GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Pessoal,

Nos próximos dias, meu filhote completa dezoito anos. No aniversário dele do ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano ele pediu dois. Este é um deles.
Sim, ele gosta de histórias bizarras e extremas (e, em parte também, foi bom escrever isto porque tratar com as metarrealidades da séria “Historietas Inquietas” e a metáfora amarga de “A Metáfora dos Macacos” tem me deixado com um gosto azedo na alma…)
Boa leitura!

GIUSEPPE, O DE MUITOS CORAÇÕES

Numa humilde casinha branca de portas verdes, que ficava depois da Terra de Nod, lá na beira de um abismo bem pertinho do Inferno, onde fica o fim do mundo, era lá nessa casinha que morava Giuseppe Martins e há tanto tempo ele já vivia naquele lugar que se esquecera de sua vida antes de chegar ali.
De todas as coisas que podiam ser contadas sobre ele, havia duas ou três que eram realmente notáveis:

A primeira delas é que Giuseppe já tivera não apenas um, mas sim mil corações, todos pequeninos o bastante para caberem naquele corpo, mas cada um deles era tão poderoso que, sozinho, poderia mantê-lo vivo.
A segunda coisa notável sobre ele é que padecia de um tédio crônico e uma tristeza daquele tipo incurável, e isso levava a terceira das características mais curiosas daquele homem:

Quando estava mais triste do que de costume e seu tédio se tornava maior do que ele poderia sonhar aguentar, Giuseppe arrancava um daqueles corações e, assim, a tristeza aliviava quase a ponto de ir embora e o tédio se aquietava tão calminho, como se até não existisse. E, por algum curto tempo, ele sentia-se em paz.
E assim se passou o tempo naquela casinha e veio uma época em que Giuseppe, ao invés de mil corações, apenas cem corações lhe restavam…

FIM

agosto 14, 2016 at 1:03 pm 1 comentário

A Metáfora dos Macacos

A METÁFORA DOS MACACOS

Pessoal,

Na atualização de hoje, vou postar dois textos que fogem um bocado do que geralmente escrevo. Eles não são textos agradáveis, são metáforas, mas não ficções.
Pela Internet, tenho visto a tendência de uma multidão de pessoas em condenar o Comunismo/Socialismo e endeusar o Capitalismo. No momento presente, não quero entrar no meio dessa discussão, mas me pergunto aos defensores do Capitalismo se eles observam as mazelas desse sistema econômico antes de alça-lo a algum altar utópico.
Digo isso, porque as relações de trabalho no Capitalismo são horríveis. Pegando um gancho num aspecto mais pessoal, tenho sofrido muito pro conta de um chefe que, bem, tem infernizado minha vida profissional. Não quero entrar em detalhes e preferi desabafar literariamente. Espero que gostem.
Ambos são uma metáfora amarga. Peço que ninguém se ofenda com ela. A crítica é a ele, a empresa e ao Capitalismo em geral que sustenta aberrações como essa. Em parte é também a nós mesmos, pessoas comuns, que, com nossas omissões, permitimos que um sistema assim exista.
Para evitar qualquer má interpretação, esclareço que o termo macaco aqui não tem qualquer conotação racista e não se refere a ninguém considerando sua etnia (o chefe que mencionei é branco como lesma). Uso essa palavra, de forma metafórica, para me referir a ser humano.
Boa leitura.

A METÁFORA DOS MACACOS

I – SIGA O MACACO LÍDER

Esqueçamos nossas ilusões sobre democracia, liberdade, livre arbítrio e direitos humanos. Enterremos essas quimeras em alguma cova bem funda, e, se possível, num lugar distante e esquecido, pois dez mil anos de civilizações nos reduziram a isto:
Somos apenas uma longa fila de macacos, seguindo o macaco que urra mais alto e bate selvagemente no peito sonhando ser o senhor do mundo.
Que os deuses tenham pena de nós…

II – O MACACO NO QUADRADO

Enquanto você crescia, não lhe contaram isso. A vida adulta, porém, por ser uma sádica incurável, é mais sincera e sem pudores para lhe abrir os olhos:
Você é um macaco em seu quadrado. Nunca erga a cabeça, não fale, não olhe para o lado, não pense e não sinta. O que quer que você seja por dentro, qualquer valor que imagine ter, reprima com firmeza, submeta a um eficiente funil para que de seu interior o mais infinitesimal do mínimo possa sair.
Afinal, você não é pago para ser humano. Apenas trabalhe e trabalhe. Produza e produza bem. É só o que se espera de você. É só o que lhe permitirão fazer.
No fim do mês, receba suas bananas ou salário, chame como quiser, mais que isso, no mundo, não cabe a você.

FIM

agosto 12, 2016 at 11:58 am 1 comentário

DUETO ANJO-DEMÕNIO

Pesspal,,

Com este Dueto Anjo-Demônio, eu concluo a pequena trilogia dos duetos.
Esta série, é, em resumo, uma brincadeira sobre dualidades e dicotomias.
Boa leitura.

DUETO ANJO-DEMÕNIO

Eu sou a luz de teu amor
E a sombra em teus sonhos
Eu sou a realização de tuas selvagens vontades
E o punhal no fim de teus tolos desejos
Permita-me roubar-te a doce inocência
E preencher-te com amarga sabedoria
Eu sou a porta para teu futuro
E o cadafalso no fim de teu caminho
Quando em perigo, invoca meu nome
Eu te protegerei da multidão sanguinária
E te abandonarei quando os cães famintos chegarem
Que eu possa ser o chicote em tuas costas
E o bálsamo que te alivia as feridas
Eu sou a soma de teus sonhos
E a forma de teus pesadelos piores
Deixa-me salvar-te a vida
E levar-te a alma em troca

agosto 8, 2016 at 8:40 am Deixe um comentário

Dueto Humano-Feérico

Oi, pessoal,

Este é um poema que eu queria concluir há tempos.
Faz parte de algo que chamo de “Trilogia dos Duetos”.
A primeira parte (“Dueto”) postei aqui. A segunda, está
concluída e breve publico.
Boa leitura!

DUETO HUMANO-FEÉRICO

(SOLANO)
De onde tu vens, do norte ou do sul?
Ó Tu, bela e feroz fada de pele azul
Pois, eu tremo quando me olhas assim
Que será, que segredos trazes pra mim?

(BELISAMA)
Nem do norte ou do sul, não tenhas medo
Venho de onde Judas padece em degredo
Venho de onde o teu mundo encontra o fim
A terra onde jazem os deuses e os serafins

(SOLANO)
Fada de olhos de duas cores desiguais
Desgosta de mim este vento que te traz
Piedade, não digas frases de mau agouro
Acaso deve meu dia terminar em choro?

(BELISAMA)
Humano fraco e de coração temeroso
Devias ser forte e teu espírito vigoroso
Ah, não me invoques essa tal vã piedade
Pois, eu trago para ti somente a verdade

(SOLANO)
Que verdade é essa que trazes assim?
Que não seja a profecia de meu fim
Teu povo é cruel, gosta de jogos
Tuas palavras são fel, cheias de logro

(BELISAMA)
És rude por gratuitamente me insultar
Cruel é teu povo que o mundo vai queimar
Trago avisos, não posso trazer consolo
Vim com a verdade. não me interessa jogo

(SOLANO)
O que tens de dizer, diz agora
Por que insistes em tanta demora?
Sei que pretendes só me torturar
Fadas tem prazer em nos ver penar

(BELISAMA)
És injusto, humano de língua acusadora
Realmente merecias uma tortura duradoura
Mas não vim para jogos, nem folguedos
Trouxe em minha língua terrível segredo

(SOLANO)
Que segredo é esse? Sinto que vais me abalar
Meu coração não devo deixar mais se machucar
Se trouxestes um horror, um vil objeto de dor
Pergunto-me e padeço: onde estará meu amor?

(BELISAMA)
É de teu amor perdido que vim contar
Aquela que procuras sem nunca descansar
Deixa morrer a esperança, é o melhor que farás
Pois tua amada de novo, nunca, nunca encontrarás

Poema: Rita Maria Felix da Silva

agosto 5, 2016 at 12:11 am 1 comentário

Histórias Inquietas (Parte 3)

Oi, pessoal.
Para a atualização desta semana, finalmente um outro historieta inquieta. Sobre a duração desta série, eu diria que deve ter de dez a doze histórias, isso se os deuses me permitirem chegar tão longe.
A frase estranha tem a ver com a fase que estou passada, que, bem, classificá-la de problemática é eufemismo (às vezes, eu gostaria de fazer como o Capitão Adamastor, da peça Alzira dos Navegantes, de Márcia Tondello: simplesmente fechar os olhos, desistir da vida e partir….)
Por conta disso, escrever ficou complicado, pois esta época tem me abalado muito. Assim, uma das coisas que tenho feito é passar idéias para amigos escritores, que podem usá-las em seus próprios textos. Aos menos deste modo, essas idéias não se perdem.
Esta historieta surgiu justamente quando eu passava uma sugestão para um colega, pois uma idéia puxou outra. Também é uma humilde contribuição à causa LGBT, as outras foram o texto Bruno e a Hq O Major Rasskazov, ambos disponíveis aqui no blog. Boa leitura!

6. MOMENTO EM FAMÍLIA

Quando isto aconteceu era inverno, Julho de 2024. Foi em Terra Rubra, distrito de Várzea de Deus, Mata Sul do estado de Pernambuco. Poliana tinha dezenove anos. Cursava administração na faculdade e trabalhava com telemarketing.

Os tempos estavam se tornando mais sombrios. Ela havia desistido de acompanhar noticiários, cansada com o matraquear feroz de evangélicos extremistas e católicos radicais que pregavam selvagemente contra minorias e religiões não-cristãs. O líder deles, o Deputado Federal e Pastor Domingos Viola, quando discursava, o coração daquela jovem inundava-se de medo.

Uma manhã de domingo, ela voltava para casa. Pela primeira vez na vida, passara a noite fora.

Encontrou a mãe numa cadeira, na mesa da cozinha. Dona Lúcia estava de costas, tinha perto dela a Bíblia, sua bolsa e um jornal em cuja leitura parecia totalmente absorvida. Jornal de papel. Recusava-se a usar Internet desde que Viola acusara a Web de ser estratagema do Diabo.

Poliana tomou coragem. Havia decidido que precisava ter aquela conversava com Dona Lúcia. Era o mais correto a fazer.

— Mãe, bom dia. Olha, desculpa, eu não dormi em casa… Desculpa também porque não avisei. Mas tem uma explicação. Quero te contar uma coisa. Sei que a senhora ficou muito, assim…. Cabeça fechada depois que entrou pra essa Igreja, mas é minha mãe e a gente tem de conversar.

“A senhora já deve ter desconfiado disso, claro, mas… Lembra de Elvira? Ela cresceu aqui na vizinhança, a gente era muito amiga, até ela se mudar com a família pra São Paulo. Acontece que Elvira voltou ontem. Mãe, ela tá tão linda! A gente se encontrou por acaso, passamos o dia andando de um lado pro outro.

Ela me chamou pra jantar. A gente conversou muito. Me abri com ela: sobre como não me sinto bem namorando homens, que garotas me atraem, mas eu não tinha coragem de admitir. Quando percebi, nossa, eu e ela, a gente tava se beijando! Foi a primeira vez que eu beijei uma garota. Ela me chamou pra casa dela e a gente, bem… A gente dormiu juntas. Juro que nunca tinha feito isso antes… Mas não me arrependo: foi maravilhoso. Nunca fui tão feliz. Agora entendo que faltava uma parte minha, algo que eu não enxergava, que não queria aceitar. Agora me sinto finalmente completa. Em paz comigo mesma. É, mãe, eu sou lésbica e queria conversar com a senhora sobre isso…”

Com fúria nos olhos, Dona Lúcia virou-se para a filha. Abriu a bolsa e de lá sacou um revólver calibre 38. Atirou por duas vezes contra Poliana que caiu e sangrou no chão da cozinha. Em seu rosto havia apenas um olhar de súplica e confusão. Depois parou de se mover, para sempre.

Dona Lúcia ajoelhou-se chorando, a arma ainda segura na mão direita, e disse:

─ Sua abominação… Eu não queria fazer isso, eu juro… Foi você que me obrigou… Foi você… Foi você… Foi você…

A folha de jornal escorregou da mesa e repousou no chão perto de Dona Lúcia. Na notícia em destaque podia-se ler:


“VITÓRIA DA FAMÍLIA CRISTÃ BRASILEIRA: DEPUTADO PASTOR DOMINGOS VIOLA CONSEGUE APROVAÇÃO DA LEI 14.738/2024 QUE CRIMINALIZA O HOMOSSEXUALISMO E PREVÊ PENA DE MORTE PARA OS INFRATORES
Viola, que já havia saído vitorioso com a aprovação de uma lei que assegura porte de arma a todo brasileiro maior de idade e sem antecedentes criminais, consegue agora, depois de uma grande articulação política, um novo triunfo com a lei 14.738, que, inclusive, autoriza os pais, como forma de poupar despesas ao erário público, que possam eles mesmo executarem seus filhos homossexuais”.


FIM

julho 25, 2016 at 1:57 am Deixe um comentário

QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU…

Para a atualização desta semana, um poeminha despretencioso.

QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU…

A PRIMEIRA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
FOI NUM SONHO, NO FIM DE UM NOITE DE INVERNO
E ELA NÃO ESTAVA LÁ QUANDO VOCÊ DESPERTOU

A SEGUNDA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
PASSAVA PELA RUA A SEGUNDA MULHER MAIS LINDA DO MUNDO
ELA SORRIU E TEU CORAÇÃO NÃO ERA MAIS TEU

A TERCEIRA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
FOI NUM FUNERAL E ENTRE LÁGRIMAS
SEUS OLHOS E OS DELA SE ENCONTRARAM

A QUARTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
HAVIA UMA GUERRA E TODOS SE PERDIAM PARA TODO LADO
E VOCÊ ACABOU POR SE ENCONTRAR NOS BRAÇOS DELA

A QUINTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
ERA UMA BAILE, COM MÚSICA SUAVE E DESEJO ARDENTE
VOCÊ DANÇOU COM UM ANJO DE OLHOS AZUIS E JUROU AMOR ETERNO

A SEXTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU
VOCÊ ESTAVA DESOLADO E ABANDONADO NUM CANTO
E UMA FADA COMO A PRIMAVERA VEIO SALVAR TEU CORAÇÃO

A SÉTIMA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU
ELA FOI A MAIS AMADA DE TODAS MAS SE FOI ANTES DE VOCÊ
VOCÊ JUROU NUNCA MAIS AMAR E IMPLOROU PARA TAMBÉM MORRER

julho 10, 2016 at 2:40 am Deixe um comentário

Historietas Inquietas (Parte 2)

Numa noite em que o cansaço e as preocupações estão me consumindo, passo um pouco apressada para fazer esta atualização.
Boa leitura!

4. O QUE PAPAI TROUXE PRA MIM

Esta história aconteceu há algum tempo, quando o mundo era diferente, mas não melhor do que hoje.

Foi na cidade de Riacho de São Sebastião, lá na Mata Norte de Pernambuco. Eram sete da noite e a menina esperava na janela de sua casa. Seu pai aproximou-se subindo a Ladeira de Nossa Senhora das Lágrimas. Vinha de terno e gravata. A valise bem segura na mão direita. O rosto, uma mistura de feições cansadas e mal humoradas após mais um dia de trabalho.

A pequena, completara dez anos não fazia nem três meses, esperou que ele estivesse perto o bastante para ouvi-la claramente dizer:

─ Papai, o que o senhor trouxe pra mim? Trouxe amor?

O homem olhou a garota como se estivesse diante da coisa mais absurda do mundo e respondeu:

─ Mas que comédia é essa? Venho daquele Inferno de escritório e você salta com uma pilhéria? Me mato todo dia de tanto trabalhar naquela merda pra por comida na tua boca e na da tua mãe e você sai com essa história de amor? Menina tonta, amor não dá dinheiro, não enche barriga, não paga as contas do mês, não cobre o cheque que vai voltar na segunda-feira ou o aluguel que vence todo dia vinte… Ora essa, por acaso ficou doida? Vem perguntar de amor… Quer saber: para que serve o amor afinal? Pra porcaria nenhuma!

A menina suspirou profundamente, com um desapontamento e sabedoria que escapavam ao entendimento de seu pai, e sentenciou:

─ Se não trouxe amor, então por que voltou pra casa?

Após esta frase, a pequena, que nunca queria ser vista chorando, prendeu as lágrimas e foi buscar refúgio no quarto, em seus livros, que ela pegava emprestado na biblioteca da escola (Julio Verne, Alexandre Dumas, H.R. Haggard, Robert E. Howard, Mary Shelley, Jane Austen, Emily Brontë e alguns outros). Eram seus amigos, sua alegria, e a levavam a lugares certamente mais interessantes que a alma seca de seu pai.

Quanto ao pai, entrou furioso como se quisesse pôr fogo no mundo:

─ Amor? Ora, essa moleca merecia era umas palmadas pelo atrevimento…

Sentou-se na poltrona da sala. Ligou o rádio para escutar um noticiário policial, sangrento e sensacionalista. Acendeu o cachimbo. Gritou duas ou três vezes com a esposa para descarregar as frustrações do dia de trabalho e recusou a sopa que a mulher fizera para ele. Sentia-se indisposto, não queria comer. Pôs o cachimbo de lado e logo adormeceu para um sono sem sonhos, amaldiçoando-se por ter de voltar ao escritório no dia seguinte.

FIM

5. OLEGÁRIO MARIANO, ATOR

Naquele tempo, Olegário Mariano já havia se consagrado como o melhor ator do país. Os críticos e os invejosos iam até mais longe: classificavam-no como o maior de todos os tempos.

Olegário gostava dos elogios, mas os escutava com prudência. Era esforçado, claro, mas não enaltecia o próprio talento, embora reconhecesse que era muito bom.

Todavia, mesmo com toda a prática a que se dedicara desde os quinze anos de idade, ainda não havia conseguido chegar perto de seu maior sonho: a interpretação perfeita, aquela que não apenas convenceria a plateia de forma infalível, mas também até mesmo o próprio ator se esqueceria da realidade. A interpretação seria tão real que se confundiria com o real. Contudo, enquanto os anos lhe encurtavam a vida, acabou por se convencer de que aquela meta era inalcançável.

Entretanto, aos sessenta anos de idade, estava visitando amigos em Santo Antônio do Irajá, cidade do sertão pernambucano, e lá, por insistência dos fãs, aceitou ministrar um curso de interpretação de uma semana.

No último dia do curso, foi mostrar como se interpretava a famosa cena da morte do Capitão Adamastor, na peça teatral “Alzira dos Navegantes”, de Márcia Tondello. Todos conhecem essa parte: quando Adamastor, após perder tudo o que amava, deita-se, fecha os olhos, abre mão da vida e morre.

Olegário havia interpretado essa cena pelo menos vinte vezes em sua carreira, não seria novidade para ele. Primeiro, explicou a importância daquela sequência da peça para a dramaturgia brasileira. Depois, encenou o monólogo com o qual o Capitão Adamastor se despede da vida (“Eu vos digo adeus, meus desafortunados companheiros da humanidade, porém não são mais desafortunados do que eu…” era o começo). Então, deitou-se no palco, fechou os olhos e interpretou o melhor que pôde. Por um segundo, veio-lhe a mente o sonho da interpretação perfeita, mas, com tristeza, ele ignorou o pensamento.

Os alunos olhavam estupefatos para Olegário estendido no chão. Não apenas parecia morto, não apenas era convincente, mas sim, perfeito. Todos se derramaram em palmas e elogios para o velho ator.

Após um tempo, alguém estranhou a demora na interpretação. Chamaram por ele, mas Olegário não respondia. Tocaram-lhe, sacolejaram-lhe o corpo. Nenhuma resposta. Um aluno se preocupou em testar o pulso, verificar os sinais vitais. Nada. Ligaram e veio uma ambulância para levá-lo ao hospital. Os enfermeiros, ao chegarem, tentaram reanimação cardíaca, porém, nada adiantava.

Olegário Mariano já estava morto quando o puseram na ambulância, continuava morto quando chegou ao hospital Casa da Nossa Saúde, naquela cidade, e assim, nessa condição inalterável de morto, foi sepultado dois dias depois num cemitério no Rio de Janeiro.

Até hoje se especula sobre a causa da sua morte, mas os médicos jamais conseguiram determinar qual foi. Clinton Davisson, o maior biógrafo de Olegário Mariano, costumava aplicar certo dito popular para resumir o que ocorrera:

“Viva pela Arte e morra por ela!”

FIM

julho 5, 2016 at 2:05 am Deixe um comentário

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