Núbia

dezembro 9, 2009 at 3:08 am 1 comentário

Pessoal,

Espero que tenham gostado de “Presas e Lembranças”,a primeira aventura de Wladimir Cartegiano. Agora vejam a segunda. Boa leitura. Comentários serão bem-vindos.
Beijos
Rita

NÚBIA
Por Rita Maria Felix da Silva

Do Diário de Wladimir Cartegiano:

“A pena apoiada no papel, ansiosa por inspiração. Vasculho entre idéias e memórias buscando as palavras que preencham estas próximas páginas…

A segunda metade de Junho. Quinta-feira de temporal. Fora de meu refúgio, a tormenta castiga a cidade. Kellique sentir-se-ia bem neste clima. Exatamente hoje se completa trezentos anos e cinco meses da data em que ela foi tomada de nós.

Kellique… Tão maravilhosa, nosso maior orgulho. Sua perda foi uma vitória sombria dos humanos e motivo de imensurável dor para minha espécie e para mim, acima de todos.

A chuva instiga minhas lembranças… Querida Kellique, eu estava lá, naquele momento funesto, todavia falhei contigo. Padecerei em eterna vergonha. Não! Não escreverei sobre tal infortúnio, um dos poucos capazes de despedaçar minh’ alma!

Cento e cinqüenta e dois anos e três dias já se passaram desde Recife e minha infeliz associação com Aquino e Arcedino. Ao contrário da ficção, minha espécie não se reúne em clãs, famílias ou qualquer termo equivalente, nem reconhecemos qualquer líder entre nós.

Somos, por natureza, solitários: duques e condes em castelos europeus, distantes e secretos; ou andarilhos predadores vivendo nas cidades dos humanos. Porém, alianças, ainda que raras, são possíveis. E assim me uni aqueles dois, meus conhecidos de um tempo secular, para concluir um lamentável assunto de vingança. No final, alcançamos uma vitória vergonhosa e tudo foi resolvido com sangue e dor, porém nenhuma honra. Os detalhes de como aconteceu foram exatamente assim… Não. Essa é uma história bastante desagradável aos meus olhos e opto por fingir esquecê-la.

Então… Núbia. Sim. Este trecho de meu diário será sobre ela, pois sei quanto já foi contado sobre o que houve, e sinto que um pouco da verdade deva ser derramado sobre essa questão.

Agora faz doze anos e oito meses. Eu estava em outro refúgio, absorvendo as últimas gotas de sangue de um policial que, confiando em sua autoridade e armas, abordou-me ao pensar que fosse um simples gatuno. Ah, a arrogância e estupidez, essas duas irmãs,emprestam um sabor todo especial ao sangue humano.

Foi então que a escutei e meu olfato a denunciou. Arrastei o corpo do policial para as sombras, nelas recolhi-me e esperei. Uma intrusa em meu refúgio. Minha espécie tem noções extremadas sobre a privacidade. Decidi que minhas boas vindas não seriam nada menos que letais.

Breve pude vê-la. Jovem ainda. Macilenta, de pouca beleza e comum demais.O rosto mostrava aquela expressão lastimável de quem chora com freqüência. Removeu a capa de chuva e colocou-a num canto. Mochila nas costas,como se fosse habituada a viajar muito. Veio segurando uma lanterna nas mãos temerosas.

Saltei das sombras para frente dela. Assombrada, apontou o facho de luz diretamente para mim e começou seu palavreado:

— Você é Wladimir Cartegiano, o vampiro, não é? Procurei tanto pra encontrar você. Por favor, antes de me matar,escute porque vim aqui.

Vampiro… O termo é pejorativo para minha espécie. Uma expressão desprezível inventada pelos humanos. Jamais a usamos entre nós. De qualquer modo, eu fora hábil em esconder minha existência por toda uma eternidade. O fato de ser reconhecido surpreendeu-me. Sim,estava curioso. Eu escutaria.

— Meu nome é Núbia e eu… Eu tenho um desejo — disse ela, a voz titubeava de medo.

— Desejo? — indaguei com um sorriso crescendo entre meus dentes — Que insólito! Isso é assunto para os djins, porém tua espécie cuidou de eliminar o último deles há pouco mais de mil anos.

— Não! O que eu quero só pode ser feito por alguém como você. Me deixa explicar… Começa com Alex, meu namorado.

— Oh, prossiga — eu disse, enquanto já imaginava o gosto daquele sangue.

— Alex…Eu o amava. Nunca havia amado ninguém antes. Nunca consegui depois. Ele me fazia sentir viva, feliz, importante. Quando a gente estava junto, era como se… Ah, não sou escritora. Mas Alex era. O melhor que já vi.

‘Só escrevia sobre vampiros. Era fascinado pelo assunto. Tinha uns dez livros já publicados e fundou um clube, o ‘Populus Nosferati’.. Quando a gente fazia amor, recitava trechos dos livros dele para mim.

Um dia, me confessou que sonhava ser vampiro e jurou que estava bem perto de um jeito para se tornar um. Disse que me transformaria também e a gente ia ficar juntos, imortais fazendo amor para sempre. Tremi, mas concordei. Eu o amava demais.

Acontece que três meses depois, a gente estava num desses barzinhos bem submundo, onde Alex iria encontrar alguém com… Um jeito para realizar o sonho dele.

A noite foi passando e a tal pessoa não apareceu. Alex ficou irritado, tentei acalmá-lo. Aí um carinha bêbado e bem folgado veio se esfregar em mim. Meu namorado derrubou o sujeito com um soco só. O idiota se levantou gritando,o nariz quebrado, o sangue no rosto. Alex partiu pra cima dele como se fosse uma fera. Oh, como eu o amava.

Mas o tipinho tinha um amigo, um grandão que puxou uma arma.Um tiro. Meu Alex estendido no chão, sangue escorrendo dele. O bêbado e o outro fugiram. A ambulância demorou para chegar. Alex foi o caminho todo agonizando uma declaração romântica para mim. Era sexta-feira. Eu o enterrei num domingo tão chuvoso quanto essa noite.

Desde então… Eu.. Não gosto de chamar isso de vida. Sofro pra caramba. O problema é que viver sem ele realmente não dá.Já pensei em suicídio, mas não tenho coragem.

Aí me voltei para o sonho de meu querido. Eu queria fazer uma homenagem a meu amor. Mas não quero ser vampira. Para que passar a eternidade matando gente? E para que ser imortal e ficar até o fim do mundo sem ele?

Talvez eu tenha ficado maluca mesmo. Todo esse sofrimento,a saudade…. Eu quero morrer… Pelas mãos de um vampiro. É isso: como numa cena de um livro de Alex. E se existir qualquer coisa depois da morte, quem sabe eu possa me encontrar com ele e ser feliz de novo, dessa vez para sempre?

Me entende, não é? Por favor, não tenho nada para oferecer, só meu sangue e minha vida. Me toma os dois e me faz voltar a ser feliz.’

Ponderei diligentemente sobre as palavras daquela moça. Asco e revolta tomaram conta de mim. Sim, minha espécie é de predadores (jamais aceitei o termo ‘assassinos’), no entanto, em oposição a qualquer crença ou teoria esdrúxula, amamos sobretudo a humanidade, pois é dela que provém nosso sustento. Por tal razão, uma vida humana é algo sobremaneira precioso para nós. Abominamos suicidas. A simples idéia de um ser humano (essa estranha criatura que os deuses puseram neste mundo para servir-nos de banquete) querer abrir mão da vida, é algo de sumo horror. Mesmo neste caso de Núbia, o assunto fere nossa ética: humanos são presas, para serem caçadas, seduzidas, abatidas com ferocidade e arte, não para entregarem-se em desespero ansiando pela extinção.

Decidi que Núbia deveria ser punida. Em silêncio aproximei-me dela. A moça tremia, sussurrou o nome do amado e forçou a si mesma para não fugir quando meus dentes tocaram-lhe o pescoço. Minha mordida foi rápida e voraz. Um assunto desagradável. Eu desejava concluí-lo logo. Sangue fraco, cheio de covardia e loucura. Meu paladar sentiu-se agredido, todavia já provei piores.

Deixei-a morta no chão.Preparei-me para a próxima etapa do que planejara. Requereria um pouco de meditação para alcançar o estado espiritual adequado. Fechei os olhos e concentrei-me.

Há vários mitos sobre a transformação de um humano em alguém de minha espécie. A maioria resume-se a distorções folclóricas ou ficcionais. Nunca houve muitos de nós neste mundo e raros são aqueles de meu povo com o dom de transformar um mortal. Sou um deles. Mas há detalhes importantes nesta questão:

Persiste a crença de que nossa condição se deve a um tipo de vírus, que poderia ser transmitido através de uma mordida. Pelos deuses, de onde retiraram essa sandice? Somos criaturas mágicas, sobrenaturais, como preferem alguns. E nossa natureza é mais espiritual do que se poderia imaginar. Então, não precisamos que um humano prove nosso sangue. Apenas sacrificamos um pedaço de nossa alma para que a vítima se torne um de nós. Tal proeza é muita perigosa e já conheci alguém semelhante a mim que pereceu dessa maneira.
Além disso, há uma questão metafísica envolvida. Nem todos os humanos podem ser transformados. Apenas para alguns, cujos espíritos possuem aquela indefinível ressonância conosco, a conversão é possível.

Pelo feliz acaso dos deuses, Núbia, era um desses seres. Então, abri os olhos, curvei-me sobre ela e beijei-a.Uma ordem mental e parte de meu espírito fluiu para aquela jovem.
Convertê-la quase me destruiu. Permaneci inconsciente por horas. Quando despertei, guardei o corpo dela em um canto mais reservado. Três dias seriam necessários para que a transformação fosse completada, então Núbia emergiria como uma de nós.

Parti antes que ela acordasse, afinal eu acabara de criar uma inimiga por toda a eternidade. Duvido que algum dia me perdoe. Considerando o que me dissera, apenas posso imaginar o tormento ao qual a condenei.

Nesses anos que se passaram, tenho, à distância, acompanhado seu progresso. Ela tornou-se uma predadora eficiente. Aprendeu a sobreviver e esconder-se melhor do que se esperaria. Como humana, era tão somente patética. Na condição de alguém de meu povo, mostra-se um motivo de orgulho para mim.

Desde então, já nos encontramos duas vezes, ambas em batalha.E assim será até que um de nós assassine o outro. Cuidarei para que não seja eu a se extinguir.
Apenas algo nessa Núbia que criei me traz vergonha: chama a si mesma de ‘vampira’. É realmente lamentável.

Um filósofo da Grécia Antiga, cujo sangue me trouxe grande prazer, ensinou-me sobre isso: a perfeição não é alcançável para os humanos.

Nem para nós.”

FIM

Dedicado a Miriam Darkmoon.

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Presas e Lembranças Uma Pedra no Lago

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