Otto Rimbaud, o Relojoeiro

março 10, 2010 at 1:28 am 1 comentário

Este texto foi um dos que publiquei, com exclusividade,na comunidade Rita Maria Felix da Silva 1, algum tempo atrás. Como é pouco conhecido fora da referida comunidade, posto-o agora.
Boa leitura.
Beijos
Rita

OTTO RIMBAUD, O RELOJOEIRO
Por Rita Maria Felix da Silva

Otto Rimbaud não conhecera seus pais, que foram mortos, assim era dito, numa das guerras civis que afligiram aquela nação antes de erguer-se a monarquia. Até onde lembrava, fora criado pelo seu idoso, severo e amargurado tio, um tal Sr. François Allanbard, relojoeiro da vila, do qual Rimbaud aprendeu o ofício.

Pelo que se conta, o Sr. Allanbard, homem de instrução quase irrelevante, mas dado ao estudo de tratados filosóficos, tinha obsessão pela ordem e racionalidade. Considerava as engrenagens de um relógio, em sua calma precisão, a própria metáfora do que deveria ser o mundo. Tinha feições sempre austeras e não era partidário de rompantes emocionais, afinal emoções e caos eram para ele as mesmas repulsivas coisas. Sobretudo o amor. Ah, esse era a desgraça da humanidade! “Evitá-lo deveria ser a missão sagrada de qualquer homem de juízo.”, dizia o velho.

Em certo verão, Allanbard mudou-se, em definitivo, para um túmulo e Otto herdou-lhe o negócio e as idéias. Logo se tornou um relojoeiro cuja fama ultrapassava os limites do país. Até mesmo uma longa comitiva, enviada por um daqueles reis exóticos do Oriente, certa vez, veio encomendar-lhe os serviços. Talvez fosse o mais notável de sua profissão em todo o mundo, mas se acautelava do orgulho, afinal, emoções — lembrava as lições do velho tio — era melhor manter a distância.

Um dia, porém, acompanhada por uma serva, passou em frente a sua oficina Lady Elvira de Charleville. Ainda jovem, era a dama mais bela, prendada e cobiçada daquela região. Dizia-se que já recusara os galanteios de príncipes, pois, assim se contava, era das mais românticas e esperava aquele que pudesse tocá-la o coração. Rimbaud a viu, mas não dera maior atenção e voltou seus olhos para um relógio de bolso, com mais que cinqüenta anos, que necessitava de conserto. Porém, em algum lugar, os deuses debatiam um assunto fútil em meio a uma calorosa festa. Já bastante alcoolizada, a Deusa do Amor iniciara uma discussão com a Deusa do Egoísmo (que, petulantemente, insinuara parentesco entre as duas). Quando as palavras ásperas foram trocadas por agressões mais físicas, a deusa amorosa deixou que caísse sua taça e o vinho (incolor aos olhos humanos) derramou-se para o mundo dos mortais, vindo a ensopar-se sobre a cabeça do Sr. Rimbaud.

Ele levantou-se num sobressalto, sem entender o que poderia ter acontecido. No entanto, antes de lamentar por haver se molhado com bebida vinda de lugar nenhum, involuntariamente olhou pela janela e para Elvira. Sim, ele fora cuidadoso, seguira os conselhos do velho, trancara as portas do coração e deixara o amor do lado de fora, mas, naquele instante a moça lhe parecia uma maravilha da qual não se podia escapar. Otto correu até ela, chamou-lhe, ajoelhou-se, declarou-se apaixonadamente, com palavras que nunca sonhou pronunciar e, assim dizem, nunca antes nada tão belo foi dito a uma mulher.

Quanto a Elvira, em outras ocasiões, havia observado o tristonho e sempre ocupado relojoeiro, mas este nunca lhe atraía a atenção. Exceto naquele momento. Jamais vira homem mais belo, gentil e eloqüente. Aquelas palavras mexeram com seu coração e ela percebeu-se finalmente apaixonada.

E Rimbaud, pela primeira vez na vida, conhecia a felicidade e questionava o velho Allanbard: se o Amor era aquilo, por que evitar tal coisa? Contudo, no Reino dos Deuses, o zeloso e severo Deus da Ordem, já acalmara as deusas furiosas e, sentindo algo terrivelmente errado no mundo dos mortais, olhou para baixo e viu o que acontecera com Otto Rimbaud. Com um estalar de dedos, ordenou que uma brisa muito antiga (a mesma que se ocupava em escutar e recolher histórias) soprasse sobre o rapaz e anulasse o encanto caótico daquele vinho celestial. E assim foi.

Subitamente, Rimbaud havia recuperado a razão. Cobriu-se de desculpas, lamentando seu comportamento tão descabido. Refugiou-se em sua oficina, mais envergonhado do que qualquer outro homem já sentira. Naquela mesma noite, juntou apenas algumas roupas e dinheiro e deixou para sempre a vila. No caminho da fuga, conforme lhe ensinara o tio, continha-se para não chorar. Dizem que passou o resto da vida criando ovelhas no sul daquele país e arrependendo-se de seu comportamento perante Elvira.
Lady Elvira de Charleville, assim contam, tendo encontrado e perdido o amor, seu coração irrevogavelmente partiu-se e, não mais que uma semana após esse evento, exilou-se numa ordem de freiras situada em alguma ilha do Atlântico. Comenta-se que, sozinha, entre uma oração e outra, chorava lembrando as belas palavras que lhe dissera o relojoeiro Otto Rimbaud.

FIM
Dedicado a Frank Whitehill, também chamado de Jr., o Duende.

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O VALE DE GURJAL-AL-FADI Ode para Cassimir

1 Comentário Add your own

  • 1. Mensageiro Obscuro  |  março 17, 2010 às 6:00 am

    O texto é interessante pela influência de deuses sobre mentes humanas, prendeu atenção com bom detalhismo da ambientação.

    Responder

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