O Tesouro de Omalura

março 14, 2009 at 3:52 pm 3 comentários

sobre este texto
O TESOURO DE OMALURA
Uma história do Círculo Fantasmagórico

Por Rita Maria Felix da Silva

África Central, 1912.
Quantas horas, ou mesmo dias, haviam se passado não importava mais para ele. Walter Whitehill segurava uma tocha enquanto descia por um túnel estreito nas entranhas daquele lugar rochoso. Suas roupas estavam velhas e gastas, o chapéu fora perdido em algum ponto lá atrás e a fome e o cansaço disputavam ansiosos para descobrir quem o derrubaria primeiro.
Porém ele continuava caminhando, não apenas pelo orgulho e teimosia que sempre o definiram, mas, acima de tudo, pela cobiça. Sim, enquanto se recusava a deter-se para comer ou dormir, em silêncio ele instigava a si mesmo a continuar em frente, pois seu objetivo estaria logo ali adiante, certamente após o próximo passo.
Naquela tarefa, a qual se dedicara, nada mais restava para fazer exceto pensar e as memórias explodiam em sua mente, como os primeiros fogos de artifício que ele vira em sua agora distante infância.
Walter se lembrava de ter sido um nobre na vida fútil da aristocracia londrina, uma época de intermináveis festas e irresponsabilidade — impulsionada pelo álcool, pequenos escândalos, traições e trapaças, e pela busca quase religiosa por um prazer indizível que ele acreditava existir no sexo desenfreado, promíscuo e impessoal. Seu cérebro, oprimido pelo esgotamento, ardia de saudades por aquele tempo e uma multidão de rostos femininos — sem qualquer significado para ele – desfilava por sua memória, até uma face se impor sobre as outras — uma dama bela e de alma inocente, coberta pelo sangue de um suicídio. Walter recordou ter segurado o cadáver nos braços, tão respeitosamente quanto pôde, e lamentou que ela houvesse suplicado por essa coisa que chamam de “amor”, quando ele jamais pôde acreditar em tal mito.
Esse “infeliz incidente” — como definiu — foi o prenúncio de desgraças maiores e logo ele se viu rejeitado pela Europa e arruinado, enquanto afundava numa vida de bebedeiras, jogatina e pequenos crimes na África, uma terra na qual buscou refúgio, mas que Walter desprezava com todas as forças de sua alma.
Então numa noite, numa mesa de pôker no Cairo, Walter escutou sobre Omalura. Normalmente, ele se gabava de rir dos mitos e superstições dos africanos, porém, por algum motivo, a lenda sobre aquela cidade — que, em épocas ancestrais, governara todo este continente e cuja glória jamais foi superada mesmo pelas metrópoles modernas, sobre o tesouro que tornaria pálida qualquer fortuna real européia e que faria parecerem pequenas até mesmo as minas do Salomão bíblico — capturou seu espírito de tal forma que, a partir de então, apossar-se daquele tesouro era o único motivo pelo qual Walter vivia.
Ele vagou pela África nos anos seguintes, sempre em busca de uma pista que pudesse levá-lo a Omalura, até encontrar um árabe falador e ganancioso, a quem ele enganou, torturou e matou para que entregasse um pergaminho muito antigo, que supostamente mostraria o caminho daquela mítica cidade. Depois juntou um grupo de pessoas, gananciosas e crédulas como ele — e igualmente de má índole, com a vida arruinada e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor. Eles colocaram seus destinos nas mãos de Walter e percorreram o Continente, acreditando num mapa que poderia ser pouco mais que uma fraude.
A viagem foi longa e penosa e eles atravessaram guerras, desentendimentos pessoais e privações, de modo que, alguns meses depois, ao chegarem diante da montanha que guardava a entrada para o que fora Omalura, apenas cinco deles, incluindo Walter, ainda estavam vivos.
Orientando-se pelo pergaminho, eles escavaram por todo um dia, muitas vezes queixando-se e praguejando da aspereza daquele trabalho, porém, em vários momentos, cada um deles falava de seus sonhos, do que fariam com a riqueza que logo teriam.
À noite, aqueles homens pararam. Estavam esgotados, mas confiantes de que terminariam no dia seguinte. Dormiriam tranqüilos, porque apenas algumas horas os separavam da conclusão de seus objetivos.
Walter decidiu agir. Havia calculado que realmente faltava muito pouco a ser concluído na escavação, o suficiente para ser feito por um único homem, e, afinal, nunca planejara dividir o tesouro com os outros.
Alegando ser necessária uma comemoração, ele ofereceu a seus companheiros de viagem um vinho que trouxera em sua bolsa. Um deles, talvez o mais esperto, insistiu, porém, que Walter provasse a bebida antes. Ao vê-lo ingerir o líqüido vermelho e nada lhe acontecer, todos riram e beberam alegremente até que a garrafa estivesse vazia.
Breve, contudo, o mais fraco deles reclamou sentir dores, no que foi seguido por todos, exceto Walter, que sorria aparentemente incólume, enquanto os outros tombavam e morriam diante de seus olhos.
O mais forte do grupo, um grandalhão irlandês — procurado por assassinato em sua própria terra —, ainda ergueu-se cambaleante e atirou-se sobre o pescoço de Walter Whitehill para estrangulá-lo. Este, todavia, sacou de um revólver e disparou, levando seu agressor ao chão, e continuou atirando até poder confiar que o havia matado. Depois cuidou de se certificar que os outros também não eram mais do que cadáveres.
Em seguida, tomou de uma pá e enterrou todos eles — pois haviam sido seus companheiros de viagem, de qualquer forma tinham confiado nele, e pareceu-lhe algo nada civilizado deixá-los sem um funeral.
Concluída essa tarefa, foi dormir satisfeito com o andamento de seus planos. Antes de fechar os olhos, vislumbrou a garrafa caída, próxima do lugar onde aqueles desafortunados tombaram e lembrou do veneno que colocara no vinho, uma receita que estavam em sua família a gerações, bem como o antídoto, que ele cautelosamente tomara, em segredo, antes de oferecer a bebida a seus falecidos companheiros.
Então, as memórias se foram, mais uma vez guardadas naquele lugar da mente onde residem pela eternidade. Agora havia apenas ele, seu desejo e o túnel em direção a Omalura.
Súbito Walter Whitehill tropeçou numa pedra e seu corpo precipitou-se. Escorregando e caindo, sempre caindo, como se o final jamais pudesse ser alcançado, suas costas e braços castigados pela rocha. Ele se desesperou e seu coração implorou que a morte não estivesse finalmente próxima.
A queda de Walter terminou com o rosto deste batendo contra um chão rochoso e indiferente. Ele levantou-se com sangue escorrendo de sua boca. Notou que mancava dolorosamente da perna direita e várias escoriações lhe enfeitavam o corpo. Porém, estava vivo e assim poderia alcançar o tesouro.
Tentou identificar o lugar onde caíra. Parecia-lhe uma câmara grande, vazia e escura o bastante para que seus olhos nada pudessem ver, nem mesmo a si próprio. A sensação de estar perdido e vulnerável lhe incomodava, mas ele não poderia recuar agora, pois tinha a certeza de que não seria capaz disso.
Walter deveria ter se questionado porque naquele local, fechado há milênios, o ar ainda era respirável, mas estava ansioso demais pelo ouro e pela riqueza que logo possuiria para dar atenção a assuntos que lhe soavam como irrelevantes em um momento tão crucial em sua vida.
Havia decidido caminhar no escuro, – qualquer coisa seria melhor do que ficar parado ali e morrer de fome -, ignorando o perigo que isto poderia representar, quando uma impressão de frio percorreu-lhe o corpo, desde os dedos dos pés até sua face. De fato, a temperatura caíra de uma forma inesperada, por isso ele cruzou os braços e, enquanto começava a tremer, sua mente foi tomada por uma sensação de estar diante de algo antigo e poderoso e, ainda mais, tão diferente de tudo que já vira ou provara, que lhe parecia de um outro mundo e não do nosso.
Então uma voz se ergueu:
— Estranho, quem é você? Oh, quanto tempo se passou desde que um outro estranho esteve aqui? E por que escolhe nos perturbar, arriscando o pouco que tem?
A voz era bela, profunda e soava feminina, porém, havia algo de assustador e perigoso nela, o que lhe fazia sentir medo. Contudo, ele não desejava mostrar fraqueza e gritou em tom de desafio:
— Eu sou Walter Whitehill, filho de Lorde Edgar Whitehill e vim a esse lugar maldito por um tesouro que busquei por anos e que considero, portanto, como meu de direito. Quem é você? Como fala a minha língua? Apareça!
A voz respondeu assumindo um tom mais solene:
— O tesouro… Como todos os outros… Como os estranhos sempre fazem… Você tem uma alma inquieta, cheia de perguntas, mas sinto que lutou e fez muito, merece, ao menos, essas respostas: falo para sua mente e você me escuta como em sua própria língua. Magia. Um truque antigo que até nossas crianças saberiam fazer. Em outras eras, esta foi Omalura, o orgulho dos seres humanos, a cidade que subjugou este continente e que, com poder e crueldade, governou os povos desta terra por gerações… Soberanos de todas as partes do mundo nos temiam e faziam guerras contra nós, apenas para serem humilhados e depois mortos. Os mais sábios entre os governantes estrangeiros, todavia, ansiavam por aliança conosco e viam ajoelharem-se diante de nossos reis. Porém, em nosso orgulho, ousamos demais e os deuses se indispuseram conosco. Por isso, ordenaram que a terra se movesse e nos engolisse, sepultando nossa glória e nossa magia… Para sempre. Uma vez, há mais tempo do que é prudente explicar, isto foi uma cidade magnífica e hoje eu sou tudo o que restou dela… Eu sou o espírito de Omalura.
— E o que você pensa que sou? — esbravejou Walter Whitehill — Algum tolo insano como Edgar, Howard ou Algernon e seu “Clube de Fenômenos Sobrenaturais”, uma laia de imbecis ansiando por encontrar demônios, horrores vindos de outros mundos e espíritos? Não! Você não pode ser um fantasma, porque fantasmas não existem!
O som que ele ouviu em seguida foi o mais estranho de sua vida, um ruído baixo e distante, e que lembrava um adulto rindo de uma bobagem dita por alguma criança.
— Você é divertido… E diversão é algo raro por aqui. Eu concederei a você o que não foi ofertado aos que o antecederam: Walter Whitehill, vá embora. Eu permitirei sua fuga. Parta daqui e viva os anos que lhe restam. Não há tesouro maior do que esse.
— Você é mais tola do que eu poderia pensar. — ele comentou com uma certeza que lhe pareceu vir das profundezas de sua alma — Se é um espírito, não pode ver o fogo que arde em meu coração? Eu devotei o que restou de minha vida a encontrar Omalura, a apossar-me do tesouro, tornar-me mais rico do que qualquer rei e voltar a Europa como o homem mais poderoso do mundo. Esse é o único sonho que me resta. Se acaso me privasse disso, de que me adiantaria continuar vivo?
Houve um breve silêncio, como se a voz ponderasse sobre as palavras do homem, apenas para logo dizer:
— Eu compreendo… E lamento. Muito bem, alcance o que tanto deseja.

No instante seguinte, a grande câmara foi inundada por uma luz tão intensa, como se o sol decidisse nascer naquele lugar abissal. Walter, prontamente, cobriu os olhos — que já haviam se habituado à escuridão —, a luminosidade foi diminuindo até que ele pôde retirar as mãos de sobre o rosto e voltar a enxergar mais uma vez. Não havia tochas ou velas ou qualquer forma de lâmpadas naquele ambiente, porém algum tipo de luminosidade afastava a escuridão daquele lugar. Walter Whitehill, de alguma forma que lhe escapava à razão, percebeu que aquela não poderia ser a câmara onde estivera até momentos atrás, mas sim um outro lugar, e isto pouco lhe importavam agora:
Ele contemplou, quase em delírio, as mais variadas peças de ouro — barras, sacos de couro ou tecido cheios de pó dourado, estátuas de deuses pagãos, esculturas de reis e nobres (muitas em tamanho natural, outras, apenas miniaturas) e os mais diversos objetos do cotidiano — espalhados por aquele lugar ou organizados em montes que ultrapassavam em cinco vezes o tamanho de um homem, bem como pilhas e mais pilhas de jóias preciosas — algumas de tipo que Walter jamais vira. O tesouro de Omalura — mais riqueza do que a língua daquele inglês poderia descrever e ainda maior do que sua mente poderia entender.
Nos primeiros instantes, ele correu por aquele lugar revirando aqui e ali no tesouro, atirando objetos para o alto e gritando com a satisfação de um louco e a felicidade sincera de uma criança. Todavia, ao tentar apoderar-se de uma coroa caída (que brilhava sedutoramente diante de seus olhos), ele tocou em algo que o fez recuar. Seja o que fosse aquilo lhe pareceu frio, morto… E ósseo. Sim, ósseo. Tomado por uma curiosidade doentia, ele começou a escavar naquela pilha do tesouro, atirando para o lado riquezas pelas quais os homens incendiariam países e extinguiriam povos inteiros. Logo ele pôde ver inteiramente sua descoberta: um esqueleto vestido em roupas antigas e segurando em uma das mãos um pergaminho.
Walter agarrou uma espada próxima dali (um item de mais raro valor, feita de puríssimo ouro, forjada com extrema habilidade e na qual um ourives incrustara as mais preciosas jóias… Um objeto pelo qual se compraria a alma de um rei), usou-a para quebrar a mão esquelética e tomar o pergaminho. Ansioso, ele o abriu e constatou que a escrita e os outros símbolos eram desconhecidos, mas entendeu que aquele era um mapa para Omalura… Como o que o trouxera até esta cidade. Foi então que ele compreendeu que seu orgulho e cobiça haviam lhe impedido de enxergar algo que era essencial. Contudo, sua alma gritou que já era tarde demais.
Como se alguém tivesse sussurrado um pedido em sua orelha, vagarosamente ele olhou ao redor, incerto e temeroso do que realmente poderia ver. Por toda a parte daquele vasto recinto, um movimento inexplicável ocorreu nos montes do tesouro, enquanto objetos de valor quase inestimável escorregavam vagarosamente, para baixo ou para o lado, revelando uma quantidade (maior do que se poderia contar) de esqueletos.
A voz se ergueu novamente:
— Talvez agora você já saiba. Pode chegar ao tesouro, porém nunca sairá daqui. Tente procurar quantas saídas quiser, esforce-se para fugir até que o desespero lhe arranque o que restar de sua razão, mas, no fim, descobrirá que é impossível deixar este lugar. Eu existo para garantir essa verdade. Não há água ou comida aqui e breve você sucumbirá como todos antes de você, mas lembre-se que este é o tesouro que tanto buscou, o sonho que moveu seu coração. É justo que passe o que lhe resta de vida com ele e depois deixe que seu esqueleto se junte aos destes outros, seus companheiros pela eternidade. Adeus, Walter Whitehil”.
Em seguida, ouviu-se um som antigo e profundo, um riso de crueldade como Walter jamais havia escutado. A voz silenciou-se e ele entendeu que, exceto pelos esqueletos, estava sozinho.
Então, primeiro ele gritou no maior desespero que pôde, para depois se silenciar e contemplar o tesouro (que, de repente, parecia-lhe tão sem significado) e os esqueletos (que apontavam para um futuro breve e terrível), lembrou de suas aventuras e da distante Inglaterra (agora perdida para sempre), sentou-se no chão, cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar baixinho.

FIM

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O Menino no Lago Adam e Sarah

3 Comentários Add your own

  • 1. Yarin Melo  |  abril 14, 2013 às 11:35 pm

    Conto interessante, qual o valor da vida, sem humanos? Sem a liberdade, e qual o valor dos valores sem a vida?

    Responder
  • 2. Ana Lúcia Merege  |  abril 16, 2013 às 1:11 am

    Um conto um pouco convencional, mas muito bem escrito.

    Responder
  • 3. Luiz H.  |  abril 16, 2013 às 10:56 pm

    Gosto muito desses contos em tom de fábula. Do tipo “Você achou o que estava procurando”. Me lembra uma história que rabisquei uma vez, mas que nunca cheguei a terminar. Parabéns. Muito bom, como sempre.

    Responder

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