San Juan Romero

março 12, 2009 at 7:29 am Deixe um comentário

Pessoal,

eu havia terminado “Fim de Encantamento” e para meu texto seguinte eu queria algo diferente. Ao mesmo tempo, desejava começar as histórias com Sir James Winterwood. Preocupada sobre que história seria, acabei com vontade de fazer um “western”. Nunca havia escrito um e o desafio me instigou. A questão como seria o  meu tipo de western. Aí lembrei de um amigo citando um comentário de Chico Buarque sobre como ele via o “Velho Oeste Americano”: uma terra seca, suja, cheia de poeira. Com isso em mente, lembrei dos “westerns” do diretor italiano Sergio Leone,os melhores que conheço. Aí, peguei Sir James e fui escrever esta história.

SAN JUAN ROMERO
Uma aventura de Sir James Winterwood
Por Rita Maria Felix da Silva

– I –

05 de julho de 1892…

Era uma tarde numa terra de calor, poeira e desolação – um vilarejo, esquecido pelo mundo, na fronteira do México. E oi naquele dia que o viajante chegou.
Ele parou na entrada do lugar, desceu do cavalo e leu uma inscrição numa tábua caída: “San Juan Romero”.
Em seguida, pegou, de um compartimento na sela do cavalo, um cantil e provou um gole de água (que acabou bem antes do que esperava). Guardou o cantil. “San Juan Romero”. Jamais ouvira falar daquele lugar, porém teria de servir.
Retirou o chapéu e, com um lenço, começou a limpar a poeira e o suor que lhe cobriam o rosto. A pele estava ressecada pelo sol, os cabelos desgrenhados e a barba não era feita há dias. Seu estômago reclamava e seu coração estava partido… Porém, ele virou o rosto para o lado e repeliu as memórias, evitando que o dominassem… Pois, como já havia aprendido tanto tempo atrás, elas podem ser bem mais cruéis que o deserto…
Recolocou o chapéu, montou novamente e começou a entrar em San Juan Romero. Já havia cruzado metade da rua principal – e lhe pareceu que estava numa cidade fantasma – quando um grupo de cinco homens bloqueou seu caminho. Um deles segurava um velho rifle, os outros estavam armados com picaretas. O viajante saudou-os em espanhol, uma língua que aprendera com seu pai, em tempos melhores:
— Boa tarde. Estou viajando há muitos dias. Por favor, preciso de comida, água e de abrigo por uma noite. Eu posso pagar bem.
Os homens olharam para o viajante, com expressões severas e hostis, e um deles, o que carregava o rifle, um tipo muito magro, de olhos apertados, falou desta forma:
— Vá embora. Não queremos estranhos por aqui.
O viajante considerou a possibilidade de passar a noite no deserto e depois resolveu insistir:
— Eu não vou incomodar. E, pela manhã, irei embora.
— Não! Vai dar meia-volta agora e sumir – retrucou um deles – ou não vamos nos responsabilizar pelo que acontecer a você.
Em seguida, o homem do rifle mirou na direção do viajante, que contemplou atentamente os olhos daquela figura… Lá estava uma expressão que ele já vira antes, no rosto de loucos e assassinos (como naquela aldeia na Índia ou em um dos safáris na África Central… E em outras vezes que foi esfaqueado ou baleado ou, de alguma forma, em todas as ocasiões em que a morte se aproximou o bastante para colocar a mão em seu ombro e sorrir).
O viajante tinha um revólver pendurado do lado direito de sua cintura e acreditava que poderia atingir aquele homem antes que o rifle fosse disparado, mas preferia resolver este assunto de um modo que não custasse o sangue de ninguém. Todavia não desejava morrer, com um tiro no peito, caído naquela terra empoeirada…
O viajante e aqueles homens permaneceram em silêncio por alguns instantes, num tenso impasse, cada um aguardando o que o outro faria.
Foi então que uma voz inesperada intercedeu:
— Perez! Você está louco? Abaixe essa arma! Ele é só um estranho e você não vai querer mais sangue em nossas mãos, não é?
O viajante olhou para a esquerda e viu que se aproximava um velho de longas barbas, fumando cachimbo.
Perez baixou o rifle a contragosto — tentando conter sua própria fúria, que era como a de um cão raivoso. Quando o velho já havia se aproximado o suficiente, o viajante decidiu falar:
— Eu agradeço muitíssimo, senhor. Eu sou…
— Não me interessa! — vociferou o velho — Tem um depósito abandonado ali. Vou conseguir comida e água. Você vai embora de manhã. É só esse o tempo que vou conseguir segurá-los.
O grupo de homens se afastou rapidamente, murmurando furiosos para si mesmos, tão frustrados quanto uma fera de que se rouba a comida. O velho também foi embora — e seus passos lembravam os de um fantasma.
O viajante ficou parado observando os homens que se afastavam, o vilarejo — que parecia incômoda e sombriamente vazio — e meditou sobre a sensação de desconforto que crescia em seu coração, um alerta de que algo estava terrivelmente errado com aquele lugar… “(…) Você não vai querer mais sangue em nossas mãos, não é?”- lembrou. Um calafrio afligiu-lhe a espinha. Sim, seus instintos gritavam para ele: havia algo de maligno e oculto em San Juan Romero.
Ele puxou seu cavalo na direção do depósito e recitou para si mesmo uma prece. Prometeu, por sua alma, que partiria no começo da manhã. Para seu próprio bem, deveria ser dessa forma.

– II –

O depósito era de madeira velha e estava em condições precárias, como se um vento forte pudesse derrubá-lo. Parecia já está vazio há muito tempo, exceto por algumas ferramentas – pás e picaretas – que foram abandonadas ali. O viajante imaginou que San Juan Romero já houvesse sido uma terra de mineradores… Talvez em outros tempos. Agora, não passava de uma cidade morta, cujos habitantes pareciam não terem entendido isso.
Ele sentou-se em um canto e logo outro homem — com o rosto como o de uma fera prestes a lançar-se sobre sua presa — trouxe comida e água e saiu sem dizer uma única palavra.
O gosto daquele líquido era por demais desagradável e os alimentos não estavam melhores, porém, o viajante comeu e bebeu como pôde, depois espalhou um saco de dormir no chão e adormeceu… E depois começou a sonhar. Ele era Sir James Winterwood e sua memória era cotada como extraordinária.
Nos sonhos, ele via seu pai, Sir John, vagando pelo mundo e arrastando consigo a esposa e o filho, ainda pequeno, por lugares dos mais diversos e hostis, mas que o fascinavam, pois John era um viajante, um aventureiro, um homem obcecado com a idéia de aprender, de conhecer os mistérios que se ocultam neste mundo. Ele fora alguém notável, sem dúvida, e que desejava tornar seu nome uma lenda.
Porém… James era ainda adolescente quando sua mãe, Lady Margareth, sucumbiu à malária no sudeste asiático. Sir John chorou de uma forma que James nunca imaginara ver e, a partir daquele momento, definhou até não ser mais do que um rascunho do homem que um dia fora. James voltou à Inglaterra, deixou Sir John aos cuidados de criados leais e retornou ao caminho que havia aprendido com seu pai, porém de uma forma um pouco diferente…
Certamente, o mesmo fogo que uma vez impulsionara o coração de Sir John também iluminava o espírito do jovem James. Todavia, em sua alma habitava parte do que havia feito de Lady Margareth uma mulher tão maravilhosa: o gosto pelos livros, pela cultura, pelas histórias. James vagava pelo mundo coletando os fatos mais inusitados para com eles escrever livros, que, assim ele ansiava, seriam lidos por gerações após sua morte. Suas obras, assim sonhava, o tornariam imortal.
Muito tempo já se passara desde então: ele enterrara seu pai no início de um inverno e vivera aventuras sem conta (uma das mais estranhas, ele enfatizaria alguns anos depois em suas memórias, ocorreu em sua própria pátria, quando encontrou Skykeeper, um louco, sem-teto e londrino, perseguido pela crueldade de Lorde Douglas Whitehill… quando James aprendeu que a fronteira entre nosso mundo e o que está além dele é bem mais tênue do que julgara…)
Então, o sonho começou a mudar… Ele passava dos quarenta anos agora e havia chegado à América pouco tempo atrás… Sir James ouvira muitas histórias sobre o Oeste selvagem e estava ansioso para conhecê-lo… Mas agora, ele provava de uma decepção que não podia ter imaginado… Toda a fantasia que aguçava a curiosidade dos imaginosos europeus, quando confrontada com a realidade daquela terra e daquela gente, convertera-se em sangue e selvageria… Nada que merecesse ser relatado ou escrito…
Sua mente pareceu rodopiar e ele estava de volta aquele saloon num lugarejo do Texas, em meio a um conflito de intrigas e maldades que quase lhe custou a vida… E de volta… Aquele nome, aquele rosto, aquele perfume, aquele corpo que lhe dominavam os sentidos e a razão… De volta àquela cama… De volta a Mary…
Como lhe fora ensinado uma vez por um curandeiro africano, ele bloqueou suas memórias e evitou que avançassem para… Não, ele não queria lembrar, mas ainda assim, mesmo dormindo, lágrimas caíram-lhe dos olhos…
Logo o sonho se transformou por completo. James se percebeu caminhando por San Juan Romero, entrando em casas, tentando chamar a atenção das pessoas, até perceber que, para elas, ele não era mais do que um invisível fantasma… E tudo estava tão diferente, como se o tempo tivesse voltado para trás… Então, ele compreendeu: era o passado daquele lugar, a história ocultada por aqueles homens de modos hostis, que agora se insinuava para ele…
Era uma época ruim para aquele vilarejo. O lugar havia sido cercado pelo bando de Ramirez, El Diablo, como ficou conhecido o criminoso mais sanguinário da fronteira, um homem maligno, com um coração selvagem, que não era o de um ser humano. Suas feições, seu riso, seus gestos… Eram os de um demônio… Contavam-se as coisas mais terríveis sobre ele… O povo de San Juan estava aterrorizado demais e ofereceu ao facínora todo o ouro que este desejasse levar. Ramirez aceitou o presente, mas seus interesses eram ainda maiores… Ele também ouvira histórias sobre San Juan Romero e o Padre Garcia…
O Padre Rodriguez Garcia chegara ao vilarejo tempos atrás e logo conquistara o afeto de todos. Aquela gente simples ficara deslumbrada com sua bondade, seu desprendimento e sua dedicação. Logo passaram a dizer que ele era um santo, enviado por Deus para ajudar aquela terra.
“— Entreguem-me esse Padre Garcia ou matarei cada um nessa vila. Vocês têm uma semana.” – disse Ramirez e o povo implorou-lhe que reconsiderasse e ele riu e mandou que voltassem ao vilarejo antes que perdesse a paciência com eles.
O povo de San Juan Romero conversou entre si e com o Padre Garcia (que, apesar de ser bom, estava aterrorizado) e juraram que não entregariam aquele homem santo, não importava o que acontecesse…
Mas, naquela noite, homens de Ramirez entraram atirando no vilarejo, três pessoas foram mortas e mais quatro tombaram da mesma forma na noite seguinte…
“No sétimo dia, se eu não tiver o que pedi, matarei a todos” – era o que estava escrito numa mensagem deixada num saco, que fora jogada pelo bando de Ramirez no centro da vila, e dentro do qual estava a cabeça de Miguel, um mineiro gordo, idoso e que nunca fora conhecido por ser rápido ou ágil…
E o medo cresceu e começou a sufocar o pudor no coração dos habitantes de San Juan Romero. E, no quarto dia, eles amarraram e amordaçaram o Padre Garcia, que pensava em fugir, e – por estarem com medo e com vergonha de seus atos e como o sacerdote choramingava assustado como uma criança – bateram nele até que se calasse.
Eles o levaram até Ramirez, que os recebeu com um sorriso selvagem no rosto e uma satisfação demoníaca iluminando seus olhos.
“— Aqui está ele. Como você pediu. Por favor, agora parta e poupe a todos nós.” – disse um homem, cuja voz estava maculada pela consciência e culpa (o qual James percebeu ser o velho que ele encontrara ao chegar ao vilarejo).
“— Não. Eu quero mais do que isso”— retorquiu Ramirez.
E eles olharam confusos e assustados para o criminoso e ele continuou:
“— Vocês devem matá-lo, da forma mais dolorosa que puderem, e depois tragam o cadáver para mim e irei embora e então San Juan será poupada”.
“— Não!” – disse um dos habitantes do vilarejo (que James reconheceu como sendo Perez) — “Ele é um homem santo! Não podemos fazer isso!”
“Então,”— replicou Ramirez — “em três dias eu matarei todos vocês… Da forma mais dolorosa que eu puder imaginar”.
Eles voltaram para o vilarejo. Assustados, confusos demais e em silêncio, pois qualquer palavra morria antes de deixar suas bocas…
No mesmo depósito onde agora James dormia, eles prenderam o Padre Garcia e se reuniram para decidir o que fazer, e debateram entre si e divergiram e discutiram e brigaram, até que Jose Saltares esmagou a cabeça de Juan Gomez com uma pá e o povo de San Juan percebeu que seu tempo estava acabando e que a proximidade da morte lhes roubara a razão.
Foi então que chegou o sexto dia. Os habitantes de San Juan Romero escolheram entre si um pequeno grupo (Perez e o velho que ajudara James faziam parte dele). Eles foram até o depósito, até o indefeso, amarrado e amordaçado Padre Garcia, ajoelharem-se diante dele, rezaram um “Pai Nosso”, pediram perdão ao sacerdote e depois a Deus, armaram-se de picaretas e contaram o que iriam fazer.
Jamais houve, sobre a Terra, tanto medo, fúria, dor, revolta e desespero quanto nos olhos do Padre Garcia, enquanto eles golpeavam sem cessar e aquelas picaretas rompiam carnes e ossos. De sua boca, Garcia deixou escapar uma promessa feita sem palavras, de absoluto horror e vingança, que o acompanharia até as chamas abissais do Inferno.
Quando aqueles homens terminaram, estavam chorando.
Logo depois, ainda cobertos de sangue, levaram o que restara do Padre Garcia para Ramirez, o terrível Ramirez, que os esperava gargalhando, que nada disse quando seus homens puseram aquele corpo despedaçado num saco, que juntou todo o seu bando e partiu sem mais demora. San Juan Romero fora poupada, mas o preço dessa salvação e a gargalhada do demônio que chamavam de Ramirez permaneceu queimando na alma dos habitantes do vilarejo… Para sempre…

– III –

O sonho terminou e Sir James Winterwood despertou num sobressalto, pedindo a Deus que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo… Mas seu coração lhe avisava que era verdade…
Ele cuidou de arrumar suas coisas o mais rapidamente possível, pois, mais do que nunca, era essencial deixar aquele lugar amaldiçoado.
Quando chegou a rua, o sol já havia nascido. Todos os habitantes de San Juan Romero estavam reunidos lá fora. James sacou do revólver, porém logo percebeu a inutilidade de sua reação, pois eles não estavam interessados no viajante: todos permaneciam estáticos contemplando uma figura mais terrível e sombria do que qualquer coisa que o viajante já vira ou pudera imaginar:
Sua magreza era inumana; a coloração da pele parecia mais pálida que a de um cadáver; vestia um hábito de sacerdote, que estava em frangalhos; e os olhos, ah, os olhos eram o pior de tudo: a cor era indefinível; tentar contemplá-los fazia a mente rodopiar e enchia o estômago com horror e ânsia de vômito e inundava o coração com uma mistura obscena de emoções: medo, capaz de despedaçar uma alma, pena — que fez James curvar-se no solo e chorar — e repulsa, pois se tinha a certeza de estar diante de algo maligno e blasfemo, que não devia existir, mas que, mesmo assim, ofendendo a toda a criação, caminhava sobre a Terra.
Aliado a isto, duas constatações quase arrancaram o espírito de James de seu corpo: a primeira foi perceber que, apesar de estarem diante daquele horror, o povo de San Juan Romero não tentava fugir ou resistir, como se estivessem resignados; em seguida, ele entendeu o óbvio, aquilo, fosse o que realmente fosse, era o Padre Garcia.
— Por favor, tenha piedade! – implorou Perez.
— Pelo amor de Nosso Senhor! Perdoe-nos! — disse o velho que antes intercedera por James — Nós estávamos assustados, temíamos por nossas vidas… Nunca quisemos fazer aquilo!
— Sim — falou um terceiro homem — e nossa consciência jamais nos deixou em paz. Nós vivemos num inferno, atolados até o pescoço na culpa.
Para James, tudo aquilo já era um pouco demais e ele atirou contra a figura fantasmagórica do Padre Garcia… Até que o revólver estivesse descarregado e o espectro olhasse para ele…
— Você não pertence a isso. Vá embora. — ressoou na mente do viajante uma voz que lembrava túmulos, areia, assassinato e horrores.
— Por favor… Saia daqui. Você não precisar também pagar por nossos pecados… — aconselhou o velho e, antes que James reagisse, o ancião voltou-se para os outros habitantes de San Juan Romero e assim falou:
— Amigos, nosso crime é indizível e não devemos mais continuar neste mundo, impunes, sem castigo, pelo mal que fizemos… Chegou a hora de terminarmos com tudo isso.
No momento seguinte, o velho segurou a mão de Perez e começou a rezar o “Pai Nosso” e, logo, todos, excerto James, também seguravam as mãos uns dos outros e rezavam.
Sir James pensava em fugir dali, mas estava abalado demais e, mesmo, curioso, para tomar qualquer atitude. Foi quando o fantasma ergueu a mão direita e um vento selvagem, que açoitava areia contra a pele, com a força de um chicote e um uivo infernal, tomou conta do lugar.
O viajante tentava proteger os olhos e caminhou desnorteado pela tempestade de areia, até que, sem poder calcular que distância havia percorrido, tombou naquele chão de vingança e horrores sobrenaturais.
Algum tempo depois, ele despertou. O sol queimava seu rosto. Estava dolorido e horrorizado. O revólver e o chapéu se perderam para sempre. Seu cavalo, inexplicavelmente estava ali perto… E James não questionou isso, pois havia aprendido, uma década atrás, que certas dádivas devem ser aceitas sem maiores perguntas…
Ele montou. O mais lógico seria afastar-se daquele lugar para sempre… Porém, James se parecia mais com seu pai do que costumava admitir, e ele estava curioso em ver, com seus próprios olhos, como o destino da desafortunada San Juan Romero havia sido concluído.
Facilmente ele reencontrou o caminho de volta para o vilarejo e, novamente, cavalgou pela rua principal. Era um cenário de horrores e James recriminou-se por sua curiosidade: por toda a parte cadáveres estavam espalhados, mas eram quase esqueletos, como se algo maligno e selvagem houvesse, violentamente, arrancado a carne dos ossos…. Os rostos daqueles infelizes estavam maculados por uma expressão de desespero que fugia a qualquer descrição… E sobre todos eles havia areia…
Ele não encontrou qualquer sinal do Padre Garcia e agradeceu aos céus por isso.
James pensou em chorar, mas logo entendeu que não haveria nele lágrimas suficientes para algo assim… Ele apenas ficou em silêncio e pediu a Deus que se apiedasse da alma daqueles desafortunados…
Depois foi embora. Passou pela placa caída, onde se lia “San Juan Romero”, hesitou um pouco, mas então pegou aquele objeto e amarrou-o com suas coisas no cavalo: por mais horrível que fosse, era uma recordação do que aconteceu e serviria, mais adiante, para provar a ele mesmo que não enlouquecera, nem sonhara tudo aquilo…
Sim. Aquele trágico episódio seria transformado numa história e tanto, embora ele duvidasse que alguém pudesse acreditar nele.
De qualquer forma, James planejava voltar à Europa e repousar, pelo menos por um tempo, na propriedade de sua família, pois estava cansado deste sombrio, selvagem e terrível Novo Mundo…
Ele se voltou por um instante e disse: “San Juan Romero…”, como se tentasse entender tudo aquilo, todo o horror e crueldade, e desejando que alguém pudesse lhe explicar que capricho, ou mecanismo secreto da criação, permite que homens bons, ou simplesmente comuns, transformem-se em assassinos e demônios…
Porém, seu coração advertiu-lhe que esse era um assunto grande demais, para ele ou qualquer outro homem, e Sir James Winterwood curvou a cabeça e partiu, com a alma ainda mais infeliz do que quando chegara…

FIM

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Fim de Encantamento – Parte II O Menino no Lago

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