Histórias Inquietas (Parte 3)

Oi, pessoal.
Para a atualização desta semana, finalmente um outro historieta inquieta. Sobre a duração desta série, eu diria que deve ter de dez a doze histórias, isso se os deuses me permitirem chegar tão longe.
A frase estranha tem a ver com a fase que estou passada, que, bem, classificá-la de problemática é eufemismo (às vezes, eu gostaria de fazer como o Capitão Adamastor, da peça Alzira dos Navegantes, de Márcia Tondello: simplesmente fechar os olhos, desistir da vida e partir….)
Por conta disso, escrever ficou complicado, pois esta época tem me abalado muito. Assim, uma das coisas que tenho feito é passar idéias para amigos escritores, que podem usá-las em seus próprios textos. Aos menos deste modo, essas idéias não se perdem.
Esta historieta surgiu justamente quando eu passava uma sugestão para um colega, pois uma idéia puxou outra. Também é uma humilde contribuição à causa LGBT, as outras foram o texto Bruno e a Hq O Major Rasskazov, ambos disponíveis aqui no blog. Boa leitura!

6. MOMENTO EM FAMÍLIA

Quando isto aconteceu era inverno, Julho de 2024. Foi em Terra Rubra, distrito de Várzea de Deus, Mata Sul do estado de Pernambuco. Poliana tinha dezenove anos. Cursava administração na faculdade e trabalhava com telemarketing.

Os tempos estavam se tornando mais sombrios. Ela havia desistido de acompanhar noticiários, cansada com o matraquear feroz de evangélicos extremistas e católicos radicais que pregavam selvagemente contra minorias e religiões não-cristãs. O líder deles, o Deputado Federal e Pastor Domingos Viola, quando discursava, o coração daquela jovem inundava-se de medo.

Uma manhã de domingo, ela voltava para casa. Pela primeira vez na vida, passara a noite fora.

Encontrou a mãe numa cadeira, na mesa da cozinha. Dona Lúcia estava de costas, tinha perto dela a Bíblia, sua bolsa e um jornal em cuja leitura parecia totalmente absorvida. Jornal de papel. Recusava-se a usar Internet desde que Viola acusara a Web de ser estratagema do Diabo.

Poliana tomou coragem. Havia decidido que precisava ter aquela conversava com Dona Lúcia. Era o mais correto a fazer.

— Mãe, bom dia. Olha, desculpa, eu não dormi em casa… Desculpa também porque não avisei. Mas tem uma explicação. Quero te contar uma coisa. Sei que a senhora ficou muito, assim…. Cabeça fechada depois que entrou pra essa Igreja, mas é minha mãe e a gente tem de conversar.

“A senhora já deve ter desconfiado disso, claro, mas… Lembra de Elvira? Ela cresceu aqui na vizinhança, a gente era muito amiga, até ela se mudar com a família pra São Paulo. Acontece que Elvira voltou ontem. Mãe, ela tá tão linda! A gente se encontrou por acaso, passamos o dia andando de um lado pro outro.

Ela me chamou pra jantar. A gente conversou muito. Me abri com ela: sobre como não me sinto bem namorando homens, que garotas me atraem, mas eu não tinha coragem de admitir. Quando percebi, nossa, eu e ela, a gente tava se beijando! Foi a primeira vez que eu beijei uma garota. Ela me chamou pra casa dela e a gente, bem… A gente dormiu juntas. Juro que nunca tinha feito isso antes… Mas não me arrependo: foi maravilhoso. Nunca fui tão feliz. Agora entendo que faltava uma parte minha, algo que eu não enxergava, que não queria aceitar. Agora me sinto finalmente completa. Em paz comigo mesma. É, mãe, eu sou lésbica e queria conversar com a senhora sobre isso…”

Com fúria nos olhos, Dona Lúcia virou-se para a filha. Abriu a bolsa e de lá sacou um revólver calibre 38. Atirou por duas vezes contra Poliana que caiu e sangrou no chão da cozinha. Em seu rosto havia apenas um olhar de súplica e confusão. Depois parou de se mover, para sempre.

Dona Lúcia ajoelhou-se chorando, a arma ainda segura na mão direita, e disse:

─ Sua abominação… Eu não queria fazer isso, eu juro… Foi você que me obrigou… Foi você… Foi você… Foi você…

A folha de jornal escorregou da mesa e repousou no chão perto de Dona Lúcia. Na notícia em destaque podia-se ler:


“VITÓRIA DA FAMÍLIA CRISTÃ BRASILEIRA: DEPUTADO PASTOR DOMINGOS VIOLA CONSEGUE APROVAÇÃO DA LEI 14.738/2024 QUE CRIMINALIZA O HOMOSSEXUALISMO E PREVÊ PENA DE MORTE PARA OS INFRATORES
Viola, que já havia saído vitorioso com a aprovação de uma lei que assegura porte de arma a todo brasileiro maior de idade e sem antecedentes criminais, consegue agora, depois de uma grande articulação política, um novo triunfo com a lei 14.738, que, inclusive, autoriza os pais, como forma de poupar despesas ao erário público, que possam eles mesmo executarem seus filhos homossexuais”.


FIM

julho 25, 2016 at 1:57 am Deixe um comentário

QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU…

Para a atualização desta semana, um poeminha despretencioso.

QUANDO VOCÊ SE APAIXONOU…

A PRIMEIRA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
FOI NUM SONHO, NO FIM DE UM NOITE DE INVERNO
E ELA NÃO ESTAVA LÁ QUANDO VOCÊ DESPERTOU

A SEGUNDA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
PASSAVA PELA RUA A SEGUNDA MULHER MAIS LINDA DO MUNDO
ELA SORRIU E TEU CORAÇÃO NÃO ERA MAIS TEU

A TERCEIRA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
FOI NUM FUNERAL E ENTRE LÁGRIMAS
SEUS OLHOS E OS DELA SE ENCONTRARAM

A QUARTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
HAVIA UMA GUERRA E TODOS SE PERDIAM PARA TODO LADO
E VOCÊ ACABOU POR SE ENCONTRAR NOS BRAÇOS DELA

A QUINTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU,
ERA UMA BAILE, COM MÚSICA SUAVE E DESEJO ARDENTE
VOCÊ DANÇOU COM UM ANJO DE OLHOS AZUIS E JUROU AMOR ETERNO

A SEXTA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU
VOCÊ ESTAVA DESOLADO E ABANDONADO NUM CANTO
E UMA FADA COMO A PRIMAVERA VEIO SALVAR TEU CORAÇÃO

A SÉTIMA VEZ EM QUE VOCÊ SE APAIXONOU
ELA FOI A MAIS AMADA DE TODAS MAS SE FOI ANTES DE VOCÊ
VOCÊ JUROU NUNCA MAIS AMAR E IMPLOROU PARA TAMBÉM MORRER

julho 10, 2016 at 2:40 am Deixe um comentário

Historietas Inquietas (Parte 2)

Numa noite em que o cansaço e as preocupações estão me consumindo, passo um pouco apressada para fazer esta atualização.
Boa leitura!

4. O QUE PAPAI TROUXE PRA MIM

Esta história aconteceu há algum tempo, quando o mundo era diferente, mas não melhor do que hoje.

Foi na cidade de Riacho de São Sebastião, lá na Mata Norte de Pernambuco. Eram sete da noite e a menina esperava na janela de sua casa. Seu pai aproximou-se subindo a Ladeira de Nossa Senhora das Lágrimas. Vinha de terno e gravata. A valise bem segura na mão direita. O rosto, uma mistura de feições cansadas e mal humoradas após mais um dia de trabalho.

A pequena, completara dez anos não fazia nem três meses, esperou que ele estivesse perto o bastante para ouvi-la claramente dizer:

─ Papai, o que o senhor trouxe pra mim? Trouxe amor?

O homem olhou a garota como se estivesse diante da coisa mais absurda do mundo e respondeu:

─ Mas que comédia é essa? Venho daquele Inferno de escritório e você salta com uma pilhéria? Me mato todo dia de tanto trabalhar naquela merda pra por comida na tua boca e na da tua mãe e você sai com essa história de amor? Menina tonta, amor não dá dinheiro, não enche barriga, não paga as contas do mês, não cobre o cheque que vai voltar na segunda-feira ou o aluguel que vence todo dia vinte… Ora essa, por acaso ficou doida? Vem perguntar de amor… Quer saber: para que serve o amor afinal? Pra porcaria nenhuma!

A menina suspirou profundamente, com um desapontamento e sabedoria que escapavam ao entendimento de seu pai, e sentenciou:

─ Se não trouxe amor, então por que voltou pra casa?

Após esta frase, a pequena, que nunca queria ser vista chorando, prendeu as lágrimas e foi buscar refúgio no quarto, em seus livros, que ela pegava emprestado na biblioteca da escola (Julio Verne, Alexandre Dumas, H.R. Haggard, Robert E. Howard, Mary Shelley, Jane Austen, Emily Brontë e alguns outros). Eram seus amigos, sua alegria, e a levavam a lugares certamente mais interessantes que a alma seca de seu pai.

Quanto ao pai, entrou furioso como se quisesse pôr fogo no mundo:

─ Amor? Ora, essa moleca merecia era umas palmadas pelo atrevimento…

Sentou-se na poltrona da sala. Ligou o rádio para escutar um noticiário policial, sangrento e sensacionalista. Acendeu o cachimbo. Gritou duas ou três vezes com a esposa para descarregar as frustrações do dia de trabalho e recusou a sopa que a mulher fizera para ele. Sentia-se indisposto, não queria comer. Pôs o cachimbo de lado e logo adormeceu para um sono sem sonhos, amaldiçoando-se por ter de voltar ao escritório no dia seguinte.

FIM

5. OLEGÁRIO MARIANO, ATOR

Naquele tempo, Olegário Mariano já havia se consagrado como o melhor ator do país. Os críticos e os invejosos iam até mais longe: classificavam-no como o maior de todos os tempos.

Olegário gostava dos elogios, mas os escutava com prudência. Era esforçado, claro, mas não enaltecia o próprio talento, embora reconhecesse que era muito bom.

Todavia, mesmo com toda a prática a que se dedicara desde os quinze anos de idade, ainda não havia conseguido chegar perto de seu maior sonho: a interpretação perfeita, aquela que não apenas convenceria a plateia de forma infalível, mas também até mesmo o próprio ator se esqueceria da realidade. A interpretação seria tão real que se confundiria com o real. Contudo, enquanto os anos lhe encurtavam a vida, acabou por se convencer de que aquela meta era inalcançável.

Entretanto, aos sessenta anos de idade, estava visitando amigos em Santo Antônio do Irajá, cidade do sertão pernambucano, e lá, por insistência dos fãs, aceitou ministrar um curso de interpretação de uma semana.

No último dia do curso, foi mostrar como se interpretava a famosa cena da morte do Capitão Adamastor, na peça teatral “Alzira dos Navegantes”, de Márcia Tondello. Todos conhecem essa parte: quando Adamastor, após perder tudo o que amava, deita-se, fecha os olhos, abre mão da vida e morre.

Olegário havia interpretado essa cena pelo menos vinte vezes em sua carreira, não seria novidade para ele. Primeiro, explicou a importância daquela sequência da peça para a dramaturgia brasileira. Depois, encenou o monólogo com o qual o Capitão Adamastor se despede da vida (“Eu vos digo adeus, meus desafortunados companheiros da humanidade, porém não são mais desafortunados do que eu…” era o começo). Então, deitou-se no palco, fechou os olhos e interpretou o melhor que pôde. Por um segundo, veio-lhe a mente o sonho da interpretação perfeita, mas, com tristeza, ele ignorou o pensamento.

Os alunos olhavam estupefatos para Olegário estendido no chão. Não apenas parecia morto, não apenas era convincente, mas sim, perfeito. Todos se derramaram em palmas e elogios para o velho ator.

Após um tempo, alguém estranhou a demora na interpretação. Chamaram por ele, mas Olegário não respondia. Tocaram-lhe, sacolejaram-lhe o corpo. Nenhuma resposta. Um aluno se preocupou em testar o pulso, verificar os sinais vitais. Nada. Ligaram e veio uma ambulância para levá-lo ao hospital. Os enfermeiros, ao chegarem, tentaram reanimação cardíaca, porém, nada adiantava.

Olegário Mariano já estava morto quando o puseram na ambulância, continuava morto quando chegou ao hospital Casa da Nossa Saúde, naquela cidade, e assim, nessa condição inalterável de morto, foi sepultado dois dias depois num cemitério no Rio de Janeiro.

Até hoje se especula sobre a causa da sua morte, mas os médicos jamais conseguiram determinar qual foi. Clinton Davisson, o maior biógrafo de Olegário Mariano, costumava aplicar certo dito popular para resumir o que ocorrera:

“Viva pela Arte e morra por ela!”

FIM

julho 5, 2016 at 2:05 am Deixe um comentário

UMA ROSA PARA RAFAELA

UMA ROSA PARA  RAFAELA

Mas então no fim de uma suave tarde
Sob um crepúsculo morno e gentil
Eu colherei para Rafaela, a Bela
Uma rosa feita de delicados sonhos

Será vernelha como os lábios dela
E tão adorável quanto seu coração
Terá inocência como em sua alma
E encanto terno como seus olhos

As pétalas abençoarei com um beijo
E uma gota de duradoura esperança
Para que, sim, sem demora ou dores
Os desejos dela possam acontecer

Acrescentarei um encantamento de sorte
E um bom feitiço de eterna felicidade
Para que a sua vida cheguem sorrisos
E ao coração dela mágoa alguma

Poesia: Rita Maria Felix da Silva

junho 27, 2016 at 2:24 am 1 comentário

Historietas Inquietas (Parte I)

Oi, pessoal!

Publico agora a primeira parte de um projeto chamado Historietas Inquietas. Depois que o comecei fiquei sem saber bem o que fazer com ele: publicá-lo como um ebook? Uni-lo a outro ebook meu ainda inacabado?
Na dúvida, optei por postá-lo aqui no blog.
Quantas historietas serão? Talvez uma dez.
Boa leitura.

HISTORIETAS INQUIETAS (Parte I)

 1. ALAIN E ALINE

Conforme havia cuidadosamente planejado, do jardim exuberante, que ficava no alto daquela colina, onde crescia uma lista variada de maravilhas mortais, foi desse lugar que ele colheu uma fruta cítrica, de gosto doce e agradável como nunca se viu e, em cujo suco, estava o mais fatal dos venenos conhecidos. Ele a observou com cuidado, relembrando todas as horas de estudo que gastou sobre aquele fruto.

E foi essa fruta que ele deu gentilmente a sua amada. Ela hesitou, mas ele lembrou-lhe do pacto que haviam feito, do tempo que gastaram discutindo os detalhes e de como haviam jurado, um ao outro, levar aquela ideia adiante. Por fim, como prova de amor, suplicou que ela comesse. A moça atendeu e agonizou, em dores excruciantes, por não mais que cinco minutos, até que a vida abandonou-lhe os olhos e seu corpo tornou-se imóvel, como as pedras no fundo do rio em cuja margem ele e ela deram o primeiro beijo.

Depois, ele levou o cadáver ao alto da colina e no jardim sepultou sua amada. Lá permaneceu por três longos dias, rezando pelo corpo e derramando sobre aquele túmulo lágrimas e os mais belos poemas que já pôde criar.

Por fim, desceu de volta até a vila. Com o pacto em mente — sua amada cumprira a parte dela —, refugiou-se no seu quarto e, usando a faca que ganhara de seu amor no último verão, cortou a própria garganta de um lado a outro.

Em seu último pensamento, lembrou-se do que havia dito a sua amada, há um mês, quando o plano dos dois se iniciara:

— Nosso amor é belo e perfeito demais para um mundo assim tão feio e imperfeito. Não há lugar para nós aqui. Devíamos partir dele juntos…

FIM

2. A COMUNIDADE E O CLUBE

Além da vila, havia uma floresta e nela morava uma comunidade de canibais. Por muito tempo, eles sobreviveram sem se importar com o restante do mundo, devorando um ou outro membro da tribo, quando a fome vinha lhes incomodar o estômago.

Mas, naquele verão, sentiam-se enfastiados do gosto de seu próprio povo, assim decidiram descer para vila em busca de sabores diferentes.

Na vila, reunia-se, todo ano, sempre naquela mesma época, o Clube dos Escritores Indecisos em Busca do Livro Perfeito, que recebia esse nome porque cada um de seus membros gastava toda sua vida preocupado em como poderia escrever o livro perfeito e jamais escrevia livro algum.

Os canibais invadiram a vila furtivamente e foram se esconder nos arredores da reunião do clube. Por um tempo, escutaram interessados os debates incessantes e infrutíferos daqueles autores. Às vezes, sorriam da ingenuidade ou irracionalidade da argumentação, mas acabaram por serem tomados pelo tédio e pela fome.

Então, armados com porretes, avançaram festa a dentro e, com a carne dos escritores, fizeram um banquete.

FIM

3.O PREÇO DO FEIJÃO

Naquele ano, tudo o que se falava no país era sobre o preço elevado do feijão. As pessoas preocupavam-se como se estivessem discutindo o fim do mundo.

Em Brejo da Madre de Deus, cidade do interior de Pernambuco, não foi diferente. Lá, porém, algo pelo menos inusitado ocorreu:

Foi na Mercearia de Seu Lupércio. Ele conseguiu, sabe-se Deus de onde, uma nova marca de feijão, com um nome que muita gente se engasgava para pronunciar: “Feijão Oppenheimer ”.

Logo na entrada da mercearia, o comerciante colocou duas sacas de feijão, uma do tipo normal, que todo mundo conhecia, e a outra do Oppenheimer. Como se dizia homem de muita consciência, Seu Lupércio fixou de lado do novo produto uma placa com a seguinte advertência:

“O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: FEIJÕES OPPENHEIMER. CEREAL ALTAMENTE RADIATIVO. CULTIVADO EM SOLO DE TESTES NUCLEARES. GRAVES RISCOS PARA O CONSUMIDOR, INCLUINDO TUMORES, CÂNCER DIVERSOS, DEFORMAÇÕES EM FETOS, IMPOTÊNCIA E ESTERILIDADE”.

Claro que as pessoas liam a advertência, mas quando viam as placas com os preços dos dois feijões…

FEIJÃO COMUM R$ 21,00 1 KG  – FEIJÃO OPPENHEIMER R$ 2,00 1 KG

…Não se demoravam a decidir.

E assim filas se formaram na frente da mercearia. As sacas de feijão Oppenheirmer que Seu Lupércio trouxera se esgotaram num mesmo dia.

Do lado de fora, Seu Nalternor — poeta fracassado e bêbado, que vivia sua vida dormindo caído nas calçadas e filosofando sobre o mundo — olhava aquela cena e dizia para si mesmo:

— Ó musa, tal é a natureza humana…

FIM

junho 26, 2016 at 2:49 am 1 comentário

DUETO

Talvez se diga que não há nada mais clichê ou antiquado do que obras românticas,
mas não há como negar que alguns dos mais belos feitos da arte em nosso mundo tiveram o amor como tema. Bem, se isso não serve de justificativa, alguém diria que a arte não precisa se justificar e aí iríamos recair numa discussão muito longa…

Este poema deveria ter se tornado uma música, mas razões de ordem técnica diversas não permitiram, por isso estou aproveitando-a como poesia.

 

DUETO

 

(ELE)             EU SOU TEU
(ELA)             TU ÉS MEU
(ELE)             EU SOU TUA
(ELA)             TU ÉS MINHA

(ELE)             ASSIM, ASSIM,
(ELA)             TU ÉS TUDO PRA MIM
(ELE)             ASSIM, ASSIM,
(ELA)             TU ÉS TUDO PRA MIM

(ELE)             EU SOU TEU CÉU
(ELA)             TU ÉS MEU PARAÍSO
(ELE)             TU ÉS MINHA FORÇA
(ELA)             EU SOU TEU ABRIGO

(AMBOS)       ASSIM, ASSIM,
(AMBOS)       TU ÉS TUDO PRA MIM
(AMBOS)       ASSIM, ASSIM,
(AMBOS)       TU ÉS TUDO PRA MIM

(ELE)             TU ME COMPLETAS
(ELA)             TU ME SUBLIMAS

(ELE)             TEU AMOR ME REDIME
(ELA)             TEU AMOR ME SALVA
(ELE)             EU TE IMPLORO
(ELA)             EU TE SUPLICO

(ELE)             COM TODO O CORAÇÃO
(ELA)             COM TODA MINHA ALMA

(ELE)             NUNCA TE VÁS
(ELA)             NUNCA ME DEIXES
(ELE)             JAMAIS ME ABANDONES
(ELA)             JAMAIS ME ESQUEÇAS

(AMBOS)       ASSIM, ASSIM,
(AMBOS)       QUE SEJA SEMPRE ASSIM
(AMBOS)       ASSIM, ASSIM,
(AMBOS)       QUE SEJA SEMPRE ASSIM

junho 16, 2016 at 12:47 am Deixe um comentário

PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU

Oi, pessoal,

Como devem ter percebido, não tenho atualizado este blog com a freqüência que deveria. 2016 não tem sido um ano fácil para o Brasil e nem para mim. Alguns problemas diversos tem consumido meu tempo, além disso vivo bem ocupada organizando a antologia da Guerra dos Muitos Mundos (espero que vocês estejam lendo e gostando) e revisando os textos de alguém muito querido.

De qualquer modo, chegamos a trágica (?) história de Aimberê e Araquém. Quando comecei a escrevê-la, seria parte de “Historietas Inquietas”, um pequeno projeto pessoal em que estou trabalhando, mas como começou fugir dos padrões das historietas, estou postando-a a parte.

PARA DERRUBAR ESTRELAS DO CÉU
Por Rita Maria Felix da Silva

Assim falou o Pajé Bacuara, contador de histórias, irmão
do lendário Morubixaba Hurassi, durante a grande
cerimônia Avati Kyry daquele ano:

“Há muito tempo, ─ entre Tupã e Araci descerem dos céus para criarem tudo que existe e o primeiro do nosso povo ter nascido ─ lá longe, onde hoje a terra é sempre seca e nada cresce, havia uma floresta e nela viviam dois irmãos: Aimberê e Araquém. Eram gigantes, maiores que os montes. Quando sentiam sede, secavam um rio. Se a fome lhes incomodasse, devoravam uma dezena de árvores cada um.

Sem nada para fazer ou que pudesse desafiá-los, Araquém ocupava quase todo seu tempo em dormir. Já Aimberê, que nunca dormia, gostava de caminhar durante o dia e, à noite, jogar grandes pedras contra o céu, no desejo de poder derrubar as estrelas. As pedras, todavia, nunca chegavam ao firmamento e caiam de volta na cabeça do gigante, o que o fazia ferir-se constantemente.

Certa vez, Araquém contou a Aimberê sobre o sonho que tivera: de uma brisa que vagava pelos mundos narrando e escutando histórias, a qual lhe soprou ao ouvido sobre Amonati, a montanha no centro do mundo, mais alta que qualquer coisa e, por isso, se alguém conseguisse subir até o pico poderia alcançar o céu.

─ E derrubar as estrelas! ─ disse entusiasmado Aimberê.

─ Talvez ─ respondeu seu irmão, ─ porém, a brisa também me falou sobre uma lenda de que algo terrível e irrevogável sempre acontece a quem ousar subir aquela montanha.

─ Não importa! ─ retrucou Aimberê ─ Nós iremos até lá e depois… Derrubar as estrelas do céu…

Araquém protestou e recusou-se aquele plano por dias, mas ao final, como sempre acontecia, o irmão o convenceu.

E, assim, seguindo o sonho que Araquém tivera, eles vagaram pela Terra, até Amonati, no centro do mundo, para escalar a montanha mais alta que qualquer coisa.

Não foi uma jornada tranquila ou indolor e tantas aventuras eles viveram ─ algumas gloriosas, outras tolas ou risíveis. No meio delas, Araquém, amaldiçoado por Eçaiara, uma feiticeira de coração rancoroso a quem ele insultara por causa da feiura, perdeu um olho e passou a mancar da perna direita.

Aimberê conheceu e tornou-se amigo de um guerreiro a quem ele chamava de Avaré, que perdera toda a memória de quem já fora e da missão a que dedicara sua vida, pois fora amaldiçoado por Anhangá, o qual foi derrotado pelo guerreiro num jogo de Adugo . Para salvar seu amigo, Aimberê enfrentou uma gigantesca cobra de fogo e, embora tenha vencido a fera, Avaré foi esmagado pelo cadáver da criatura e Aimberê terminou com o lado direito do rosto eternamente desfigurado.

Pelo menos mil histórias são contadas sobre eles dois e o que fizeram naquela viagem. Eu mesmo conheço duas ou três, mas não sei de ninguém que possa contar todas elas.

Fato é que, muito tempo se passou, mas, um dia, os dois irmãos chegaram finalmente a Amonati, a montanha no centro do mundo. Pararam diante dela e Araquém hesitou, porém, graças a insistência de Aimberê, eles começaram a subir.

Contudo, a montanha era ainda mais alta do que eles poderiam imaginar. Por vezes, seus músculos prodigiosos de gigantes falhavam e eles paravam para descansar, esgotados como nunca imaginaram ser possível. Havia o frio, que aumentava à medida que subiam e ameaçava destroçar-lhes os ossos e a fome devorando seus estômagos, pois a comida que levaram inevitavelmente acabou. Mas, acima de tudo, estava o rugido selvagem dos vento, que gritava aos ouvidos deles como se todas as feras do mundo gritassem ao mesmo tempo, e reinava suprema aquela sensação de desesperança e desolação, como se o mundo, os deuses e tudo que existe houvesse se esquecido deles.

Como sempre fora, Araquém continuava apenas porque seguia o irmão e era nessa lealdade, que ele sentia minguar vagarosamente, na qual ele se sustentava.

Aimberê se agarrava ao desejo de derrubar as estrelas do céu. Repetia para si mesmo que logo chegariam ao topo e se esforçava para manter a chama dessa vontade ainda acesa em seu coração. Porém, em seu peito, o coração de gigante começava a parecer pequeno demais para animá-lo a continuar.

Então certo dia ─ ou noite, o tempo havia perdido todo o significado para eles ─ Araquém assim falou:

─ Irmão, não aguento mais. Eu lhe segui por toda a vida e seguiria até o fim, mesmo agora que minhas forças não mais existem. Porém, o medo me domina e é mais poderoso do que eu sonharia algum dia ser. Meu coração grita que algo muito ruim e irrevogável vai acontecer e, por isso, eu recuo. Perdoe-me se sou covarde. Desejo-lhe sorte. Adeus.

Aimberê olhou pela última vez para Araquém, que começava a descer. Sabia que o irmão nunca conseguiria voltar ao chão vivo, que tombaria no caminho e despencaria para morrer lá embaixo. Não importava. Tinha ido longe demais para desistir… E, assim, concentrou-se no seu desejo de derrubar estrelas (iria derrubar todas elas) e prosseguiu sua subida.

Então, um dia, e Aimberê sentia-se velho e enrugado, ele acreditou que finalmente estava perto do topo, era preciso esforçar-se só um pouco mais e conseguiria, no entanto… Algo aconteceu e ele parou. Ficou em silencio, ponderou sobre tudo o que havia passado naquela subida, até mesmo em seu irmão, uma memória distante, cujo nome já não mais lembrava. E algo quebrou-se em sua alma, ou se recompôs ou se desfez… Quem pode saber? E ele mudou e alcançou a sabedoria e a iluminação. Olhou para o espaço ao redor dele e depois para seu próprio interior, até seu eu mais profundo, e veio-lhe uma compreensão de si mesmo e de todas as coisas como nunca imaginou que fosse possível. Tendo entendido e aprendido uma verdade maior por trás e por dentro de todas as coisas, Aimberê percebeu que não havia motivo algum por que lutar, persistir ou fazer qualquer coisa… Nem mesmo derrubar estrelas do céu. Nem mesmo existir. E assim, sem tristeza ou alegria, sem medo ou desejo, ele permitiu e a matéria de seu corpo se desfez no vento do topo da daquela montanha e se espalhou por todos os cantos do mundo.

Esta é a lenda de Aimberê, o gigante que ousou escalar Amonati, a montanha no centro do mundo. Assim tem sido contada desde mil gerações antes de eu nascer e será contada ainda por muito tempo, enquanto os deuses permitirem que este mundo continue a existir”.

FIM

Dedicado a Ana Lúcia Merege

maio 16, 2016 at 1:05 am Deixe um comentário

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