MINHA FORÇA É COMO A DE DEZ, PORQUE MEU CORAÇÃO É PURO

Uma batalha terrível entre um herói e um monstro, cada um engajado em sua causa. Porém, nada é o que parece.

Continue Reading setembro 14, 2016 at 3:02 am 2 comentários

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Recentemente, foi aniversário do filhote. Ele completou dezoito anos finalmente, mas, como digo, será sempre meu bebê.
Ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano, ele pediu dois. Um deles foi “Giuseppe, o de Muitos Corações”. O outro é este.
Boa leitura.
P.s. Ele gosta de histórias bizarras.

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Por Rita Maria Felix da Silva

Tarde de domingo. Um daqueles dias realmente típicos na Vila Zeca Timóteo ─ que, se você não lembra das aulas de Geografia, fica lá no município de Santana da Serra, Zona da Mata Norte de Pernambuco.
Num banco de praça, dormia Seu Aquiles, um idoso gordo, barrigudo e de cuja cabeça os cabelos já haviam se despedido. O sono profundo daquele ancião era embalado pelo som de seu próprio ronco, que se rivalizava com o barulho de qualquer um desses grandes caminhões modernos. No meio da testa, colado com o nariz, havia apenas um grande, fechado e único olho (razão pela qual ele invocava ancestralidade grega). Vez ou outra, da boca escapava uma baba verde que se espalhava pelo chão. Um pequeno pardal, mais curioso que seus semelhantes, pousou, provou aquele líquido esmeralda e caiu estendido tão morto quanto a honestidade na política brasileira.
Perto de Seu Aquilles, Neco de Tonha aguardava com o carrinho de pipocas. Aquele pipoqueiro oferecia seu produto em três tipos, ao gosto do freguês: doce, salgada ou azul. Um mosca das mais graúdas passou voando perto da cabeça dele. Neco abriu a boca e sua língua se esticou uns cinquenta centímetros para fora até capturar o inseto, que ele engoliu com satisfação. Depois, tirou do bolso da camisa xadrez um caderninho de anotações e marcou um número lá. Cento e cinquenta e um, esta semana. Logo iria bater seu próprio recorde.
Bem perto de onde estava Neco, Inhá Matilda ─ que, com seus quarenta e oito anos, nunca realizara o sonho de se casar por amor, porque, na verdade, nunca conseguira se apaixonar por ninguém ─ estava de quatro no chão. Seu brinco favorito caíra da orelha e ela o procurava pela grama com o mesmo desespero de quem anseia encontrar um filho perdido. Sem que Matilda percebesse, próximo a seu bumbum pairava um cupido adorável, porém, psicopata e assassino serial ─ razões pela qual Zeus o expulsara do Olimpo já fazia tempo. Sem que ela sequer sonhasse, aquela criaturinha alada apontava-lhe para as nádegas uma flecha explosiva o bastante para reduzir aquela mulher a tantos pequenos pedaços que seria cansativo de contar.
À direita de Matilda, havia um arbusto, atrás do qual um grupo de cinco crianças observava com atenção um crânio, obviamente sem corpo, que saltitava e quicava pelo chão da praça. Os pequeninos não se escapavam de fazer seus próprios comentário diante do evento:
─ Que Massa! ─ disse Manezinho.
─ Que lindo! ─ exclamou Juninho Batata.
─ É feito naquele desenho da Disney! ─ opinou Mariazinha de Leléu.
─ Papai vai comprar um desses pra mim! ─ jurou Tulinho Pedreira.
─ Parece biscoito recheado! ─ classificou Luquinhas e completou ─ Eu quero um pedaço!

FIM

agosto 28, 2016 at 3:17 am 1 comentário

GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Pessoal,

Nos próximos dias, meu filhote completa dezoito anos. No aniversário dele do ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano ele pediu dois. Este é um deles.
Sim, ele gosta de histórias bizarras e extremas (e, em parte também, foi bom escrever isto porque tratar com as metarrealidades da séria “Historietas Inquietas” e a metáfora amarga de “A Metáfora dos Macacos” tem me deixado com um gosto azedo na alma…)
Boa leitura!

GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Numa humilde casinha branca de portas verdes, que ficava depois da Terra de Nod, lá na beira de um abismo bem pertinho do Inferno, onde fica o fim do mundo, era lá nessa casinha que morava Giuseppe Martins e há tanto tempo ele já vivia naquele lugar que se esquecera de sua vida antes de chegar ali.
De todas as coisas que podiam ser contadas sobre ele, havia duas ou três que eram realmente notáveis:

A primeira delas é que Giuseppe já tivera não apenas um, mas sim mil corações, todos pequeninos o bastante para caberem naquele corpo, mas cada um deles era tão poderoso que, sozinho, poderia mantê-lo vivo.
A segunda coisa notável sobre ele é que padecia de um tédio crônico e uma tristeza daquele tipo incurável, e isso levava a terceira das características mais curiosas daquele homem:

Quando estava mais triste do que de costume e seu tédio se tornava maior do que ele poderia sonhar aguentar, Giuseppe arrancava um daqueles corações e, assim, a tristeza aliviava quase a ponto de ir embora e o tédio se aquietava tão calminho, como se até não existisse. E, por algum curto tempo, ele sentia-se em paz.
E assim se passou o tempo naquela casinha e veio uma época em que Giuseppe, ao invés de mil corações, apenas cem corações lhe restavam…

FIM

agosto 14, 2016 at 1:03 pm 1 comentário

A Metáfora dos Macacos

A METÁFORA DOS MACACOS

Pessoal,

Na atualização de hoje, vou postar dois textos que fogem um bocado do que geralmente escrevo. Eles não são textos agradáveis, são metáforas, mas não ficções.
Pela Internet, tenho visto a tendência de uma multidão de pessoas em condenar o Comunismo/Socialismo e endeusar o Capitalismo. No momento presente, não quero entrar no meio dessa discussão, mas me pergunto aos defensores do Capitalismo se eles observam as mazelas desse sistema econômico antes de alça-lo a algum altar utópico.
Digo isso, porque as relações de trabalho no Capitalismo são horríveis. Pegando um gancho num aspecto mais pessoal, tenho sofrido muito pro conta de um chefe que, bem, tem infernizado minha vida profissional. Não quero entrar em detalhes e preferi desabafar literariamente. Espero que gostem.
Ambos são uma metáfora amarga. Peço que ninguém se ofenda com ela. A crítica é a ele, a empresa e ao Capitalismo em geral que sustenta aberrações como essa. Em parte é também a nós mesmos, pessoas comuns, que, com nossas omissões, permitimos que um sistema assim exista.
Para evitar qualquer má interpretação, esclareço que o termo macaco aqui não tem qualquer conotação racista e não se refere a ninguém considerando sua etnia (o chefe que mencionei é branco como lesma). Uso essa palavra, de forma metafórica, para me referir a ser humano.
Boa leitura.

A METÁFORA DOS MACACOS

I – SIGA O MACACO LÍDER

Esqueçamos nossas ilusões sobre democracia, liberdade, livre arbítrio e direitos humanos. Enterremos essas quimeras em alguma cova bem funda, e, se possível, num lugar distante e esquecido, pois dez mil anos de civilizações nos reduziram a isto:
Somos apenas uma longa fila de macacos, seguindo o macaco que urra mais alto e bate selvagemente no peito sonhando ser o senhor do mundo.
Que os deuses tenham pena de nós…

II – O MACACO NO QUADRADO

Enquanto você crescia, não lhe contaram isso. A vida adulta, porém, por ser uma sádica incurável, é mais sincera e sem pudores para lhe abrir os olhos:
Você é um macaco em seu quadrado. Nunca erga a cabeça, não fale, não olhe para o lado, não pense e não sinta. O que quer que você seja por dentro, qualquer valor que imagine ter, reprima com firmeza, submeta a um eficiente funil para que de seu interior o mais infinitesimal do mínimo possa sair.
Afinal, você não é pago para ser humano. Apenas trabalhe e trabalhe. Produza e produza bem. É só o que se espera de você. É só o que lhe permitirão fazer.
No fim do mês, receba suas bananas ou salário, chame como quiser, mais que isso, no mundo, não cabe a você.

FIM

agosto 12, 2016 at 11:58 am 1 comentário

DUETO ANJO-DEMÕNIO

Pesspal,,

Com este Dueto Anjo-Demônio, eu concluo a pequena trilogia dos duetos.
Esta série, é, em resumo, uma brincadeira sobre dualidades e dicotomias.
Boa leitura.

DUETO ANJO-DEMÕNIO

Eu sou a luz de teu amor
E a sombra em teus sonhos
Eu sou a realização de tuas selvagens vontades
E o punhal no fim de teus tolos desejos
Permita-me roubar-te a doce inocência
E preencher-te com amarga sabedoria
Eu sou a porta para teu futuro
E o cadafalso no fim de teu caminho
Quando em perigo, invoca meu nome
Eu te protegerei da multidão sanguinária
E te abandonarei quando os cães famintos chegarem
Que eu possa ser o chicote em tuas costas
E o bálsamo que te alivia as feridas
Eu sou a soma de teus sonhos
E a forma de teus pesadelos piores
Deixa-me salvar-te a vida
E levar-te a alma em troca

agosto 8, 2016 at 8:40 am Deixe um comentário

Dueto Humano-Feérico

Oi, pessoal,

Este é um poema que eu queria concluir há tempos.
Faz parte de algo que chamo de “Trilogia dos Duetos”.
A primeira parte (“Dueto”) postei aqui. A segunda, está
concluída e breve publico.
Boa leitura!

DUETO HUMANO-FEÉRICO

(SOLANO)
De onde tu vens, do norte ou do sul?
Ó Tu, bela e feroz fada de pele azul
Pois, eu tremo quando me olhas assim
Que será, que segredos trazes pra mim?

(BELISAMA)
Nem do norte ou do sul, não tenhas medo
Venho de onde Judas padece em degredo
Venho de onde o teu mundo encontra o fim
A terra onde jazem os deuses e os serafins

(SOLANO)
Fada de olhos de duas cores desiguais
Desgosta de mim este vento que te traz
Piedade, não digas frases de mau agouro
Acaso deve meu dia terminar em choro?

(BELISAMA)
Humano fraco e de coração temeroso
Devias ser forte e teu espírito vigoroso
Ah, não me invoques essa tal vã piedade
Pois, eu trago para ti somente a verdade

(SOLANO)
Que verdade é essa que trazes assim?
Que não seja a profecia de meu fim
Teu povo é cruel, gosta de jogos
Tuas palavras são fel, cheias de logro

(BELISAMA)
És rude por gratuitamente me insultar
Cruel é teu povo que o mundo vai queimar
Trago avisos, não posso trazer consolo
Vim com a verdade. não me interessa jogo

(SOLANO)
O que tens de dizer, diz agora
Por que insistes em tanta demora?
Sei que pretendes só me torturar
Fadas tem prazer em nos ver penar

(BELISAMA)
És injusto, humano de língua acusadora
Realmente merecias uma tortura duradoura
Mas não vim para jogos, nem folguedos
Trouxe em minha língua terrível segredo

(SOLANO)
Que segredo é esse? Sinto que vais me abalar
Meu coração não devo deixar mais se machucar
Se trouxestes um horror, um vil objeto de dor
Pergunto-me e padeço: onde estará meu amor?

(BELISAMA)
É de teu amor perdido que vim contar
Aquela que procuras sem nunca descansar
Deixa morrer a esperança, é o melhor que farás
Pois tua amada de novo, nunca, nunca encontrarás

Poema: Rita Maria Felix da Silva

agosto 5, 2016 at 12:11 am 1 comentário

Histórias Inquietas (Parte 3)

Oi, pessoal.
Para a atualização desta semana, finalmente um outro historieta inquieta. Sobre a duração desta série, eu diria que deve ter de dez a doze histórias, isso se os deuses me permitirem chegar tão longe.
A frase estranha tem a ver com a fase que estou passada, que, bem, classificá-la de problemática é eufemismo (às vezes, eu gostaria de fazer como o Capitão Adamastor, da peça Alzira dos Navegantes, de Márcia Tondello: simplesmente fechar os olhos, desistir da vida e partir….)
Por conta disso, escrever ficou complicado, pois esta época tem me abalado muito. Assim, uma das coisas que tenho feito é passar idéias para amigos escritores, que podem usá-las em seus próprios textos. Aos menos deste modo, essas idéias não se perdem.
Esta historieta surgiu justamente quando eu passava uma sugestão para um colega, pois uma idéia puxou outra. Também é uma humilde contribuição à causa LGBT, as outras foram o texto Bruno e a Hq O Major Rasskazov, ambos disponíveis aqui no blog. Boa leitura!

6. MOMENTO EM FAMÍLIA

Quando isto aconteceu era inverno, Julho de 2024. Foi em Terra Rubra, distrito de Várzea de Deus, Mata Sul do estado de Pernambuco. Poliana tinha dezenove anos. Cursava administração na faculdade e trabalhava com telemarketing.

Os tempos estavam se tornando mais sombrios. Ela havia desistido de acompanhar noticiários, cansada com o matraquear feroz de evangélicos extremistas e católicos radicais que pregavam selvagemente contra minorias e religiões não-cristãs. O líder deles, o Deputado Federal e Pastor Domingos Viola, quando discursava, o coração daquela jovem inundava-se de medo.

Uma manhã de domingo, ela voltava para casa. Pela primeira vez na vida, passara a noite fora.

Encontrou a mãe numa cadeira, na mesa da cozinha. Dona Lúcia estava de costas, tinha perto dela a Bíblia, sua bolsa e um jornal em cuja leitura parecia totalmente absorvida. Jornal de papel. Recusava-se a usar Internet desde que Viola acusara a Web de ser estratagema do Diabo.

Poliana tomou coragem. Havia decidido que precisava ter aquela conversava com Dona Lúcia. Era o mais correto a fazer.

— Mãe, bom dia. Olha, desculpa, eu não dormi em casa… Desculpa também porque não avisei. Mas tem uma explicação. Quero te contar uma coisa. Sei que a senhora ficou muito, assim…. Cabeça fechada depois que entrou pra essa Igreja, mas é minha mãe e a gente tem de conversar.

“A senhora já deve ter desconfiado disso, claro, mas… Lembra de Elvira? Ela cresceu aqui na vizinhança, a gente era muito amiga, até ela se mudar com a família pra São Paulo. Acontece que Elvira voltou ontem. Mãe, ela tá tão linda! A gente se encontrou por acaso, passamos o dia andando de um lado pro outro.

Ela me chamou pra jantar. A gente conversou muito. Me abri com ela: sobre como não me sinto bem namorando homens, que garotas me atraem, mas eu não tinha coragem de admitir. Quando percebi, nossa, eu e ela, a gente tava se beijando! Foi a primeira vez que eu beijei uma garota. Ela me chamou pra casa dela e a gente, bem… A gente dormiu juntas. Juro que nunca tinha feito isso antes… Mas não me arrependo: foi maravilhoso. Nunca fui tão feliz. Agora entendo que faltava uma parte minha, algo que eu não enxergava, que não queria aceitar. Agora me sinto finalmente completa. Em paz comigo mesma. É, mãe, eu sou lésbica e queria conversar com a senhora sobre isso…”

Com fúria nos olhos, Dona Lúcia virou-se para a filha. Abriu a bolsa e de lá sacou um revólver calibre 38. Atirou por duas vezes contra Poliana que caiu e sangrou no chão da cozinha. Em seu rosto havia apenas um olhar de súplica e confusão. Depois parou de se mover, para sempre.

Dona Lúcia ajoelhou-se chorando, a arma ainda segura na mão direita, e disse:

─ Sua abominação… Eu não queria fazer isso, eu juro… Foi você que me obrigou… Foi você… Foi você… Foi você…

A folha de jornal escorregou da mesa e repousou no chão perto de Dona Lúcia. Na notícia em destaque podia-se ler:


“VITÓRIA DA FAMÍLIA CRISTÃ BRASILEIRA: DEPUTADO PASTOR DOMINGOS VIOLA CONSEGUE APROVAÇÃO DA LEI 14.738/2024 QUE CRIMINALIZA O HOMOSSEXUALISMO E PREVÊ PENA DE MORTE PARA OS INFRATORES
Viola, que já havia saído vitorioso com a aprovação de uma lei que assegura porte de arma a todo brasileiro maior de idade e sem antecedentes criminais, consegue agora, depois de uma grande articulação política, um novo triunfo com a lei 14.738, que, inclusive, autoriza os pais, como forma de poupar despesas ao erário público, que possam eles mesmo executarem seus filhos homossexuais”.


FIM

julho 25, 2016 at 1:57 am Deixe um comentário

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