa Senhora das Lágrimas, uma intrometida que veio saber por que o garoto não frequentava mais as aulas), ela dizia que fora derrame. Mesmo sendo em alguém tão jovem, eles acreditavam e iam embora sem dizer nada.

Em algum momento, o inverno partiu e o céu ensolarado retomou aquela região. Dona Mabel queimou os DVDs no quintal. Mandu não precisava mais deles. Ela voltou a lavar roupa, mas, enquanto estendia lençóis e calças, vestidos e outras peças de roupa, não sentia mais alegria naquilo. Olhava para as mãos e pensava em Mandu sentado no sofá — o olhar perdido, totalmente inconsciente de qualquer mundo a seu redor. “Você fez o necessário”, repetia para si mesma, salvara o garoto e toda sua espécie. Foi melhor assim.

Tentava ser forte e reprimia as lágrimas. Às vezes, questionava se uma mãe humana teria feito algo assim. Logo percebia a bobagem de tal indagação. Remorso é coisa para humanos. Ela não era humana. Não precisava ser. E voltava a lavar roupas,…

… Mas, quando se descuidava, havia uma lágrima ou outra escorrendo de seus olhos.

FIM

Dedicado a Strix Van Allen

outubro 4, 2010 at 1:22 am 7 comentários


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