PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU

Oi, pessoal,

Como devem ter percebido, não tenho atualizado este blog com a freqüência que deveria. 2016 não tem sido um ano fácil para o Brasil e nem para mim. Alguns problemas diversos tem consumido meu tempo, além disso vivo bem ocupada organizando a antologia da Guerra dos Muitos Mundos (espero que vocês estejam lendo e gostando) e revisando os textos de alguém muito querido.

De qualquer modo, chegamos a trágica (?) história de Aimberê e Araquém. Quando comecei a escrevê-la, seria parte de “Historietas Inquietas”, um pequeno projeto pessoal em que estou trabalhando, mas como começou fugir dos padrões das historietas, estou postando-a a parte.

PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU
Por Rita Maria Felix da Silva

Assim falou o Pajé Bacuara, contador de histórias, irmão
do lendário Morubixaba Hurassi, durante a grande
cerimônia Avati Kyry daquele ano:

“Há muito tempo, ─ entre Tupã e Araci descerem dos céus para criarem tudo que existe e o primeiro do nosso povo ter nascido ─ lá longe, onde hoje a terra é sempre seca e nada cresce, havia uma floresta e nela viviam dois irmãos: Aimberê e Araquém. Eram gigantes, maiores que os montes. Quando sentiam sede, secavam um rio. Se a fome lhes incomodasse, devoravam uma dezena de árvores cada um.

Sem nada para fazer ou que pudesse desafiá-los, Araquém ocupava quase todo seu tempo em dormir. Já Aimberê, que nunca dormia, gostava de caminhar durante o dia e, à noite, jogar grandes pedras contra o céu, no desejo de poder derrubar as estrelas. As pedras, todavia, nunca chegavam ao firmamento e caiam de volta na cabeça do gigante, o que o fazia ferir-se constantemente.

Certa vez, Araquém contou a Aimberê sobre o sonho que tivera: de uma brisa que vagava pelos mundos narrando e escutando histórias, a qual lhe soprou ao ouvido sobre Amonati, a montanha no centro do mundo, mais alta que qualquer coisa e, por isso, se alguém conseguisse subir até o pico poderia alcançar o céu.

─ E derrubar as estrelas! ─ disse entusiasmado Aimberê.

─ Talvez ─ respondeu seu irmão, ─ porém, a brisa também me falou sobre uma lenda de que algo terrível e irrevogável sempre acontece a quem ousar subir aquela montanha.

─ Não importa! ─ retrucou Aimberê ─ Nós iremos até lá e depois… Derrubar as estrelas do céu…

Araquém protestou e recusou-se aquele plano por dias, mas ao final, como sempre acontecia, o irmão o convenceu.

E, assim, seguindo o sonho que Araquém tivera, eles vagaram pela Terra, até Amonati, no centro do mundo, para escalar a montanha mais alta que qualquer coisa.

Não foi uma jornada tranquila ou indolor e tantas aventuras eles viveram ─ algumas gloriosas, outras tolas ou risíveis. No meio delas, Araquém, amaldiçoado por Eçaiara, uma feiticeira de coração rancoroso a quem ele insultara por causa da feiura, perdeu um olho e passou a mancar da perna direita.

Aimberê conheceu e tornou-se amigo de um guerreiro a quem ele chamava de Avaré, que perdera toda a memória de quem já fora e da missão a que dedicara sua vida, pois fora amaldiçoado por Anhangá, o qual foi derrotado pelo guerreiro num jogo de Adugo . Para salvar seu amigo, Aimberê enfrentou uma gigantesca cobra de fogo e, embora tenha vencido a fera, Avaré foi esmagado pelo cadáver da criatura e Aimberê terminou com o lado direito do rosto eternamente desfigurado.

Pelo menos mil histórias são contadas sobre eles dois e o que fizeram naquela viagem. Eu mesmo conheço duas ou três, mas não sei de ninguém que possa contar todas elas.

Fato é que, muito tempo se passou, mas, um dia, os dois irmãos chegaram finalmente a Amonati, a montanha no centro do mundo. Pararam diante dela e Araquém hesitou, porém, graças a insistência de Aimberê, eles começaram a subir.

Contudo, a montanha era ainda mais alta do que eles poderiam imaginar. Por vezes, seus músculos prodigiosos de gigantes falhavam e eles paravam para descansar, esgotados como nunca imaginaram ser possível. Havia o frio, que aumentava à medida que subiam e ameaçava destroçar-lhes os ossos e a fome devorando seus estômagos, pois a comida que levaram inevitavelmente acabou. Mas, acima de tudo, estava o rugido selvagem dos vento, que gritava aos ouvidos deles como se todas as feras do mundo gritassem ao mesmo tempo, e reinava suprema aquela sensação de desesperança e desolação, como se o mundo, os deuses e tudo que existe houvesse se esquecido deles.

Como sempre fora, Araquém continuava apenas porque seguia o irmão e era nessa lealdade, que ele sentia minguar vagarosamente, na qual ele se sustentava.

Aimberê se agarrava ao desejo de derrubar as estrelas do céu. Repetia para si mesmo que logo chegariam ao topo e se esforçava para manter a chama dessa vontade ainda acesa em seu coração. Porém, em seu peito, o coração de gigante começava a parecer pequeno demais para animá-lo a continuar.

Então certo dia ─ ou noite, o tempo havia perdido todo o significado para eles ─ Araquém assim falou:

─ Irmão, não aguento mais. Eu lhe segui por toda a vida e seguiria até o fim, mesmo agora que minhas forças não mais existem. Porém, o medo me domina e é mais poderoso do que eu sonharia algum dia ser. Meu coração grita que algo muito ruim e irrevogável vai acontecer e, por isso, eu recuo. Perdoe-me se sou covarde. Desejo-lhe sorte. Adeus.

Aimberê olhou pela última vez para Araquém, que começava a descer. Sabia que o irmão nunca conseguiria voltar ao chão vivo, que tombaria no caminho e despencaria para morrer lá embaixo. Não importava. Tinha ido longe demais para desistir… E, assim, concentrou-se no seu desejo de derrubar estrelas (iria derrubar todas elas) e prosseguiu sua subida.

Então, um dia, e Aimberê sentia-se velho e enrugado, ele acreditou que finalmente estava perto do topo, era preciso esforçar-se só um pouco mais e conseguiria, no entanto… Algo aconteceu e ele parou. Ficou em silencio, ponderou sobre tudo o que havia passado naquela subida, até mesmo em seu irmão, uma memória distante, cujo nome já não mais lembrava. E algo quebrou-se em sua alma, ou se recompôs ou se desfez… Quem pode saber? E ele mudou e alcançou a sabedoria e a iluminação. Olhou para o espaço ao redor dele e depois para seu próprio interior, até seu eu mais profundo, e veio-lhe uma compreensão de si mesmo e de todas as coisas como nunca imaginou que fosse possível. Tendo entendido e aprendido uma verdade maior por trás e por dentro de todas as coisas, Aimberê percebeu que não havia motivo algum por que lutar, persistir ou fazer qualquer coisa… Nem mesmo derrubar estrelas do céu. Nem mesmo existir. E assim, sem tristeza ou alegria, sem medo ou desejo, ele permitiu e a matéria de seu corpo se desfez no vento do topo da daquela montanha e se espalhou por todos os cantos do mundo.

Esta é a lenda de Aimberê, o gigante que ousou escalar Amonati, a montanha no centro do mundo. Assim tem sido contada desde mil gerações antes de eu nascer e será contada ainda por muito tempo, enquanto os deuses permitirem que este mundo continue a existir”.

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege

maio 16, 2016 at 1:05 am Deixe um comentário

CRÔNICAS DA GUERRA DOS MUITOS MUNDOS – VOLUME I

Oi, pessoal,

Este post é para divulgar o ebook CRÔNICAS DA GUERRA DOS MUITOS MUNDOS – VOLUME 1, que tive a honra de organizar.

No livro, o Multiverso é assolado por um terrível conflito. Gritos de guerra, a Guerra dos Muitos Mundos, ecoam em cada canto, pois duas superpotências  multidimensionais disputam o controle de todos os universos. De um lado, o Novo Império Apoloniano. Do outro, a Resistência de Kendack. Treze autores aceitaram contar estas histórias agora é sua vez de lê-las.

A capa abaixo é do mais que brilhante Néry Freitas, o John J. Muth nacional.

Em formato epub. Breve sai o pdf.

LINK PARA DOWNLOAD

 

capa

abril 17, 2016 at 3:58 am Deixe um comentário

VIDA, VIDA

Oi, pessoal,
Tecnicamente falando, este é meu primeiro texto de 2016, até porque comecei a escrevê-lo logo na primeira madrugada deste novo ano. É uma reflexão bem humilde e despretenciosa.
Boa leitura.

VIDA, VIDA

VIDA, Ó VIDA
SOBERBAMENTE VIVIDA

VIDA, Ó VIDA ABENÇOADA
SUPERLATIVAMENTE VALORIZADA

VIDA, Ó VIDA MARAVILHOSA
FREQUENTEMENTE DESDITOSA

VIDA, Ó VIDA TÃO AMADA
CRUELMENTE ARRANCADA

VIDA, Ó VIDA
O QUE POSSO DIZER-TE?
COMO POSSO VIVER-TE?

SE COM TODOS ÉS ASSIM
ENGANAS A OUTROS E A MIM
POIS A ESPERANÇA MORRE NO FIM

VIDA, Ó VIDA, TANTA CRUELDADE TENS
POIS BEM LÁ NO FINAL COM DESDÉM
A TUA IRMÃ A MORTE SEMPRE VEM

Poesia: Rita Maria Felix da Silva

janeiro 7, 2016 at 12:44 am 3 comentários

HQ-BIZARRIAS 8 DE 10 – O MAJOR RASSKASOV VAI AO PSICANALISTA

Pessoal,

Bem-vindos a oitava história da série “Bizarrias”. Agora faltam apenas duas para concluir esta sequência de quadrinhos. Semelhante a “Bruno”, esta é outra pequena contribuição minha à causa e luta LGBTT, lembrando que o humor é uma ótima arma para ser usada contra a opressão.

Algum leitor meu do tipo mais purista talvez alegue que, nesta história, reutilizei um tema que já apareceu em “Bizarrias”, aí vou me sentir no impulso de discordar. Usei sim o mesmo tipo de criatura, mas a temática e a história são completamente diferentes.

Sobre a gênese dessa história (sem detalhar muito para não fazer spoiler), O Major Bóris Rasskasov e Nikolai foram pensados para um aparição curtíssima numa história bõnus dessa série. Não sei se ainda farei essa história, mas depois posso falar mais sobre isso de bônus…

Bem, já falei muito e estou retendo vocês de passar para essa história, mas antes quero registrar meus aplausos para a artista Débora Caritá. Eu a considero como brilhante e adorei o trabalho de arte dela para “O Major…”. É a segunda vez que os Deuses e Deusas me deram a graça de tê-la como colaboradora num trabalho meu (ganha um  doce virtual quem descobrir qual foi a primeira). Pessoal, fiquem atentos: essa garota tem muito futuro. Ainda vai ser uma das grandes dos quadrinhos.

Beijos, boa leitura!

WEB Bizarrias 8-1_pag-01

WEB Bizarrias 8-2_pag-02

novembro 14, 2015 at 7:42 pm 2 comentários

Outro Amor

Pessoal,

Para os mais curiosos, este é apenas um poema ficcional,ok?

Não é dirigido a ninguém real.

Boa leitura.

OUTRO AMOR

 

Outro amor…

É do que tu precisas

Outro amor…

Que te devolva o dom de sorrir

Outro amor…

Que te faça o coração bater mais rápido

Outro amor…

Que te proteja da solidão da vida

Outro amor…

Que dê cor a teus dias chuvosos

Outro amor…

Que te possa enlouquecer de amor

Outro amor…

Que não te parta o coração

Outro amor…

Que não encha de lágrimas teus olhos

Outro amor…

Que não te abandone no frio da noite

Outro amor…

Que não te troque por outros braços

Outro amor…

Que ria e chore contigo

Outro amor…

Que te faça gritar de prazer

Outro amor…

Que eu rezo seja eu

Poema: Rita Maria Felix da Silva

novembro 9, 2015 at 3:37 am 3 comentários

PENSADRÔMIO

Quando escrevi a primeira versão deste texto, achei que não funcionasse como um poema, por isso transformei-o numa prosa.
Foi quando o mostrei ao escritor Daniel Folador (Daniel é um dos melhores escritores brasileiros que conheço, o cara é realmente bom, e eu costumo epitetá-lo de “Neil Gaiman brasileiro em estado embrionário”, um título que ele, humildemente, recusa). Dan, porém, opinou que poderia ser sim um poema. Realmente, obrigada, Dan.

PENSADRÔMIO

Porque pessoas poderosas não podem pensar
Porque pessoas poderosas não sabem pensar
Pessoas poderosas não vão te deixar pensar

É crime, é grave infração, é anticonstitucional
Porque quem pensa logo pode poder vir a duvidar
E se duvidares de teu rei o que teu rei será?

Todos sabem, nunca foi nem mesmo um segredo
Sim, pessoas poderosas morrem e tremem de medo
Daquelas pessoas comuns que vivem a pensar, pensar

Pessoas poderosas matam de bala, espada e tortura
Quem troca a tranquila, ordeira e sagrada apatia
Pelo caos, turbulência e transgressão de pensar

Vou fixar minha cabana humilde e desprentenciosa
Mas tão intelectualmente engajada e consciente
No topo de colina economicamente desinteressante

E lá montar meu novo mundo aparte, isolado, escondido,
Pós-utopia e todo o Capitalismo, para só comer e dormir
E estudar Sócrates, Marx, Mafalda e Simone de Beauvoir

Pensadrômio s.m. obra literária (em prosa ou verso), geralmente curta,
que trata do ato de pensar.

Poema: Rita Maria Felix da Silva

novembro 2, 2015 at 6:17 am 1 comentário

Fragmento 002 – Bruno

Bruno escutou “Shiny Happy People”, do R.E.M., tocando no rádio quando se arrumava para ir a aula e se apaixonou por essa música. Vivia assobiando ou cantarolando-a baixinho.

Na escola, durante o recreio, ligava o celular e ficava cantando e dançando “Shiny Happy…” no pátio ou no estacionamento. Eram os momentos mais felizes da sua vida.

Fernando, outro aluno, corpulento e duas séries mais adiantadas que ele, odiava aquilo. Dizia que era “coisa de gay”. Odiava tanto que juntou três amigos semelhantes a ele e colocou um plano em ação. Pagou, com uma nota de cinquenta, ao vigilante para que este fosse “dar uma voltinha” e deixasse a guarita do estacionamento vazia uns minutos.

Naquela tarde, quando o recreio começou e Bruno dançava no estacionamento, Fernando e os seus, com pedaços de pau e um cano de ferro, deram-lhe a maior surra de que já se ouviu falar. O rosto virou uma massa desfigurada de sangue e carne. Partiram-lhe mais ossos do que seu corpo poderia aguentar.

Chegou já morto ao Hospital Santa Emília numa tarde chuvosa de quinta-feira. O enterro foi lá no Cemitério João da Paz, num sábado de sol ardente como o Inferno, uma semana antes do que teria sido seu décimo-quarto aniversário.

Na polícia, Fernando e seus comparsas apenas disseram que a surra não foi por maldade: era “pra Bruno aprender a ser homem”.

FIM

outubro 20, 2015 at 7:31 pm 10 comentários

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