Dissolução e Ironia

dezembro 3, 2009 at 2:54 am 4 comentários

DISSOLUÇÃO E IRONIA
Por Rita Maria Felix da Silva

No interior do estômago do Tlalok, alguma enzima, cujo nome não sei pronunciar, vai dissolvendo o uniforme e minha carne. Deveria doer muito, porém a mente da criatura atua sobre mim, provocando um tipo de entorpecimento. Por isso, pareço tão calma, quando deveria estar em pânico. Afinal, morrer não é uma coisa agradável.

A pior parte tem a ver com minhas crenças religiosas. Se fosse atéia, nem me importaria, mas, pelo que li nos relatórios do Comando, esse monstro também devora a alma das vítimas. Bem, Mariza Cordonella (como me chamo), é um universo bem injusto esse, onde uma garota católica não pode nem mais sonhar ir para o Céu (passar a eternidade como “resíduo espiritual digerido” está bem longe da imagem de Paraíso que aprendi com o Padre Antenor).

Seria egoísmo se não mencionasse que há mais vinte pessoas nessa mesma situação. Todo meu pelotão, boiando nesse caldo estomacal alienígena. O mais revoltante nisso tudo é como começou.

Na terça-feira, Raimundo Martinez Pelotas, ou melhor, o Capitão Raimundo Martinez Pelotas, que (para minha desgraça) é meu superior na base militar, neste mundo, Delta-Clonos – XIX, me chamou até a sala dele. Se você tem a felicidade de não ter conhecido esse imbecil, agradeça a Deus. Ele veio grunhindo algo sobre uma certa “expedição de captura” que eu teria de liderar.

— Espera aí: não é aquela história do Tlalok, é? — indaguei, já temendo a resposta.

— É, sim, mocinha.

— Vai sonhando!

Gritou comigo e nós discutimos. No fim, impôs a autoridade e fui obrigada a baixar a cabeça. Era isso ou a Corte Marcial e, tenho certeza, com o Capitão, usando um pouquinho de influência aqui e ali, eu ia conseguir, no mínimo, uma perpétua em Monte Cristo (lá em Vênus, a pior prisão possível em todos os mundos-colônia.)

Minha hesitação em acatar aquela ordem tinha a ver com alguns detalhes:

1 – Tudo que o Conselho Mundial desejava era outra atração alienígena para entreter as massas lá na Terra. Nunca aprovei isso, mas quem disse que minha vontade conta?

2 – Nosso regimento não tinha nem o efetivo suficiente nem estava equipado para tanto. Ia ser “caminhando direto para a morte, ia a tropa dos idiotas suicidas”. Todavia Martinez queria bajular o Comando, ou, é bem provável, planejava só se livrar de mim.

3 – Eu havia acabado de noivar (Rodolfo é um programador de computadores daqui de Delta-Clonus. Foi à Terra terminar um estágio numa grande firma. Quando voltasse, casaríamos) e não estava disposta a sacrificar isso por uma maluquice do Capitão e daqueles burocratas-hipócritas-megalomaníacos que governam a humanidade.

Bem, resumindo tudo, a missão foi um fracasso. Perdemos quinze soldados em seis minutos de combate com essa criatura (um quadrúpede de uns cinqüenta metros de comprimento, uma mistura esquisita de mamífero e réptil). O restante de nós foi… Engolido. E, acredite, não há nada de engraçado nisso.

O que não me sai da cabeça enquanto morro, é o desgraçado do Capitão Martinez.
Eu me esforcei muito na academia. Queria ser um motivo de orgulho para mamãe. Desde que o Conselho Mundial executou meu pai (ele tinha idéias políticas extremistas, era um clone, foi baleado pelas costas, enquanto fugia de uma tropa do governo, assassinado pelo seu próprio original, João Mariz Fernandez), a coitada vive como se fosse um rascunho de uma pessoa.

Quando consegui minha promoção (Sargento já é alguma coisa) e a transferência para Delta-Clonus, pensei que havia recebido um presente de Deus. Ao invés disso, encontrei o Martinez.

No começo, pensei que o problema fosse sobre meu pai, porém, logo percebi que era comigo. Havia algo de inexplicável que fazia o Capitão Martinez me odiar.

Ah,e ele me perseguiu. Se eu fosse só um pouquinho fraca já teria cometido alguma besteira (assassinar um oficial, embora muito tentador, é perigoso demais. Não mandam você para Monte Cristo, mas sim direto para a fila de fuzilamento), porque, neste um ano aqui na base, ele fez tudo o que de ruim foi possível para tornar minha existência… Na falta de outro termo, “infernal”. Pensei em ir embora, no entanto herdei a teimosia de papai. Decidi ficar e enfrentá-lo. A idéia era ver quem de nós quebrava primeiro.

Deus, como odeio esse homem! Mais de uma vez eu o confrontei. Queria saber o que tem contra mim ou, pelo menos, se eu era tão indesejável assim, por que não me transferia para qualquer outro lugar? Recebi apenas gritos, um risinho indefinível e, em certas ocasiões, um período na cela por insubordinação.

Porém, durante uma folga, eu bebia com outras garotas aqui do regimento, quando Regina, minha melhor amiga neste planeta, me disse que estava tendo um caso com Oliviano (aquele cabo que é também o psicanalista da base). Claro que me pediu segredo, pois o Comando não gosta de envolvimentos sexuais entre seu efetivo.

Contou-me que Oliviano bebe como quem anseia ser expulso da corporação. Numa noite, entre algumas transas e muito whisky, disse a ela o seguinte:

Um assunto não muito comentado (quer dizer, nunca oficialmente, só pelos cantos da base) é que Martinez já teve uma esposa e nunca houve um casal que… Dizem que eles eram muito “apegados”, de um jeito doentio. Quando ela morreu (acidente com espaçonave, numa destas colônias extra-Sistema Solar, segundo a versão oficial) o cara quase enlouqueceu. Depois jurou lealdade eterna à memória da falecida (coisa doida! Lealdade à gente morta? Simplesmente não cabe em minha cabeça) e entrou em um daqueles cultos celibatários.

Até aí era para ser só mais uma história esquisita. O que teria a ver comigo? É onde tudo fica mais estranho. Segundo Oliviano (se isso não for um delírio alcoólico), Martinez nunca mais prestou atenção em mulher nenhuma. Até me ver. Ele me ama. Dá para acreditar nisso? E me odeia pelas sensações que provoco nele: a tentação de trair a promessa, a covardia de não admitir seus sentimentos e o medo de se aproximar, de me tomar nos braços e me arrastar para alguma cama. Amor recolhido, amor negado, amor impossível, do tipo que queima a alma e enlouquece a mente… E ele devolve tudo isso sobre mim, em ondas de ódio.

Já pensei muito sobre o assunto. Nem se implorasse para mim mesma, conseguiria transar com aquele repulsivo do Martinez. A idéia de deixá-lo me tocar é tão nojenta que… Acredite, o Inferno me pareceria uma escolha melhor. Depois de beber, fui para casa e, lembrando do que Regina me contara, tive meu pior pesadelo desde a morte de papai.
Então, arquivei aquela descoberta suja em uma pequena caixa metafórica em minha mente, a mesma com o rótulo de “idéias absurdas, impossíveis e indesejadas”. Durante muito tempo, recusei-me a pensar nesse assunto.

Até este momento, quando estou morrendo. A mente vai ficando nublada – a alma sendo devorada pelo Tlalok. Olho para o lado e vejo a última compensação de minha vida: o Capitão Raimundo Martinez Pelotas também sendo dissolvido neste vômito-amarelado-extraterrestre igualzinho ao restante de nós.

Ele disse que viria, alegando querer observar minha incompetência e assistir a meu fracasso, mas, então, no que me resta de consciência, lembro do que sente por mim. Talvez ele desconfiasse que eu morreria nesta missão, quem sabe desejasse isso, para se libertar desse amor maluco que a cabeça dele inventou, mas, simplesmente, não conseguiria me deixar partir e preferiu vir para morrer comigo.

Até me considero romântica e deve haver algo de romântico nisso tudo, mas de um jeito esquisito, distorcido e doentio, que não gosto e nem sou capaz de entender. Meus pensamentos começam a falhar. A face de Martinez me acompanha enquanto morro: olhos tão cheios de desejo… Do tipo inalcançável. Tremo de repulsa e ódio. Se ele realmente me amava, o que isso importa agora, enquanto nós dois somos transformados em carne derretida?

Não sei se há alguma moral ou ironia maior nisso tudo, mas, certamente, é uma forma bem estranha de uma história de amor terminar.

FIM
Dedicado a Leo Marchi, Flavius e ao rpg.art.br

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Você no Espelho Presas e Lembranças

4 Comentários Add your own

  • 1. Edgley  |  dezembro 5, 2009 às 4:34 am

    Quando eu li a primeira parte, vi uma riqueza de criatividade, e
    pensei será que vai demorar a continuação, daí muito brevemente
    chegou, e foi como esperava, espetacular, mais uma vez meus
    parabéns.

    Responder
    • 2. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 13, 2009 às 3:06 am

      Edgley,

      Muito obrigada pelo texto e pela amizade.
      Beijos
      Rita

      Responder
  • 3. Angela Oiticica  |  dezembro 13, 2009 às 12:40 am

    Que maneira de amar. Deixar a pessoa morrer e tirar-lhe a liberdade de escolha. Martinez era bem tirânico. Ótima estória.

    Responder
    • 4. Rita Maria Felix da Silva  |  dezembro 13, 2009 às 3:06 am

      Obrigada, Angela.
      Era sim, ele amava de uma forma terrível.
      No conto anterior, “Você no Espelho”, mostrou o que houve com o pai dela.
      Beijos
      Rita

      Responder

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