Gerald Bensamir

GERALD BENSAMIR

Ontem à tarde, Gerald Bensamir estava aprendendo Português. Embora digam que esta é uma das línguas mortas[1] mais difíceis da Galáxia, Gerald adora desafios. Ele até riu com os verbos portugueses e suas quase infinitas terminações. Achou-os diabolicamente divertidos.

Além de estudar línguas exóticas, o Sr. Bensamir tem outro passatempo incomum: colecionar planetas. No último verão, ele adquiriu mais três novos mundos. Se isso lhe trouxe grande prazer, todavia, obrigou-o a tomar algumas medidas extremas.

Um desses planetas era uma esfera vermelha habitada por humanoides, que, com exceção da pele azulada, eram de todo idênticos ao seres humanos, inclusive nos defeitos. Incomodado, Gerald contratou uma firma de extermínio de pragas e eliminou todos os humaníticos daquele precioso novo mundo.

Um outro planeta adquirido era coberto, em toda a sua superfície, por um único ser vivo, que consistia de uma membrana orgânica alaranjada de um quilômetro de espessura. Era também consciente, filosófico e abençoado com uma inteligência fenomenal. Porém, quando pensava, aquela criatura liberava, direto na atmosfera, o gás mais fétido que se possa imaginar. Não foi difícil para Gerald deduzir o motivo de outros seres daquela esfera terem sido extintos (como atestava os fósseis encontrados). O cheiro nauseabundo dos pensamentos da criatura realmente incomodava Bensamir e ele mandou que seus especialistas realizassem, com produtos químicos, uma versão em escala planetária para uma lobotomia. Logo, Gerald estava satisfeito ao constatar que os gases nauseabundos cessaram de ser emitidos.

O terceiro planeta era uma maravilha de diversidade de formas de vida. A mais notável, porém, eram flores que cobriam dois quartos da área total daquele mundo. Gerald logo descobriu que tratavam-se de organismos inteligentes que conversavam entre si numa linguagem aparentemente ininteligível. Ele não teve demora e – apoiado por um batalhão de linguistas – dedicou-se a tarefa de decifrar aquele idioma floral. O esforço foi recompensado quando ele finalmente pôde entender o diálogo incessante daquelas plantas, mas seu coração se encheu de repulsa e desapontamento: as flores eram racistas, supremacistas e conspiradoras, e tramavam para extinguir os outros seres vivos daquela mundo para que apenas a espécie delas restasse.

Gerald acionou seu grupo de geneticistas, que liberaram um vírus experimental e as flores sofreram uma regressão evolutiva de talvez dez milhões de gerações até voltarem a ser vegetais inofensivos e de pouca inteligência que cantarolavam entre si grunhidos igualmente inofensivos e sem importância.

Como os negócios estavam andando muito bem e a fortuna de Gerald Bensamir crescia de forma absurdamente generosa, ele pensou em expandir sua coleção: por que limitar-se a colecionar planetas, quando podia fazer isso com galáxias?

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege e Fernanda Turesso

[1] pelo menos, até onde se sabe, o último falante da Língua Portuguesa, um certo Sr. Joaquim Farias de Messa, habitante de Nova Lisboa, planeta Terra, morreu na Grande Guerra Genocida do fim do século XXIII.

outubro 26, 2016 at 3:07 am 1 comentário

Historietas Inquietas (parte 3)

7.O MAU HUMOR DE EZEQUIAS

 

Era dos mais deploráveis o humor de Ezequias Medeiros. Acordava tendo o mundo como inimigo e a vida, como o pior dos flagelos. Tudo, e até mesmo alguns absurdos, era motivo para deixá-lo caído numa depressão que dava medo.

— Realmente odeio tulipas. – disse, certa vez, numa manhã de segunda-feira — Tenho por elas um ódio entranhando em minha alma. Considero-as como flores de uma idiotice desmedida. Se acaso pudesse, eu exterminaria toda a espécie das tulipas deste mundo.

E então arrumou-se para ir ao trabalho, implorando que o mundo acabasse antes de ele chegar até a empresa.

Numa noite de terça-feira, após assistir na TV a um jogo em que seu time favorito havia perdido de um a zero, foi deitar-se com uma nova conjectura:

— Fico indignado com a forma esférica. É de um mau gosto que me dói as entranhas. Quem diabos condenou as pobres bolas a serem esféricas? Abomino seja quem for que tenha imposto essa tirania a elas. Onde fica o livro arbítrio das bolas? Tenho pena delas! Ah, os deputados e senadores, esses desocupados, por que não fazem uma lei proibindo a forma esférica neste país?

E foi dormir sentindo-se invejoso dos mortos no terremoto do Haiti, os quais, ao menos, seriam poupados de acordar no tedioso dia seguinte.

No fim de uma tarde de quarta-feira, voltava do trabalho lamentando-se que algum atentado terrorista a tiros não tivesse ocorrido na cidade, pois, afinal, nada de realmente interessante parecia acontecer naquele município tediamente amaldiçoado.

Em casa, arriou pesadamente o corpo numa poltrona velha, tomou por única companhia uma xícara de café amargo com leite desnatado, olhou para um dicionário jogado num canto da sala e filosofou:

— E ainda há quem defenda essa classe incômoda dos adjetivos! Por que aqueles gramáticos, que ocupam nosso tempo com sandices, não abolem esses tais adjetivos da Língua Portuguesa? – e bebericou um pouco de café — Passaríamos muito bem sem essas coisas.

Na noite da quinta-feira chuvosa, que se seguiu, Ezequias ocupava-se de um jornal enquanto os céus castigavam as ruas da cidade com o maior aguaceiro daquele ano. Ele parou a leitura por um momento e disse desgostosamente:

— Aqui chove como o Diabo, lá no sertão, uma única gota de chuva não é vista há meses… Que natureza é essa, que não sabe dividir os recursos hídricos? Que repartisse esse tanto todo de chuvas entre aqui e os coitados dos sertanejos! Não sabe a natureza as noções mais básicas de gerenciamento? É o que digo: esta é a desgraça deste país: a ignorância, pois, nesta terra, até a natureza não sabe o que faz.

Na sexta-feira, acordou indisposto como o Inferno. Nem mesmo queria se levantar. Grunhiu algum palavrão impossível de ser escrito e murmurou:

— Desprezo com todo meu coração esse tal de oxigênio, esse elemento químico intrometido que se atreve a invadir minhas narinas sem convite algum. Pelo hidrogênio ou hélio, tenho lá minha simpatia, mas esse oxigênio merece que eu cuspa-lhe na cara! Estou decidido, não quero mais essa coisa nojenta em meus pulmões.

Ficou na cama fazendo planos. Sabia que tentar prender a respiração ou estrangular-se com as próprias mãos seria inútil. Então, lembrou-se do faroeste a que assistira na semana anterior e foi a mercearia Neco Rodrigues & Filhos. Esperou na porta até as 07:00 h, quando aquele estabelecimento abriu, e comprou a melhor e mais forte corda que o Sr. Rodrigues pôde oferecer.

Voltou para casa, prendeu a corda num viga no teto da cozinha, subiu numa cadeira, fez um laço e colocou-o no pescoço, e saltou para frente, como quem procura o infinito.

Morreu com um sorriso nos lábios. Partira vitorioso: havia derrotado o oxigênio.

 

Fim

 

outubro 6, 2016 at 4:14 am Deixe um comentário

AS MEMÓRIAS DO PEQUENO MARIO LUIGI ROSSO

Oi, pessoal,

Um dia desses fui visitar um amigo e uma frase dita pelo filho pequeno dele ficou em minha minha cabeça e foi a semente para esse texto.

Além da frase do garotinho, eu também tinha em mente algo que penso há tempos: esse texto vai ser meio que minha resposta a Harry Potter. Não, eu gosto de HP,não é isso, apenas sempre pensei que dar poderes mágicos a crianças não geraria um universo tipo o do Sr. Potter…

Boa leitura!

AS MEMÓRIAS DO PEQUENO MARIO LUIGI ROSSO, 10 ANOS,
MAGO EM TREINAMENTO
Volume I

Anotação # 112

Papai estava preso dentro do telefone. Fui eu que joguei um feitiço e coloquei ele lá, mas não consegui mais tirar. Papai começou a sufocar. Fiquei com pena. Aí usei uma poção venenosa muito forte. Ele morreu rapidinho. Melhor do que ficar sofrendo, não é mesmo?

Anotação # 215

Hoje transformei todos os outros meninos da escola em sapos e as meninas, em estátuas. Será que ficava melhor o contrário? Acho que nunca vou saber: não consegui reverter os encantamentos. Foi mal, pessoal. Acho que preciso treinar mais. Pelo menos, vão fechar a escola depois disso. Nunca gostei mesmo daquele lugar.

Anotação # 313

Estou numa nova escola, que é ainda pior do que a primeira! A professora de Matemática, Dona Ziza, me deu zero na prova da 3ª Unidade. Fiquei fulo de raiva com ela. Transformei ela num cachorro e vendi para os pais de Zezinho, que queriam muito um bichinho de estimação para o filho. Eles ficaram me perguntando onde arranjei um cão tão bonito e esperto. Eu desconversei. Com o dinheiro, comprei um monte de figurinhas novas para meu álbum “Heróis do Futebol”. É, não sei fazer figurinhas com mágica. Ainda não.

Anotação # 320

Eu já disse que adoro minha Avó? Pois adoro! Ela é, tipo assim, a avó mais legal do mundo, e faz os bolos mais deliciosos que você pode imaginar. Todo ano, ela participa daquele concurso de bolos e tortas da Prefeitura, mas sempre perde para Dona Maria Sorriso, uma velha chata que é a fofoqueira mais nojenta de nossa rua. Acontece que esse ano Vovó venceu o concurso, porque, de repente, Dona Sorriso morreu de ataque do coração um dia antes da data do concurso. Bem, feitiços mortais são um pouquinho difíceis de fazer, mas, como eu disse, amo minha avó.

Anotação # 325

Desde o que aconteceu com papai, eu melhorei muito em fazer feitiços de encolhimento. Hoje encolhi minha irmã. Já contei sobre ela? Era mais velha do que eu, se achava muito certinha e queria mandar em mim como se fosse minha mãe. Ficava me beliscando e puxando minha orelha o tempo todo. Era uma malvada! E ainda ficava zombando de mim, porque sou pequeno pra minha idade: “Trepeça pequena! Tu não vai crescer, tu vai é virar anão!”. Detestava ela! O pior é que eu sabia que mamãe gostava mais daquela monstra do que de mim. Encolhi minha irmã e joguei pra uns gatos de rua famintos que ficavam num terreno abandonado nos fundos daqui de casa. Mamãe chorou muito porque minha irmã sumiu, mas mamãe é jovem e bonita. Ela ainda vai casar de novo e aí ela e meu novo pai vão me fazem uma nova irmãzinha. Pelo menos melhor que a anterior.

Anotação # 340

Vovó está muito doente. Mamãe fica chorando o tempo todo. O pior é que já fiz de tudo, mas parece que não existe feitiço pra curar essa coisa que mamãe chama de “câncer”. Aí resolvi apelar. Acontece que encantamentos pra mexer com o tempo são complicados demais de controlar. Você pisca um segundo e eles endoidam. Mas eu consegui parar antes que Vovó… Bem… Agora Mamãe diz que sente falta de Vovó (que também desapareceu, feito aquela chata da minha irmã) mas realmente ama o bebê que inexplicavelmente apareceu na cama de minha avó. Eu também amo muito minha nova irmãzinha. (Mamãe tentou com a Polícia, mas nem eles sabem dizer de onde esse bebê veio. Eu escutei eles falando com a mamãe e fiquei prendendo o riso. Eu sugeri que colocassem o nome da Vovó na nenenzinha, claro, e mamãe aceitou).

Anotação #400

Tinha um valentão na nossa escola. O nome dele era Ninoco e mexia com todo mundo. Os adultos chamam isso de bullying. A gente pequeno reclamava mais as pessoas grandes não faziam nada. Um dia, ele me derrubou no pátio da escola e fugiu com meu lanche. Eu caí e cortei o lábio. Fiquei com tanto ódio!
Depois que papai sumiu, mamãe ficou tão triste que deu todas as coisas dele: as roupas, a coleção de gibis em Inglês… Tudo mesmo, mas eu consegui que ela deixasse pra mim os DVDs de filmes de terror que papai tinha. Ela olhou com cara feia, mas deixou. Daquela coleção de papai, meu favorito era “Bem-vindos às Profundezas”. Eu adorava assistir àquele filme. Eu ficava contando a história dentro de casa e mamãe ameaçava jogar o DVD fora. Eu achava engraçado como mamãe ficava com medo de filmes de terror.
Mas eu tava furioso com Ninoco e decidi que ia me vingar e a última cena de “Bem-vindos às Profundezas” não saía de minha cabeça. Tinha de ter um jeito, um feitiço para conseguir fazer aquilo do filme. Procurei três meses para achar o encantamento certo e demorou mais um mês pra fazer aquilo funcionar, mas o resultado foi lindo:
Ninoco gostava de ficar na pracinha daqui do bairro à noite. Ele ia pra lá pra fumar (cigarro é uma coisa horrível, foi o que matou vovô, não sei como tem gente que gosta disso…). Como todo mundo sabia que ele era brabo, ele ficava sempre sozinho.
Cheguei quietinho e ele me chamou de “gayzinho” e perguntou se eu queria apanhar. Eu não disse nada, mas pronunciei o encantamento e esperei. Aí, tentáculos azuis saíram do chão e arrastaram Ninoco direto pro Inferno! Naquela hora, na pracinha, não tem ninguém, nem carro passa, aí ninguém viu. Se bem que, quem é que gostava de Ninoco? Fiquei tão orgulhoso de mim mesmo e fui pra casa pra comemorar: com biscoito recheado e Coca-Cola e assistir de novo ao ‘‘Bem-vindos às Profundezas”.

Anotação #410

Era época de Carnaval e eu detesto Carnaval. Tinha um bloco (“Os Errados do Frevo”) que ficava passando aqui pela rua todo dia. Uma barulheira danada. Eu nem conseguia assistir direito o anime Astroship Princess Kalena. Me dava uma raiva danada! Hoje, eu perdi a cabeça: quando eles tavam passando, eu corri pra janela e gritei uns palavrões horríveis que aprendi com papai. Mamãe escutou e disse que ia me dar uns tapas na boca porque falei aquelas coisas. Bem, palavrão não adiantava mesmo. Aí fiquei pensando num encantamento, mas aquele barulho todo não me deixava pensar direito e eu falei baixinho o que me veio no pensamento. Cara! Foi demais, o bloco inteiro dos Errados do Frevo desapareceu igualzinho a imagem na televisão quando falta luz. Sério! Juro que não sei o que fiz ou o que aconteceu com eles ou onde foram parar… Quem se importa? Corri pro DVD para assistir Astroship Princess Kalena e comer muito salgadinho Doritos com Coca-Cola pra comemorar.

setembro 30, 2016 at 3:58 am Deixe um comentário

MINHA FORÇA É COMO A DE DEZ, PORQUE MEU CORAÇÃO É PURO

Uma batalha terrível entre um herói e um monstro, cada um engajado em sua causa. Porém, nada é o que parece.

Continue Reading setembro 14, 2016 at 3:02 am 2 comentários

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Recentemente, foi aniversário do filhote. Ele completou dezoito anos finalmente, mas, como digo, será sempre meu bebê.
Ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano, ele pediu dois. Um deles foi “Giuseppe, o de Muitos Corações”. O outro é este.
Boa leitura.
P.s. Ele gosta de histórias bizarras.

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Por Rita Maria Felix da Silva

Tarde de domingo. Um daqueles dias realmente típicos na Vila Zeca Timóteo ─ que, se você não lembra das aulas de Geografia, fica lá no município de Santana da Serra, Zona da Mata Norte de Pernambuco.
Num banco de praça, dormia Seu Aquiles, um idoso gordo, barrigudo e de cuja cabeça os cabelos já haviam se despedido. O sono profundo daquele ancião era embalado pelo som de seu próprio ronco, que se rivalizava com o barulho de qualquer um desses grandes caminhões modernos. No meio da testa, colado com o nariz, havia apenas um grande, fechado e único olho (razão pela qual ele invocava ancestralidade grega). Vez ou outra, da boca escapava uma baba verde que se espalhava pelo chão. Um pequeno pardal, mais curioso que seus semelhantes, pousou, provou aquele líquido esmeralda e caiu estendido tão morto quanto a honestidade na política brasileira.
Perto de Seu Aquilles, Neco de Tonha aguardava com o carrinho de pipocas. Aquele pipoqueiro oferecia seu produto em três tipos, ao gosto do freguês: doce, salgada ou azul. Um mosca das mais graúdas passou voando perto da cabeça dele. Neco abriu a boca e sua língua se esticou uns cinquenta centímetros para fora até capturar o inseto, que ele engoliu com satisfação. Depois, tirou do bolso da camisa xadrez um caderninho de anotações e marcou um número lá. Cento e cinquenta e um, esta semana. Logo iria bater seu próprio recorde.
Bem perto de onde estava Neco, Inhá Matilda ─ que, com seus quarenta e oito anos, nunca realizara o sonho de se casar por amor, porque, na verdade, nunca conseguira se apaixonar por ninguém ─ estava de quatro no chão. Seu brinco favorito caíra da orelha e ela o procurava pela grama com o mesmo desespero de quem anseia encontrar um filho perdido. Sem que Matilda percebesse, próximo a seu bumbum pairava um cupido adorável, porém, psicopata e assassino serial ─ razões pela qual Zeus o expulsara do Olimpo já fazia tempo. Sem que ela sequer sonhasse, aquela criaturinha alada apontava-lhe para as nádegas uma flecha explosiva o bastante para reduzir aquela mulher a tantos pequenos pedaços que seria cansativo de contar.
À direita de Matilda, havia um arbusto, atrás do qual um grupo de cinco crianças observava com atenção um crânio, obviamente sem corpo, que saltitava e quicava pelo chão da praça. Os pequeninos não se escapavam de fazer seus próprios comentário diante do evento:
─ Que Massa! ─ disse Manezinho.
─ Que lindo! ─ exclamou Juninho Batata.
─ É feito naquele desenho da Disney! ─ opinou Mariazinha de Leléu.
─ Papai vai comprar um desses pra mim! ─ jurou Tulinho Pedreira.
─ Parece biscoito recheado! ─ classificou Luquinhas e completou ─ Eu quero um pedaço!

FIM

agosto 28, 2016 at 3:17 am 1 comentário

GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Pessoal,

Nos próximos dias, meu filhote completa dezoito anos. No aniversário dele do ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano ele pediu dois. Este é um deles.
Sim, ele gosta de histórias bizarras e extremas (e, em parte também, foi bom escrever isto porque tratar com as metarrealidades da séria “Historietas Inquietas” e a metáfora amarga de “A Metáfora dos Macacos” tem me deixado com um gosto azedo na alma…)
Boa leitura!

GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Numa humilde casinha branca de portas verdes, que ficava depois da Terra de Nod, lá na beira de um abismo bem pertinho do Inferno, onde fica o fim do mundo, era lá nessa casinha que morava Giuseppe Martins e há tanto tempo ele já vivia naquele lugar que se esquecera de sua vida antes de chegar ali.
De todas as coisas que podiam ser contadas sobre ele, havia duas ou três que eram realmente notáveis:

A primeira delas é que Giuseppe já tivera não apenas um, mas sim mil corações, todos pequeninos o bastante para caberem naquele corpo, mas cada um deles era tão poderoso que, sozinho, poderia mantê-lo vivo.
A segunda coisa notável sobre ele é que padecia de um tédio crônico e uma tristeza daquele tipo incurável, e isso levava a terceira das características mais curiosas daquele homem:

Quando estava mais triste do que de costume e seu tédio se tornava maior do que ele poderia sonhar aguentar, Giuseppe arrancava um daqueles corações e, assim, a tristeza aliviava quase a ponto de ir embora e o tédio se aquietava tão calminho, como se até não existisse. E, por algum curto tempo, ele sentia-se em paz.
E assim se passou o tempo naquela casinha e veio uma época em que Giuseppe, ao invés de mil corações, apenas cem corações lhe restavam…

FIM

agosto 14, 2016 at 1:03 pm 1 comentário

A Metáfora dos Macacos

A METÁFORA DOS MACACOS

Pessoal,

Na atualização de hoje, vou postar dois textos que fogem um bocado do que geralmente escrevo. Eles não são textos agradáveis, são metáforas, mas não ficções.
Pela Internet, tenho visto a tendência de uma multidão de pessoas em condenar o Comunismo/Socialismo e endeusar o Capitalismo. No momento presente, não quero entrar no meio dessa discussão, mas me pergunto aos defensores do Capitalismo se eles observam as mazelas desse sistema econômico antes de alça-lo a algum altar utópico.
Digo isso, porque as relações de trabalho no Capitalismo são horríveis. Pegando um gancho num aspecto mais pessoal, tenho sofrido muito pro conta de um chefe que, bem, tem infernizado minha vida profissional. Não quero entrar em detalhes e preferi desabafar literariamente. Espero que gostem.
Ambos são uma metáfora amarga. Peço que ninguém se ofenda com ela. A crítica é a ele, a empresa e ao Capitalismo em geral que sustenta aberrações como essa. Em parte é também a nós mesmos, pessoas comuns, que, com nossas omissões, permitimos que um sistema assim exista.
Para evitar qualquer má interpretação, esclareço que o termo macaco aqui não tem qualquer conotação racista e não se refere a ninguém considerando sua etnia (o chefe que mencionei é branco como lesma). Uso essa palavra, de forma metafórica, para me referir a ser humano.
Boa leitura.

A METÁFORA DOS MACACOS

I – SIGA O MACACO LÍDER

Esqueçamos nossas ilusões sobre democracia, liberdade, livre arbítrio e direitos humanos. Enterremos essas quimeras em alguma cova bem funda, e, se possível, num lugar distante e esquecido, pois dez mil anos de civilizações nos reduziram a isto:
Somos apenas uma longa fila de macacos, seguindo o macaco que urra mais alto e bate selvagemente no peito sonhando ser o senhor do mundo.
Que os deuses tenham pena de nós…

II – O MACACO NO QUADRADO

Enquanto você crescia, não lhe contaram isso. A vida adulta, porém, por ser uma sádica incurável, é mais sincera e sem pudores para lhe abrir os olhos:
Você é um macaco em seu quadrado. Nunca erga a cabeça, não fale, não olhe para o lado, não pense e não sinta. O que quer que você seja por dentro, qualquer valor que imagine ter, reprima com firmeza, submeta a um eficiente funil para que de seu interior o mais infinitesimal do mínimo possa sair.
Afinal, você não é pago para ser humano. Apenas trabalhe e trabalhe. Produza e produza bem. É só o que se espera de você. É só o que lhe permitirão fazer.
No fim do mês, receba suas bananas ou salário, chame como quiser, mais que isso, no mundo, não cabe a você.

FIM

agosto 12, 2016 at 11:58 am 1 comentário

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