Adam e Sarah

março 16, 2009 at 1:41 am Deixe um comentário

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ADAM E SARAH
Por Rita Maria Felix da Silva

“Três de nós é um exército.
Três são os aspectos da Deusa.
Três são os nomes sagrados.
Três são as leis da Magia.
Três são os segredos que sustentam a Criação.
Três são os caminhos para a perdição
e três são as disciplinas que levam à sabedoria.”
— Sarah.

Essa tem sido uma semana difícil. O homem mais interessante que encontrei só conseguia falar de uma  mistura de futebol e halterofilismo. A conversa não passou de cinco minutos. Para piorar, nenhum contato de meus empregadores. Nada que valha a pena fazer ou dizer. Nenhum motivo para levantar da cama. Ontem, durante uma solitária madrugada de insônia, fiquei trocando de canal pela TV, até ser atropelada por um documentário em que George Bush detonava um discurso apaixonado sobre os EUA terem “o dever sagrado de proteger a humanidade contra as forças do terrorismo apoiadas pelos países do Eixo do Mal”. Ele vai acabar afogando o mundo em sangue, isso sim.
É por coisas como essa – para poder agüentar esse mundo cronicamente tedioso – que escolhi as duas profissões certas para mim: por causa de minha mãe, me tornei uma bruxa (e podia ser até melhor do que ela ou, mesmo, do que Vovó, se eu fosse só um pouquinho mais dedicada… Claro, isso se na Magia não houvesse aqueles momentos tão tediosos); para escapar do tédio, comecei a caçar vampiros. Depois encontrei gente maluca o bastante para me pagar por isso. Pra mim tudo bem, até que eu me divirto e há modos muito piores de se ganhar a vida.
Ah, sim, meu nome é Sarah.
Eu estava navegando pela Web (minha caixa de e-mails abarrotada de propaganda e correntes de oração…), quando topei com uma mensagem de meus chefes. Obrigada, Deusa! Uma nova missão, finalmente. Pensei que haviam me esquecido…Ou contratado alguém melhor. Passei algum tempo, pesquisando na Internet e analisando o material que me enviaram – especialmente, os informes recentes de ações vampíricas no Brasil.
Memorizo o nome no e-mail. Meu novo alvo. Adam Whitehill. Sobrenome famoso. Essa família vive se metendo em encrencas extraordinárias. Apesar disso, garanto que os Whitehill nunca imaginaram terem um parente vampiro.
Adam Whitehill. Charmoso, aquele jeitão inglês que deixa muitas de nós caidinhas, e tem essa beleza vampírica, que é bem hipnótica. Mas depois que se vê um desses monstros em ação, depois que se sobrevive a um confronto com um deles, bem, você pára de achar graça numa criatura dessas, mesmo porque, depois que você se acostuma, a coisa fica bem clichê, muito teatral e afetada.
Preparei-me para ele e consegui entrar numa festa onde Adam pretendia caçar uma nova presa. Ah, não levei estacas, cruzes, alho, e toda essa tralha. Afinal, sou uma bruxa e não preciso disso.
A festa era num dos bairros mais chiques da região metropolitana, uma ocasião cheia de celebridades, que me olhavam com um quê de desprezo, pois se sentiam atormentadas pela dúvida de como eu poderia ter entrado ali. Devolvi o olhar e pensei num palavrão.
Bebi pouco – no meu ramo, pode ser perigoso se embriagar em serviço. Também evitei as cantadas de dois ou três rapazes já um pouquinho bêbados. Não que fossem desinteressantes, mas eu precisava estar livre se quisesse atrair minha presa.
De repente, tive um… Pressentimento? Intuição? É o tipo de coisa que uma feiticeira sente quando algo está errado… Difícil de explicar sem usar linguagem de bruxa… Também desconfiei de algo alterado no gosto da bebida… Depois disse para mim mesma que estava ficando paranóica… Que minha mente estava tentando me assustar…Besteira, impressão… Afinal, exceto por Adam, não havia nada ali que pudesse ser perigoso…Pelo menos não para mim.
Dei um riso leve e revi na memória o que tinha lido nos arquivos sobre a dona daquela festa. Teresa Velásquez Torrentes. Muito rica, reclusa, solteirona, esquisita. Desde que voltou ao Brasil, tem promovido as festas mais badaladas das colunas sociais, porém, não aparece em nenhuma delas. Praticamente nunca é vista por ninguém. Dizem que instala câmeras escondidas no salão para ficar só observando as pessoas se divertirem. Uma doida voyeur. Não preciso me preocupar. Deslizei os olhos pelos cantos da festa, imaginando onde as câmeras poderiam estar, e percebi que meu desconforto era apenas isso: a incômoda sensação de estar sendo vigiada.
Propositadamente, comecei a projetar uma aura de inocência e ingenuidade. O tipo de coisa que iria atrair minha presa. Ele logo veio. Alto, cabelo louro e curto. Rosto de modelo, ainda mais bonito do que nas fotos, e que parecia congelado entre os trinta e quarenta anos. Os músculos… Mesmo debaixo daquelas roupas, dava para perceber que eram bem delineados. Quando começou a se aproximar, não pude deixar de me admirar com o porte dele, sua pose, um certo ar de nobreza, que atraiu olhares invejosos dos outros homens e os fez se sentirem empalidecidos e superados. Com certeza, outra garota seria tonta e poderia cair na dele.
De fato, uma adolescente, do tipo mais peruazinha que existe, trombou com ele no meio do caminho e ficou jogando charme e uma conversa besta para cima de Adam, com tanta empolgação que imaginei se ela não iria rasgar as roupas ali mesmo e se atirar em cima do vampiro. Ele não parecia muito interessado, mas deve ser o lance dos “bons modos vampíricos”. Aquela patricinha estava impedindo que ele chegasse até mim, sua presa inicial, então ela iria ter que servir de refeição no meu lugar.
Reforcei o encantamento que estava usando para atraí-lo e cheguei perto dos dois. Em trinta segundos, ele se esqueceu da garota e ela saiu dali me odiando para sempre. Menina, acho que nunca vai saber, mas salvei tua vida.
Eu estava enganando-o perfeitamente e ele pensava que aquele truque de hipnose vampírica estava funcionando comigo… Apesar da situação, a conversa foi maravilhosa. Passeamos por um leque de assuntos tão variados que me empolgou, porque não costumo encontrar um homem de tanta cultura e bom gosto assim. Controlei-me quando percebi que estava começando a desejá-lo. Ah, Adam, se ao menos você não fosse um vampiro…
Em certo momento, ele me sugeriu que deveria haver quartos lá em cima, que já tinha visto outros casais subindo para o primeiro andar daquele casarão. Ele tentou parecer mais sensual do que já era e deu um riso malicioso, esperando que eu entendesse seu desejo. Claro que entendi, mas disse que adoraria conhecer o apartamento dele.
Nós saímos no carro de Adam, um modelo europeu tão moderno que ainda não estava disponível no mercado. No caminho, ele recitou uma poesia erótica para mim. O mesmo texto em italiano, alemão e árabe. Fingi não entender essas línguas. Ele riu. Exatamente como eu queria: que ele me subestimasse e baixasse a guarda. Encostei minha cabeça no banco do automóvel, ignorei a libido que ardia em minhas partes íntimas e me preparei para o confronto.
O apartamento ficava em uma cobertura, numa das áreas mais valorizadas da cidade, e era como seu dono: belo, charmoso, mas um pouco esnobe demais.
Adam quis me oferecer uma bebida e tomei a decisão de agir naquele momento. Agarrei-o e roubei-lhe um beijo. Quando nossos lábios se soltaram, eu perguntei onde ficava o quarto. Ele riu e disse que eu acabava de surpreendê-lo. A idéia era exatamente essa: estávamos num jogo de caçador e presa e quanto mais eu pudesse iludi-lo de que estava no controle, mais fácil seria derrotá-lo.
Logo estávamos transando. Não digo fazendo amor, porque não se faz amor com um vampiro. Tudo que eles sabem de um coração humano é devorá-lo (literalmente).
Talvez alguém me pergunte por que eu precisava transar com ele ao invés de simplesmente matá-lo logo. Bem, sexo libera feminilidade; feminilidade está ligada à Magia e Magia…Ora, eu sou uma bruxa, e, acreditem, deixá-lo baixar a guarda através do sexo, não é apenas uma das formas mais seguras de se pegar um vampiro, mas também a mais divertida.
Quando terminamos, notei que ele poderia ter demorado mais, porém, havia se apressado. Talvez o temor da hora adiantada e de que o sol nascesse. Não importava, eu estava fervilhando de Magia e pronta para atacar. Ele também.
Adam ainda estava na cama, ajoelhado, minhas pernas ainda entre as dele. Nós continuávamos nus. Eu me espreguiçava no lençol, fingindo que havia acabado de provar o melhor sexo da minha vida e dizendo a mentira romântica básica de ter encontrado o “homem de meus sonhos”. Por dentro ria dele.
O vampiro esticou a cabeça para trás. Quando voltou os olhos para mim, suas presas estavam à mostra e havia fome em seu rosto. Ele acreditava que eu seria uma refeição indefesa. Olhei-o, estirei minha mão direita bem aberta, a palma voltada para seu peito, pronunciei uma seqüência de três palavras mágica – que soaram feias e gutural demais, como tudo em língua de bruxa – e disparei um encantamento. Ele pareceu abalado por instante… Apenas por um instante… E depois… Nada! Repeti o feitiço, já começando a ficar desesperada. Deusa! Minha Magia falhara! Mas era apenas um vampiro! Isso nunca havia acontecido antes.
Então, meu inimigo começou a rir – um som selvagem e cruel. Aterrorizada, rememorei vários encantamentos, qualquer coisa que pudesse me salvar daquela situação. Contudo, algo estava me bloqueando… Impossivelmente, eu me tornara incapaz de acessar a Magia. Ele começou a falar. Indefesa, apenas escutei.
— Sarah… Está surpresa, caçadora de vampiros? Nem imagina o que aconteceu, não é? Não percebeu a droga na bebida? Pó de bruxa. Eu e Teresa (que você chama de Teresa Velásquez Torrentes) somos amantes agora. Desde que imigrei para este país, ela tem me dado o apoio necessário para que eu possa me alimentar em segurança. Em troca, permito que filme minhas caçadas. Teresa soube de você e ficou curiosa. Mas não quis se expor e pediu que eu te pegasse… Ah, Teresa, querida, espero que aproveite bem porque tenho uma coisa especial para essa cadelinha aqui.
Deusa! Pó de Bruxa. Interfere no poder de gente como eu. Sempre duvidei que existisse. Muito polêmico entre as feiticeiras, como as armas químicas são entre os humanos normais. Se não me falha a memória, está proibido há uns dois séculos. E como eu pude ser tão tonta para cair numa armadilha dessas?
Claro que deixei essas considerações de lado quando vi as mãos de Adam mudando, se esticando até se tornarem longas garras com longas unhas nas pontas. Nem sempre um vampiro usa aquela mordida sensual no pescoço da vítima. Às vezes, eles estraçalham a presa para só depois sugar o sangue. Como ele pretendia fazer agora comigo.
Tentei forçar minha alma, insistir para acessar a Magia novamente. Mas uma parte minha já tinha entendido que eu morreria ali mesmo, porque leva horas para que o pó de bruxa perca o efeito e mesmo mamãe e vovó não conseguiriam reverter o efeito daquela droga a tempo de se salvarem de uma situação assim. Eu devia ter levado estacas e crucifixo…
Mas, enquanto as garras se aproximavam de meu ventre, decidi que não ia me entregar daquele jeito. Eu fizera muita coisa na vida, algumas bem importantes, para morrer de uma forma tão estúpida quanto aquela. Então me concentrei. Três é um número mágico para as bruxas. Três de nós é um exército. Três são os aspectos da Deusa. Três são os nomes sagrados. Três são as leis da Magia. Três são os segredos que sustentam a Criação. Três são os caminhos para a perdição e Três são as disciplinas que levam a sabedoria. Eu precisava tentar pela terceira vez. Coloquei toda minha alma, desespero, feminilidade e desejo naquele encantamento e tentei novamente. Meu corpo ardia, em suor e febre. Senti o pó de bruxa fervilhando em meu sangue. Mentalmente, eu pronunciei o pior palavrão que conheço, seguido pelas palavras do encantamento. Então, disparei o feitiço de novo contra ele e juntei as mãos em súplica. Tinha de funcionar. Mamãe e vovó podem estar no Inferno, mas eu não tinha qualquer interesse em ir fazer companhia a elas.
— Sarah, Sarah – Adam grunhiu, com as garras já tocando em meu estômago – Por que insiste? Não vê que é impossível para alguém como você?
Porém, no momento que se seguiu ele parou. Recuou e pôs a mão direita sobre a boca, como alguém tentando evitar um vômito.
— Sua meretriz! O que você… – blasfemou ele e levantou-se da cama. O rosto era de um terror como vi poucas vezes. Parecia afligido por dores fortíssimas. Tirou a mão da boca, olhou para mim com se eu fosse o próprio demônio e virou-se para fugir pela porta do quarto. Contudo, ele jamais tocaria a maçaneta. O peito de Adam explodiu de dentro para fora e, cambaleante, ele foi tomado por explosões menores que começaram a pipocar por seu corpo. Logo, já lhe faltava um braço e o rosto estava inacreditavelmente desfigurado. Por fim, o que restava dele explodiu numa nuvem de ossos, tripas, carne e sangue.
O mais incrível de tudo é que ele não gritou, nem houve qualquer som enquanto era despedaçado. Ao ver coisas como essa – e compará-las com o mundo tão previsível, normal e tedioso – eu compreendo porque gosto tanto da Magia.
Óbvio que o encanto original só era para afetar o peito dele, mas quem poderia me culpar por exagerar um pouco num instante de desespero?
Fiquei deitada uns minutos. Esperando a temperatura de meu corpo baixar, o sangue não querer mais ferver e o coração parar de bater daquele jeito.
Depois levantei. O quarto era uma imundice, com pedaços de Adam espalhados por todo canto. Tomei um banho. Sentia que precisava lavar não apenas meu corpo, mas também minha alma.
Quando saí do banheiro, constatei que minhas roupas, que o vampiro havia largado no chão, estavam coloridas de sangue. Juntei-as e guardei-as num saco plástico, pois não queria que nada meu ficasse ali. Pensei em pegar o carro de Adam, mas estava enojada de qualquer coisa que se relacionasse a ele. Usei o celular e chamei um amigo, com quem já tive um caso. Ainda somos muito ligados e ele me socorre em momentos como esse. Enrolei-me com uma toalha, saí do quarto e fui esperar meu amigo na sala do apartamento.
Logo, ele chegou. Quando abri a porta ele entrou indagando:
— Oi, Sarah! Tudo bem? Ei, que cheiro esquisito é esse?
Eu não me sentia com ânimo para responder essa pergunta e por isso não o impedi de entrar até o quarto e descobrir a fonte do odor que o incomodava. Deixei que fosse sozinho.
Ele voltou alguns segundos depois, horrorizado e com ânsia de vômito.
— Meus Deus! O que foi que aconteceu aqui? – quis saber.
— Rodrigo – retruquei – Sem perguntas, tá bem? Trouxe as roupas?
Ele fez como pedi. Sem indagar mais nada. Era essa nossa regra. Troquei-me na frente dele mesmo. Eu estava com pressa e não havia nada em meu corpo que Rodrigo já não tivesse visto.
Entreguei minhas antigas roupas no saco plástico a ele. Pedi que levasse dali e queimasse.
Rodrigo me deu uma carona em seu carro de volta para meu apartamento. Até chegar lá, ficou desfilando os detalhes de seus dias mais recentes. Meu amigo é uma daquelas pessoas que precisa falar sobre si mesmo o tempo todo. Às vezes, deslizava para uma insinuação ou outra, lembrava de nosso tempo junto e me deu umas ou duas cantadas. Como sempre faço, ignorei-o. É outra regra que tenho com ele.
Ao chegar ao estacionamento do prédio onde moro, agradeci e me despedi com um beijo no rosto, pois não tinha interesse em incentivar-lhe as idéias. “Lamento, querido” – pensei – “você ficou no passado, eu não”. Rodrigo me desejou uma boa noite de modo muito formal e partiu sem acrescentar qualquer outra palavra. Melhor assim. A última coisa em que eu pensava naquela hora era sexo.
Desabei sobre a cama, mas não conseguia dormir. Minha cabeça fervilhava de planos, vingança e feitiços. Eu havia feito o que mamãe e vovó jamais conseguiriam. Mas isso não era o bastante para mim. Eu antevia, com um prazer cruel, o instante em que estivesse cara a cara com Teresa, porque há um costume entre as feiticeiras, uma regra de etiqueta por assim se dizer. Se uma bruxa atacar outra, esta não deve escapar com vida. Se sobreviver, terá de matar sua inimiga. Nenhuma de nós se atreve a contrariar essa norma.
Meu coração encheu-se de fúria quando pensei no que faria com ela. Involuntariamente, liberei um outro feitiço e meus olhos brilharam como se houvesse fogo neles.
— Teresa Velásquez Torrentes, você comprou sua passagem pro Inferno. Vou te pegar e, dessa vez, não vai haver nenhum pó de bruxa no caminho – eu disse e desejei ardentemente que minha nova inimiga pudesse me escutar.

FIM

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