Fim de Encantamento – Parte I

março 11, 2009 at 3:27 am Deixe um comentário

Passei 2002 sem escrever nada. Voltei em 2003 e foi quando comecei a levar a sério minha intenção de ser escritora. Portanto, esse conto Fim de Encantamento, é muito importante pra mim por várias razões.

FIM DE ENCANTAMENTO

Por Rita Maria Felix da Silva

PARTE 1

Prólogo: Das palavras de Ya-Yllah-Yti, líder, sacerdotisa e contadora de histórias da última tribo de humanos, du-rante o derradeiro êxodo, nos dias finais que antecederam a extinção…

“E agora nós sentamos diante desta fogueira, feita com a pouca lenha que pudemos juntar, na tênue esperança de resistir ao frio, enquanto padecemos sob a mão dos Deuses, que nos abandonaram e ignoram nossas preces, e que enviaram para substituí-los as duas irmãs cruéis, que chamamos de ‘Doença’ e ‘Fome’, enquanto a mãe delas, a ‘Morte’, nos segue e nos cerca, apenas esperando, como um lobo tão faminto como nós.

Mas somos humanos ainda, e tudo o que restou dos humanos, e, por isso devemos continuar vivos, pelo sonho de que um dia serão os homens e mulheres, novamente, os senhores deste mundo.

Então eu lhes conto uma história, para que dela obtenham sabedoria e novas forças, ou para que, pelos menos, entretenham-se por alguns instantes desta noite interminável, desde que o bondoso Sol nos deixou.

Contam que isto aconteceu no início destes últimos dias do mundo e alguns insistem que foi verdade. Mas talvez não importe, pois restou tão pouco de nosso mundo, tão poucos para ouvirem as histórias e menos ainda para contá-las. Dizem que foi exatamente assim…”

Eram tempos sombrios na história do mundo, quando ela chegou a um pequeno vilarejo próximo ao Mar do Norte. Os primeiros ventos do inverno já avançavam sobre aquela parte remota do reino, trazendo consigo notícias más e uma sensação de desesperança, que ameaçava apoderar-se de uma multidão crescente de corações, os quais sentiam um futuro terrível se aproximando – mas eles não podiam definir qual era e, por isso, olhavam para o Céu, em busca de respostas e consolo. Porém não era só o tempo que estava mudando, pois os Deuses também haviam se tornado mais estranhos, pois já estavam cansados dos mortais e suas bajulações.

De qualquer forma, ela não se importava com tais coisas. Chegou sozinha, montada a cavalo, sabem os Deuses de onde. Veio silenciosa, em trajes simples de uma camponesa, a espada dependurada na cintura, a cabeça escondida num capuz, uma capa acinzentada cobrindo-lhe as costas… Havia algo de poderoso em sua figura, de altivo, nobre e sofrido, e perigoso, porque parecia não pertencer a esse mundo e ao, mesmo tempo, era como se tentasse, no final de suas forças, agarrasse a ele. Não sei, com certeza, e creio que ninguém sabe. Dizem que seu nome era Glória, mas, até aquele momento, ninguém podia imaginar o que buscava.

Ela desmontou no meio do vilarejo, em frente a uma velha taberna, em cuja placa alguém havia gravado um nome rude – algo que, remotamente, lembraria um dialeto atlante – e um desenho de difícil definição.Ela entrou com passos firmes e o lugar estava praticamente cheio. As pessoas olharam para ela com surpresa, pois era a única mulher naquele local.

Ela ignorou os olhares e procurou uma mesa num canto mais afastado e escuro e sentou-se próxima a uma parede, onde ainda podia ser vista uma bela pintura já bastante desgastada. Talvez uma lembrança perdida de dias melhores.

O taberneiro, um tipo corpulento com uma grande e antiga cicatriz no rosto, aproximou-se da mesa. Glória entregou-lhe uma moeda e pediu uma caneca de vinho. Ele a atendeu logo e voltou para trás do balcão, avaliando com curiosidade aquele dinheiro (era de ouro, com certeza – mas a escrita e aqueles símbolos, de onde poderiam ser?)

O ambiente estava quase na penumbra exceto, por algumas tochas penduradas a ganchos nas paredes. Aqui e ali havia escuridão e tudo parecia muito sombrio, porém não mais do que o coração de Glória. Ela havia esperado tanto tempo por aquela noite e – se a informação fosse verdadeira – valeria a pena esperar um pouco mais.

Dentro do capuz, seus olhos demonstravam desolação, fúria e lembranças… Sim, muitas lembranças. E breve seu olhar se fixou num pequeno palco em um canto da taberna. Sim. Ela iria esperar.

Glória tomou um gole do vinho e tentou lembrar como era o gosto daquela bebida, mas algumas memórias já estavam desbotadas demais e ela ficou triste e desejou chorar…Mas, já se passara muito tempo desde que ela conseguira derramar uma lágrima… Embora algo em seu coração insistisse que isso ainda era possível… Porém, suas reflexões foram logo interrompidas por uma voz desagradável que lhe feria os ouvidos:

— … Gostosa! Faz tempo que não vejo uma coisa gostosa assim feito você! Tá procurando companhia, não é? Uma mulher assim, sozinha num lugar desses, tá atrás de homem. Tem de tá!

Glória ergueu os olhos. Diante dela, estava um homem grande, gordo, calvo e barbudo. A expressão no rosto dele era de uma malícia indisfaçada. Em uma das mãos, ele trazia uma caneca de vinho e na face um riso animalesco que contribuía ainda mais para dar aquela criatura a aparência de algo deformado e obsceno.

Não havia motivo para chamar atenção esta noite. Não seria bom provocar problemas justamente agora que ela estava tão perto… Por isso, ela resistiu a tentação de decepar aquela coisa atrevida, pretensiosa e faladora e apenas disse:

— Vá embora.

Uma gargalhada explodiu da boca do homem gordo e ele riu por alguns segundos, para depois esfregar os lábios com as costas da mão e voltar a falar:

— É brincadeira, não é? Além de gostosa, é engraçada! Olha, eu tenho dinheiro — e puxou da cintura um pequeno saco de couro, amarrado na extremidade, e ficou balançando-o diante dos olhos dela enquanto falava – e vou me sentar aqui e depois a gente vai para o quarto lá em cima – e apontou para o teto – e você vai passar a noite comigo e vai me fazer o viajante mais feliz nessa vila. E quando eu estiver em cima de você, vai ser a mulher mais feliz do mundo! Que tal?

E o homem gordo riu novamente e levou a caneca até os lábios e voltou a beber, fazendo um barulho que lembrava algum animal selvagem. Glória tocou no cabo de sua espada e decidiu que precisava agir.

O instante seguinte aconteceu rápido demais, como se a realidade houvesse explodido. A espada de Glória arrancou a caneca de vinho da mão do homem gordo, cortou aquele recipiente em duas metades – o líquido espalhou-se pelo bar, molhando todos que estavam por perto – e passou, veloz o bastante para não ser percebida por um olho humano, pelo rosto daquela criatura. Um corte bem fino cruzou o lado direito da face do homem e, quando as metades da caneca alcançaram o chão, Glória estava de pé, diante do homem gordo e a ponta da lâmina de sua espada já pressionava a garganta daquele infeliz.

O homem gordo e barbudo estava sem reação, estático, urrando de dor, medo e surpresa, enquanto vinho e um filete de sangue lhe escorriam pelo rosto.

— Sua… Sua cadela! Eu vou te matar por isso! – ele grunhiu.

—Não. – ela retrucou – Vai aceitar um conselho: você é tão feio quanto um demônio e deve feder como algo que já morreu há dias. Vá embora e leve só essa cicatriz no rosto, como lembrança do que poderia acontecer essa noite.

O homem arfava como um animal agonizante e algo mais teimoso em sua natureza queria ainda insistir: _Não! Eu vou te matar! Eu vou! Ninguém faz isso comigo!

Glória analisou aquele ser tão patético diante de seus olhos, meneou a cabeça vagarosamente e desejou que, se realmente existisse um Paraíso, houvesse lugar para idiotas como aquele. Sim, ela poderia matá-lo e, por certo, o mundo não sentiria falta de algo desprezível como aquilo.

Porém, uma mão firme segurou o ombro do homem gordo e uma voz orgulhosa e forte, ergueu-se:

— Klaus, pelos Deuses! Juízo homem! Recua! Vamos sair daqui ou essa feiticeira vai te fazer em pedaços!

Ela olhou por sobre os ombros do homem gordo e lá estava um velho soldado, cujo rosto ainda deixava escapar a gloria, a nobreza e o poder de dias passados, quando fora um general que comandava exércitos conquistadores e trouxera triunfos e tesouros para seu rei e morte rápida para os inimigos.

— Hans, – insistiu Klaus – não te mete, não! Não existem mais feiticeiras! Todo mundo sabe disso!E eu vou matar essa dona!

— Você vai é morrer! – replicou Hans – Talvez ainda haja feiticeiras e ela seja uma delas. Sai daqui ou eu mesmo te mato…

E depois acrescentou num tom quase paternal:

— Por favor.

Klaus pareceu atender ao desejo de Hans, pois Glória podia ver nos olhos dele que aquela teimosia se abrandava e ele desejava fugir, mas o medo, o orgulho e a lâmina em sua garganta seguravam-no. Hans soltou o ombro de Klaus, deu um passo para o lado e se aproximou dela.

— Moça, – começou – esse imbecil pode ser só um imbecil, mas talvez seja o único amigo que tenho. Eu peço desculpas por ele. Mas deixa-o ir embora. Você iria insultar sua lâmina se matasse um tolo como esse.

Algo na figura decadente de Hans ainda transmitia um certo ar de respeito e nobreza, como um eco, uma memória já gasta, de um guerreiro outrora valoroso. Fosse o que fosse, tocou a simpatia de Glória, ela baixou a espada, devolveu-a a bainha e disse:

— Certo. Tire-o daqui.

— Obrigado – disse Hans, sorriu de forma suave e curvou a cabeça para ela e, logo, arrastou Klaus, que protestava, para fora.

Glória observou ao redor e viu que as pessoas continuavam olhando para ela, mas a expressão havia mudado para medo. Ela voltou a sua mesa.

O taberneiro aproximou-se novamente:

— Eu vi o que aconteceu. – ele procurava dissimular o terror em sua voz e apontava nervosamente para ela enquanto falava – Vou cobrar de Hans a caneca e o vinho, mas não quero problemas na minha taberna, entendeu?

Ela não deu maior atenção ao taberneiro e, breve, ele voltou a seu lugar atrás do balcão.

Glória segurou a caneca de vinho com as duas mãos e olhou novamente para o palco. Sim, agora era só esperar.

(Continua)

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