A Coleção do Velho Joaquim

março 23, 2009 at 12:02 am 1 comentário

Atenção: este texto possui direitos autorais em nome de Rita Maria Felix da Silva, autora do mesmo, na forma da licenã do Creative Commons abaixo.

<a rel=”license” href=”http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt”><img alt=”Licença Creative Commons” style=”border-width:0″ src=”http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/3.0/88×31.png&#8221; /></a><br />Este trabalho foi licenciado com uma Licença <a rel=”license” href=”http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt”>Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada</a>.

Sobre este texto

A COLEÇÃO DO VELHO JOAQUIM
Uma história do Círculo Fantasmagórico

Por Rita Maria Felix da Silva

Joaquim já estava muito velho e morava na periferia de uma cidade obscura, em uma casa antiga que ele herdara de Nicolau — um lugar que provocaria desconforto em pessoas mais sensíveis, pois, assim era contado, havia algo de estranho e perverso ali, de uma forma indefinível e assustadora.

Abaixo da casa, ficava um subterrâneo tão vasto que mesmo Joaquim não conhecia cada recanto daquela caverna. Era lá que ele guardava sua singular coleção e, olhando para ela, deliciava-se e ria de todos os outros colecionadores do mundo, que acumulavam revistas, selos, jornais ou, como dizia ele, “gastavam a vida juntando quinquilharias”. Joaquim era diferente.

Naquela infinidade de garrafas, dos mais variados tipos, cores e formatos, ele colecionava almas.

Porém, a coleção não começara com ele.

Quando pequeno Joaquim se mostrou uma criança terrivelmente má, o suficiente para que sua família padecesse de um desgosto crônico, de tal modo que o coração de seu pai decidiu parar de bater mais cedo e o desafortunado homem foi enterrado bem antes do que, certamente, esperava. Ao crescer, porém, Joaquim superou a si mesmo, ao tornar-se um adulto ainda pior.

Se for verdade, como nos ensina a magia, que os semelhantes acabam por se encontrar, então foi isso que o fez conhecer o velho Nicolau e através deste aquele jovem de coração maligno descobriu sobre a coleção. Ele lhe contou que ninguém sabia, com certeza, dizer quem a começara ou quando isto teria acontecido. O fato é que desde há muito tempo sempre houvera um colecionador de almas no mundo, alguém de espírito perverso, responsável por manter aquela coleção abominável. No entanto, o tempo de Nicolau neste mundo estava por se acabar e, como ocorrera antes dele e antes e talvez sempre, o destino havia cuidado em fazer surgir um substituto. Joaquim seria o herdeiro de Nicolau e essa tarefa ele aceitou com alegria.

Nos meses seguintes, enquanto definhava, Nicolau cuidou de ensinar-lhe tudo o que pôde e, ao menos, o mínimo necessário para que pudesse manter a coleção. Havia magia envolvida e Joaquim foi o aluno mais diligente que já se viu. E quando Nicolau mudou-se para debaixo da terra, ele prosseguiu o trabalho de seu mestre, muitas vezes se gabando de tê-lo superado.

Dias e anos se passaram. Joaquim continuou sua rotina. Uma vez por semana, era a noite da captura, da caça, a oportunidade de ampliar a coleção. Ele descia até o subterrâneo, carregando seu livro de encantamentos, um certo número de poções e artefatos e no peito o coração mais sombrio deste mundo. Há todo momento, por toda a parte, sempre havia alguém morrendo. Utilizando sua magia, Joaquim atacava o espírito daquele que partira. Alguns eram mais fortes, capazes de escapar, outros não. Às vezes os deuses sombrios escolhiam abençoar sua caçada e ele capturava cinco, sete ou até mesmo dez novas almas. Eram raras as ocasiões em que ele não conseguia prender ao menos uma.

De qualquer forma, ele trancava as almas capturadas em garrafas e guardava no subterrâneo. Dizem que alguns espíritos vão para o Céu e que outros descem para o Inferno, pois há um impulso natural, uma necessidade inescapável que possui os mortos e impede-os de permanecer no mundo dos vivos. Porém, os espíritos capturados por Joaquim não podiam ir a qualquer lugar e ficavam trancafiados, para sempre, naquelas pequenas prisões de vidro e lá gritavam, ou apenas lamentavam e gemiam, de uma forma tão dolorosa e terrível como poucos seriam capazes de imaginar.

Exceto pelas caçadas, os momentos mais felizes de Joaquim era quando passeava pelos subterrâneos admirando sua coleção. Todas aquelas garrafas, contendo tantas almas. Em êxtase, ele ouvia e se deliciava com os lamentos dos desafortunados espíritos. Como eram infelizes aqueles gritos e desesperadas as vozes espectrais! Lá ele permanecia por horas. Nada poderia ser mais prazeroso para ele. Nenhum paraíso poderia comparar-se a isso.

Todavia, algo o atormentava. Ele conhecia a lenda, que lhe fora contada por Nicolau, do que poderia acontecer ao colecionador de almas se viesse a morrer sem encontrar um sucessor. Porém, lhe fora explicado que isto era apenas um mito, que o próprio destino sempre se encarregava de fornecer um substituto a tempo.

No entanto, Joaquim era desconfiado demais de tudo e não estava disposto a dar crédito ao destino. Por isso, embrenhou-se no estudo da Magia para além dos limites que lhe foram ensinados. Ele havia decidido interferir no próprio curso das coisas e, deste modo, garantir que o Universo não se esquecesse de enviar-lhe um sucessor.
Para Joaquim foi uma vida longa e proveitosa, que ele não trocaria por nada neste mundo. Ele jamais construiu uma família, vivia completamente só… Mas o que isso importava para ele? Quando uma infinidade de almas gritava em tormento naquelas garrafas, unicamente para o prazer dele…

E uma vez sua última noite finalmente chegou. Era uma noite de caçada, mas ele se sentia fraco e cansado e nem mesmo capturar novas almas parecia animá-lo. Não comeu por todo aquele dia. Já muito tarde sentou-se na cadeira de balanço e começou a pensar. Por que seu substituto ainda não havia surgido?

Então uma forte dor atingiu-lhe o peito, com se estivesse sendo esmagado. Em agonia, Joaquim tentou levantar-se, mas tombou com o rosto no chão e lá, incapaz de se erguer, viu o que lhe restava de vida ser roubado pela morte. Naqueles momentos que se extinguiam, ele questionou os deuses sombrios, blasfemou contra eles e indagou onde estava seu sucessor.

Depois pediu calma a si mesmo. O sucessor viria. Teria de vir. Joaquim havia sido tão cuidadoso em seus encantamentos, se esforçado tanto nos feitiços, ido tão longe na Magia como, possivelmente, ninguém jamais ousou fazer. O substituto chegaria a qualquer momento. Sim, com certeza. Porém, sua visão começou a escurecer e ele morreu.

Joaquim despertou num ambiente estranho. O solo era formado de algum tipo de rocha que lhe pareceu dura como diamante. E verde. Era um mundo vazio e esverdeado. Ele se levantou. A dor no peito havia passado, sendo, porém, substituída por uma sensação de sufocamento, de prisão. Algo nele ardia em um desejo voraz de fugir daquele lugar para… Ele não sabia onde. O colecionador de almas correu pela vastidão esverdeada, até chocar-se contra uma parede feita da mesma rocha do solo, e que parecia erguer-se até o infinito. Ele bateu e gritou contra aquela muralha, até que as forças lhe faltaram e ele caiu de volta ao solo — de joelhos, comprimindo o rosto contra a intransponível parede — e começou a chorar, enquanto o desejo de escapar dali aliava-se a uma dor como ele nunca sentiu e ao terror tão absoluto e instintivo por sentir-se aprisionado. O momento era horrível. Joaquim desejou estar no Inferno, que, por certo, não poderia ser pior do que isto.

Subitamente, algo lhe chamou a atenção e ele se voltou. Por uma fração de instante, vira Nicolau, que lhe falou em alguma língua desconhecida, cujo som se assemelhava a vidro sendo despedaçado. O fantasma desapareceu tão logo Joaquim pronunciou-lhe o nome, mas sua mensagem foi plenamente entendida.

Joaquim morrera sem que seu sucessor chegasse e a lenda, que ele tanto temeu, agora estava se cumprindo. Este era o interior de uma das garrafas, na qual seu espírito padeceria pela eternidade.

“Como?” – indagou Joaquim. Não fora ele muito habilidoso em seus encantamentos, não fizera tudo o possível para garantir que o substituto chegasse a tempo? Então, a crueldade da mensagem de Nicolau se tornou mais clara: fora Joaquim, quando abusara da magia — em seu ímpeto e presunção de obrigar forças antigas e superiores a fazerem o que ele desejava, da forma que ele desejava — que havia corrompido o próprio fluxo natural do destino e, por esta razão, o sucessor nunca viera e jamais iria vir.

Antes, porém, que Joaquim pudesse compreender a totalidade de sua falha, havia uma última parte da lenda que precisava ser cumprida. Ele ouviu um som alto e apocalíptico, como se este pudesse preencher o mundo, e por toda à parte do subterrâneo, as garrafas, exceto aquela que o confinara, foram despedaçadas. Uma infinidade de almas fugiu dali numa nuvem tempestuosa de cores sombrias e relâmpagos. Entre os espíritos libertados, um grupo procurou o Céu e outros se resignaram a descer ao inferno. De qualquer modo, foi uma noite de grande júbilo, tanto nas alturas mais celestes quanto nas profundezas abissais. No mundo dos homens e mulheres, as pessoas comentariam por anos o inexplicável mar de luzes que se ergueu daquela casa perdida no interior.

Quanto a Joaquim, preso numa garrafa que ele mesmo havia preparado para resistir por uma eternidade, seus olhos cheios de desolação invejavam os espíritos agora livres, enquanto ele agonizava de dor e desejo de também escapar, e blasfemava contra o vidro, insensível a seus esforços e lamentos, o qual tantas vezes ainda viria a lhe provar que era impossível fugir dali.

E foi desta forma que a coleção terminou e Joaquim acabou por ser o último dos colecionadores de almas que já se viu neste mundo.

FIM

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Adam e Sarah Exceto um Beijo

1 Comentário Add your own

  • 1. Marcus (MK)  |  junho 17, 2009 às 9:18 pm

    um excelente conto de terror pessoal, prendeu minha atenção com grande expectativa

    Responder

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