Uma Pedra no Lago

dezembro 12, 2009 at 7:47 pm 14 comentários

Olá, pessoal,
Este conto é o primeiro de um série com cinco narrativas (independentes e ocorrendo em universos distintos).
Eu o fiz como uma peoplefic e uma pequena homenagem ao meu amigo Wesley (Henri Corredeiras), daí que o Henri do conto é meio que paródia, meio que ficcional.
Boa leitura.
Comentários serão bem-vindos.
Beijos
Rita

Amórficas 01 de 05 – Uma Pedra no Lago

UMA PEDRA NO LAGO
Por Rita Maria Felix da Silva

Em algum lugar da Existência… Num planeta chamado Nantur…
Na janela da mais alta torre de seu castelo (feito da carne metálica dos tolos e pacifistas dragões Lankirs), Lorde Asrak observava a glória de seu mundo.
Ele contemplava os prédios colossais na paisagem de Turas, capital de Nantur, e as intermináveis multidões de escravos — colhidos em mais de uma centena de nações — acorrentados e sob o açoite dos capatazes.
Sorriu e terminou de provar a taça de licor fabricado com folhas e galhos de um vegetal sapiente. Debaixo de seus pés, um tapete de feitura delicada, cujo material era intestinos de sacerdotes Janknur. Às suas costas, uma mesa e, sobre ela, documentos recentemente concluídos, no qual, como peso de papéis, havia o cérebro, magicamente transformado em pedra, de um daqueles subversivos poetas reptóides do povo Tulu.
Asrak, um humanóide azulado, da raça Ykar, era Supervisor de Produção e Escravos na capital e o mais orgulhoso membro de seu povo. Sentia-se afortunado por viver no que considerava a era perfeita do mundo perfeito. Há quinhentas gerações, os Ykarianos haviam dominado a magia e com ela subjugaram as outras espécies de Nantur, trazendo uma época de paz, conforto e riqueza. Se ao custo das forças, sangue e vida de todos aqueles seres inferiores, realmente não importava para ele. Afinal, o paraíso sempre tem um preço.
Um uantuu passou maculando o ar com seu guincho lamentoso. Askar suspirou incomodado, pois o canto fúnebre daquele pássaro era tido como arauto de desgraças. “Bobagem!”, pensou, e encheu a taça novamente.
Todavia, por algum motivo que jamais soube, voltou-lhe a mente a imagem de Ulkharit — que fora seu professor, até enlouquecer, espalhar idéias disparatadas sobre exploração e opressão e pregar o fim da sociedade Ykariana (“nada pode ser eterno e tudo, mesmo esse mundo lamentável que nosso povo ergueu, um dia terá de terminar”, dizia o velho mestre). “Disparate!”, pensou Askar, que se lembrava, com alegria, da decapitação daquele subversivo.
“Tudo um dia deve terminar… Até mesmo os Ykarianos.” Insanidade. Esta era a sociedade perfeita, construída para durar pela eternidade. Nada poderia mudar isso.
Porém, subitamente, foi como se Askar escutasse o barulho de algo imensurável mergulhando na água. Então, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, a realidade estremeceu, gritou e, com um último lamento distante de um pássaro uantuu, o mundo dos Ykars explodiu.

Em algum lugar da Existência… Planeta Terra, município de Toledo, Estado do Paraná, Brasil…
Domingo. Pôr-do-sol. Lago no centro do Parque Ecológico Diva Paim Barth. Naquela hora, apenas o jovem Henri Corredeiras, sentado taciturno a uma das margens, permanecia ali. Ele meditava sobre a dissertação que sua professora de Filosofia havia passado. Era a nota final dos últimos exames daquele ano e o prazo de entrega terminava amanhã. Embora o tema fosse livre, contanto que filosófico, ele, o mais falador e que redigia dez páginas quando se pedira apenas uma, sentia-se, por algum motivo, sem idéia para sequer uma única linha.
Fazia um ano desde que se tornara vegetariano e ativista pelos direitos dos animais, para desagrado do pai e parentes e, há seis meses, ele enviara à Assembléia Legislativa do Estado uma carta-protesto contra o abate de porcos e frangos em um grande frigorífico de Toledo. O assunto rendera-lhe discussões e recriminações pungentes de sua família. Ainda ontem recusara o convite da namorada para uma daquelas festas do município, nas quais porcos são assassinados e transformados em tira-gostos e desculpas para bebedeira. “Tem idéia do quanto eles sofrem para serem abatidos?”, Henri questionou-a, eles discutiram e isso deixou o relacionamento mais abalado do que já estava.
Voltou a pensar na dissertação. O horrível era isso, esse vácuo… Nenhuma idéia…
Entediado, pegou uma pedra, um seixo, que estava ali perto. Atirou-a no lago e observou a perturbação na água, as ondulações pela superfície. Por um instante, teve uma visão. Em sua mente se formara a imagem de um alienígena azul, na janela de um castelo, segurando uma taça assustado enquanto o mundo dele explodia.
A cena desapareceu num segundo. “Que estranho!”, pensou Henri, e olhou para o lago sem entender o que acontecera. Então, por algum motivo que jamais soube, lembrou-se de seu professor de filosofia do ano letivo anterior, Janus, um ex-padre, autor de livros de poesias conhecidos apenas dentro dos limites de Toledo. Boa pessoa. Morrera de câncer no pulmão.
Uma vez, certa aula daquele professor chamou a atenção de Henri mais que as outras: “há uma relação ininterrupta entre o macrocosmo e o microcosmo. A Existência, na verdade, é um conjunto de universos dentro de universos e mundos dentro de mundos. Assim, como tudo é conectado, cada ação nossa, por menor que possa parecer, traz grandes conseqüências, se pequenas na nossa realidade, talvez sejam catastróficas em outras. Cada ato nosso, mesmo o mais desprezível, em algum lugar, cria mundos ou destrói mundos”.
Henri sorriu zombeteiro. Gostava de Janus, mas o considerava… Bem, um pouco delirante. Olhou para a água, a superfície já voltara a ser tranqüila, e recordou-se da imagem do alienígena. “Cria mundos ou destrói mundos”… Ora, fora só uma pedra num lago, nada mais que isso.
Todavia, percebeu que ali estava uma oportunidade. Por que não? “Uma Pedra no Lago ou Somos Destruidores e Criadores de Mundos”. Título imponente para uma dissertação, do tipo que impressionaria a professora. Era realmente irrelevante se ele acreditava ou não naquilo.
Levantou-se. Iria, às pressas, redigir o texto. Antes, porém, olhou em volta, pegou de outra pedra e atirou, novamente, no lago. Esperou por um instante. Nada aconteceu. Nenhum mundo foi criado ou destruído. Riu consigo mesmo. “Coitado do Professor Janus… Precisava era de um psiquiatra!”, sentenciou Henri Corredeiras, e foi embora.

Porém, em algum lugar da Existência, as trevas haviam se agitado e um novo mundo, que viria a se chamar Aylin, começava a surgir…

FIM

Dedicado a Henri Corredeiras (Wesley Felipe)

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Núbia Quando um Humano Visita Você

14 Comentários Add your own

  • 1. Diego J.  |  dezembro 13, 2009 às 12:50 am

    Oi Rita! Gostei bastante!…Bem filosófico…
    DJ.

    Responder
    • 2. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 13, 2009 às 3:05 am

      Diego,
      Muito obrigada. Fico contente que tenha gostado.
      Eu quis apostar na veia filosófica para esse conto.
      Que bom que funcionou.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 3. Angela Oiticica  |  dezembro 13, 2009 às 1:26 am

    Adorei a ideia: Somos criadores ou destruidores de mundos? Incontáveis universos fervilham tantos segredos. Toda possibilidade é possível…

    Responder
    • 4. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 13, 2009 às 3:03 am

      Angela,
      Muito obrigada.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 5. Fernando  |  dezembro 13, 2009 às 4:05 am

    Parabéns… Tu conseguiste inserir conceitos filosóficos sem parecer forçado e com ótimas descrições de ambiente. A ideia dos nossos “atos e efeitos” ficou show.

    Responder
    • 6. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 19, 2009 às 9:27 pm

      Fernando,

      Obrigada.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 7. Edgley  |  dezembro 19, 2009 às 4:38 am

    Adorei, belíssimo conto. Parabéns !!!

    Responder
    • 8. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 19, 2009 às 9:28 pm

      Edgley,

      Obrigada.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 9. Wesley Felipe  |  dezembro 23, 2009 às 1:22 am

    Também gostei muito deste texto. Houve coincidências muito interessantes!!!
    Obrigado pela homenagem!

    Responder
    • 10. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 23, 2009 às 3:36 am

      Por nada, amigo, você merece.
      Obrigada por ter gostado.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 11. licinio  |  fevereiro 13, 2010 às 9:40 pm

    mto curioso o efeito do texto,

    sucesso pra ti!

    Responder
  • 12. Geralda  |  março 3, 2010 às 1:22 pm

    Sem palavras, pq estou encantada…Sucessos e o que posso lhe desejar!

    Responder
  • 13. dr. clandestino  |  dezembro 19, 2010 às 4:13 am

    excelendet texto, os detalhes são muito nitidos, sua capacidade de visualização é fenomenal!

    Responder
  • 14. tonypegasus  |  fevereiro 21, 2015 às 11:05 pm

    Parabéns, pelo excelente texto, Ritinha. Vc escreve muito bem.

    Responder

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