Quando um Humano Visita Você

dezembro 20, 2009 at 5:36 am 12 comentários

Pessoal,

Histórias de Vampiro são umas das mais persistentes tradições da Web e isso bem antes do fenômeno Crespúculo aparecer. Até hoje escrevi algumas, como essa, que redigi junto com minha amiga Kathy McHill. Ambas começamos a elaborar este conto numa noite tempestuosa enquanto nos comunicávamos pelo msn.
Faz tempo que não tenho contato com Kathy. Onde estiver, saiba que sinto sua falta, amiga.
Beijos
Rita

QUANDO UM HUMANO VISITA VOCÊ
Por Kathy McHill e
Rita Maria Felix da Silva

Era uma noite de raios e trovões maculando os céus da cidade, como se fosse o prenúncio de momentos funestos. Afugentadas pelo frio e pela chuva, as pessoas refugiavam-se em seus lares.

No subúrbio, ficava a Vila Major Antenor Marinho, um lugar de casas desertas, com uma notável exceção. Havia uma lenda sobre aquele lugar, de como os antigos moradores desertaram e do porquê de outros jamais terem ousado reocupar aquelas habitações. Porém, esse era um assunto do qual os habitantes da cidade evitavam falar.

Na vila, o silêncio era imperioso, exceto pela mansão bicentenária de arquitetura européia. Aquelas paredes guardavam para si mesmas segredos terríveis e foi entre elas que Angélica e seu marido escolheram morar e serem felizes.

Sentada a uma escrivaninha na biblioteca, lendo Carmilla, Angélica aguardava receosa a volta de Raul. Tão longa ausência e nenhuma notícia a preocupavam sobremaneira. Nunca antes havia sido assim. Recriminou-se por deixar a imaginação incomodá-la, todavia não conseguia evitar um pensamento terrível: se um humano o tivesse descoberto, não um qualquer, do tipo cujo sangue lhes servia de alimento, mas sim um caçador… Humanos. “Por que nunca nos deixam em paz?” – questionou ela. Mas logo lembrou a si mesma que seu esposo era muito esperto para cair numa emboscada. Tentou afastar os temores, porém, lamentou que sua espécie não tivesse deuses para quem rezar.

Então, houve um barulho hediondo na porta. Por um instante, ela pensou que poderia ser… Não. Impossível. A tempestade estava muito forte, o som dos trovões e raios estava confundindo seus sentidos. Devia ser isso. De qualquer modo, largou o livro e desceu a escada para o térreo com o coração apreensivo.

Ao abrir a porta, a imagem que atingiu seus olhos não poderia ser mais assustadora. Raul, encharcado de chuva, o belo rosto manchado de dor. Ao lado dele, um humano sorria com toda a maldade do mundo, como apenas os humanos são capazes.

Aquele homem empurrou Raul e este caiu. Uma estaca de madeira enfiada nas costas e atingindo o coração. Deveria ser apenas uma cena de algum filme, do tipo que ela e o marido assistiam vez ou outra, mas era dolorosa e irrevogavelmente real. Angélica curvou-se e tocou o corpo de seu amado, agora apenas um cadáver. Pela dignidade de sua espécie, reprimiu um grito e uma lágrima.

— Vampiros… — zombou o humano — sem dúvida, a escória do mundo, que será um lugar muito melhor quando tivermos exterminado o último de vocês. Que indelicadeza a minha, não me apresentei! — e curvou-se numa saudação — sou Felipe DeLyon. Como deve ter notado, eu caço sua espécie — e retirou do sobretudo molhado uma estaca para a mão direita e para a esquerda um grande crucifixo, que reluzia à luz dos raios.

Angélica se levantou, mas manteve os olhos em Raul. As memórias felizes voltaram, como se ela caminhasse numa galeria: quando eles se encontraram; o primeiro beijo; as promessas que fizeram um ao outro na Turquia; o poema romântico escrito por ele naquela noite no Cairo; a vez que fizeram amor num hotel de Xangai, após banquetearem-se de uma dezena de presas; as caçadas a burocratas e patriotas em Leningrado (sangue tedioso, mas não insuportável); a declaração de amor de Raul em Atenas, enquanto ela agonizava vítima de um caçador; a noite em que ele enfrentou um culto em Coimbra para salvá-la; os meses escondidos no Alaska, dividindo o pouco sangue que conseguiam; a chegada a esta casa, após um evento estranho afugentar os humanos da vila, onde juraram serem felizes para sempre… Para sempre…

— Vou entrar. Diferente de vocês, não preciso de convite — disse arrogantemente Felipe DeLyon e cruzou a porta, ainda com o crucifixo e a estaca bem seguros nas mãos.

Angélica virou-se para ele. Preferiu não esclarecer o mito que DeLyon acabara de citar:

— Você usou magia, não foi? De outro modo, mesmo com a interferência da tempestade, Raul não seria pego desprevenido.

— Sim. Um pequeno encantamento, que arranquei de um bruxo ucraniano. Um herético que, eventualmente, precisei despachar para o Inferno. Agora será sua vez. Este crucifixo foi abençoado pelo próprio Papa. Alguém de sua espécie deve tremer diante desta relíquia. Por que não está gritando e implorando?

Em outra ocasião, Angélica riria da tolice daquele caçador.

— Você me feriu hoje mais do que imagina, porém não com esse símbolo. — disse ela — É um homem de fé, Sr. DeLyon?

— Que pergunta estúpida! Não há fé neste mundo maior que a minha! Sou o mais devotado e temente servo do Senhor sobre a Terra e ele, certamente, se orgulha de mim mais do que o fez quanto a Jó!

— Acredita em anjos?

— Com meu coração! — afirmou ele — São mensageiros do meu Senhor e anseio, após minha morte, encontrá-los ao lado do Todo-Poderoso.

Ela aguardou por um instante, procurando as palavras exatas, não porque o caçador merecesse, mas sim porque a vingança deve ser entendida pela vítima. Assim diz o Códice Ordonax, o código dos vampiros. E Raul sempre respeitou os conselhos daquele tomo.

— Eu e meu marido já vimos anjos, tão assustadoramente belos, celestiais, elevados e puros quanto um humano não poderia sonhar. Há dez anos, ocorreu algo estranho neste mundo. Todas as coisas mágicas do planeta, e existem mais delas do que você poderia supor, estiveram envolvidas. O prêmio… Bem, era a continuidade ou a extinção da espécie humana. Dependia apenas de que lado vencesse. Enquanto a batalha se desenrolava em vários fronts, os anjos nos convocaram. Não porque desejassem, afinal, o apego daquelas criaturas à humanidade, torna nossa existência muito desconfortável para eles, porém havia um papel a ser desempenhado, aparentemente pequeno, mas essencial para o resultado da guerra. Por uma infinidade de razões, nós éramos perfeitos para aquele serviço. Executamos a tarefa com todo o empenho que foi necessário, como compete a nossa raça. Nós quase perecemos naquela ocasião.

— Ora, — interrompeu o caçador — isso é uma insanidade! Anjos nunca tratariam com vampiros!

— Eles trataram, porque não havia outra escolha, e no final, estavam impressionados e gratos com nosso desempenho. Uma recompensa foi oferecida e nós aceitamos: eu e Raul jamais seríamos afetados por qualquer símbolo do deus a quem você supõe servir.

— Mentira! Isso não é possível! Os anjos nunca fariam algo assim!

— Fizeram, — replicou ela — e eu jamais menti.

— Para trás! — gritou o homem, apontando a cruz contra Angélica — Pelo poder do…
Angélica avançou contra ele, tomou-lhe o crucifixo e atingiu-lhe o rosto com a mão direita. DeLyon foi arremessado contra uma parede. Ao voltar ao chão, sentiu em seu rosto três cortes profundos. Dolorido e em desespero, percebeu-se incapaz de levantar. Não sabia, é verdade, mas sua coluna se partira. Gritou o nome de um de seus santos padroeiros e entendeu, pela primeira vez, em tantas caçadas, que estava, finalmente, diante da morte.

Ela se aproximou do inimigo caído e, para horror daquele homem, ainda segurava o crucifixo. Olhou o objeto com atenção.

— O deus crucificado… — Angélica disse — Eu e Raul o conhecemos quando ainda andava na Terra. Nunca houve ninguém mais notável. Ficamos fascinados com as palavras dele. Ofereceu-se para nos modificar e não mais caçar humanos, algo que o incomodava. Recusamos. Quando a humanidade o capturou, quisemos salvá-lo. Ele recusou. Por amá-lo, respeitamos aquela decisão. Mas deixá-lo padecer e morrer daquela forma, foi tão horrível. Pela primeira vez, nós choramos. Desde, então, cada humano que caçamos é uma vingança pelo que vocês fizeram a ele.

Respeitosamente, ela pôs o crucifixo sobre um móvel próximo e novamente voltou-se para o caçador.

— Pessoas de seu tipo têm uma fixação pelo Inferno. Pretendo lhe dar um pequeno gosto do que é aquele reino.

Angélica trabalhou nele por quase toda a noite, com selvageria e crueldade, mas também com precisão e calma. Obviamente o humano gritou e implorou, mas ela manteve-o vivo até onde a realidade permitiu. Separou-o em tantos pedaços quanto pôde, saciou-se daquele sangue, até que pela sala não havia mais do que restos de pele, carne e ossos de Felipe DeLyon.

Depois levou o corpo de Raul até o porão e depositou-o em um dos caixões. Antes de fechar o esquife, recitou um antigo poema de amor em japonês, o mesmo que seu amado compusera dois séculos atrás. Depois se ajoelhou, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

Após alguns minutos, enxugou as lágrimas. Voltou à sala. Ligou para um dos servos humanos que o casal mantinha para alguma eventualidade. Contou brevemente, tentando parecer tão fria quanto pôde (pela dignidade de sua espécie…) o que ocorrera. Polidamente aceitou as condolências e deu instruções sobre como proceder com o cadáver de Raul.

Lá fora a tempestade passara. Ela sentou na varanda da mansão. A dor ameaçava desbotar as memórias mais felizes, mesmo assim era a essas que Angélica tentava se apegar. Porém, Raul se fora. Sem ele, não havia motivo para continuar. E assim, não pela dignidade de sua espécie, nem pelo Códice Ordonax, mas apenas por ela mesma e seu coração eternamente partido, Angélica ficou lá sentada e esperou o sol nascer…

FIM

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Uma Pedra no Lago “M” – Um Pentalogia – Parte I de V – “Marina”

12 Comentários Add your own

  • 1. Edgley  |  dezembro 20, 2009 às 6:24 am

    Ótimo conto, muito interessante, gosto muito de contos de Vampiros. Parabéns !

    Responder
    • 2. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 21, 2009 às 12:32 am

      Mais uma vez, querido amigo, obrigada.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 3. Domenium  |  dezembro 20, 2009 às 1:13 pm

    Seus contos tem uma característica própria inconfundivel Rita, muito bom!

    Responder
    • 4. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 21, 2009 às 12:32 am

      Obrigada, Domenium.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 5. Bia Machado  |  dezembro 20, 2009 às 2:20 pm

    Vampiros são um tema muito comum, não há dúvidas, acho até que por isso é muito difícil escrever sobre eles, pois o perigo de cair no lugar comum deve ser enorme. O de vocês ficou muito bom, uma parceria que deu certo… =)

    Responder
  • 6. Cirilo S. Lemos  |  dezembro 20, 2009 às 3:03 pm

    Salve, Rita. Não sou fã de vampiros, mas de caçadores de vampiros sim! Adorei!

    Responder
  • 7. M. D. Amado  |  dezembro 20, 2009 às 4:03 pm

    Esse eu conhecia do Estronho 🙂

    Muito bom. Parabéns pelo blog.

    Responder
  • 8. Borbo  |  dezembro 22, 2009 às 3:25 am

    Gostei do estilo conciso, carregado de informação, fazendo a história avançar rápido, sem rodeios, mas sem perder a poesia. Adorei o final, achei-o super poético. Mas tenho contudo uma crítica. Sendo ela de uma espécie predadora da humanidade, porque ela se faz esta pergunta: “Por que não nos deixam em paz”? O motivo não é óbvio?

    Responder
    • 9. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 22, 2009 às 6:33 am

      Borbo, muito obrigada por ter gostado da história e pelo comentário.
      Sua pergunta é muito interessante. Eu diria que a psique vampírica não deve ser tão diferente assim de uma psique humana, daí que, da mesma forma que um ser humano acha sua condição a coisa mais normal do mundo e se pensaria ser um absurdo se fosse caçado por um vampiro, um ser vampírico também acharia sua natureza de predador algo muito normal e se revoltaria por não entender a perseguição dos caçadores humanos.
      Comparando muito mal, penso que se um tigre devorador de pessoas pudesse raciocinar, formularia uma questão parecida diante de seus caçadores.
      Mas a crítica foi inteligente e é válida.
      Quando eu publicar aqui “Allan Geist” você vai ter mais elementos para analisar essa questão.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 10. Mensageiro Obscuro  |  janeiro 2, 2010 às 6:36 pm

    Esse texto é muito interessante. Gostei do nome do caçador de vampiros humano: Felipe DeLyon, parece até com o nome de outro humano detestável, um cantorzinho mequetrefe chamado Felipe Dylon. rs.

    Vou ler e comentar em mais de seus textos.

    Responder
    • 11. Rita Maria Felix da Silva  |  janeiro 2, 2010 às 6:50 pm

      Mensageiro,

      Obrigada, embora quando criamos o nome desse caçador de vampiros realmente não tínhamos em mente esse cantor.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 12. Geralda  |  março 3, 2010 às 1:13 pm

    Estou estupendamente maravilhada com seu conto e se assim vc me permitir irei trabalhar ele e mais outros com meus alunos em sala de aula. Gostei do estilo conciso, com informações, história rápida sem rodeios, faz com entramos e vivemos a historia e sem perder a poesia. O final ficou ótimo. Parabéns!

    Responder

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