HQ – TK-52, O ROBÔ

Oi, pessoal,

Esta hq é o resultado de um humilde esforço meu e do artista Diego Josè (vocês precisam conhecer mais do trabalho desse cara), porém é baseada/inspirada na tira cômica “Z-25, o Robô Sensível” do artista argentino Liniers (Twitter: @porliniers). O material artístico de Liniers é extraordinário, recomendo a todos, tanto que nos inspirou a fazer esta hq (em nossa história, você pode achar um link para a tira original de Liniers, que nos autorizou a fazer esta hq).

É só clicar na imagem para ampliá-la.

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abril 27, 2017 at 10:02 pm Deixe um comentário

16 Drabbles

Olá, pessoal,

Peço desculpas pela demora entre a última atualização e esta. Em Outubro do ano passado (2017), algo bem ruim aconteceu em minha vida pessoal e do terremoto resultante.. Bem, viver ficou muito mais difícil.

Tenho em meu computador um arquivo com todos meus textos escritos, desde 2003, quando comecei a levar minha carreira de escritora amadora a sério. Excetuando algumas poucas coisas perdidas (o primeiro capítulo de “A Biografia dos Hellpats”, uma história sobre viagem no tempo que fiz em homenagem a um amigo e minha participação em dois contos coletivos num site agora extinto sobre RPGs) tenho 741 páginas. Excetuei as histórias em quadrinhos dessa contagem (para quem se interessar, tenho cerca de 50 páginas de hqs escritas por mim sozinha ou com parceira de outros autores).

Um sonho que tenho é que esse arquivo chegue a 1000 páginas. Para aumentar a quantidade de texto, impus a mim mesma três desafios. Um deles foi escrever 100 drabbles (minicontos de 100 palavras). Já tenho dezesseis. Faltam só 84.

Posto esses primeiros dezesseis aqui para apreciação de vocês.

Boa leitura.

I-JOANA DA BICICLETA

Pedalar, sempre pedalando. Apenas na sela da bicicleta azul, Joana sentia-se realmente feliz. Passava por ruas e casas; pessoas, carros e vidas, como se nada mais existisse para ela.

Sorriso de satisfação nos lábios, achava graça quando lhe diziam que, se o mundo acabasse, ela, nem mesmo perceberia.

Certa vez, pedalou mais do que de costume, até que parou cansada, debaixo de uma árvore, onde encostou a bicicleta. Sentou-se para descansar. Foi então que olhou ao redor e finalmente viu que todos estavam mortos. Toda a sociedade havia se reduzido a escombros.

Estava sozinha com sua bicicleta.

 

II-LIDE COM ISSO

Jailson se considerava feliz: era rico e casado com uma mulher perfeita.

Em fevereiro, porém, sequências de maus investimentos deixaram-no miserável e sua esposa morreu atropelada por um rabecão.

Um mês depois, voltava para sua nova casa, pequena e alugada. Gritava palavrões. Preferiria lidar com qualquer coisa, menos aquilo.

O computador estava ligado, mostrando o desenho de uma cena absurda na tela, e a frase “Lide com Isso”. Não teve ânimo para rir.

No momento seguinte, igual ao desenho, um demônio apareceu por trás dele e decapitou-o com uma foice.

— Prefere lidar com isso? — Riu a criatura.

III-SEBASTIÃO IMORTAL

Na infância, Sebastião descobriu seu dom, quando sobreviveu, impossivelmente, ao acidente automobilístico que esmagou seus pais. Aos trinta, parou de envelhecer e decidiu aproveitar o tempo para juntar a maior fortuna do mundo.

No século XXII, apaixonou-se obcecadamente por Eunice — tímida, calada e submissa. Casou-se com ela, mas ansiava mantê-la eternamente. Por isso, gastou, em pesquisas, o equivalente ao PIB da Suiça para torná-la, também, uma imortal.

Na segunda-feira, avisaram-no que em, duas semanas, começaria o tratamento final daquela mulher. Ficou eufórico.

Na manhã chuvosa de quarta, a polícia ligou-lhe: Eunice cometera suicídio com arma de fogo ilegal.

IV-SOLANO NO CÉU

Solano era o mais devotado e elogiado cristão de sua igreja. Esforçava-se dia a dia por uma única meta: ir para o céu.

Um dia, ele finalmente morreu e, ao abrir os olhos, viu-se diante do portão do paraíso e de três anjos de feições gentis.

— Oh, Eu consegui! — falou eufórico.

— Sim, e agora — disse um anjo ternamente. —, descobrirá o que acontece a cada humano que aqui chega.

— O que é? — inquiriu Solano.

Os anjos sorriram com seus olhos cheios de fome e atiraram-se sobre aquela alma. Com dentes afiados, fizeram-na em pedacinhos, que devoraram prazerosamente.

V-CAIENA

Diziam que Caiena, costureira de São Ribeirão, interior de Pernambuco, descendia de uma linhagem bimilenar de bruxas, mas ela mesma nunca falava sobre isso.

Embora de jeito simples no vestir-se, não havia mulher mais bela, por isso casou com Juvenal, solteiro mais cobiçado da região. Foram felizes, até que ele morreu, vítima de um assalto em Recife. A partir daí, Caiena vivia sozinha e celibatária.

Porém, sempre a meia-noite, invocava um feitiço proibido, então o fantasma de Juvenal aparecia, tornava-se sólido e faziam amor até o sol nascer e o espírito se dissolver de volta ao reino dos mortos…

VI – COMO SÍSIFO

Como um outro Sísifo, ele também desagradou os deuses, que o condenaram a arrastar uma grande pedra até o alto de um ladeira, apenas para ver o pedregulho despencar lá para baixo e o trabalho ter de se refeito pela eternidade.

Certa vez, porém, passou por ali perto a mais bela das mulheres. Ela parou, olhou para ele ternamente, sorriu e se foi embora.

Ele deslumbrado, perdeu a cabeça e o coração. Já quase no alto da ladeira, distraiu-se e a grande pedra rolou, levando-o junto, até esmagá-lo lá embaixo. Morreu feliz, com um sorriso no rosto.

VII-O JOÃO QUE DORME

João Trazimundo vivia muito deprimido: seu emprego se tornara uma tortura. O casamento, idem. Não suportava mais as pessoas e o mundo.

Uma noite, deitou-se rezando para nunca mais acordar. Dizem que, às vezes, os deuses atendem as preces mais estranhas… E assim foi.

Tudo isto aconteceu há cem anos. Agora, é o ano de 2117 e no Museu Governamental de Curiosidades Históricas, situado em Nova São Paulo, a capital do Império Fascista Brasileiro, sempre está exposto, numa caixão de vidro, o corpo de João Trazimundo, que nunca envelhece ou morre, mas que também nunca acorda.

VIII- CASTANHEDA

Como seu pai, seu avô e seu bisavô, Castanheda fabricava espadas mágicas que eram vendidas ao exército real, o mesmo que não perdia uma batalha há três gerações. Por isso, nenhum invasor cruzava as fronteiras do reino.

Todavia, de uma grande metrópole veio o Dr. Filógenas, que questionava isso de magia: afirmava que era superstição e, assim, as vitórias do exército real deviam-se às estratégias do rei e a coragem dos soldados. Aquele discurso contaminou a todos. As lâminas encantadas foram jogadas fora. Castanheda faliu e morreu de desgosto.

Breve um exército estrangeiro invadiu e escravizou o reino.

IX-OTÍLIO, O DESASTRADO

Dizem que, lá por volta do fim do século XXI, a Ciência desapareceu e a magia dominou o mundo.

Nessa nova era, todos eram feiticeiros, mas Otílio não se dava bem com mágica: era o mago mais atrapalhado de todos. Não acertava um único encantamento. Multidões zombavam dele. Alguns o espancavam por diversão.

Furioso e magoado, enterrou-se no estudo de feitiços proibidos. Jurou vingar-se. Uma noite desmaiou de esgotamento.

Acordou três dias depois, com o sol alto. Caminhou pelas ruas com um sorriso de triunfo no rosto:

Por toda a parte, uma doença misteriosa assassinava as pessoas.

X-ARCTOS, O DUENDE

Arctos, príncipe dos duendes, vencedor de mil batalhas, cuja espada mágica, destreza e coragem tornaram-no lendário naquele mundo, sentia-se terrivelmente entediado de tudo.

Até que Azenite, insidiosa bruxa dos duendes, falou-lhe sobre outro mundo, diferente de tudo que ele já vira. Curioso, Arctos pediu que o transportasse até lá.

Azenite assim o fez e o príncipe caiu num local onde não havia magia. Sua espada, habilidade e coragem se desfizeram. Ficou mergulhado na lama, incapaz de levantar-se, até que os quatro cães de Seu Joca vieram e o destroçaram naquele quintal de Sorocaba, interior de São Paulo.

XI-A ROSA DE ANTON HELSMER

Anton vivia sozinho e isolado de tudo, na propriedade que herdara dos pais, onde se dedicava a estudar Botânica e Magia. Sonhava produzir a mais bela rosa que já se vira.

Empenhou-se por muitos anos, enquanto seus cabelos tornavam-se brancos, porém, nenhum dos resultados lhe agradava.

Um dia encontrou o encantamento correto. Amedrontou-se no início, mas sua idade avançada e seu sonho no coração deram-lhe a coragem necessária.

Fez o feitiço no jardim. Tombou morto. Seu corpo se decompôs e, das cinzas que um dia foram Anton Helsmer, a mais bela e inigualável rosa brotou.

XII-PINGO, O FUGITIVO

Em 2017, a crise econômica devorava o Brasil. Seu Gumercindo, desempregado, afundava-se na bebida. A luz e a água foram cortadas e faltava comida naquela casa.

Numa manhã, o cão Pingo escutou seu Gumercindo conversando com a família: esfomeados, decidiram comer o cachorro. Pingo fugiu imediatamente.

Vagou triste e sem destino, até que, com a barriga faminta, distraiu-se atravessando a BR-101 e foi atropelado.

Então, um grupo de mendigos acampados perto dali, os mesmos que, meses atrás, eram os orgulhosos funcionários de uma revendedora de motos, recolheu o cadáver de Pingo para usá-lo no almoço de domingo.

XIII-PLAUTO

Caído no chão entre paredes acolchoadas, Plauto forçou novamente a camisa de força.

“É uma conspiração…”, murmurou, “Levaram minha família: Helena, Júlio e Mariane. Onde esses demônios esconderam vocês?”

Não choraria. Tinha de ser forte para fugir dali e salvar sua família.

**************

Os enfermeiros Eulálio e Alcebíades olhavam pela abertura na porta da cela do paciente nº 427.

— Quem é ele? — indagou Eulálio.

— Você é muito novo pra lembrar —, respondeu Alcebíades para o novato —. Era um cozinheiro famoso, tinha até programa de televisão. Endoidou e envenenou o jantar da família, mas não lembra do que fez…

XIV-EUSÉBIO, O CAMINHANTE

Caminhando, sempre caminhando. Quanto tempo fazia? Cinquenta anos, e ele não envelhecera um minuto e a morte nunca o alcançava.

Há cinquenta anos, Deus finalmente perdeu toda paciência com a humanidade. Os anjos desceram dos céus e queimaram o mundo inteiro.

Eusébio viu esposa e filha dissolvendo-se nas chamas angelicais. Ele gritou, sem entender porque fora poupado.

Os anjos, por não serem demônios, podiam escolher agir piedosamente e decidiram deixar uma única lembrança de que o ser humano já caminhara sobre a Terra.

E olharam para Eusébio e o amaldiçoaram a caminhar sobre o mundo para sempre.

XV-AMARYLLIS

Amaryllis, a cantora, descobriu ter o dom de manipular as pessoas com suas canções: faze-las reprimir o lado maligno do próprio coração. Com esse poder, sonhava mudar o mundo.

Logo tornou-se a sensação daquele país. Uma noite, apresentava-se na chique boate Vladimir Chenier, mas quando ia começar, um estranho levantou-se, olhou para ela e atirou-lhe direto na cabeça.

Amaryllis foi enterrada dois dias depois. O país cobriu-se de luto. Oficialmente fora assassinada por um fã louco que desaparecera.

O assassino, na verdade, um demônio chamado Remíscar, voltara ao Inferno, com a certeza de que o status quo seria mantido.

março 26, 2017 at 3:59 am Deixe um comentário

Gerald Bensamir

GERALD BENSAMIR

Ontem à tarde, Gerald Bensamir estava aprendendo Português. Embora digam que esta é uma das línguas mortas[1] mais difíceis da Galáxia, Gerald adora desafios. Ele até riu com os verbos portugueses e suas quase infinitas terminações. Achou-os diabolicamente divertidos.

Além de estudar línguas exóticas, o Sr. Bensamir tem outro passatempo incomum: colecionar planetas. No último verão, ele adquiriu mais três novos mundos. Se isso lhe trouxe grande prazer, todavia, obrigou-o a tomar algumas medidas extremas.

Um desses planetas era uma esfera vermelha habitada por humanoides, que, com exceção da pele azulada, eram de todo idênticos ao seres humanos, inclusive nos defeitos. Incomodado, Gerald contratou uma firma de extermínio de pragas e eliminou todos os humaníticos daquele precioso novo mundo.

Um outro planeta adquirido era coberto, em toda a sua superfície, por um único ser vivo, que consistia de uma membrana orgânica alaranjada de um quilômetro de espessura. Era também consciente, filosófico e abençoado com uma inteligência fenomenal. Porém, quando pensava, aquela criatura liberava, direto na atmosfera, o gás mais fétido que se possa imaginar. Não foi difícil para Gerald deduzir o motivo de outros seres daquela esfera terem sido extintos (como atestava os fósseis encontrados). O cheiro nauseabundo dos pensamentos da criatura realmente incomodava Bensamir e ele mandou que seus especialistas realizassem, com produtos químicos, uma versão em escala planetária para uma lobotomia. Logo, Gerald estava satisfeito ao constatar que os gases nauseabundos cessaram de ser emitidos.

O terceiro planeta era uma maravilha de diversidade de formas de vida. A mais notável, porém, eram flores que cobriam dois quartos da área total daquele mundo. Gerald logo descobriu que tratavam-se de organismos inteligentes que conversavam entre si numa linguagem aparentemente ininteligível. Ele não teve demora e – apoiado por um batalhão de linguistas – dedicou-se a tarefa de decifrar aquele idioma floral. O esforço foi recompensado quando ele finalmente pôde entender o diálogo incessante daquelas plantas, mas seu coração se encheu de repulsa e desapontamento: as flores eram racistas, supremacistas e conspiradoras, e tramavam para extinguir os outros seres vivos daquela mundo para que apenas a espécie delas restasse.

Gerald acionou seu grupo de geneticistas, que liberaram um vírus experimental e as flores sofreram uma regressão evolutiva de talvez dez milhões de gerações até voltarem a ser vegetais inofensivos e de pouca inteligência que cantarolavam entre si grunhidos igualmente inofensivos e sem importância.

Como os negócios estavam andando muito bem e a fortuna de Gerald Bensamir crescia de forma absurdamente generosa, ele pensou em expandir sua coleção: por que limitar-se a colecionar planetas, quando podia fazer isso com galáxias?

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege e Fernanda Turesso

[1] pelo menos, até onde se sabe, o último falante da Língua Portuguesa, um certo Sr. Joaquim Farias de Messa, habitante de Nova Lisboa, planeta Terra, morreu na Grande Guerra Genocida do fim do século XXIII.

outubro 26, 2016 at 3:07 am 1 comentário

Historietas Inquietas (parte 3)

7.O MAU HUMOR DE EZEQUIAS

 

Era dos mais deploráveis o humor de Ezequias Medeiros. Acordava tendo o mundo como inimigo e a vida, como o pior dos flagelos. Tudo, e até mesmo alguns absurdos, era motivo para deixá-lo caído numa depressão que dava medo.

— Realmente odeio tulipas. – disse, certa vez, numa manhã de segunda-feira — Tenho por elas um ódio entranhando em minha alma. Considero-as como flores de uma idiotice desmedida. Se acaso pudesse, eu exterminaria toda a espécie das tulipas deste mundo.

E então arrumou-se para ir ao trabalho, implorando que o mundo acabasse antes de ele chegar até a empresa.

Numa noite de terça-feira, após assistir na TV a um jogo em que seu time favorito havia perdido de um a zero, foi deitar-se com uma nova conjectura:

— Fico indignado com a forma esférica. É de um mau gosto que me dói as entranhas. Quem diabos condenou as pobres bolas a serem esféricas? Abomino seja quem for que tenha imposto essa tirania a elas. Onde fica o livro arbítrio das bolas? Tenho pena delas! Ah, os deputados e senadores, esses desocupados, por que não fazem uma lei proibindo a forma esférica neste país?

E foi dormir sentindo-se invejoso dos mortos no terremoto do Haiti, os quais, ao menos, seriam poupados de acordar no tedioso dia seguinte.

No fim de uma tarde de quarta-feira, voltava do trabalho lamentando-se que algum atentado terrorista a tiros não tivesse ocorrido na cidade, pois, afinal, nada de realmente interessante parecia acontecer naquele município tediamente amaldiçoado.

Em casa, arriou pesadamente o corpo numa poltrona velha, tomou por única companhia uma xícara de café amargo com leite desnatado, olhou para um dicionário jogado num canto da sala e filosofou:

— E ainda há quem defenda essa classe incômoda dos adjetivos! Por que aqueles gramáticos, que ocupam nosso tempo com sandices, não abolem esses tais adjetivos da Língua Portuguesa? – e bebericou um pouco de café — Passaríamos muito bem sem essas coisas.

Na noite da quinta-feira chuvosa, que se seguiu, Ezequias ocupava-se de um jornal enquanto os céus castigavam as ruas da cidade com o maior aguaceiro daquele ano. Ele parou a leitura por um momento e disse desgostosamente:

— Aqui chove como o Diabo, lá no sertão, uma única gota de chuva não é vista há meses… Que natureza é essa, que não sabe dividir os recursos hídricos? Que repartisse esse tanto todo de chuvas entre aqui e os coitados dos sertanejos! Não sabe a natureza as noções mais básicas de gerenciamento? É o que digo: esta é a desgraça deste país: a ignorância, pois, nesta terra, até a natureza não sabe o que faz.

Na sexta-feira, acordou indisposto como o Inferno. Nem mesmo queria se levantar. Grunhiu algum palavrão impossível de ser escrito e murmurou:

— Desprezo com todo meu coração esse tal de oxigênio, esse elemento químico intrometido que se atreve a invadir minhas narinas sem convite algum. Pelo hidrogênio ou hélio, tenho lá minha simpatia, mas esse oxigênio merece que eu cuspa-lhe na cara! Estou decidido, não quero mais essa coisa nojenta em meus pulmões.

Ficou na cama fazendo planos. Sabia que tentar prender a respiração ou estrangular-se com as próprias mãos seria inútil. Então, lembrou-se do faroeste a que assistira na semana anterior e foi a mercearia Neco Rodrigues & Filhos. Esperou na porta até as 07:00 h, quando aquele estabelecimento abriu, e comprou a melhor e mais forte corda que o Sr. Rodrigues pôde oferecer.

Voltou para casa, prendeu a corda num viga no teto da cozinha, subiu numa cadeira, fez um laço e colocou-o no pescoço, e saltou para frente, como quem procura o infinito.

Morreu com um sorriso nos lábios. Partira vitorioso: havia derrotado o oxigênio.

 

Fim

 

outubro 6, 2016 at 4:14 am Deixe um comentário

AS MEMÓRIAS DO PEQUENO MARIO LUIGI ROSSO

Oi, pessoal,

Um dia desses fui visitar um amigo e uma frase dita pelo filho pequeno dele ficou em minha minha cabeça e foi a semente para esse texto.

Além da frase do garotinho, eu também tinha em mente algo que penso há tempos: esse texto vai ser meio que minha resposta a Harry Potter. Não, eu gosto de HP,não é isso, apenas sempre pensei que dar poderes mágicos a crianças não geraria um universo tipo o do Sr. Potter…

Boa leitura!

AS MEMÓRIAS DO PEQUENO MARIO LUIGI ROSSO, 10 ANOS,
MAGO EM TREINAMENTO
Volume I

Anotação # 112

Papai estava preso dentro do telefone. Fui eu que joguei um feitiço e coloquei ele lá, mas não consegui mais tirar. Papai começou a sufocar. Fiquei com pena. Aí usei uma poção venenosa muito forte. Ele morreu rapidinho. Melhor do que ficar sofrendo, não é mesmo?

Anotação # 215

Hoje transformei todos os outros meninos da escola em sapos e as meninas, em estátuas. Será que ficava melhor o contrário? Acho que nunca vou saber: não consegui reverter os encantamentos. Foi mal, pessoal. Acho que preciso treinar mais. Pelo menos, vão fechar a escola depois disso. Nunca gostei mesmo daquele lugar.

Anotação # 313

Estou numa nova escola, que é ainda pior do que a primeira! A professora de Matemática, Dona Ziza, me deu zero na prova da 3ª Unidade. Fiquei fulo de raiva com ela. Transformei ela num cachorro e vendi para os pais de Zezinho, que queriam muito um bichinho de estimação para o filho. Eles ficaram me perguntando onde arranjei um cão tão bonito e esperto. Eu desconversei. Com o dinheiro, comprei um monte de figurinhas novas para meu álbum “Heróis do Futebol”. É, não sei fazer figurinhas com mágica. Ainda não.

Anotação # 320

Eu já disse que adoro minha Avó? Pois adoro! Ela é, tipo assim, a avó mais legal do mundo, e faz os bolos mais deliciosos que você pode imaginar. Todo ano, ela participa daquele concurso de bolos e tortas da Prefeitura, mas sempre perde para Dona Maria Sorriso, uma velha chata que é a fofoqueira mais nojenta de nossa rua. Acontece que esse ano Vovó venceu o concurso, porque, de repente, Dona Sorriso morreu de ataque do coração um dia antes da data do concurso. Bem, feitiços mortais são um pouquinho difíceis de fazer, mas, como eu disse, amo minha avó.

Anotação # 325

Desde o que aconteceu com papai, eu melhorei muito em fazer feitiços de encolhimento. Hoje encolhi minha irmã. Já contei sobre ela? Era mais velha do que eu, se achava muito certinha e queria mandar em mim como se fosse minha mãe. Ficava me beliscando e puxando minha orelha o tempo todo. Era uma malvada! E ainda ficava zombando de mim, porque sou pequeno pra minha idade: “Trepeça pequena! Tu não vai crescer, tu vai é virar anão!”. Detestava ela! O pior é que eu sabia que mamãe gostava mais daquela monstra do que de mim. Encolhi minha irmã e joguei pra uns gatos de rua famintos que ficavam num terreno abandonado nos fundos daqui de casa. Mamãe chorou muito porque minha irmã sumiu, mas mamãe é jovem e bonita. Ela ainda vai casar de novo e aí ela e meu novo pai vão me fazem uma nova irmãzinha. Pelo menos melhor que a anterior.

Anotação # 340

Vovó está muito doente. Mamãe fica chorando o tempo todo. O pior é que já fiz de tudo, mas parece que não existe feitiço pra curar essa coisa que mamãe chama de “câncer”. Aí resolvi apelar. Acontece que encantamentos pra mexer com o tempo são complicados demais de controlar. Você pisca um segundo e eles endoidam. Mas eu consegui parar antes que Vovó… Bem… Agora Mamãe diz que sente falta de Vovó (que também desapareceu, feito aquela chata da minha irmã) mas realmente ama o bebê que inexplicavelmente apareceu na cama de minha avó. Eu também amo muito minha nova irmãzinha. (Mamãe tentou com a Polícia, mas nem eles sabem dizer de onde esse bebê veio. Eu escutei eles falando com a mamãe e fiquei prendendo o riso. Eu sugeri que colocassem o nome da Vovó na nenenzinha, claro, e mamãe aceitou).

Anotação #400

Tinha um valentão na nossa escola. O nome dele era Ninoco e mexia com todo mundo. Os adultos chamam isso de bullying. A gente pequeno reclamava mais as pessoas grandes não faziam nada. Um dia, ele me derrubou no pátio da escola e fugiu com meu lanche. Eu caí e cortei o lábio. Fiquei com tanto ódio!
Depois que papai sumiu, mamãe ficou tão triste que deu todas as coisas dele: as roupas, a coleção de gibis em Inglês… Tudo mesmo, mas eu consegui que ela deixasse pra mim os DVDs de filmes de terror que papai tinha. Ela olhou com cara feia, mas deixou. Daquela coleção de papai, meu favorito era “Bem-vindos às Profundezas”. Eu adorava assistir àquele filme. Eu ficava contando a história dentro de casa e mamãe ameaçava jogar o DVD fora. Eu achava engraçado como mamãe ficava com medo de filmes de terror.
Mas eu tava furioso com Ninoco e decidi que ia me vingar e a última cena de “Bem-vindos às Profundezas” não saía de minha cabeça. Tinha de ter um jeito, um feitiço para conseguir fazer aquilo do filme. Procurei três meses para achar o encantamento certo e demorou mais um mês pra fazer aquilo funcionar, mas o resultado foi lindo:
Ninoco gostava de ficar na pracinha daqui do bairro à noite. Ele ia pra lá pra fumar (cigarro é uma coisa horrível, foi o que matou vovô, não sei como tem gente que gosta disso…). Como todo mundo sabia que ele era brabo, ele ficava sempre sozinho.
Cheguei quietinho e ele me chamou de “gayzinho” e perguntou se eu queria apanhar. Eu não disse nada, mas pronunciei o encantamento e esperei. Aí, tentáculos azuis saíram do chão e arrastaram Ninoco direto pro Inferno! Naquela hora, na pracinha, não tem ninguém, nem carro passa, aí ninguém viu. Se bem que, quem é que gostava de Ninoco? Fiquei tão orgulhoso de mim mesmo e fui pra casa pra comemorar: com biscoito recheado e Coca-Cola e assistir de novo ao ‘‘Bem-vindos às Profundezas”.

Anotação #410

Era época de Carnaval e eu detesto Carnaval. Tinha um bloco (“Os Errados do Frevo”) que ficava passando aqui pela rua todo dia. Uma barulheira danada. Eu nem conseguia assistir direito o anime Astroship Princess Kalena. Me dava uma raiva danada! Hoje, eu perdi a cabeça: quando eles tavam passando, eu corri pra janela e gritei uns palavrões horríveis que aprendi com papai. Mamãe escutou e disse que ia me dar uns tapas na boca porque falei aquelas coisas. Bem, palavrão não adiantava mesmo. Aí fiquei pensando num encantamento, mas aquele barulho todo não me deixava pensar direito e eu falei baixinho o que me veio no pensamento. Cara! Foi demais, o bloco inteiro dos Errados do Frevo desapareceu igualzinho a imagem na televisão quando falta luz. Sério! Juro que não sei o que fiz ou o que aconteceu com eles ou onde foram parar… Quem se importa? Corri pro DVD para assistir Astroship Princess Kalena e comer muito salgadinho Doritos com Coca-Cola pra comemorar.

setembro 30, 2016 at 3:58 am Deixe um comentário

MINHA FORÇA É COMO A DE DEZ, PORQUE MEU CORAÇÃO É PURO

Uma batalha terrível entre um herói e um monstro, cada um engajado em sua causa. Porém, nada é o que parece.

Continue Reading setembro 14, 2016 at 3:02 am 3 comentários

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Recentemente, foi aniversário do filhote. Ele completou dezoito anos finalmente, mas, como digo, será sempre meu bebê.
Ano passado, dei um texto de presente para ele (“O Espírito de Junho”). Este ano, ele pediu dois. Um deles foi “Giuseppe, o de Muitos Corações”. O outro é este.
Boa leitura.
P.s. Ele gosta de histórias bizarras.

UM MOMENTO TÍPICO NA VILA ZECA TIMÓTEO

Por Rita Maria Felix da Silva

Tarde de domingo. Um daqueles dias realmente típicos na Vila Zeca Timóteo ─ que, se você não lembra das aulas de Geografia, fica lá no município de Santana da Serra, Zona da Mata Norte de Pernambuco.
Num banco de praça, dormia Seu Aquiles, um idoso gordo, barrigudo e de cuja cabeça os cabelos já haviam se despedido. O sono profundo daquele ancião era embalado pelo som de seu próprio ronco, que se rivalizava com o barulho de qualquer um desses grandes caminhões modernos. No meio da testa, colado com o nariz, havia apenas um grande, fechado e único olho (razão pela qual ele invocava ancestralidade grega). Vez ou outra, da boca escapava uma baba verde que se espalhava pelo chão. Um pequeno pardal, mais curioso que seus semelhantes, pousou, provou aquele líquido esmeralda e caiu estendido tão morto quanto a honestidade na política brasileira.
Perto de Seu Aquilles, Neco de Tonha aguardava com o carrinho de pipocas. Aquele pipoqueiro oferecia seu produto em três tipos, ao gosto do freguês: doce, salgada ou azul. Um mosca das mais graúdas passou voando perto da cabeça dele. Neco abriu a boca e sua língua se esticou uns cinquenta centímetros para fora até capturar o inseto, que ele engoliu com satisfação. Depois, tirou do bolso da camisa xadrez um caderninho de anotações e marcou um número lá. Cento e cinquenta e um, esta semana. Logo iria bater seu próprio recorde.
Bem perto de onde estava Neco, Inhá Matilda ─ que, com seus quarenta e oito anos, nunca realizara o sonho de se casar por amor, porque, na verdade, nunca conseguira se apaixonar por ninguém ─ estava de quatro no chão. Seu brinco favorito caíra da orelha e ela o procurava pela grama com o mesmo desespero de quem anseia encontrar um filho perdido. Sem que Matilda percebesse, próximo a seu bumbum pairava um cupido adorável, porém, psicopata e assassino serial ─ razões pela qual Zeus o expulsara do Olimpo já fazia tempo. Sem que ela sequer sonhasse, aquela criaturinha alada apontava-lhe para as nádegas uma flecha explosiva o bastante para reduzir aquela mulher a tantos pequenos pedaços que seria cansativo de contar.
À direita de Matilda, havia um arbusto, atrás do qual um grupo de cinco crianças observava com atenção um crânio, obviamente sem corpo, que saltitava e quicava pelo chão da praça. Os pequeninos não se escapavam de fazer seus próprios comentário diante do evento:
─ Que Massa! ─ disse Manezinho.
─ Que lindo! ─ exclamou Juninho Batata.
─ É feito naquele desenho da Disney! ─ opinou Mariazinha de Leléu.
─ Papai vai comprar um desses pra mim! ─ jurou Tulinho Pedreira.
─ Parece biscoito recheado! ─ classificou Luquinhas e completou ─ Eu quero um pedaço!

FIM

agosto 28, 2016 at 3:17 am 2 comentários

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