O Criador e o Espírito

agosto 16, 2010 at 2:37 am 1 comentário

O Criador e o Espírito
Por Rita Maria Felix da Silva

Num recanto fora da realidade, o Criador do Universo ponderava. Estava de pé, braços cruzados, o semblante pesaroso e sombrio. Em seu ombro direito, o Espírito, segundo membro da Trindade, repousava.
Após o que pode ter sido alguns segundos ou até mesmo uma eternidade, ele apontou para sua obra e assim falou:
— Veja, Espírito, o que tragicamente ocorreu com este universo: corrompido de modo irrevogável, irremediavelmente degenerado, desviado e perdido de qualquer propósito original. Um reino de caos e maldade, uma abominação que ofende a si mesmo… E a mim. Que isso termine agora!
E estalou os dedos da mão direita e o universo se contorceu, gritou e explodiu. Da infinidade de energias liberadas, o Criador ordenou que um novo cosmo começasse a se formar, enquanto lágrimas escorriam-lhe dos olhos.
— Mais uma vez você chora. — observou o espírito.
— Sim. Essa foi a versão 2718 do universo. Uma das que mais gostei… Particularmente aquele mundo…
— A Terra?
— A Terra. Eu tinha muita esperança sobre ela. Você me conhece: não há maior felicidade para mim que criar um universo… Nem tristeza mais profunda que destruir um. Trilhões de seres extintos num só instante. Nada me machuca o coração mais que isso.
— Criador, embora nenhuma coisa possa ser escondida de mim, sempre escolhi respeitar sua privacidade. Há, porém, uma pergunta que, há tempos, desejo fazer. Importa-se?
O Criador do Universo sorriu, um riso que poderia gerar uma centena de sóis numa galáxia e apagar uma centena em outra:
— Não, Espírito. Entenderei como uma cortesia entre nós. Pergunte o que desejar.
— 2718 universos. Todas essas vezes, em nenhuma ponderou sobre a moralidade disso? Quero dizer, não seria mais correto deixar que o universo — se corrompido, pervertido, como fosse — continuasse existindo, do que retirar a vida de tantas criaturas? Nunca se questionou sobre o que está fazendo?
— Todo o tempo, Espírito, todo o tempo… — respondeu o Criador e naquelas palavras havia dor suficiente para que a população de um bilhão de mundos cometesse suicídio — Mas… Vamos. Devemos agora ir falar com o Terceiro de nós… Meu Filho. Suponho que ele vai querer tentar salvar este novo universo também.
Lá foram ambos. O Criador nada mais disse o resto do caminho. O Espírito cantarolou a melodia mais triste que se possa imaginar.

FIM

Dedicado a Jean Gabriel

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1 Comentário Add your own

  • 1. tavernadoleo  |  outubro 19, 2010 às 12:54 pm

    Me pareceu o Deus que eu imagino, arrogante e sem compaixão alguma, pelo menos o que eu vejo no conto, já que a explicação dele não me comoveu de forma alguma. Belo trabalho Rita, obrigado pelo link, é bom poder ler seus contos.

    Responder

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