Fedja

janeiro 31, 2010 at 7:18 pm 11 comentários

FEDJA
Por Rita Maria Felix da Silva

Trecho do Diário de Fedja:

“Oi, diário, faz um tempão que não escrevo em você, né? Me desculpa! É que fiquei tão ocupada estudando para as provas do fim desse período. Prunstz! É tanta coisa, que acho que vou ficar doida! (Melhor isso do que fizeram com a Saraj, aquela mesmo. Não passou nas provas e os pais dela mandaram a coitada praquele internato em Vadejadab. Deuses! O mundo mais chato do universo. Eu ia morrer de tédio lá!).

Tenho tanta novidade pra te contar! Deixa ver… Oh, estou apaixonada! É, você vai dizer: ‘de novo?!’ Tá bom, tá bom, admito, mas… Rulstrak!!! Eu tô na adolescência!

Ah, dessa vez é diferente. O nome dele é André. Você vai falar ‘Vrujut!!! Que nome é esse?’ Sei, soa esquisito em nossa língua. Daqui a pouquinho explico porquê. Ele é tão lindo, tão fofo, divino, tão krisp. É perfeito! Nunca conheci um cara que mexesse assim comigo. Penso em André o tempo todo e sonho também! É o mais inteligente da escola, me entende de um jeito que só ele consegue e quando olha para mim… Ah, fico excitada! Ai, queria tanto transar com ele. Hi, hi, hi, pronto: falei! Achei que não tinha coragem de escrever isso. Fiz até um desenho da gente… Bem, você imagina o que a gente tava fazendo no desenho… Hi, hi, hi…

O desenho ficou tão legal que a Majek, depois de rir um bocado, não quis me devolver. Sei lá, acho que ela é doente… (lembra da Majek, né? Aquela mesma que aprontou a maior vergonha do universo na festa no fim do período passado. Oh, Deuses! Pegaram ela e Amplifrit agarradinhos debaixo de uma mesa. Todo mundo sabe que Majek é uma safada, mas… Urgh! O Amplifrit é nojento! Zrast demais! Eu, nem doida, ia deixar aquele tipo me tocar). Olha, só contei sobre o André pra você e pra Majek. Ela pode ser até meio zansp, mas ainda é a melhor amiga que tenho.

Falando do André… É, sei que você vai pensar assim ‘tem alguma coisa errada. Você nunca escreve em mim se não tiver alguma bronca pra contar.’ Que mentira, diário! Não te conto só broncas, quer dizer, nem sempre, talvez até quase sempre… Tá, tá, tem uma bronca, sim.

Tem um problema com André. Um problemão. Quer dizer, mamãe, que deve ser a mãe mais bacana desse sistema solar, nem ela ia aceitar uma coisa assim. Acho que se soubesse sobre ele… Hum, mamãe ia voltar praquele médico que cuidou da cabeça dela quando teve um colapso depois da morte da vovó. Ai, Deuses! Vai ver ela ia ter até outro colapso!
E papai, ih, esse aí acho que me matava. Sério, não tô exagerando, não é aquele lance de ‘metaforicamente’, da aula de Literatura, não! Ele me matava, de verdade. Quer dizer, papai não é gente ruim e sei que até se esforça por mim e mamãe… Acontece que ia ser pedir muito pra cabeça dele e, antes de começar a me bater, ia falar de ‘bestialismo’, ‘heresia’, ‘abominação’ e um monte de palavras difíceis que aprendeu com vovô. Acho que estou ficando doida, mesmo, mais até do que a Majek, porque, quando penso no André… Ah, eu enfrentava papai por ele! Viu? Eu tô ficando maluca. Não pode ter outra explicação. Pior que tem: tô apaixonada por ele (já escrevi isso, não foi?)

E ele também gosta de mim. Se você pudesse ver o jeito como ele sempre arruma uma maneira de ficar perto de mim nas aulas. É tudo tão fronsni, do jeitinho daqueles livros românticos que mamãe ainda lê.

Mas aí vem aquela coisinha lá no fundo da minha cabeça. Você vai dizer que é medo… Eu sei que a espécie de André já era pra tá extinta faz tempo (graças aos Deuses que não, porque ele é muito lindo!!!). Me contaram que nenhum outro mundo aceitou abrigar o povo dele e muita gente tá odiando nosso governo por causa disso. Tudo bem, sei que é errado gostar dele, que eu devia achar nojento, que a sociedade condena mesmo, que, quando eu morrer vou direto pro Abismo Escuro e Eterno… Etc, etc.

Sei tudo isso, mas, sabe, não ligo? Engulo o medo e todo dia fico olhando, assim, encantada pro André, só rezando pra gente poder fazer logo coisas mais interessantes do que só olhar…

Marjad!!! Acho que os deuses não gostam de mim. Vai ver até me odeiam. Quer dizer, isso é maldade: por que eu tinha de me apaixonar, por que quando conheço o cara mais maravilhoso que existe, o amor da minha vida, ele tinha de ser humano?!”

FIM
Dedicado a Mayra Le Fey

Vocabulário de palavras do Povo Zanti (espécie de Fedja), utilizadas neste texto:

fronsni = gíria. Adjetivo. Muito romântico. Uma tradução possível seria “romântico meloso”.
krisp = gíria. Adjetivo. Inicialmente usado apenas para crianças pequenas, depois foi incorporado no vocabulário das jovens zantis para descrever homens muito bonitos de forma carinhosa. Equivalentes em nossa língua seriam “bonitinho”, “lindinho”, “fofinho”, etc.
Marjad = Substantivo. Imprecação. Na mitologia zanti, é o imperador dos espíritos inferiores que habitam o “Abismo Escuro e Eterno” (destino final daqueles que contrariam a religião e a tradição), responsáveis por atormentar os condenados. Aproximações em nossa cultura seriam “Diabo!”, “Diabos!”
prunstz = gíria. Substantivo. Palavrão. Embora usado largamente pelos jovens, seu uso é severamente desaconselhável em público, ocasiões formais e na presença de adultos. Originalmente era uma palavra comum utilizada pelos zantis para nomear o ato sexual. Com o tempo, o termo degenerou-se.
rulstrak = gíria. Substantivo. Palavrão. Igualmente utilizado apenas pelos mais jovens (seu uso por pessoas mais velhas é reprovável). Originalmente, era um termo pecuário e se referia ao animal que se desgarrou do rebanho. Em certo momento, começou a ser usado para filhos gerados fora do casamento, cuja mãe, uma amante, era nomeada pela sociedade como prostituta. Embora tido como ofensiva, a expressão não tem, entre os jovens zantis, essa conotação tão negativa. É usado mais como algo jocoso do que pejorativo.
vrujut = gíria. Interjeição de espanto. Aproximações para o Português poderiam ser “caramba!”, “minha nossa!”, “Meu Deus do Céu!”.
zansp = gíria. Adjetivo. Pessoa tida como muito estranha, louca.
zrast = gíria. Adjetivo. Coisa que se deve evitar ou pela qual se tem repugnância. Quando usado para uma pessoa, é um termo severamente ofensivo. A palavra tem origem na religião zanti e, em sua forma inicial, se referia a hábitos e atitudes dos quais se deveria manter-se distância.

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11 Comentários Add your own

  • 1. IC. Lappa (Israel carvalho)  |  fevereiro 1, 2010 às 1:25 am

    Que bom que seu diario é tão descolado e hilairiante adorei
    pelo fato de ser em um senario não de um mundo só,
    com governos e coisa e tal.
    algo que chamou minha atenção é a maneira da personagem se portar muito legal.
    E tambem seu vocabulário de girias ficou dez parabens pessoa um abração e aguardarei mais escritas suas, um beijo e tenha um otimo fim de noite.

    Responder
    • 2. Rita Maria Felix da Silva  |  fevereiro 1, 2010 às 2:14 am

      Israel,

      Fico contente que tenha gostado. Obrigada.
      🙂 Apenas dois detalhes: é o diário da personagem,não o meu. rsrrsrsr
      E meu sobrenome é Felix da Silva,não pessoa (rsrsrsrsrs eu entendi, só estou brincando contigo.)
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 3. cenildon  |  fevereiro 4, 2010 às 1:54 am

    Oi Rita!
    Seu texto, como sempre, muito bem escrito e fluente.
    Gostei muito da idéia de adolescentes de raças diferentes terem comportamentos semelhantes. O dário, a paixão juvenil, a rebeldia e a vontade de ir contra os padrões sociais.
    Acho que mesmo em culturas tão diferentes algumas coisas serão sempre as mesmas né. =]
    Achei boa também a sutileza do fundo mais sério, sugerindo um conflito de culturas entre as duas raças.
    Gostei mesmo.
    Beijo.

    Responder
    • 4. Rita Maria Felix da Silva  |  fevereiro 4, 2010 às 2:02 am

      Cenildon,
      Muito obrigada.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 5. Davi (Orc) Bernardes  |  fevereiro 5, 2010 às 11:51 pm

    Moça!
    Desculpa a demora pra ler, é que minha conexão de net tá meio flutuante… Tu escrevia diários?
    Tipo, dá uma sensação de confiança, como se nós fóssemos o diário e ela contasse tudo aquilo pra gente, não com exatidão, mas com aquele jeitinho menina, que não fica chato, mas aconchegante…
    Confesso que do seus textos, este é o que mais me agradou… Bem, no fundo sou fã das relações humanas, a fantasia pra mim apenas serve para levar a história….

    xD
    Bye!

    Responder
  • 6. Davi (Orc) Bernardes  |  fevereiro 9, 2010 às 2:29 pm

    Ei moça! Eu achei que havia comentado aqui já, mas vejo que não… Inclusive me desculpe a demora, é que estou com uma conexão lunática/caótica/weird que me deixa na mão inúmeras vezes…

    Mas aqui, quanto ao texto, diz aí, você já escrevia diários né? Pois a cumplicidade que a gente apanha no texto é sem igual. Quando li eu me sentia um pedaço de papel confidente, apenas sendo alvo de palavras sinceras!

    Uma coisa que admiro muito nos seus textos é como consegue levá-los de forma tão “límpida”, isso pra mim é bem complicado! Acostumei com um estilo mais “sujo” que por vezes não se sai tão bem quanto a encomenda.

    Responder
  • 7. Mensageiro Obscuro  |  fevereiro 14, 2010 às 9:54 pm

    Gostei desse texto com esse glossário para nos situar no universo de fantasia criado. O tipo de história de adolescente apaixonada não me agrada, mas ficou interessante foi unido um tema comum desses a uma linha literária de fantasia e ficção com um mundo fictício criado.

    Responder
    • 8. Rita Maria Felix da Silva  |  fevereiro 15, 2010 às 5:29 am

      Obrigada, Mensageiro.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 9. Ryan  |  fevereiro 18, 2010 às 12:33 am

    hahahahahaha, eu adorei! se eu disser que achei fofo soa muito estranho?

    Responder
    • 10. Rita Maria Felix da Silva  |  fevereiro 18, 2010 às 2:46 am

      Não, não soa. 🙂
      Tenho uma amiga que usa esse adjetivo em situações assim também.
      Muito obrigada por ter gostado.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 11. Érico  |  março 4, 2010 às 2:49 pm

    ué, moça! eu tava esperando vc postar esse texto no orkut antes de comentá-lo; como não o fez, eu faço o q devia ter feito antes!

    gracinha, a sua narradora, Rita: acho q nunca mais poderei resmungar q seus personagens são “solenes” demais!eh eh eh

    o q mais gostei aqu, no entanto, foi o seu uso imaginativo da linguagem – a sua reinvenção da linguagem,na verdade!, sua adoção tranquila, nada artificial, de linguagens inventadas.

    esse é um talento q, em se tratando de literatura fantástica [e sua tradição tanto plena de idéias novas qto de clichês – e os segundos, sempre em maior número que as primeiras…] vale ouro, Rita.

    e algumas das entradas no glossário, por si sós, já são verdadeiros micro-contos, pelos universos culturais inteiros a q acenam.

    beijão!

    Responder

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