GLADIUS

agosto 17, 2009 at 6:26 pm 3 comentários

GLADIUS
Por Rita Maria Felix da Silva

Dedicado a Marcelo Milici (Mestre Infernauta).

Nesta época, me chamam de Diomedes. Já usei muitos nomes. Qualquer um que viva demais pode ser dar a esse luxo e espero viver para sempre, afinal foi para isso que paguei uma pequena fortuna em ouro àquele grego albino e esquelético, uns trezentos anos atrás, para que me transformasse em vampiro.
Faz tempo que estou aqui na Arena, uma grande câmara subterrânea na periferia da Metrópole. Lugar bacana. Os humanos nem desconfiam que exista e o sol nunca chega por aqui. A Arena sobrevive promovendo lutas para divertir um público formado por lobisomens, vampiros e outros tipos de seres sobrenaturais. Pelo que eu soube, no passado ainda colocavam humanos para se matarem nos confrontos. A platéia adorava, mas alguns líderes de alcatéia e Lordes Vampíricos – uns sujeitos muito liberais e preocupados para o meu gosto – decidiram encerrar essa prática antes que pudesse chamar a atenção da humanidade.
Tudo bem. Afinal há mais variedade nas lutas hoje em dia. Ontem, por exemplo, tivemos um saci enfrentando um elfo e, na noite anterior, um demônio arrancou a cabeça de um ogro no meio do combate. Grande luta! O público ficou extasiado.
Atualmente, o tipo de luta mais popular é lobisomem contra lobisomem (vampiros podiam ser bem interessantes também, mas os Lordes não permitem. Besteira deles!). E eu acabei virando treinador dessas coisas. Sou muito bom nisso, a platéia adora ver meus lutadores rasgando os adversários e eu ganho muito dinheiro com as apostas.
Mas eu não quero passar a eternidade nesse buraco. Só que vou precisar de muito mais dinheiro para construir o futuro que desejo. Minha esperança é esse garoto que comecei a treinar no último semestre. Caio. Eu rebatizei de “Gladius”, porque soa melhor na Arena. Esse lobisomem tem potencial. Juro que, depois que vi sua primeira luta, nunca vou querer estar no lugar dos adversários desse lupino. Com a reputação do garoto aumentando, mais alguns meses e eu ia levá-lo pro Campeonato Mundial na Europa. Prêmios altos, apostas de fazer medo. O suficiente para me aposentar e tocar a eternidade pra frente. Óbvio que alguma coisa tinha de dar errado.
Primeiro, Caio começou a andar com uns amigos esquisitos. Depois, descobri que eles são do “Quarto Minguante”, aquele culto de lobisomens pacifistas. Lobisomens pacifistas? Esse mundo está realmente perdido! Sei lá o que foi, mas “Gladius” ficou bem empolgado com esses malucos. Só me esforçando um bocado – e com uma ajudinha da namorada dele (depois eu falo da moça) – é que tenho conseguido impedi-lo de deixar a Arena, mas ele se sente dividido, indeciso e hesitante. Não tenho vocação para psicólogo de lupino (dizem que tentar entender o cérebro desses bichos faz o nosso virar poeira), mas isso tudo começou a afetar o rendimento do rapaz… Eu converso, recrimino, grito, mas não está adiantando muito. Fico com medo de perder meu melhor lutador e todo o dinheiro que ainda poderia ganhar com ele! Mas não dizem que algo pior sempre pode acontecer? O pior é que pode sim.
Lamartine. Aquele cretino tinha de reaparecer? Ele é vampiro também e treina lobisomens, mas as semelhanças comigo param por aí. Qualquer dia conto como o conheci, aí vai ficar claro porque tenho de resistir à tentação de arrancar as entranhas do desgraçado. Se a família dele não fosse tão importante, eu já tinha isso feito há muito tempo.
Pelo que eu soube, Lamartine estava no Chile e me pergunto por que diabos resolveu voltar e trazendo esse tal de “Bernardo”. Era para ser impossível, mas ele treinou esse rapaz-lobisomem melhor do que eu poderia. Vi uma luta do “Garra” – é como o imbecil chama seu lutador. Aquilo foi irreal. Mesmo antes de se sentir atraído por essa história de “pacifismo”, “Gladius” não teria chance. Nem sei se alguém teria. Para não perder meu ganha-pão, eu estava conseguindo evitar que os dois lutassem. Porém, as alternativas estão acabando. Quinta-feira eles vão lutar. Não dá pra impedir. “Gladius” vai ser feito em pedaços. Bem pequenininhos.
E tem outro ponto que me incomoda nessa história toda, de um jeito que faz meus ossos tremer: “Bernardo” é um daqueles radicais, loucos por uma guerra contra os humanos. Nunca dei muita importância a esses grupos, afinal seria insano desafiar a humanidade. Porém, os lobisomens adoram esse cara, até alcatéias mais racionais escutam o sujeito. Se ninguém fizer nada, logo, logo, ele vai conseguir que os lupinos partam mesmo para um confronto direto contra os humanos. Aí a coisa começa a feder. As regras de aliança vão ser cobradas, os vampiros também entram na luta e outros seres sobrenaturais são arrastados com a gente. Quando toda a matança terminar, sinceramente não sei o que sobra desse planeta.
Agora é segunda-feira. Como estou sem ânimo para sair em caçadas, compro umas bolsas de sangue (tem um duende por aqui, Geórgio, que trafica sangue. Coisa desprezível, mas alguém precisa fazer) e fico bebendo no vestiário, tentando relaxar. Minha cabeça vazia de alternativas. Se eu retirasse Caio da luta, ia perder a moral na Arena, talvez até ser expulso. Enquanto isso, a quinta-feira se aproxima.
Eu termino uma bolsa e abro outra. Quando o líquido chega a minha boca, traz um gosto inesperado. Cuspo tudo e deixo uma poça vermelha no chão. Minhas estranhas começam a embrulhar. Corro para o banheiro e vomito na pia. Que tipo de porcaria esses humanos andam comendo?
Pode parecer maluquice, mas – enquanto estou lavando a boca – eu tenho uma idéia. Algo diabolicamente simples e que pode funcionar. Isso ou vou precisar mudar de ramo.
Pego um telefone e ligo para Míriam, a namorada de Caio, lobisomem feito ele e é muito gostosa, quer dizer, na forma humana. Vampiros que têm juízo não se envolvem com fêmeas-lobisomens – porque os Lordes têm preconceito e são bem impiedosos nesses casos – mas não dá para olhar para ela sem pensar em pornografia. E o rapaz ama aquela garota. Sério! Acho que entendo por que. Quando me apresentou a ela, fiquei excitado. Não conseguia pensar em outra coisa. Até que gosto de Caio e não quero mal pro garoto, mas algumas coisas falam mais alto. Eu e Míriam estamos transando às escondidas faz uns quatro meses, torcendo para que ele não descubra.
Conto minha idéia e peço que ela colabore. Míriam fica assustada e se recusa. Eu insisto até que a garota começa a ceder, antes me xinga com palavrões e me chama de “demônio manipulador”. Eu rio. “Querida,” – explico – “não sou demônio: sou só um vampiro”. Ela chora um pouco, meio que de medo, meio porque gosta daquele rapaz e não quer magoá-lo, mas no final concorda. Se há uma coisa que sei fazer nessa vida é convencê-la. Termino a ligação. Vou procurar Geórgio, para esganar aquele idiota por me vender lixo ao invés de sangue. Agora é só esperar a quinta-feira e confiar que Míriam faça a parte dela. E se eu estiver errado? Bem, posso perder minha maior fonte de renda e minha amante de uma só vez… Eu até podia rezar, mas, sabe os deuses não gostam de minha espécie e ia ser muito feio um de nós ser pego rezando.
A terça e quarta passam com uma velocidade que me admira. Tento entrar em contato com Miriam, que parece estar me ignorando. Sem ela não há chance disso funcionar. Também não vi Caio. Imaginei que ele ficaria abalado, só não pensei que ia sumir desse jeito. Aí, vou ficando mais assustado. Será que ele descobriu sobre eu e ela? Não, Miriam não contaria. Ela não é sacana, é só uma tonta. E se tivesse contado, ele já teria me partido em dois.
Chega a hora da luta. O maldito Lamartine está lá, olhando para mim com um riso safado no canto dos lábios e exibindo seu lutador para a platéia. Nas arquibancadas, o público enlouquece enquanto aplaude o “Garra”. A popularidade dele aumenta a cada momento… Nenhum sinal de “Gladius”. O juiz vem reclamar pelo atraso. Eu imploro por uma tolerância de só mais dez minutos. Ele concorda, me alertando que esse combate pode terminar em “vitória por desistência”. Não! A vergonha seria grande demais! O rosto de Lamartine se enche de desprezo e arrogância. Ele está certo de que já me venceu.
Ao final de sete exatos minutos, “Gladius” entra na Arena, em forma humana, com roupas normais, como se não tivesse vindo para luta nenhuma. Ele está diferente. Há algo de terrível no rosto do rapaz, um ódio capaz de me assustar.
— Caio, você…
— Cale a boca. Não estou com paciência, Diomedes – ele me interrompe e naquela voz tem alguma selvageria, de um tipo que nunca vi, e depois aponta para o “Garra” – Tá vendo aquele ali? Não sai vivo daqui essa noite.
Decido que é mais prudente não insistir. Sento no meu lugar de treinador. Lamartine vai para o dele. Nunca vi Caio desse jeito. Penso em ligar para Miriam, porém fico com medo de descobrir que ele já tenha detonado com ela. Eu sou um babaca por inventar um plano maluco desses e agora meu futuro depende de um lobisomem babaca, enlouquecido e com o coração partido.
“Gladius” e “Garra”, ambos ainda não transformados, se aproximam. O Juiz, um vampiro chamado Saulo, começa a explicar as regras, quando Caio grunhe “Sem Regras!” e muda para a forma lupina numa velocidade que nunca pensei que fosse possível. Em três segundos, ele está no meio da arena transformado em um lobo humanóide com pêlo escuro e dois metros de altura. Em quatro segundos, ele dá um soco com o punho direito em Saulo, que é atirado a dez metros de distância (os Lordes não vão gostar disso), arranca e joga fora os trapos que restaram de suas roupas e ruge para “Garra”, como se ordenasse que o adversário também mudasse de forma. Pela primeira vez, vejo medo em “Bernardo”. Ele obedece, se tornando um monstro ainda maior que Caio, porém, de pêlo acinzentado. A luta começa.
Fico olhando assombrado (enquanto Lamartine se desespera). É a carnificina mais violenta e rápida que já vi. Durante esses dias eu pensei que meu plano poderia não funcionar, afinal “Garra” é um lutador melhor, mais bem treinado, mais forte e selvagem. Tudo podia ser só uma idéia maluca. Não tinha nenhuma garantia de dar certo. O danado é que deu. Depois de alguns instantes de urros, gritos de dor, dentes, sangue torrencial e mutilações, apenas “Gladius” resta de pé. Ele está muito ferido, coberto de sangue, mas não mutilado. Quanto ao “Garra”, todos os pedaços que sobraram dele estão espalhados pelo chão da Arena. A platéia fica muda por um momento – até mesmo essa laia de sádicos sanguinários foi surpreendida por tudo isso -, para depois explodir em gritos e aplausos.
No meio daquela barulheira, o juiz fica gritando nos meus ouvidos (reclamando do soco que levou e ameaçando que vai se queixar à Liga dos Lutadores, aos Líderes de Alcatéia e aos Lordes). Eu ignoro. Prefiro aproveitar esse instante de triunfo. Do chão, pego a cabeça de “Garra” e entrego a Lamartine, que ainda estava sentado, com cara de bobo, duvidando do que aconteceu. Ele olha assombrado para aquela coisa morta e ensangüentada em suas mãos.
— Uma lembrancinha pra você. – eu digo e rio, depois me afasto, enquanto intimamente prometo a mim mesmo que Lamartine vai ter um final parecido.
Me aproximo de Caio. Sinceramente, não sei o que dizer. Ele olha para mim e reverte a forma humana. Me assusto e me preocupo com o rapaz.
— Caio, não! Volte à forma de lobisomem! Seus ferimentos ainda não fecharam…
A regeneração dos lobisomens é tão boa quanto a nossa. Transformado, Caio iria sarar logo. Na forma humana, ele não tem chance. Então, entendo. Ele precisava falar.
Eu grito pros seguranças (trolls de coração bem ruim, liderados por um doido chamado Ivak) que contenham a multidão exaltada antes que chegue até Caio.
— Diomedes… – ele fala de um jeito que dá pena-, esse cara, Bernardo… Você não sabe o que ele fez… Ele e Míriam… Não!
Ele cobre o rosto com as mãos e começa a chorar. Juro que não costumo ver lobisomem chorando. Ele me conta que a namorada confessou que estava traindo-o com “Bernardo”, que isso o enlouqueceu, que desejou rasgá-la até que ficasse irreconhecível, mas não teve coragem. Porém, Bernardo ele não deixaria escapar…
Tento consolar o rapaz. É. Também não sabia que eu tinha coração mole. Deve ser a idade fazendo seus estragos. Quando ele começa a cair, eu o seguro pelo ombro e tento convencê-lo a se transformar novamente. Felizmente, ele obedece. De volta a forma de lobo humanóide, seus ferimentos passam a fechar.
Os trolls começam a perder o controle da multidão. Caio olha para o público, uma turba ansiosa para chegar ao campeão que derrotou o “Garra”. Ele está alterado. Se tentarem tocá-lo, vai haver outra carnificina aqui. Por cautela, começo a me afastar para um lugar seguro.
Porém, Caio ergue a cabeça e grita para o teto o urro mais bestial e terrível que já escutei. Todos na arena param e ficam em silêncio. Em seguida, olha ao redor, com mais ódio e dor naquela face animalesca do que sei explicar. O público e os seguranças se afastam sem precisar que ninguém peça nada, abrindo caminho para aquele lobisomem, que sai correndo desesperado pelos corredores. Claro que ninguém ali era louco o bastante para tentar impedi-lo.
Sem um astro para abraçarem, o público fica comemorando assim mesmo. Olho para Lamartine, que continua na cadeira de treinador, segurando a cabeça e completamente desolado. Essa visão me anima a alma e vou recolher o dinheiro que ganhei apostando em Caio.
Espero passar algumas horas. Lá fora o sol nasce e depois vai ficando alto no céu. Nenhuma má notícia chega. Ligo de volta para Míriam, torcendo que nada de ruim tenha realmente acontecido.
Ela me diz que tudo está bem agora, que Caio veio ontem à noite, ainda na forma lupina. Míriam pensou que ele iria fazê-la em pedaços, ao invés disso o rapaz reverteu à forma humana, chorou e abraçou-a. Ele disse que a amava, que a perdoava, que os dois deviam esquecer o que aconteceu. Ela também disse que o amava, que estava arrependida, que nunca mais iria traí-lo. Eles transaram até de manhã. Ele ainda está dormindo ao lado dela agora e tudo está bem. Claro que a coisa toda foi meio clichê e bem brega, mas, o que importa? Aconteceu do jeito que eu planejei! Pergunto se Caio vai para o culto “pacifista” no sábado e a moça confirma que sim, mas explica que ele vai se despedir da Igreja. Vermelho de alegria eu pergunto por que. “Caio disse que essa vingança o desonrou diante da congregação” – responde ela – “e que agora vai afundar o resto da vida nas lutas da Arena, porque é uma alma perdida mesmo.” Eu sorrio e prometo a ela que chego logo depois que o garoto sair. Vai ser uma noite e tanto, afinal estou com saudade dela e temos muito atraso para recuperar. Me despeço e desligo o telefone.
Sento e fico calado, pensando. Às vezes eu me surpreendo comigo mesmo! Não vou perder meu melhor lutador, nem a amante; humilhei o Lamartine e, ainda por cima, livrei o mundo de uma guerra apocalíptica.
Na segunda-feira, lá no banheiro, eu tive uma idéia. Para que Caio pudesse derrotar o “Garra”, eu precisava de um milagre… Ou, pelo menos, de algo que pudesse estimulá-lo. Inventei essa história de que Míriam estava traindo “Gladius” com “Bernardo” – o que é uma mentira das mais cabeludas, afinal, ela só o trai comigo mesmo. Convencer Míriam não foi difícil e eu sabia que o rapaz iria ficar tão transtornado que não perceberia qualquer furo em minha pequena trama. A dúvida era se meu caso com a namorada dele não iria aparecer no meio dessa história ou se ele não iria matá-la enlouquecido pela suposta traição. Bem, eu tinha de arriscar. Mas tudo deu certo! Tudo mesmo!
Esse lance de Caio deixar a Igreja é um dividendo extra. Mas quem está reclamando? As apostas sobre ele vão aumentar muito depois desta vitória e eu já posso começar a aprontar as malas para o Campeonato na Europa. Muito dinheiro, muito dinheiro mesmo vai rolar naquelas lutas e vou levar um dos favoritos ao título mundial.
Pego umas bolsas de sangue e fico bebendo, dessa vez para comemorar (ah, arranjei outro fornecedor. Tive que fazer isso depois que Geórgio sumiu…).
Sabe aqueles momentos em que tudo está funcionando a seu favor? Aqueles instantes abençoados em que tudo parece realmente perfeito, em que a vida (ou semi-vida, como chamam alguns) de um vampiro é a melhor coisa do mundo?
Esse é um momento daqueles. A vitória tem um gosto melhor do que sangue. Eu levanto o braço direito e dou um grito de triunfo. Nunca tive muito jeito pra filósofo e podem me chamar de imaturo quem quiser, mas eu adoro finais felizes, especialmente quando o final é comigo.

FIM

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FANTASIA HERÓICA Marind

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