Exceto um Beijo

junho 30, 2009 at 2:17 am 1 comentário

Sobre este conto

EXCETO UM BEIJO

Por Rita Maria Felix da Silva

(Dedicado a Marcelo Amado – “O Guardião do Estronho”)

Arthur não acreditava que poderia existir, em algum lugar, uma vida que fosse perfeita, mas gostava da sua. Costumava dizer que era bom estar vivo.

Mas não naquele janeiro. Para ele era como se algo estivesse errado com o mundo, enquanto os problemas em seu casamento surgiram de forma inexplicável e as coisas no trabalho haviam deteriorado de “boas, amigáveis e promissoras” para algo certamente pior. E, a despeito de seus esforços para que tudo voltasse a ser como sempre fora, parecia que o destino (ou fosse lá o que fosse) havia se desgostado dele de algum modo irreversível.

Por isso, ele começou a beber e uma noite entrou num daqueles “singles bar”. A idéia lhe seria absurda algum tempo antes – afinal tinha Júlia, e, embora não soubesse escrever poesias e sempre se sentisse bobo e infantil quando tentava bancar o romântico – tinha certeza de que a amava. Porém, enquanto a tristeza nublava-lhe o coração (e o álcool se encarregava de fazer algo mais drástico com seu fígado), sentiu que procurar uma outra companhia feminina não seria de todo mal. Então, foi até ao banheiro e deixou que a aliança de casamento e a consciência afundassem juntas na privada.

Voltou ao balcão e continuou a beber, dizendo para si mesmo que logo uma multidão de mulheres apareceria para disputá-lo. Os minutos, porém, foram se juntando naquela noite e logo se transformaram em uma hora e depois duas, apenas para provar que ele estava enganado. Em algum momento, uma partícula que restara de sua dignidade aconselhou-o a ir embora daquele lugar – e, ironicamente, toda esta história tomaria um curso bem diferente se Arthur tivesse escutado essa simples advertência – todavia, por qualquer motivo que sua mente não se interessou em deduzir, ele ficou.

Foi quando ela apareceu ao lado dele. “Apareceu” talvez seja o melhor termo, porque quando ele olhou para sua direita, a mulher estava lá, como se sempre estivesse ali. E como era bonita – embora, por algum motivo que escapava aquele homem, ela não deveria ser – e Arthur se percebeu deslumbrado e hesitou e gaguejou e lamentou porque não era do tipo que soubesse galantear. Todavia, isso não seria necessário, pos tudo aconteceu rápido demais.

Se um dia lhe houvesse sido dada a oportunidade de explicar as horas que passou com ela, Arthur não conseguiria dizer como chegou aquele outro lugar, uma casa em alguma praia, cujo nome ele jamais ouvira antes. E eles fizeram amor. Essa era a palavra, porque nunca havia sido assim tão bom com Júlia. Na verdade, nunca nada em sua vida fora melhor do que está na cama com aquela mulher.

Quando eles pararam – e o dia já havia chegado – assim o fizeram porque Arthur arfava de esgotamento.

— Eu nem mesmo sei seu nome. – ele comentou tolamente.

— Amanda. Pode ser Amanda. Há muito tempo eu chamo a mim mesma por esse nome.

Arthur riu, meio que sem jeito.

— É… Isso tudo foi… Sei lá… Divino. Sabe quando aquelas pessoas dizem que nunca souberam o que é estar vivo de verdade até acontecer isso ou aquilo…? Eu me sinto assim… Mas, não leva a mal, você é esquisita… “Chamo a mim mesma”. Ninguém fala assim. – disse ele, já começando a se arrepender por talvez tê-la ofendido.

Ela apoiou a cabeça no tórax dele e depois ergueu a face para olhar diretamente nos olhos daquele homem. E riu levemente, de uma maneira mais bela e sedutora do que ele poderia supor existir.

— Eu pareço estranha para você? – Amanda indagou.

— É… – respondeu ele, enquanto alguma parte de sua alma desejou evitar aqueles olhos sensuais, que pareciam poder envolvê-lo e sufocá-lo, apenas para perceber-se abismado contemplando-os – Quer dizer, você é a coisa mais maravilhosa que já vi, mas é… Sei lá… Parece meio doida.

— “Meio doida”? – ela perguntou e gargalhou tão despreocupada e inocentemente quanto uma criança faria.

— Ei, – disse Arthur, culpando a si mesmo quando ela parou de rir de uma forma tão linda apenas para escutá-lo – não fica ofendida, não, mas parece sim. Você é esquisita, muito mesmo. Quer dizer, é linda também. Meu Deus! Eu nunca me senti assim, nem sonhei que pudesse, mas acho que estou apaixonado. Sério! Sei que devo estar bancando o ridículo para você, mas eu… Eu te amo.

Ela o acariciou. Arthur se questionou que deveria haver algo de errado ali porque tudo estava tão perfeito… Mas ele ignorou isso, porque seu coração assim pediu – enquanto a libido e excitação aumentavam.

— “Ridículo”? – ela respondeu a ele – Não, só um pouco previsível.

— Quer dizer, essas horas com você… Sei lá, você é o que? O paraíso em forma de gente? Com Júlia nunca foi tão bom assim…

— Júlia… ? – ela o interrompeu.

— É, minha mulher. Quer dizer, não quero mais que seja. Agora ela me parece tão certinha, tão sem graça, uma defunta perto de você. Onde é que você estava esse tempo todo que nunca te encontrei? E como é que foi escolher a mim? Naquele bar devia ter… Uma dúzia de caras mais interessantes do que eu. Quer dizer, esse tipo de coisa, não acontece na vida real. E você não é uma prostituta. Sei que não, não pode ser.

Ele observou com atenção o rosto dela, percebendo que não conseguia parar de contemplá-la… E, quando Amanda ria, algo… Inescapável… Que não pertencia a este mundo… Brilhava naquele semblante.

— Seu destino ou minha escolha… Isso importa? – ela o questionou.

— Não, quer dizer… Não. Tudo que importa no mundo é que você está aqui comigo e que eu gostaria de ficar aqui para sempre. Meu Deus! Nunca fui tão feliz, nunca pensei que pudesse ser. Ei, eu devo estar dizendo besteira. Eu acho que…

Amanda colocou o dedo indicador sobre os lábios de Artur. Ele parou de falar e ela disse:

— Não se censure. As coisas acontecem do modo que planejei e breve você entenderá o quanto ainda vai ser importante para mim.

Aquelas frases o atingiram de um modo que lhe feriu o entendimento.

— Tá vendo? – ele indagou. Vê só como você fala? E o mais estranho é que você não beija. Nunca beija. Já ouvi falar de mulheres assim…

— Você gostaria que eu te beijasse? – ela perguntou, fixando o olhar nele e havia algo de assustador ali que, em outra situação, teria feito Arthur fugir correndo daquele quarto. Mas não naquele dia, não com a possibilidade de nunca mais ver Amanda.

— Sim, sim, é claro que sim! – Ele dizia quase gritando de tão entusiasmado – eu poderia te implorar, eu daria qualquer coisa por isso.

Ela o olhou com tanta satisfação sincera e pura nos olhos que isso tocou o coração dele, fazendo uma lágrima escapar do olho direito de Arthur. E havia algo mais no rosto de Amanda – e, se ele tivesse mais tempo, talvez pudesse ter deduzido que era piedade.

Então, ela o beijou. Volúpia e desejo explodiram dentro dele. A felicidade fluía por seu corpo em ondas de prazer que se sobrepunham e competiam entre si. Havia calor e poder ali; era orgásmico, profundo e tinha algo de místico, infinito e cósmico e de algum modo estranha e remotamente familiar, como se um desejo que ele jamais conseguira articular estivesse sendo realizado exatamente naquele momento, como se algo que ele ansiara e pelo qual houvesse esperado por toda a vida finalmente viesse a seu encontro. Suas melhores memórias eram nada diante daquilo. Seus mais íntimos e acalentados sonhos pareceram-lhe tímidos e desbotados, por isso murcharam timidamente. Sua mente e espírito foram tocados de forma absolutamente irrevogável e ele imaginou que sua respiração cessaria ou que seu coração houvesse decidido parar de bater, pois tudo aquilo era grande demais para ser sentido ou vivido por qualquer ser humano. Mas ele continuava vivo e sua alma implorava que aquele beijo jamais terminasse.

Foi quando, nos mais profundos abismos de sua mente, surgiu uma voz, de todo modo estranha e não-humana, mas que era, ainda assim, Amanda falando, acompanhada por imagens exibidas de forma acelerada, como num filme, porém rápidas, insanas e reais demais.

“Desde um tempo anterior ao que você pode conjecturar, coisas maravilhosas, bizarras e terríveis dormiam o grande sono aqui neste mundo.  Porém, meu povo foi despertado quando sua espécie, Arthur, firmou-se sobre dois pés e continuou caminhando e evoluindo até deixar seu lar original na África para desafiar a natureza e o destino e dominar este planeta.

Com a curiosidade e fascinação de alguém que se vê diante do improvável, contemplávamos vocês. Alguns de nós decidiram tornarem-se os deuses e demônios iniciais da humanidade e assim fizeram, forjando as bases para uma infinidade de mitologias, terrores e credos. Como crianças ansiosas para agradarem pais rigorosos, vocês nos temeram, curvaram-se e humilharam-se diante de nosso poder, ansiosos de nos cortejar, quer por cobiça ou medo. Eu e outros de meu povo escolhemos assumir formas próximas à humana. Tomamos o controle das vidas dos seres humanos e nos tornamos seus primeiros governantes, seus reis e rainhas ancestrais e seus heróis míticos.

Porém, o tempo cuidou de esgotar a curiosidade e a maioria de nós se entediou, cansou-se da humanidade e julgou que seria melhor voltar ao grande sono. E assim fizeram.

Todavia, uns poucos de minha espécie continuavam fascinados demais pelos humanos e decidiram manter suas formas quase-humanas e permanecer entre o povo da Terra. Fui a primeira a fazer essa escolha.

Contudo, as eras passaram por mim e meu poder definhou. Percebi que se continuasse entre vocês, acabaria por provar o que chamam de morte, esse grande sono do qual não se pode acordar. Mas meu coração quase-humano se recusava a me deixar partir. Então, elaborei um meio de manter minha juventude e vida e adiar, talvez para sempre, a morte, a qual chamei para mim quando me aproximei de vocês.

Ah, Arthur, você vai me ajudar a conseguir isso, como fizeram todos os outros antes de você. Eu o atraí para mim e te concedi mais do que você poderia sonhar. Por uma eternidade, entre sua espécie, aqueles que se nomearam profetas e sacerdotes prometeram o Paraíso, um conceito tão belo, porém etéreo e inalcançável demais. Eu, porém, não fiz promessas. Eu concedi a você esse Paraíso, ainda que por tão pouco tempo, ainda que talvez tenha sido apenas um vislumbre dele. Em troca dessa generosa dádiva, eu tomo de você sua alma, um presente tão pequeno e frágil, porém, o suficiente para garantir minha sobrevivência e manter a morte e a velhice afastadas, pelo menos por mais algum tempo. Se ainda puder escutar, meu querido, quero que saiba que usarei plenamente o que hoje levo de você”.

Ela interrompeu o beijo. Levantou-se da cama e ficou de pé olhando para Arthur. Ele começou a se contorcer. De seus olhos, que agora pareciam vazios, escorriam lágrimas, enquanto olhavam para ela. Talvez houvesse amor ou desespero ou dor na face daquele homem, porém isso não mais importava, porque o corpo dele foi, gradativamente, murchando até que apenas um pó escurecido era tudo o que restava dele.

Amanda passou os próximos segundos olhando o monte de poeira sobre a cama. Sentia-se revigorada, viva, seu corpo ardia em juventude e vitalidade, mas algo machucava seu coração. Ela resistiu aos sentimentos que queimavam e colidiam dentro de si, porque julgava que seria hipócrita ou melodramático ou simplesmente um clichê se ajoelhar e chorar diante do que tinha feito. Não. Ela deveria ser forte e havia prometido que não mais choraria por eles, como fez tantas vezes antes…

Amanda vestiu-se, fechou a casa e saiu.

Ainda era o começo de uma manhã. O sol vagarosamente havia se erguido, apenas prenunciando calor daquele dia. Ela foi caminhar pela praia, como gostava tanto de fazer. Deixou que os pensamentos ficassem livres, tentando relaxar. Logo seus servos viriam para limpar tudo o que havia sobrado do homem que ela acabara de assassinar. Apenas as lembranças dele permaneceriam com ela, uma memória no meio de uma infinidade de recordações – tantos homens que a amaram e foram sacrificados para que Amanda pudesse continuar vivendo… Uma legião de seres moribundos, olhos vazios se desfazendo em… Amor traído… Olhando para ela por toda a eternidade.

Uma brisa passou por Amanda, acariciando-lhe os cabelos. Algo no coração quase-humano daquela mulher pareceu avisá-la… E ela tocou o rosto, descobrindo uma lágrima escorrendo por ele, e se indagou quantas vezes havia quebrado sua promessa.

FIM

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A Coleção do Velho Joaquim FANTASIA HERÓICA

1 Comentário Add your own

  • 1. Edgley  |  novembro 27, 2009 às 4:53 am

    ” O conto prende tanto a atenção, que parece até que estamos
    assistindo as cenas, como que de um filme ”
    Parabéns, você é ótima.

    Responder

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